domingo, 15 de fevereiro de 2009

Oásis

Tenho um amigo marroquino (as maravilhas da internet!), Ibrahim, que trabalha em um tipo de resort no meio do nada. Nos e-mails, fala em solidão, em silêncio, em quilometros e quilometros de pura areia escaldante. Eu, ao contrário, pela sua descrição poética e pelas fotos que mandou, vi no lugar um oásis, um paraíso na terra, como se diz. Uma mística até mistura de coisas que amo e que me são cada vez mais raras: grandes extensões de nada (deixam meu olhar infinitamente satisfeito, meditante), um silêncio que me parece arrebatador ( um dos mais belos mestres companheiros que se pode ter), noites estreladas como não se vê mais (são tão poéticas, tão íntimas, tão intensas...).Fiquei fascinada pela descrição do local, pela luz amarelada destacando ainda mais as belas e únicas cores da natureza. E eu, como ser de mente viajante que sou, pude sentir o calor, o perfume, ver as cores, ouvir a música do vento (amo vento, de uma forma hipnótica até). Estive lá, sem estar...
Mas mais fascinada , confesso, fiquei pelo silêncio. Senti arrepios. Sinto. Amo o silêncio, tão raro. Da paisagem de Ibrahim, ele vem da força da natureza que, por tamanha grandeza, nos cala e o ouvimos (sim , porque só no silêncio estão as grandes verdades...). Ah... o silêncio... tão raro, e por isso o acolho de forma tão doce dentro de mim. Ele sim, descubro satisfeita, é meu oásis. Na selva urbana, sinto-o no encontro com a sabedoria do outro (me calo, a aprender). E, confesso, mais ainda no mistério que vem do olhar do amor correspondido, quando me calo para me entregar. Nesse, sempre tão intenso, entrego todo o meu ser, inteiro e único.
Nele, meu oásis, misto de silêncio e som, cheiro e cor, brisa do amor, calor e frio.
Nele, também viajo, em busca de meu céu estrelado.
Nele, meu deserto, onde corre meu rio de prazer. Nele, eu, como sou.

4 comentários:

  1. .. me calo, diante da tua grandeza...

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  2. Falas com tanta propriedade, e só tua, de coisas que não nos damos conta, coisas simples, que estão ali do nosso lado e não vemos. Sinto -me cego, inútil, diante da tua visão do mundo.

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  3. Vais do frio do Iceberg ao calor do deserto em um pulo só. Mestra!

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  4. Nunca, por um dia, deixei de percorrer esta ponte que me leva até ti. E hoje, existe algo mais nas tuas palavras que me são infimamente conhecidas. Esse silêncio, essa interiorização tem tanta força quanto as tuas palavras. Nenhuma sinfonia seria perfeita sem as pausas de silêncio que unem duas estruturas musicais. Por vezes esquecemos que somos frágeis e que a pausa é como a escrita. Quando temos uma caneta na mão e desenhamos as palavras, precisamos do tempo, da pausa que separa uma letra da outra. E isso dá-nos o momento exacto. Momento para pensar, tempo para sentir, tempo para as emoções contidas em nós.
    E acredita, nesse silêncio eu ouço-te e sinto-te. Fico à tua espera sem nunca teres ido, aguardo-te no calor de um abraço maior do que o tempo, maior do que o espaço. Estarei para lá do nosso arco-iris.

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