quinta-feira, 30 de abril de 2009

Rotina

Acordar, espreguiçar o corpo, suspiro. Mais um dia.
Levantar, gosto de hortelã, beijo em filho. Fazer café, ouvir o jornal. Beijo em filho. Saída de todos.
Silêncio. Texto.
Rotina.
O que poderia ser chato mais parece um oásis. Conforto. Dali para frente tudo pode mudar. O que será do dia de hoje?, me pego pensando. Quais os de sempre, quais as surpresas, quais os caminhos, novos ou velhos? Que escolhas farei, já que são elas, a cada segundo , que nos definem. Ser feliz ou nem tanto?
A vida é um jogo, mais ou menos arriscado, penso. Sou outra hoje, outra serei amanhã. Mas meu rio segue, deixo-me deixar levar. Se turbulento ou calmo, nada sei, não depende só de mim. Se pudesse, rio tranquilo seria, seguindo suave e sorridente, para o meu mar.
No meio da correria, procuro meus sabores. Cato-os como alento. Gosto de café, cheiro de filho, beijo na boca, gargalhada solta. Amigos. Amores. Sonhos. Promessas. Esperanças.
Mais um dia, e eu aqui, no simples prazer de me entregar - à Vida e ao meu maravilhoso mundo das simples palavras.
Entrego-me, como sempre, e me deixo levar.
Canção do Dia de Sempre
Mário Quintana
Tão bom viver dia a dia…
A vida assim, jamais cansa…
Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu…
E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência… esperança…
E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.
Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.
Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!
E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas…

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Elixir


Ah, o Amor, elixir da juventude. Rejuvenesce-nos por dentro e por fora.
Dá novos ares, novos sorrisos, novos sentidos à velhas palavras. Faz pulsar com mais força o sangue nas veias, escorrer melhor o suor no corpo. Arrepio à pele, rubor à face. Tudo pulsa, tudo corre, tudo a seu contento.
Ah, o Amor, esse elixir de felicidade. Pega-nos desprevinidos e faz de nós adolescentes outra vez. Arranjamos tempo, damos jeito nas coisas, revisamos valores. Faz -nos esquecer as vergonhas, faz-nos esquecer os defeitos. Faz-nos ver o esquecido, revirar baús.
Ai, que delícia o Amor! Encantar-se mais ao menor encantamento - já dizia o poetinha - , apaixonar-se mais a cada momento, sugar do outro tudo o que tem a me dar.
Ai, que fascínio o Amor. Rir-se sozinho, perder-se no tempo. Fonte de toda inspiração, de todo tesão, do querer dar-se por inteiro a todo o momento. Sim, Amor é doação, é desprendimento, é esquecer de mim e formar o Nós.

Ai, que tudo é o Amor, que me faz melhor, por fora e por dentro! Faz-me linda!

Soneto Do Amor Total
Vinicius de Moraes
Amo-te tanto, meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.
Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.
Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.
E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Bom dia

Segue o teu destino
Rega as tuas plantas
Ama as tuas rosas
O resto é sombra de árvores alheias
Com este pequeno perfume de Fernando Pessoa, enviado por uma pessoa que teve, e tem, um papel muito importante em minha vida, começo bem o meu dia. Fadado a um dia comum - e eles o são, se os deixamos ser! - , cheio de cansaço e anseio, meu dia começou outro. Fresco. Novo. Esperançoso. O que me será dado hoje de presente? Não o sei. Problemas, todos temos. Piores ainda quando não dependem da gente para se dissolverem. Para eles, só me basta rezar...
Espero que me venham também sorrisos, que sempre me animam. Amo sorrisos, sejam eles ao vivo ou virtuais. Espero merecer belos recados, que me fazem vibrar. Anseio por recados bem dados, desses que deixam a gente pairando no ar. Espero que me venham beijos bem dados, muitos, todos, de amigo e de amor. Amo beijos... são pequenas paradas para se ser feliz, pausas em meio ao caos, água cristalina que mata a sede...mas isso é tema, longo, para outra conversa...
Bom dia, Vida!
Que me faças, hoje e sempre, muito feliz!

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Garrafas

Ah, os encontros virtuais...deixar mensagens e receber mensagens, mandar carinho, recebê-lo de volta. Bem disse um amigo virtual que mais parecem garrafas de mensagens que mandamos todos os dias, como se ilhados estivéssemos. E ilhados estamos, dentro de nós, mesmo que acessando um mundo todo ao toque das mãos. Letras que levam mais do que o som das teclas, imagens que levam mais que lindas cores. Estamos ali, despojados de todo preconceito. Entregues. No relacionamento virtual, muito de nós e tão pouco ao mesmo tempo. Não tem ali o nosso cheiro, nosso gosto, que tanto diz. Não tem o toque que diz muito. Não tem o som do nosso sorriso, nem o brilho do nosso olhar.
Mas tem muito de nós, do que realmente somos ou queremos ser.
Questionam-se: "Qual a química da afeição virtual que nos aproxima tanto de alguém com quem nunca estivemos?". A química das palavras, estas apaixonantes figuras tão importantes em nossa vida , mas que nem nos damos conta no dia-a -dia. Nelas, muito sentimento. Nelas, muita intenção. Nelas, muito de nós. Eu, que vivo de fazer amor com as palavras, bem sei seu poder.
Seduzem-me. Embriagam-me. A elas me entrego, em êxtase, todos os dias aqui.
" "Namorar "através dos dedos nas teclas revelando palavras doces e ternas, sentir o carinho de olhos fechados na realidade do coração, será verdade?" E eu digo: sim, meu amigo, estás ali. Nu. Despido de qualquer preconceito, despido de falsos perfumes e de olhares treinados. Estás ali, nu, inteiro, sem medo de te entregar. A dita vida moderna nos separa e nos une. Basta saber usar.

domingo, 26 de abril de 2009

Sementes

Estava lendo um texto sobre a concepção das ideias, de como uni-las e montar um bom texto. Lançá-las, colocá-las no papel ou na tela, sentir as ideias fluindo ao deslizar da caneta ou ao som das teclas. Uní-las, feito canção de roda. Dar sentido a elas. Entrelaçá-las. Tecê-las feito manta que aquece meu ser, minh'alma.
Amá-las e me entregar a esse amor.
Regras à parte, reconheço minha facilidade. As ideias, muitas, vem a todo momento. Pulsam em mim. Cutucam-me a todo instante. Riem de meu desespero quando não posso anotá-las. Brincam como minha pressa em entendê-las. Fogem ao menor descuido, brincando de esconder. Para mim, escrever é transformar palavras em sentimentos. Transformar sentimentos em palavras. Lapidá-los, sentimentos e palavras, feito ourives. Mais que terapia: deleite, anistia de mim mesma, entrega. Vou mais longe: gozo de mim.
Ideias povoam minha mente feito sementes germinadas, inúmeras, vivas, brotando a toda hora.
Abrem-se para a minha deliciosa Vida, que as recebe feliz. São meu alimento, meu próprio ser.

sábado, 25 de abril de 2009

Happyning

Estou numa fase colorida. Estou feliz, mesmo frente à tantas pedras no caminho (que tenho contornado com um sorriso na cara e uma desenvoltura quase infantil). Talvez seja reflexo desse meu encontro, de novo, com a Vida, um marco histórico em minha Linha do Tempo. Ela me seduz com suas belas palavras e suas histórias contadas de forma por vezes pueril. Reflete meu doce olhar em seu olhar mais doce ainda. Encanta-me mais a cada dia com sua voz macia e seu dom de me convencer de que sou especial. Tem conseguido. Sou outra. Aliás, sou eu mesma, de novo, resgatada do trem de me deixar levar. Tenho colorido meu dia-a-dia de forma encantadoramente sedutora, feito tela de pintura.
Por vezes, um happyning.
Lembro-me de minha mãe, anos atrás, quando cursava Artes Plásticas (já com minha idade de hoje, passando dos 40... a vida se repete...). Fizeram um happyning na praça. Aos meus irmãos, vergonha. A mim, encantamento. Nada entendia, mas para mim , Vida era aquilo. Ser. Fazer. Romper. Vivenciar. Depois, já na faculdade, aulas de expressão corporal. Improvisos. Devaneios. Hoje me pego outra vez fazendo happynings pela vida. Vivo-a de forma pulsante, intensa, nitidamente entregue ao que sou outra vez. Ao que a Vida me ensinou a ser nas tantas andanças por ai, de mãos dadas com ela.
Ah, minha delicia de Vida, que seria de mim sem você?

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Doce

Ontem ganhei um belo elogio, reforçado logo mais à noite: que até pra brigar, sou doce. Não acreditei, não me coube, pois sei bem das minhas limitações humanas, tantas e todas, de amiga, mulher, mãe e amante. Mas aceitei, aceito e levo isso no coração (quem sabe ele acredita e segue fazendo?). Sigo, mais pensante que lisonjeada. Talvez seja um reflexo da outra pessoa, do que ela me pede com seus olhos confusos, do que me diz com a voz insegura. Talvez seja minha resposta ao reflexo do frágil ou ao amor presente. Bom seria se eu fosse assim mesmo, bom seria se conseguisse. Tentar, sempre. Conseguir, nem sempre, como dieta sem pão. Conversar ao invés de discutir, amansar ao invés de magoar, beijar ao invés de bater, fazer rir ao invés de fazer chorar. Quando estou atenta, faço. Sei do resultado, mágico, que pode mudar o instante, um dia, uma vida.
Então, porque não fazê-lo? Porque se deixar ser levada pelo ego, essa tão infame parte de nós? Porque esta disputa acirrada de mostrar que estamos certos, de que o outro é incapaz? O que ganhamos com isso? Receber um elogio - de que até para brigar sou doce - vale mais do que tudo.
Receber um sorriso de volta no lugar do choro, um afago no lugar da palavra rude, um muito obrigado no lugar da resposta atravessada...ah...quanta diferença!
Amolece a alma, aquece o coração, adoça a Vida. E ela, adoçada, me devolve em dobro, na forma de beijos , muitos, com gosto de açúcar...


quinta-feira, 23 de abril de 2009

Colchas

Uma das lembranças de infância mais doces talvez sejam as colchas de retalho. De restos de tecidos ou de quadradinhos de tricô, traziam nela toda a candura do fazer pelas mãos, do construir uma a uma as partes de um todo feito para aquecer e agradar. Dias a dias, meses a meses a fazer cada pedaço daquele, feito um rosário. Terços inteiros, sem penitência. Pensando no todo, paciência e estratégia. Pensando nos filhos, pensando na vida, olho na novela. Pensando nas cores, nos pontos, no alinhavo, nas combinações. Visualizando o tudo, o conjunto, o calor, o amor incutido em cada peça. Uma a uma, cortar o tecido ou tricotar os fios sortidos. Uma a uma , partes de um todo, pedaços de uma história. Quebra-cabeças de vida, livro de contos. Cheiro de casa de praia, de pão de casa, de doce de goiaba.
Calor de colo de mãe, de colo de vó, calor de lar.
Que tão boas lembranças tinha a nossa infância...onde foram parar? Que lembranças terá meu filho, se não tiver colchas para admirar? Infâncias de vídeo game e desenhos na TV, gosto de bolo comprado e fantasias de heróis enlatados.
Minhas colchas de retalho, modernas, são feitas de conversa e massagens nos pés, feitas de bem ensinar e bem educar. De caminhadas ao sol e risadas ao acordar.
Minha colcha de retalhos, falo para a Vida, são feitas para durar...


quarta-feira, 22 de abril de 2009

Eu

Estou eu aqui lendo sobre ego, id, superego, que só Freud explica. Eu bem me sei, quando me abro para reconhecer-me. Sei também do que não quero mostrar, tantas coisas. Sei do que sou, sei do que gostaria de ser, sei do como me veem pelo mundo afora. Conheço - mas nem sempre reconheço - minhas Joyces. Muita gente, ao primeiro contato, acha-me exclusa, afastada, inatingível, e depois se assusta ainda mais (rss).
Ou me entende e até se admira de minha abertura frente a vida.
Não tenho pre -conceitos a não ser pelos que me impõem. ..e estes, adoro quebrar. Tenho conceitos abertos. Mudo de opinião - sobre o outro e sobre as coisas, todas - ao menor toque de Midas, ao menor toque da Vida. Isso me faz crescer, abrir -me mais ainda para o mundo.
Não gosto de máscaras, apesar de achar que, vez por outra, são bem práticas nos jogos impostos. São estratégicas. Mas estou lá, euzinha, bem atrás dela, inteira como sou. E ela se deixa cair a menor abertura. Afinal, não sei ser outra, a não ser eu mesma. Como já cansei de dizer aqui, não sei ser metade nem quando sou má. Entrego-me, toda, sem o menor aviso, sem escudos, sem senões. Aberta, escandalosamente escancarada muitas vezes, peito aberto, pronto para o golpe. Mas posso ser reclusa, sei ser, conforme vejo no outro o seu escudo sobre mim.
E ninguém mais que meu poeta além-mar, Fernando Pessoa, para resumir o que penso:
Para sêr grande, sêr inteiro
nada teu exagera ou exclui
sêr todo em cada coisa
põe quanto és no mínimo que fazes;
assim em cada lago, a lua toda brilha porque alta vive.
Sigo, então , com máscara ou não, dando ao mundo o meu melhor.
Quem sabe assim a Vida me reconhece como sua lua própria e me faz brilhar ainda mais?


terça-feira, 21 de abril de 2009

Prefixos


Hoje acordei com saudades do silêncio . Coisa nada fácil num feriado ao lado de um filho tagarelamente adolescente. Não que tenha feito a escolha simples pelo não falar, mas meu coração parece estar querendo me preparar para algo. E eu, sábia, escuto as palavras deste grande mestre, meu guia. Coisas estão para acontecer, sejam elas boas ou nem tanto, e meu coração parece estar me preparando.
Fiz apostas - todos nós fazemos, dia após dia , minuto a minuto,lépidos segundos, na grande roleta da vida - e elas não me premiaram a contento. Meu lado otimista pergunta: estaria ai a graça da vida? Fiz as escolhas "erradas" ou este era mesmo o caminho a ser percorrido para que eu tirasse algumas pedras e plantasse flores, como disse um dia Cora Coralina? Ou teria sido o outro que tivesse feito suas escolhas erradas, apostando suas fichas , propositalmente ou não - no que já sabia não dar certo? Apostaríamos, nós, como seres incompletos, carentes e incompreensíveis, em coisas já sabendo de suas falhas, de suas pedras enormes no caminho?
Dia de frases e de prefixos. Vem-me as palavras de Guimarães Rosa: "Infelicidade é uma questão de prefixo." Incapacidade também. Incompetência. Incoerência. Incerteza.
Seria o prefixo uma escolha pelo caminho da auto piedade?
Bom, eu escolho não usá-lo. Não este. Não in. Fugo dele. Prefiro pensar que sou feliz, que sou capaz, que sou competente, coerente, certa do caminho a seguir. Sei o que quero. Fiz minha escolha: escolhi viver a Vida. Sei tudo o que ela tem para viver comigo, ao meu lado, de mãos dadas, abraços mornos e beijos ternos, ao encontro de nós mesmas. Pedras pelo caminho, sempre há. Mas retirá-las e colocar no lugar flores, isso a Vida tem me ensinado, isso e muito mais, nos doces finais de tarde ainda ensolarados em que me pega pela mão e me põe no colo para conversar...
Amo a Vida - e ela sabe quanto! - que me compensa com todo esse amor no seu olhar!

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Balanço

Sou um ser do contra: adoro as segundas-feiras.
São como uma porta fechada , espontânea e necessariamente, para balanço. Nelas, nas minhas segundas-feiras, organizo-me, planejo os dias que virão.
Conto minhas nozes.
Nelas, nas segundas, fico esperançosa de tais e tais coisas, deixo de lado tantas outras. Monto estratégias. Mudo caminhos. Fico pensativa, fechada dentro de meu ser para fazê-lo mais forte no amanhã. É , para mim, um dia quieto, de agenda aberta e boca fechada. Um dia de ouvir mais, principalmente meu coração, do que falar. Segunda pede silêncio, meu e do outro. Pede revoada de pensamentos, clareza de idéias, acerto de aparas, poda do que passou e não deixou mais do que galhos secos.
Segunda é dia de inteireza. De revisão. Dia de retrospectiva. De apostas. Dia de saber da Vida o que ela quer de mim e o que tem para me dar. E eu receberei, de forma grata, todo e qualquer presente.
Segunda- feira é dia de porta fechada. Talvez a Vida a abra e entre, mas só ela, sempre ela, única que tem esse poder sobre mim...quem sabe ela mesma me ajude na deliciosa tarefa de ser mais feliz...
E aprendemos, após um tempo.
Aprendemos a diferença sutil entre segurar uma mão e acorrentar uma alma.
E aprendemos que o amor não significa deitar-se. E uma companhia não significa segurança.
E começamos a aprender que os beijos não são contratos. E os presentes não são promessas.
E começamos a aceitar as derrotas, de cabeça levantada e os olhos abertos.
Aprendemos a construir todos os caminhos de hoje,
porque a terra amanhã é demasiado incerta para planos...
E os futuros têm um forma de ficarem pela metade.
E depois de um tempo aprendemos que se for demasiado, até um calorzinho do sol queima.
Assim plantamos nosso próprio jardim e decoramos nossa própria alma,
ao invés de esperarmos que alguém nos traga flores.
E aprendemos que realmente podemos aguentar,que somos realmente fortes,
que valemos realmente a pena.
E aprendemos e aprendemos...E em cada dia aprendemos.
Um poema à segunda-feira , do poeta Jorge Luis Borges

domingo, 19 de abril de 2009

Completa

Cara-metade, meia-laranja e tantas outras brincadeiras. Sempre procurada, nem sempre encontrada. Sorte de poucos, dizem. Mas, curiosa que sou, e voltando aos nomes e neles lendo as palavras metade e meia, dou-me conta de um grande erro, um equívoco de linguística, arriscaria dizer. Ou de pura incompreensão de fato não vivido. Se sou inteira - e me vejo assim - e o outro também (senão não me serviria...),
como podemos ser metade ou meia parte? Como c0mpletar uma coisa já completa?
Jogo de palavras à parte, penso que o que procuramos no outro é um reflexo de nós, nossa contra- imagem, homem ou mulher. Nossa imagem e semelhança, diriam. Se sou inteira, e assim amando a minha Vida por inteiro, que diferença faz se é metade, meia, tudo ou nada, se faz parte de mim, está dentro de mim, se somos um só? Se sou e estou inteira e o outro dentro de mim, pouco importa distância, afazeres, quereres e saberes. Cá ele está, em tudo o que faço, que penso, sinto, saboreio, gozo e vivo, choro e riso.
Cara-metade ou meia-laranja, que importa o nome?
Importa, e só, sentir minha Vida, plena e linda, dentro de mim!
"Ainda que eu falasse a língua do homens, e falasse a língua do anjos, sem amor eu nada seria.
É só o amor, é isso o amor, que conhece o que é verdade.
O amor é bom, não quer o mal, não sente inveja ou se envaidece. O amor é o fogo que arde sem se ver. É ferida que dói e não se sente. É um contentamento descontente. É dor que desatina sem doer. É um não querer mais que bem querer. É solitário andar por entre a gente. É um não contentar-se de contente. É cuidar que se ganha em se perder.
É um estar-se preso por vontade. É servir a quem vence, o vencedor. É um ter com quem nos mata a lealdade.
Tão contrário a si é o mesmo amor...
Ainda que eu falasse a língua dos homens. E falasse a língua do anjos, sem amor eu nada seria..."
Monte Castelo, de Renato Russo. Adaptado de "I Coríntios 13" e "Soneto 11" de Luís de Camões

sábado, 18 de abril de 2009

Sábado

Certo já estava o poetinha Vinicius: há um não sei o que no ar ...porque hoje é sábado.
Há um cheiro de romance, mesmos que só sonhados. Gosto de batom, maciez de pele, delícia de banho. Cheiro de colônia, perfume de amor. Hoje é sábado, dia em que se sonha com beijos de novela em homens de verdade. Dia em que se fantasia a realidade e que se realiza a fantasia.
É... hoje é sábado.
Dia de sonho e de desencontro. Dia de malícia e desencanto. Porque hoje é sábado. Dia de longas esperas e pequenos escapes. Dia de fazer-se mocinha sendo -se femme fatalle ( ou seria o contrário?) . Dia de receber o herói e descobrir que ele é só um homem ( e fazê-lo herói...).
Dia de baile de máscaras, todas, que nos cabem ao por do sol.
Ah, mas vou pensar que hoje é sábado, dia da esperança de ser feliz. Dia de beijo na boca e de mão na mão, de olho no olho e muita paixão! Dia do meu mar receber o teu rio num doce deleite ...
Pego-me pensando por que todos os dias não podem ser sábados verdadeiros. Porque esperar tanto para ser feliz. Porque esperar. Se todos os dias fossem sábado, estaríamos mais atentos, sempre, mais amados, mais amantes, sempre prontos para sermos mais felizes. Retiradas as máscaras , eu e tu em plena sintonia.
Certo estava o poeta...
Ah, Vida, hoje é sábado!
Venha me buscar e me fazer feliz!


Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na cruz para nos salvar. Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal.
Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado. Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.
(Vinícius de Moraes)

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Ah, cães


Ah, os cães.
São, mesmo, as melhores companhias.
Sempre do nosso lado, mesmo que não queiramos, mesmo que o nosso humor esteja para lá de atravessado. Extremamente intuitivos, sabem quando estamos necessitando de carinho ou de gargalhadas. Espertos, sabem a hora de agradar e de pedir agrado. Sabem a hora de pedir atenção e a de dar o que tem de melhor. Não nos questionam, não nos reprimem, não nos dizem não. Não nos falam que estamos errados, não nos questionam em nossas loucuras, sejam lá quais forem. Seguem-nos pela vida, gloriosa ou não. Seguem-nos nos penhascos e na areia macia da praia. Seguem-nos com olhos confiados. Dão-nos o silêncio reconfortável de seu olhar que parece dizer: "Ei, eu estou aqui...". Quão relaxantes são seus olhos de uma paz infinita! Quão caloroso o toque em seu pelo, quente, que nos acalma. Quão confortáveis seus olhos que nos entendem. Parecem saber a hora do silêncio e a hora de nos fazer rir.
Ah, que bom seria se fossemos, todos, feito os cães. Que bom se sentíssemos mais o outro antes de criticá-lo. Que bom se ouvíssemos mais o outro antes de dar nossa nem sempre aproveitável opinião. Que bom se soubéssemos a hora de calar, de abraçar, de beijar, de estar ao lado apenas. A hora de fazer rir e brincar. Se tivéssemos o calor dos cães, ah, muita coisa seria resolvida sem uma única palavra expressa, sem um único gesto indomável, sem um único senão.
Ah, se fossemos como os cães, seríamos mais felizes. Fiéis ao que sentimos, fiéis ao que cremos, sem meias medidas ou meios conceitos. Sem meio amar.
Ah, se fossemos como os cães, a vida seria plena de vida. E nós, plenos de amar.

Ah, se o meu cachorro soubesse falar
eu passaria horas com ele a conversar sobre a minha vida,
e ele, com toda paciência, ficaria a me escutar,
e depois, num gesto amigo,
me lamberia.
(Doriana Albuquerque)

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Água

Um mundo movido pela água. Um mundo de líquidos. Nosso corpo, a Terra Mãe, quase tudo é pura água, muita água. Move o mundo. Vem do céu , vem da terra, vem de dentro de mim, minha seiva. Nas águas de nosso corpo, vida e saúde. Na beleza do rio caudaloso, vida e perigo. É ela que movimenta tudo, pensamento, momento, transformação. Transforma o leito, transforma a pedra.
Transforma tudo.
Nascente, domo, encontro com o mar, fim e recomeço. Ciclo.
Até o Amor é movido pela água. Carrega tua semente, faz germinar em mim o que temos de melhor. Mata a minha sede. És meu rio, eu teu mar. Vens em minha direção , mesmo que por loucos caminhos, e eu te espero, te recebo como se a mim mesma. Tua água, minha água, um oceano só. Uno.
O que seria o mundo sem suas águas, sem seu fluir? Nada. Seco, sem Vida. Tua água em mim me transborda.
Tua Vida em mim me transforma. Não somos mais quem fomos, somo outro, o novo, o Nós.
Águas da terra...águas de março...água dos rios...águas da fonte...
que carrega a energia de onde surge até o ser.
de noite, de dia...segue o horizonte...água que guardou transporta a vida
água doce...água florida...salgada...ou refletida.
que circunda a terra...que permite a vida.
vem com os ventos do sul...ou com os ventos do norte.
lava o tempo...leva a semente.
límpida...transparente...transportando a luz, saciando a sede...
acalmando a mente.
Têre Zagonel

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Chuva

Ontem caiu uma chuvinha perdida, mais anunciada que própria. Mas o seu barulho, o cheiro da terra molhada, a música dos trovões...nossa...quanta paz! Dei-me o presente de ficar a observar essa dádiva pela janela, sentir seu hálito, escutar seu cântico. Saudade da infância, dos temporais na praia, para mim dia de festa. E como a natureza fica bonita depois! Cheirosa, colorida, radiante, límpida.
Assim deveríamos ficar depois de um dia - ou momentos - de temporal em nós.
Ontem pedia colo, hoje não sei. É como se o tempo estivesse pedindo um tempo dentro de mim. Um tempo de parada, um tempo de espera, um tempo de pensar. Talvez saudades do que sei. Talvez pressa do que virá. Talvez a certeza, talvez o talvez. Vontade de algo que não sei, falta de algo que não tenho ao alcance das mãos. Pode ser isso tudo e mais um pouco.
Ontem choveu, hoje faz sol. Talvez seja só um jogo da Vida para me testar. Ela me quer inteira e feliz, completa no seu amor. Para isso, muita chuva, muitos raios e trovões em meu caminho, muito ainda a ser trilhado. Ontem choveu, gotas de cadê você. Hoje não mais, secando as lágrimas com o sol. Devo estar mais bonita. Assim deve ser. Presente da Vida, a me educar.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Colo

Acordei hoje meio desprotegida, meio menina, nada mulher. Pensamentos vazios, ação vazia, atos em vão. De onde vem este medo?
De onde vem este anseio de que me levem pela mão e me conduzam, pelo menos hoje, pelo caminho da vida ?
Ah, ser carregada, conduzida , rara sensação. A mão quente na minha, a sensação de leveza, de deixar-se ir. O gosto gostoso de não saber - e mesmo asssim, crer - , de não conduzir, de deixar-se ir. Conforto, abrigo, apoio, confiança, quanta coisa uma mão dada pode dizer, quanta candura, quanto bem querer.
Muitas vezes, de tanto me virar sozinha pela vida, impondo-me à ela dia-a-dia feito uma guerreira, sinto falta disso, dessa cumplicidade, dessa entrega, da confiança depositada no outro. Sinto falta de uma mão conduzindo a minha. De poder fechar os olhos e deixar-me levar. Da doçura, do calor, de todo o amor contido ali, neste momento tão sublime. Sinto falta desse apoio, desse refresco, desse "vem que eu te mostro o caminho".
Ah, mão na mão, beijo na testa, olhar que ama, abraço que abraça, colo que acolhe...gestos tão simples e tão significativos que por eles me entregaria, de corpo e alma, a quem quisesse me levar, a quem me fizesse me deixar levar. Ah, Vida, me pega pela mão, pelo menos hoje. Ah, minha Vida querida, me guia por um dia, ou pela tua vida toda se assim quiseres me levar
Seguirei nua e tua , ao teu bem amar!



segunda-feira, 13 de abril de 2009

Generosa


Um bom filme, provar um doce, tomar um café com um amigo, rir por qualquer coisa, fazer amigos, caminhar no sol, um banho morno, o cheiro de creme na pele, massagem nos pés do filho, carinho no cachorro, um olhar maroto, um beijo não esperado. São tantas as oportunidades, infinitas até, no dia-a-dia para ser feliz, e tão mal aproveitadas! Esteja atenta, dizia a mim mesma, quando o humor veio meio fechado. Esteja atenta. Esteja ali, presença e pensamento. Viva esse Presente!
Olhar a Vida com bons olhos. Melhor: gozar a Vida. Senti-la vibrante dentro de mim, se possível o tempo todo. Sentir-me pulsante, viva, atenta e entregue a estes tantos prazeres que a Vida me dá. E ela me dá tantos, tão lindos e tão intensos, que por vezes choro. Impossível descrever como e quando: estão nos pequeninos detalhes, imperceptíveis aos olhos tristes. Abro-me à Vida para recebê-la. Sirvo-me dela, feito banquete. Devoro-a, com gula. Penso que vive mais quem se diverte com a Vida, quem a escuta e a segue, sabedoria plena. Quem a recebe de sorriso largo e brilho nos olhos.
Quem a recebe de coração aberto e pronto para se deixar levar.
Tanta coisa já foi dita sobre isso, tanto verso e tanta prosa, tantos ensinamentos e pensamentos. Gosto particularmente de um, do querido Mário Quintana que, imagino, conversava com a vida entre goles de chimarrão, não pela intensidade e sim pela simplicidade, onde diz:
"Faça o que for necessário para ser feliz. Mas não se esqueça que a felicidade é um sentimento simples; você pode encontrá-la e deixá-la ir embora por não perceber sua simplicidade."
Viva a Vida! Esteja atenta !
E a Vida, sempre generosa, vai te dar o que tem de melhor...

domingo, 12 de abril de 2009

Páscoa

Domingo de Páscoa.
Meu cérebro foi bater na porta da infância. Ainda de pijama de flanela colorida, descalça, procuro ovos escondidos em algum lugar...sigo o rastro das patas do coelho que invadem a casa toda. Na cozinha, cheiro de macela recém colhida e de café com bolo, sempre o mesmo e sempre adorável. Minha mãe, com ares de nada sei e sorriso maroto, diverte-se com nosso procurar.
Gritinhos de "achei!", barulho de celofane, boca suja de marrom.
Ah, Páscoa. Cheiro de casa de tia, roupa de cama com cheiro de sol, riso de primo. Campo úmido de orvalho com ninhos escondidos. Achei, grito eu. Ninhos de ovos , tão coloridos, recheio de amendoim.
Para onde foi minha Páscoa querida? Eu a fiz, assim, feliz, até onde meu filho acreditou nas patas no jardim e cenouras roídas. Para onde foi minha Páscoa querida? Ficou tão somente nestas páginas, lindas páginas da vida. Voltarás, minha Páscoa feliz, um dia, para receber pijaminhas rosas e azuis sentados em meu colo e eu a contar por onde passei.
Beijos de chocolate, mordidas de bolo, bocas de café. Minha Páscoa querida vai voltar e eu a receberei de braços abertos . E de braços dados com a Vida.


sábado, 11 de abril de 2009

Bem viver

Ontem dei-me ao imenso prazer de rever o filme O Carteiro e o Poeta, que fala do exílio de meu querido Pablo Neruda na Itália. Fala de sua paixão pelas pessoas, fatos e palavras. Sua atenção sobre a vida. Lindo, emocionante, apaixonante filme. Da fotografia em tons pastéis e pinceladas de rosa, aos diálogos e pensamentos, os intensos lugares, à sonoridade da romântica língua italiana. Tudo perfeito. Fez , e faz, despertar a poesia que há dentro de cada um. Fala da simplicidade das coisas, de ver a poesia em tudo.
E da força das palavras. Palavras...ai... dá-me até medo falar delas...
carregam meu ser para dentro delas, furtam-me o juízo!
Numa das melhores cenas, a mais hilária e verdadeira, a tia da mocinha encantada pelas poesias do recém poeta carteiro fala do perigo delas, das palavras. "Melhor duas mãos dele em ti do que suas poesias em teus ouvidos" diz ela. Concordo. Palavras bem ditas nos deixam leves, sonhadores, entregues. Indefesos. Tira -nos as amarras, as dúvidas, as incertezas.
Tira-nos os pés do chão.
E é aí que mora esse delicioso perigo dessa entrega despudorada a elas...
Ver poesia em tudo, qual dádiva. Quem dera. Da cor do bom vinho ao seu gosto em minha língua. Dos olhos maliciosos do amante ao sabor de sua boca na minha. Do olhar guloso da Vida ao seu toque delicado em mim. Poesia em tudo, quem dera. Seria o mundo mais feliz e amoroso, um mundo de palavras verdadeiras e sentimentos puros , sem máscaras e sem rompantes, a não ser os do amor.
Seria, a meu ver, um mundo de bem viver!

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Cabra Cega


Vendar-se os olhos para conhecer o outro. Parece brincadeira de criança, das que muito já fiz (porque será que chamam de cabra cega?). Ou exercício das aulas de expressão corporal onde muito aprendi (todos deveriam fazer, principalmente os adolescentes que não se amam...).
Venda-se os olhos para ver. Parece contra-senso, mas não o é. Vendar-se os olhos para bem conhecer o outro. Conhecer seu coração e sua alma antes de apaixonar-se por seus olhos...
Num mundo guiado pelas aparências, pela primeira impressão que fica, pelo pré-conceito viciante de nossos olhos, desconhecemos esse valor. Sabê-lo sem vê-lo. Melhor ainda: sem tocá-lo, sem sentir seu cheiro, sem ouvir sua voz (ai...) , o som de sua gargalhada (ah... essa diz tanto...).Primeiro saber como pensa, como fala, o que diz, como diz. Vê-lo nas entrelinhas. Ver seu gosto e seu sal, seu tempero e sua luz somente através das palavras (e meu tesão por elas, as benditas!). É como vê-lo por dentro, de dentro para fora, da alma à pele, caminho inverso e feliz. Apreender dele o seu melhor a me dar. O seu melhor...
O próximo passo ideal seria feito Frank Slade, o tenente-coronel cego impecavelmente interpretado por Al Pacino no maravilhoso filme Perfume de Mulher... mas ai já era de arrasar!
É , já dizia o ditado, tão simples, tão antigo, tão repetido da boca para fora - e tão sábio:
"Quem vê cara,...não vê coração."


quinta-feira, 9 de abril de 2009

Renovação

Plena Semana Santa e revejo conceitos. Não sou ligada a datas e preceitos sobre o tema, mas a Páscoa, que está logo ai, lembra-me renovação, revisão, passar-se à limpo no caderno da Vida. E para isso, uma parada é necessária, sempre, para revisarmos o que está bom, o que não está, em que podemos ser melhores, sempre.
Já falei muito aqui sobre a troca da casca, a saída da pele, a renovação, se possível diária, do que somos.
Faço-a de forma bem tranquila, sem dor, sem mágoa. De forma não pensada, não calculada, mas simples, corriqueira. Hábito. Penso que a toda hora, a todo momento, várias oportunidades de se reciclar, se repensar, melhorar. É difícil? É. Mas tornando-se um hábito, parece que tira peso do ter que, do dever. Como quem se esfrega com a bucha para renovar a pele e depois se hidrata, assim faço. Fica ali uma pele nova, perfume de orvalho, irrigada de bons sentimentos, gostosa ao toque. Assim pode ser com a Vida. Diariamente - ou pelo menos sempre que sinto a pele enrugada e triste - renovo-me para bem recebê-la. Ela merece, e eu também, que eu a receba com tudo o que tenho de bom. Com o meu melhor.
Ela será mais feliz e eu com ela.
Regra simples de bem amar e ser bem amada.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Cem

Esta semana completei 100 dias de não solidão. Por cem dias tenho vindo aqui e deixado meu clamor à Vida. E ela me veio, e me vem, sempre e sorridente. Viva, densa, forte Vida. Cem sessões da mais pura terapia. Ingênua, tênue, mas procedente terapia. Deixo aqui, ao bel prazer ou desprazer de meus leitores, um pouco de mim, um muito de minh'alma. Sinto-me, à cada página, mais leve - ou mais pesada. Fico acariciando as idéias, às vezes, por horas, dias. Detenho-me nas preliminares. E depois tiro de mim o texto sempre de forma leve, solta, deliciosamente prazerosa. Êxtase. Rio por dentro, rio sozinha, de mim e das palavras, das idéias e pensamentos. Das armadilhas e das surpresas. Compartilho, somo, divido, inúmeras operações, mas nunca subtraio a não ser de mim mesma. Escrever me conforta. Escrever me dá energia. Escrever me dá paz. Escrever me cura. Escrever me dá tesão. Amo as palavras, amo-as em mim e a forma que saem de dentro, feito gozo. Prazer, puro. E delas, renasço, a cada dia. Sou outra depois delas.
Feito Fernando Pessoa, o grande poeta do amor e da Vida, sinto-as como " frases sem sentido, decorrendo mórbidas, numa fluidez de água sentida, esquecer-se de ribeiro em que as ondas se misturam e indefinem, tornando-se sempre outras, sucedendo a si mesmas. Assim as idéias, as imagens, trémulas de expressão, passam por mim em cortejos sonoros de sedas esbatidas, onde um luar de ideia bruxuleia, malhado e confuso."
Gozo, palavras para mim o são. Do mais prazeroso.

terça-feira, 7 de abril de 2009

Perfume

Vem dos mais inesperados cantos os elogios mais doces.
Recebo-os, feito rosa.
Deixam -me perfumada um dia todo, por vezes dias.
Recebi ontem de um amigo virtual que mal conheço. Sujeito engraçado, sutíl, misterioso, de uma leveza ímpar. Disse, em texto poético, como sempre : "Escrever pra você é difícil. Nem consigo terminar, parece haver tanto a dizer...tenho que deixar as idéias assentarem... ". Achei lindo, encantador. Simples e lindo. Puro. E muito, muito encantador, pela nobreza, pela modéstia, já que é também um poeta da vida. Um elogio sem premissas, sem intenção que não a de simples elogiar. Elogio sem cobranças, sem espera de resposta, objeto raro. Fez-me acreditar que estou num caminho certo, o da falta de pré-conceito sobre as pessoas, o da credulidade sem sabê-lo. Caminho da amizade sincera, do não saber-se, do não conhecer-se e mesmo assim gostar-se. Não seria esse o caminho correto da amizade? Um caminho sem poréns, sem senãos. Caminho sem esquinas, sem becos, caminho livre. Tenho, sim, muitos amigos, poderia dizer. Amigos sem face, mas de muito coração. Que todos os dias alegram-me com suas palavras, seus incentivos, suas preocupações comigo.
E este, terminou seu comentário, já belíssimo, com mais um elogio. Lisonjeador, mas esse não me cabe, não senhor: "É melhor ser rei do teu silêncio do que escravo de tuas palavras"(Shakespeare)


segunda-feira, 6 de abril de 2009

Feliz

Recebi um texto que fala da sabedoria de uma mulher já bem vivida sobre a felicidade. Dizia, entre tantas coisas, que "Felicidade você decide por princípio" Que deve ser medida pelas vezes que se perde o fôlego, seja de tanto rir, de surpresa, de puro êxtase. Amei. Fez-me acordar para a Vida, ver o que ela tem me dado de melhor. Meus presentes.
E são tantas as coisas, tantos os presentes. Tanta boa conversa, tanta alegria que me vem dos mais inesperados lados, tanto riso solto desprendido de antecipação, tanto beijo não esperado. Tanto gozo pela e com a Vida. Paro para pensar se não seria tudo isso uma preparação para viver a minha Vida como ela deve ser vivida: plena, inteira, completa, muito amada. Vivê-la como ela merece, sem jogos ou julgamentos desnecessários. Sem perdas de tempo, sem firulas, sem pequenices.Vivê-la como ela espera ser vivida, comigo ao seu lado, menina-mulher, toda e para tudo. Para sempre.
Discordo, então, sem nenhuma propriedade além de minha própria verdade, do poeta Guimarães Rosa , e digo que a felicidade está em pequenos momentos de atenção, e não de descuido...
Basta querer!

domingo, 5 de abril de 2009

Espera

Plena noite e eu aqui, mais uma vez, à espera da Vida.
Uma espera longa, silenciosa, esperançosa. Ela tem me feito esperar, por vezes, horas a fio, na ânsia de ser feliz. Muitas vezes, tantas já, não vem na hora marcada, o que me deixa a pensar que outras coisas ela teria de tão importante senão viver-me; ela, que se diz eterna apaixonada. Fico no cais, a olhar o horizonte, à espera dela. Olho o mar e a procuro nesse mar revolto dentro de mim. Admiro o céu, inerte, mas ela não está lá. Silêncio, horas sem resposta. Está, lembro, enfim, e como ela mesma diz, dentro de mim. Sei, sinto, mas sinto sua falta. Sinto falta de seu toque seguro, de seu cheiro de musgo, da sabedoria doce que me acalma, da voz macia que me orienta. Sem ela, é como se eu conversasse sozinha, se eu sonhasse sozinha, se eu me amasse sozinha. Sem ela, pouco sal. Sem ela, pouco gosto, pouco gozo. Sem ela, cadê o amor? Onde está esse amor que ela mesma me ensinou e que não compartilha?
Então me vem à cabeça um trecho de um poema que recebi, bem sobre o tema, que dizia: "O amor se guarda em caixas invisíveis ou em lojas sem vitrines".
Meu amor, amor, é assim, visível, escancarado, ansioso de amar.
Meu amor, amor, não espera, amornece na sala de esperar.


sábado, 4 de abril de 2009

Chuva

Meu silencio da madrugada cortado pelo barulho da chuva. Bom para dormir, diriam. Bom para escrever, penso. Melhor ainda para namorar, fantasio.
Ah, quem me dera um banho de chuva, infinitos beijos em forma de gotas. Acho chuva sensual, dessa que escorre pela gente, que nos arrepia. Gosto do gosto da chuva. Tem sabor de infância na boca de menina, paixão na boca de mulher. Gosto de seu barulho compassado, me seduz. Gosto do cheiro que exala da terra, da flor, do ar. Tem gosto de preguiça, de deitar abraçado, de beijo na testa. Gosto de amor.
Aprendi com minha mãe, sabia poeta, estas pequenas maravilhas da vida. Gostar de chuva e de vento, de temporal e raio. Vibrar com o mar revolto, com a areia dançante, com a furta cor do céu, com os raios de luz. E , mais ainda, o brilho explendido do depois, as cores vivas das coisas lavadas, o cheiro bom da terra encharcada. Chuva , relembro, tem cheiro de sopa quente, gosto de bolinho de acucar, maciez de lençol velho de algodão.
Bom se chovesse dentro de mim, penso. Renovaria minh'alma, lavaria meu coração, deixaria-me macia para a Vida. Faria -me mais colorida, mais viva, mais cheirosa. Colocaria-me para dormir.
Doce chuva, chuva doce, adoça minha vida e me faz dormir feliz!

sexta-feira, 3 de abril de 2009

De corpo e alma

Yoga e' tudo de bom. Faço fazem anos, com a mesma mestra - da pratica e da vida - minha querida Lucy. Legal saber que as posicoes mexem tanto o corpo físico quando o mais sutil. Fazer um exercício para o corpo e sabe-lo benéfico a alma e' algo que, penso, só a pratica pode dar.
Consciência do corpo, sei de seus benefícios. Sinto-os em mim, todos. Bom sabe-los.Da-nos mais forca para prosseguir na vida, para entende-la, ate aceita-la na medida do possível. Aprender a usar as armas certas , na hora certa, do jeito certo. Uma posição reforça nossa forca de vontade. Outra, tira as magoas incrustadas. Outra, abre-nos para o amor em sua compreensão maior.
Na Yoga aprendi a me amar como sou, e tentar melhorar de forma gostosa o que não me gosto. E esse não me gosto tem ficado cada vez menor. Isso aprendi ali, no tablado da sala. E com a Vida que jura que me ama como sou. Abro-me para a Vida, e isso me faz bela. Abro-me para a Vida a cada dia mais, recebo-a , como ela mesma diz, como se recebesse a mim mesma. Faço de mim seu lar doce lar. Nutro meu corpo e minh'alma só para recebe-la. Faço -me bonita, forte, cheirosa só pelo prazer de vê-la feliz. Quero ama-la a cada dia mais, cada vez mais. Quero que a Vida se sinta amada por mim, eternamente, e faca de mim sua morada.
E eu, com ela, serei eternamente feliz!

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Olhar de crianca

Veio de perto a mensagem com texto de Rubens Alves sobre o olhar. Minha amiga Ana o enviou feito belo abraço em forma de e-mail.
Rubens fala de um tema que me emociona: ter o olhar de criança. Um olhar afinado. Um olhar atento, crédulo. "Aprendemos as palavras para melhorar os olhos", diz ele. Compreendo bem o que ele fala. Sinto isso. Mais: vivo isso, de forma por vezes mais infantil do que esperam de mim. Compreendo no olhar, na sua forma, na sua intensidade, uma visão mais doce e interessada da Vida, sempre tão linda, tão minha.
Não sou sabia, não sou santa, não sou nada alem de uma menina-mulher atenta a ela. E ela, a Vida, essa grande amiga, tem me trazido presentes diários sempre ao alcance de meus olhos, ao alcance de meu coração, de meu corpo, de minha'alma. E eu, esperta, acolho-os, todos. Guardo-os, todos. São meus. E este olhar , por vezes ingenuo, e' meu fio condutor. Meu guia. Meu fio.
Sob o meu olhar de menina-mulher vejo alem. Vejo mais. Vejo de forma doce. Recebo a Vida, acato seus ensinamentos. Sinto-as em todos os seus lugares, em todas as coisas, em todas as pessoas que cruzam meu caminho. Detenho detalhes. Regozijo-me com seus tantos presentes, que vão parar em meu sorriso, sempre largo, sempre fácil, sempre bem. Não que a Vida seja uma maravilha, não que não tenha obstáculos nem voltas, que não tenha nuvens negras, mas sigo olhando para a frente porque sei que a Vida reserva-me ainda muita coisa de bom. E e' isso que me faz seguir em frente, amando-a mais a cada dia, a cada olhar, a cada sorriso que entrego ao outro e ele me da.
Sigo com meu olhar. E ela, a Vida, me agradece.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Lição de amar

Amo amar.
Amo apaixonar-me , pessoas, coisas, fatos, musica, dia e noite. Amo muito, varias vezes ao dia , se puder. Apaixono-me de forma constante, aqui e ali. Faz-me bem, sinto-me viva, pulsante. Apaixono-me por uma musica e escuto-a feito mantra; sinto nela cada acorde, cada tom, cada vibração. Apaixono-me por uma imagem e a olho cada vez mais com mais encantamento; sinto nela suas cores e seus alems. Apaixono-me por uma vista, um momento, um cheiro, um gosto, um rosto, um gesto, do mais simples ao mais complexo. Acima de tudo, amo as palavras benditas - das simples as mais eruditas - e por estas vou ate alem de amar...
Apaixono-me cada dia mais por meus amores, que são tantos, e os amo mais a cada amar. Faz parte de mim esse amor, esse intenso amar. Esta em mim, em minha pele, em meu intenso sentir, em meu belo viver, em meu constante pensar. A Vida se encarregou de ensinar-me esta bela lição, mesmo que ela mesma as vezes não a viva. A Vida, corrida, tem seus limites e tentacoes, mas me ensinou a amar. Aprendi. E me entrego, de corpo e alma, intensa e inteira.
A Vida, hoje, acordou-me com as palavras de meu querido e sempre também amado Mário Quintana:
"A vida são deveres que nos trouxemos para fazer em casa".
E eu, minha Vida, os faço, com amor.