domingo, 31 de maio de 2009

Frio

Frio chegando, às vezes de mansinho, às vezes de rompante.
Pede agasalho, pede chá quente, pede proximidade. Pede vinho tomado a dois. Chama preguiça, vontade de se aconchegar e ali ficar, indefinidamente.
Paro para pensar que seja tempo de amar. De um estar junto,
de um conversar em baixo tom, de fazer-se presente.
Ah, o inverno, tão frio e tão quente.
Um chegar-se cada vez mais. Parece que aproxima as coisas, aproxima as idéias, aproxima as pessoas.
E não um aproximar de verão, rápido de chegar e sair.
Um aproximar lento, gradativo, sem pressa de soltar, de partir.
Gosto do frio. Gosto dessa sensação de precisar do outro para me aquecer. Do estar ali, de fazer parte do outro e ele de mim. Acho que é isso, enfim, que me atrai. Não só os vapores e fumaças, nem as manhãs nebulosas, nem o céu que fica ainda mais azul.
O que me trai é o outro, e como ele fica em mim...
Abraça-me, ah, abraça-me,
Mostra-me as estrelas no teu sorriso
O reflexo abrasivo de uma noite de verão,
No calor do teu corpo enquanto me amas.
Preciso ver o pôr do sol nos teus olhos
Como se fosse chuva a cair num mar de chamas.
Preciso saborear amoras nos teus beijos
Ah, nem sei…como traduzir a loucura destes desejos!
Abraça-me, ah, abraça-me...
Os lirios desfolhados reabrem-se nos teus braços.
Os rios entristecidos e moribundos,
renascem na explosão do teu corpo.
Eu abro-me para ti
como se fosse a Primavera
Tu ficas em mim,
Como ninho de uma andorinha.
Abraça-me, ah, abraça-me…
Inunda o meu corpo como se tivesses pressa
De desaguar na imensidade de um mar eterno.
Abraça-me amor...
Tapa o frio deste meu Inverno!
Vóny Ferreira

sábado, 30 de maio de 2009

Entrega


Mal começa a esfriar e já vem a vontade de tomar um bom vinho.
Para mim, um ritual.
Taça grande, mão cheia, boca curiosa. Até a cor me atrai, como se visse nela a amplituide da viagem que aqui começa. Cheiro seus aromas, sonho em saber de onde vem, o vinhedo, a cor das uvas, o cheiro da terra. Beijo a taça, brinco com ele em minha boca, sorvo seus sabores. Sinto ali se o namoro vai persistir ou se é só mais um flerte.
Os impotentes, bebo e basta. Os apaixonantes descem quente pela minha garganta e aquecem até minh'alma. A eles me entrego. É como se o caminho entre meus lábios e meu ser fosse sendo purificado - ou seria o contrário? Sem querer saber, me entrego , da paixão à primeira vista até a última gota. Sedenta. Apaixonada. Cúmplice. Aberta.
Calor. Surpresa. Pele rubra. Paixão.

Tudo posso do vinho que me aquece por inteiro.
Entrego-me, sem juízo. Eu o absorvo, ele me detém. Par perfeito.
Sabe lá Deus onde isso vai parar...

Mon Dieu...
Donnez moi la sante pour longtemps
De l'amour de temps en temps
Du boulot, pas trop souvent
Mais du bordeaux tout les temps.

Meu Deus...
Dê-me a saúde por muito tempo
Amor de vez em quando
Trabalho, não muito assíduo
Mas Bordeaux todo o tempo.

(versinho francês da região de Bordeaux)

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Sou


Sou um pouco Elis, um pouco Leila, um pouco Anita, mulher brasileira.
Mesmo de pele tão clara e voz delicada, sinto-me assim. Forte. Mas não um forte de bater na mesa. Um forte de delicadeza, de bem pensar, de me mostrar sem escancarar, sem bater portas, sem berrar. Não tenho microfones, nem charme explícito, nem guerras a declarar. Mas sou intensa, sim, mesmo que isso só se reflita dentro de mim, ou aqui nestas páginas, onde por vezes me contenho para não me entregar por completo,
não me devassar.
Não sou tudo o que queria ser. Ou como queria ser. Não tenho como. Não sou um organismo livre por completo, ninguém o é. engrenagem de uma máquina que não pode parar. Não temos como ser por completo os nosso sonhos, nossas vontades. Não temos como viver nossa vida por completo. As regras não deixam. Mas eu as combato, extrapolo da melhor forma. Contorno os obstáculos, convivo com eles, deles tiro textos e vida. Releio as leis, estudo-as só para saber como burlar. Tenho me especializado nisso, e ai está meu prazer. O do bom combate, pela palavra bem dita, pelo ato bem feito, pelo raciocínio lógico, pela intuição.
Minhas armas são leves, perspicazes. Bem pensadas, traçadas a mão e coração.
Podem até ferir, mas cicatrizam bem.
Sou um pouco Elis, um pouco Leila, um pouco Anita.

Sou exagerada, do ato à gargalhada. Sou intensa, do olhar ao delírio.
Sou eu, sou mulher, de corpo e alma. Um ser completo que só a Vida sabe e gosta.
Que mais posso querer?

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Livro aberto


Ah...as coisas simples da vida, sempre me rodeando...
Existem coisas tão óbvias que, depois que lemos, pensamos
" porque não pensei nisso antes"?
Li em um texto sobre comunicação: "Não se pode não comunicar.
Li, mastiguei, degustei, saboreei com enorme prazer, engoli. Desceu redondo. Tão óbvio. E já falei tantas vezes disso aqui, sem ser sábia ou escritora, pensadora ou filósofa, do que temos todos um pouco -
não só de médico ou de louco.
Se me manifesto, seja por gesto ou fala, comunico-me. Se me calo, se aceito ou me entrego, comunico-me.
Se me rebelo, frente ao errado ou certo, comunico-me. Se amo com os olhos, certezas. Se fugo deles, duvido. Se me isolo, mostro-me fraca. Se me exponho, forte e corajosa. Somos, em cada segundo da vida, comunicação. Pura comunicação. Palavras, gestos, silêncios, tudo diz ao outro o que somos, o que queremos, o que pensamos. Olhares, arrepios, risadas nervosas.
Gargalhadas à toa. Gestos bruscos ou bem elaborados.
Nossa escrita, nossa fala, nosso ser, nosso pensar. Tudo diz de nós.
Livro aberto.
Para os desligados, língua desconhecida.Para os atentos,
ilustrado passo-a-passo.
Ali, tudo de nós.
Páginas abertas, para quem interessar possa.
E o teu gesto
O gesto deles, delas, de toda a gente
São feitos de linhas cruzadas
Como nuvens sobrepostas
Numa tela de muitos ontens
Pedro Campos


quarta-feira, 27 de maio de 2009

Cristina

Tenho alma de menina.
Sinto isso cada vez que ando de mãos dadas com o silêncio ensolarado dos finais de tarde. Caminho como se dançasse, vestido solto ao vento. Frescor e perfume de ontem. Envolvo-me com o calor do sol, piso de ponta na terra, passo de balé. Paro para admirar a cor de uma flor, perfume da rosa branca e da rosa rosa. Sinto na palma da mão o veludo do musgo, cheiro de terra. Arranjo a folha da laranjeira para sentir-lhe no nariz. Encanto-me com o pássaro pequeno de canto forte. E da revoada deles para o norte. Sigo o som do riacho, do vento nas folhas do chão. Cato as secas para enfeitar a casa. Rio sozinha do cão que rola no chão, tamanha coceira. Rio, o tempo todo, mesmo que por dentro.
Meu rio, meu alimento.
É, tenho alma de menina.
Uma menina que se esconde nas horas chatas do dia. Mas que reaparece a qualquer hora dele para alegrar-me, mesmo nas ditas horas proibidas. Uma menina que dança com a música da Vida. Que flerta com a Vida. Uma meniva viva, dentro da mulher por vezes morta.
Descubro que ser menina é como estar amando. Tudo tem luz, tudo tem brilho, gosto bom, vida própria.
E eu amo a Vida e o resto pouco me importa.

E já dizia o poetinha Vinícius...
E a coisa mais divina
Que há no mundo
É viver cada segundo
Como nunca mais...

terça-feira, 26 de maio de 2009

Culpa

Ai, as culpas, sempre elas, a nos perseguir, desde Eva.
Do acordar ao de novo deitar, do sol à lua, lá estão elas a me acompanhar. Na vida , nos pensamentos ou até em sonhos, péssimas companhias. Maltratam-me e me ferem. Muitas vezes seguram-me feito amarras. Ou tampos na boca.
De onde vêm? Será que vêm do parto ou até da concepção não esperada? Será que vem de uma criação do não se fazer presente? Do eterno obedecer para um simples não incomodar? Do ser sempre correta e digna?
Do famoso sempre fazer o bem sem ver a quem?
Ai, as culpas, péssimas companhias. Se pudesse, trocava-as, todas, por afagos e abraços de aceitação,
do que sou, do que fui, do que serei.
Mas a sabedoria de muito me vale, além das rugas no rosto. Recebo-as, as culpas, todas, gentilmente, educadamente e até de cabeça baixa. Convido-as a sentar. Converso com elas. Tiro delas todo o proveito. Peso-as na balança do dia. Vejo o que me sobra de bom, nem que seja uma única dica. O que resta, o lixo, reciclo, já que está na moda fazê-lo. E transformo-as em lição de vida, destas que ficam na gaveta e nem sempre lembramos dela. Mas está lá, nem que seja para nos lembrar de nossa tolice de guardá-la.
Vermelha e grande. Minha maçã.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Vai!

Hoje procurei no espelho e não vi minha beleza. Talvez esteja escondida no medo da semana que começa e suas tantas dúvidas. Talvez na saudade infinita da minha Vida e seu sempre incentivador sorriso,
seu sempre aprovador olhar.
Hoje não me achei na cara lavada de ontem. Minha vontade era pintá-la para não ser reconhecida. Ou de me esconder debaixo de uma máscara vital. Beleza cansa, ou pelo menos essa "preocupação" matinal de estar bem. Se estivesse ao lado da Vida, corpo colado no meu a admirar-me através deste espelho, ela diria:
"Vai, estás linda! "
Não que a Vida seja falsa - nunca o foi e nunca o será, mesmos nas palavras sentidas, até elas para me ajudar. Nunca o foi nestes tantos anos de amor infinito que temos uma pela outra, desde a nascente.
Repito, feito mantra, o que ela me diz e eu , feliz, acredito: estou linda.
Sou linda. Mesmo de cara lavada, mesmo jogada na cama,
mesmo teclando de pijama.
Ela sempre me diz: "És linda!". Eu, sentindo-me completamente amada e amante, acredito.
Sou linda, mesmo que o espelho nada disso me diga. Acho que ele, o espelho, se fosse feminino, não seria tão cruel. Seria como a Vida, alma feminina, que me impulsiona sempre à frente, que me beija a testa ,
olha bem nos meus olhos e diz:
"Vai, és linda! ".
E eu sigo, amando-a e sendo amada ainda mais...
Mulher ao espelho
Cecília Meireles
Hoje que seja esta ou aquela, pouco me importa.
Quero apenas parecer bela, pois, seja qual for, estou morta.
Já fui loura, já fui morena, já fui Margarida e Beatriz.
Já fui Maria e Madalena.Só não pude ser como quis.
Que mal faz, esta cor fingidado meu cabelo, e do meu rosto, se tudo é tinta:
o mundo, a vida,o contentamento, o desgosto?
Por fora, serei como queira a moda, que me vai matando.
Que me levem pele e caveira ao nada, não me importa quando.
Mas quem viu, tão dilacerados,olhos, braços e sonhos seu
se morreu pelos seus pecados, falará com Deus.
Falará, coberta de luzes,do alto penteado ao rubro artelho.
Porque uns expiram sobre cruzes,outros,
buscando-se no espelho.

domingo, 24 de maio de 2009

Braile

Outro dia falei que os cegos devem amar melhor. Que pelo fato de não verem, não teriam o pré-conceito que temos em relação ao outro. De como o outro está no momento da descoberta. De como o outro é,
feio ou bonito, gordo ou magro.
Peguei minha mente fértil pensando nisso de novo. Fui longe. Imaginei um (re)conhecer o outro de vendas nos olhos. O timbre da voz, o primeiro segurar. O som da gargalhada, a perspicácia das palavras. Um aguçar, todos. O primeiro toque, o chegar-se. Os cheiros, sabores, calores. Jogo de contrastes. Quente, frio, seco, molhado. Um paraíso para os sentidos. Tesouros escondidos, achados em braile.
Quais vantagens de um amor cego? Muitas, além do erotismo. Ser vista com olhos de dentro, reconhecida palmo a palmo, surpreendida tempo a tempo. Surpreender. Tatear. Descobrir. Uma aventura sem mapas.
Pura intuição.
Reflito e afirmo: cegos amam melhor.
Não nos veem sob a lente do hoje ou do amanhã. Não nos medem com os olhos. Não nos olham com olhos de mídia. Não nos comparam com Giseles ou Marias. Não nos secam com seu olhar perturbador.
Apenas nos vivem. Amam-nos como estamos, como somos.
Eu que sei bem o que é o verdadeiro amor, esse meu que tenho pela Vida, sei bem dessa diferença.
Ah, os amores...seriam tão melhores de olhos vendados...
que venham os cegos!
Te procuro entre as sombras da paixão
E enquanto não te achar eu não sossego
O teu corpo ao passar da minha mão
Me ilumina, como o braile, o mundo ao cego
Pois te ler é um prazer que eu nunca nego
É como ter para esta vida, uma razão
E dessas noites de saber em que me entrego
Sempre levo uma ou mais outra questão
Então me guia, meu amor, então me guia
Que esta estrada tão silente jaz tão fria
Sem o som da tua voz, sem teu calor
E me alivia, meu amor, ai me alivia
Que viver sem jamais ver a luz do dia
É não saber sentir mais nada além de dor
Amor Cego, Trabis de Mentia

sábado, 23 de maio de 2009

Incógnita

Certo estava Drumond... mulheres, quem há de entender?
Queremos tanto da Vida e do outro que é quase impossível agradar. Nos apegamos a detalhes - uns ínfimos, outros nem tanto - e todos , aos olhos do momento, nos parecem gigantescos. Uma palavra não dita dali, um gesto não compreendido daqui. Um olhar esperado, a palavra que não veio, o elogio esquecido.
Uma eterna espera do que não veio.
Ah, nós mulheres, quem há de entender?
Queremos ser livres, mas adoramos quando alguém nos prende em doces abraços e longos olhares. Queremos ser nós mesmas, mas adoramos as sábias palavras e os conselhos servis. Vemos-nos guerreiras, mas sempre olhamos para o lado para ver no olhar do outro o sim ou o não. Batalhamos a Vida, mas sempre esperando que nos dê respostas, de preferência as que queremos.
Ah, nós mulheres, quem há de entender?
Mostramos-nos fortes e sonhamos com proteção. Mostramo-nos frágeis, esperando um incentivo à altura. Mostramos-nos mulher, sonhando sermos amadas como meninas.
Ou sendo menina, esperando que nos vejam como mulher.
Ah, nós mulheres, quem há de nos entender?
Só que nos ama. Um amor maduro e sem medo. Um amor de vendas nos olhos e alma aberta. Um amar o que somos, mesmo que desagrade. Um amar de nosso inteiro e de nossos restos. Um amar que nos desvende no silêncio e nos ache no escuro. Que leia nossos mais sutís pensamentos, e que aceite, mesmo que não compreenda. Um amar que nos surpreenda, sempre, com seu jeito de ser.
Um me amar por inteiro, eu assim, como sou.
Certo estava Drumond...
Para entender uma mulher é preciso mais que deitar-se com ela…
Há de se ter mais sonhos e cartas na mesa que se possa prever nossa vã pretensão… Para possuir uma mulher é preciso mais do que fazê-la sentir-se em êxtase numa cama,
em uma seda, com toda viril possibilidade…
Há de se conseguir fazê-la sorrir antes do próximo encontro Para conhecer uma mulher, mais que em seu orgasmo, tem de ser mais que amante perfeito…
Há de se ter o jeito certo ao sair, e fazer da saudade e das lembranças, todo sorriso… O potente, o amante, o homem viril, são homens bons… bons homens de abraços e passos firmes…bons homens pra se contar histórias…
Há, porém, o homem certo, de todo instante: O de depois! Para conquistar uma mulher, mais que ser este amante, há de se querer o amanhã, e depois do amor um silêncio de cumplicidade…e mostrar que o que se quis é menor do que o que não se deve perder. É esperar amanhecer, e nem lembrar do relógio ou café…
Há que ser mulher, por um triz e, então, ser feliz! Para amar uma mulher, mais que entendê-la, mais que conhecê-la, mais que possuí-la,
é preciso honrar a obra de Deus, e merecer um sorriso escondido,
e também ser possuído e, ainda assim, também ser viril… Para amar uma mulher, mais que tentar conquistá-la, há de ser conquistado…
todo tomado e, com um pouco de sorte, também ser amado!
Carlos Drumond de Andrade

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Sampa 2

Dou a mão à palmatória: São Paulo serve bem!
De um simples chá à uma requintada janta, São Paulo sabe servir. É uma verdadeira "disneylândia" gastronômica. Faz bem e serve bem. Cuida dos detalhes, da mesa bem posta, do jeito amável de servir. São Paulo sabe receber. E isso se vê do botequim ao melhor restaurante. Recebe de braços abertos e sorriso escancarado. Parece ter sido feita para isso.
Ah, e os sabores... davam um texto complexo, até poético. Do café bem tirado ao chá com folha de hortelã. Do toque de canela aqui, da pimentinha ali, do gergelim acolá. São Paulo arrisca, arriscaria dizer.
Não tem medo de ousar. Não tem medo de propor. Não tem medo.
E ai está o seu encanto, no contraste com as ruas antigas e mal cuidadas, com o trânsito arredio, com os lixos na rua. Talvez seja bem por isso, na tentiva de nos mostrar que tem algo mais, além de lindas vitrines.
São Paulo recebe e recebe bem, numa bela magia que nos contagia...que dá até vontade de de voltar...

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Sampa de hoje

Sampa. Estar por aqui me faz, por vezes voltar no tempo. Um tempo melhor - ou eu menos chata em relação à vida. Vinha muito a São Paulo quando tinha meus quinze anos. Depois aos vinte, atrás de sonhos.Tudo parecia tão lindo, tão grande, tão glamouroso. Tudo tão novo. Tempos bons da chique Rua Augusta e seus arredores, show de manequins intocáveis. Oscar Freire, Alameda Franca, Av, Paulista. Hoje seu glamour está apenas nos jogos de Banco Imobiliário. São sonhos de compra com dinheiro de mentira. Nas ruas, sujeira, embustes, pobreza, tudo misturado a parcas vitrines que teimam em ficar.
Onde está o glamour da cidade? Este, endeusado nas revistas? A meu ver, enclausurado nos shoppings e mansões verticais. Nas lojas com segurança na porta, talvez. Nos restaurantes com valet, quem sabe. A minha São Paulo que tanto amei - um amor à pé e sem juízo, não existe mais. Decerto foi fazer companhia às minhas memórias juvenis.Ou está perdida em algum boteco de esquina.
Talvez seu charme esteja nos bares de comidas bem servidas, nos cafés bem localizados. Com certeza nos museus e suas grandes exposições, nos vãos da arquitetura de Niemeyer e Lina Bo Bardi, nos Copans e Masps perdidos nas ruas lotadas de carros e gente sem tempo para vê-los. Estão lá, estão por ai as belezas da São Paulo que cheirava a café. Pena não termos tempo para adimirá-las, nem bolso para bancá-la.
Por essas e outras que falo que amo São Paulo: em feriados e domingos!
Talvez pelo senso de ontem...

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Seja


Precisamos de tão pouca coisa para estarmos felizes......
O sermos felizes, essa insistência insana, é que muda tudo. Não dá para ser feliz o tempo todo. Mas basta um gesto, um recadinho, um beijo na testa , uma gargalhada não esperada e lá está a felicidade, bem ali, ao nosso alcance. E podemos fazer o mesmo: espalhá-la a todo momento, feito pétalas de rosa. Basta um clique no e-mail, hoje tão fácil acesso ao outro. Uma reposta ao bilhetinho recebido, um acolher, um sorriso a quem passa. Um "estou aqui se você precisar".
Ah, como parece fácil o estar feliz e fazer feliz! Somos, todos, tão carentes de amor, de afeto, de atenção...e nenhuma mão para nos pegar, nenhum braço para nos abraçar, nenhum beijo para nos aquecer a alma....
Seja essa mão, seja esse braço, seja o beijo esperado.
Seja algo.
Semente de riso e de contentamento. Seja pétala perfumada.
Seja o olhar aprovador. Seja o braço acolhedor, a mão que acaricia.
O sorriso esperado.
E verás como a Vida te contempla com o que tem de melhor!

terça-feira, 19 de maio de 2009

Viagem

Vejo muitas mulheres se apavorando porque vão entrar no que dizem ser o "abismo dos enta". Fiz quarenta anos, fazem cinco, muito bem vividos, obrigada. Até os quarenta me deixei levar. Nos quarenta me assumi, peguei de volta minhas rédeas. Guio com muita firmeza minha viagem, por vezes tosca,
pela vida.
Minha carruagem, às vezes, parece-me dura demais, às vezes sem freio, outras tantas descontrolada, mas seguro firme e domo meus cavalos. Domo minhas emoções, as que não valem a pena. As que valem, deixo-as seguir feito animais selvagens. Solto-as , livres, na pastagens da vida para que peguem ar,
saltitem, brinquem, para que sejam felizes.
Sigo minha viagem da melhor forma. Sigo atenta às paisagens e pessoas que por mim passam. Não perco os presentes que aparecem no caminho. Abro-os, e se forem realmente meus, levo-os comigo. Se não forem , já serviram de algo e os guardo no baú das lembranças.
Sigo minha viagem na boa. Sempre com um sorriso, mesmo que interno, mesmo que só meu. Faço paradas para avaliar o mapa, para deixar descer passageiros, pegar outros.
Minha carruagem segue cheia de amigos e amores.
Sigo em frente. Onde vai dar eu não sei. Aproveito bem a minha viagem,
a melhor parte.
Chegar nem sempre satisfaz. Melhor é o caminho.
E dele, sou mestra em aproveitar!

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Seiva

Seiva. Assim poderia resumir em uma palavra o amor em mim. Algo mágico, como tudo que é vida :
seiva, pólen, sémen.
Percorre minhas veias, purifica meu corpo e minh'alma. Rejuvenesce meu ser, dentro e fora. Anima-me. Faz-me mulher outra vez, por vezes menina, ao seu escolher. Faz-me vibrar em sintonia com a Vida. Colore-me, rubra, por dentro e por fora. Pulsa em mim como sangue novo, passando por dentro de mim e retirando as impurezas deixadas pelo caminho. Tira as pedras e transforma-as em flores, diria Cora Coralina.
Meu amor não me fere: me cura. Cura as feridas deixadas pelo tempo sem tê-lo. Não me faz sofrer: me alegra. Sei que está lá, a meu contentamento. Nem me faz triste, pois me alegra mesmo à distância,
essa que não existe.
Meu amor não me foge pois está em mim. Em mim vive e dele me alimento.
Como seiva.
Seiva da Vida. Amor Total.
Soneto do Amor Total
Amo-te tanto, meu amor ... não cante
O humano coração com mais verdade ...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.
Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.
Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.
E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.
Vinicius de Moraes

domingo, 17 de maio de 2009

Flerte

Escutei a expressão "namorar as palavras" em uma aula sobre a escrita. Amei. Entendi como ninguém, pois eu mesma me apaixono por elas, aqui, todos os dias. Cada dia uma, cada dia mais. Atraem-me, feito imã. Encantam-me. Perco a fala, perco o jeito. Se me interessam, deixo a timidez de lado e flerto com elas. Abro aquele sorriso maroto, de canto de boca. O simples imaginar me dá prazer. Quando sinto firmeza, encaro-as de frente. Olho-as com meu olhar mais malicioso. Chamo-as até mim. Dai para o bom diálogo, do tímido olá à solta conversa sincera e franca, um pulo. Sinto-me em casa. Minha cabeça e minhas mãos voam, nem sempre coordenadas. As palavras me vêm, dançam em minha mente e eu as acompanho como dá. Umas se perdem, mas deixam a sua essência, seu caminho traçado, que sigo em deleite.
Amo as palavras, não canso de dizer. Fazem parte de mim, todas, faladas, ouvidas, lidas, escritas. São meu vício, meu fetiche. Gosto de brincar com elas, de jogar com elas. Gosto de surpreender e ser surpreendida. De ser engolida pela vontade de tê-las. Ser tragada por elas. Mas também de escolhê-las, misturá-las a meu bel prazer, degustá-las, feito misturas recém inventadas que levo a boca para me deliciar.
Ah, as palavras. Agora entendo o que o Pablito queria dizer...
A palavra
Pablo Neruda
Sim Senhor, tudo o que queira, mas são as palavras as que cantam, as que sobem e baixam ... Prosterno-me diante delas... Amo-as, uno-me a elas, persigo-as, mordo-as, derreto-as ... Amo tanto as palavras ... As inesperadas ... As que avidamente a gente espera, espreita até que de repente caem ... Vocábulos amados ... Brilham como pedras coloridas, saltam como peixes de prata, são espuma, fio, metal, orvalho ... Persigo algumas palavras ... São tão belas que quero colocá-las todas em meu poema ... Agarro-as no vôo, quando vão zumbindo, e capturo-as, limpo-as, aparo-as, preparo-me diante do prato, sinto-as cristalinas, vibrantes, ebúrneas, vegetais, oleosas, como frutas, como algas, como ágatas, como azeitonas ... E então as revolvo, agito-as, bebo-as, sugo-as, trituro-as, adorno-as, liberto-as ... Deixo-as como estalactites em meu poema; como pedacinhos de madeira polida, como carvão, como restos de naufrágio, presentes da onda ... Tudo está na palavra ... Uma idéia inteira muda porque uma palavra mudou de lugar ou porque outra se sentou como uma rainha dentro de uma frase que não a esperava e que a obedeceu ... Têm sombra, transparência, peso, plumas, pêlos, têm tudo o que , se lhes foi agregando de tanto vagar pelo rio, de tanto transmigrar de pátria, de tanto ser raízes ... São antiqüíssimas e recentíssimas. Vivem no féretro escondido e na flor apenas desabrochada ... Que bom idioma o meu, que boa língua herdamos dos conquistadores torvos ... Estes andavam a passos largos pelas tremendas cordilheiras, pelas Américas encrespadas, buscando batatas, butifarras, feijõezinhos, tabaco negro, ouro, milho, ovos fritos, com aquele apetite voraz que nunca. mais,se viu no mundo ... Tragavam tudo: religiões, pirâmides, tribos, idolatrias iguais às que eles traziam em suas grandes bolsas... Por onde passavam a terra ficava arrasada... Mas caíam das botas dos bárbaros, das barbas, dos elmos, das ferraduras. Como pedrinhas, as palavras luminosas que permaneceram aqui resplandecentes... o idioma. Saímos perdendo... Saímos ganhando... Levaram o ouro e nos deixaram o ouro... Levaram tudo e nos deixaram tudo... Deixaram-nos as palavras.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Verdadeiro

Não me bastam amores rasos, de pele e de cheiro. Quero mais. Quero um amor composto, plural, não singular. Quero para mim um amor de mãos dadas, que me acompanhe ou me carregue. Um que aceite a minha mão, não como prova e sim alento. Que me beije a testa como se beijasse a boca. Um amor não só de corpo, mas além d'alma. Um amor costurado sem emendas. Trabalhado sem trabalho. Um amor pleno, contínuo, sem necessidades de provas. Leve, vívido, não estudado em palcos ou visto em TV.
Um amor de pessoas, não atores. Um amor de amores.
Quero para mim do amor mais que o tudo, mais que o todo; de vir, não procurar. Que me invada as células e se deixe ficar. Suave, simples, sem medo de amar. Quero um amor não utópico, mas verdadeiro.
Singelo. Simples. Vivo. Corrente. Amplo. Entregue.
Como um rio que invade o mar.


Amplidão
Deixa eu te guardar a casa é sua
Faz em mim teu lar, me reconstrua
Queira me habitar onde eu me escondo
Faz deste lugar só seu no mundo
Eu quero ser onde você sossega a alma
Que chora e ri e encontra a calma pra sonhar sem dormir
Vem acender as luzes que iluminam o meu coração
Vem ter comigo sua parte da amplidão
De minha parte eu estou aqui





Bolinhos de chuva

Ontem á tarde choveu, fez frio. Meu pensamento foi às camas com colchas de retalho e ao cheiro de bolinhos de chuva. Tempo bom, de leituras e sonecas, de olhar a chuva pela janela, sem pressa que terminasse. Ver seus desenhos sobre a areia da praia, ouvir seu barulho no telhado baixo.
Ah, os bolinhos de chuva. Mistura misteriosa de farinha e afeto. Para acompanhar, quente café com leite, ainda do leiteiro que entregava na porta. Tal cheiro invadia a casa toda,
um complemento poético ao chover sem parar.
Ah, bolinhos de chuva, pequenos carinhos maternos. Medidas de olho na bacia, mexidas ligeiras com as mãos, bolinhas na colher, óleo quente no fogão. Calor do fogo, cobertura de açúcar e canela. Quanta doçura feita de tão pouca coisa, pequenas gostosuras devoradas por bocas também pequenas.
Para finalizar, dedinhos chupados, beiços lambidos. Feita a festa.
Ah , bolinhos de chuva, caixa de belas recordações. Álbum de belas lembranças.
Pedaços de bem amar.
Bolinhos de Chuva
Ingredientes:
1 ½ xícara de farinha de trigo
½ colher de sopa de fermento em pó
2 ovos
½ xícara de chá de leite
4 colheres de sopa de açucar
Óleo para fritar
Açúcar e canela em pó a gosto (num recipiente separado)
Modo de preparo: Misture bem a farinha de trigo , o fermento em pó, os ovos, o leite e as quatro colheres de açúcar. Forme uma massa bem cremosa. Deixe o óleo bem quente numa panela de forma que esse cubra os bolinhos que você irá fazer em seguida, com uma colher pequena ou média, formando uma bolinha. Leve ao óleo fervente , deixe dourar bem. Retire, escorra o excesso de óleo, coloque logo após em papel absorvente para retirar o excesso. Logo após, passe no açúcar já misturado com a canela, e sirva.
Rendimeto: 35 pedaços do céu e muitas crianças felizes.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Estratégia


Saber quando esperar, quando recuar. Saber quando não desperdiçar as energias na luta, mas ser paciente à sombra, sem forçar o destino. Observar. Ver as coisas nas entrelinhas, traçar estratégias - nem que seja a de nada fazer. Feito um pescador, analisar o mar antes de encará-lo. Sentir os ventos, estudar as nuvens, obedecer a natureza.
Recuar ou atacar. Esperar ou avançar. Sentir.
Num mundo em que nos proíbem disso, de parar para refletir, quanta energia disperdiçada. Quanto murro na parede, soco no ar. Quantas remadas em direção ao nada. Quanto fazer por fazer, cumprir por cumprir, se o saber está no silêncio, na parada plena, na pausa, e a estratégia no bem pensar. Já se falou em ócio criativo, palavrão para muitos. Virou moda os sabáticos, que hoje entendo e acredito.
Quem dera.
Respiro fundo, não querendo me afogar. Olho para o relógio enquanto observo meu filho, pacientemente tomando café, e penso: aproveita, querido. Tomara que tua geração saiba viver, e não se entregue tão levianamente aos desmandos do tempo.
A minha está tomada pela pressa que já disseram, sabiamente,
é a inimiga da perfeição...
O tempo é algo que não volta atrás.
Por isso plante seu jardim e decore sua alma,
ao invés de esperar que alguém lhe traga flores.
William Shakspeare

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Acorda!


No silêncio da madrugada, busco a inspiração para a vida. Eu e o silêncio, só. Eu com meus pensamentos, ele grande ouvidor. Há algo de benéfico, de fortalecedor nesta relação. Eu falo, ele escuta. Não interrompe, nem propõe, só escuta, e me olha com olhos de amor. Talvez dê respostas, por isso me acompanha, e eu me deixo acompanhar. No infinito do silêncio, procuro respostas. Estariam lá? Ou será ele grande companheiro a simples iluminar caminhos? No silêncio, muitas respostas. Cato-as, todas, e me ilumino, feito o sol.
Nele, arrumação de gavetas. Um infindar de arrumações e limpezas. Um infinito perguntar.
Uma infinita procura de saberes.
Daqui a pouco a vida acorda com seus risos e devo estar preparada. Acorda, menina, mais um dia começa, abre teu sorriso! Não vês que a vida é um jogo? Joga com tuas armas feitas de açúcar e afeto,
deixa na gaveta as pedras e os nãos.
Acorda, menina, e vai à luta!
Usa de tuas armas de sempre, teu sorriso e teu sim.
Levanta e vai!
Os poetas não são azuis nem nada, como pensam alguns supersticiosos,
nem sujeitos a ataques súbitos de levitação.
O de que eles mais gostam é estar em silêncio -
um silêncio que subjaz a quaisquer escapes motorísticos e declamatórios.
Um silêncio... Este impoluível silêncio em que escrevo e em que tu me lês.
Mario Quintana - A vaca e o hipogrifo

terça-feira, 12 de maio de 2009

Dia

Madrugo. Apesar do cansaço, a Vida me chamou cedo. Madruguei com o galo. Cai da cama, como se diz por ai. Mais uma parte da vida vindo, uma em 365 ou de uma vida toda, tanta.
Meu barco do dia me espera. O que será dele?
Há o conforto de sabê-lo em partes, fragmentos. Fazer café, beijar o filho, caminhar para relaxar o corpo e acionar a mente, organizar o dia, trabalhos a fazer, casa a zelar, um eterno levar e buscar, sair e entrar. Estudos, orientações, correrias, repetições e surpresas. Assim é um dia. O meu, o seu. Aqui, aí, do sul ao norte, leste, oeste. Chuva ou seca, frio calor.
Um novo dia a ser vivido. Bem vivido, se possível. E com ele , tentar ver a paisagem de forma diferente - aquela, que todo dia parece igual. Sentí-la diferente. Pense, não somos os mesmos de ontem. Nossa boca muda a cada beijo, dado ou recebido. Nossa pele muda a cada toque, nosso ou do outro. Nosso olhar está mais brilhante ou ressequido pelo dia de ontem. Nosso cérebro já tem mais informações, boas ou nem tanto. Tem mais sementes, que vão brotar quando a gente regar, com lágrimas de tristeza ou de felicidade.
Abro os olhos, um novo dia me espera. Fragmento de uma vida. Um pedaço dela já está nesta página.
Dou, enfim, bom dia à Vida, agradeço meu abrir de olhos, levanto e vou à luta.
Minhas armas serão meu sorriso e minha garra! Meu escudo, eu mesma, guerreira!
Importante se viver um dia de cada vez
Desvendar um segredo a cada dia
Sentir a vida em cada momento
60 segundos por minuto
60 minutos por hora
24 horas por dia
30 dias por mês
12 meses por ano
Vários anos em uma vida
E tantos segredos a guardar
Lex

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Aposta


Mais um dia começando, uma semana toda ai, bem na minha frente, e nela muita coisa para fazer. Segunda não é só dia de se organizar, como já falei aqui: é dia de escolhas também. E nada mais estressante do que ter que fazer escolhas. A vida se põe na minha frente feito vitrine de promoção. São tantas e tais as possibilidades que me paralizam. São tantos caminhos bifurcados, qual, ou quais - já que nem sempre são só dois - seguir?
Que escolhas farei? E quando as fizer, estarei certa disso? E onde vão me levar?
Não temos cartas de búzios nem cartomantes a nos guiar. Nem I Ching, Horóscopos e outras visões do amanhã para se basear - sabendo-se que parte de nós de nós a forma de interpretá-los.
Um eterno questionar-se. Um infindável mundo de escolhas.
Uma grande roleta. Muitos números. E uma só ficha.
É, a vida é um jogo. Segunda chegou.
Senhores, façam suas apostas!

domingo, 10 de maio de 2009

Z

Sou filha de poetiza.
Filha de mulher que escreve, declama, pinta e borda, em todo o sentido que isso possa ter.
Se herdei de minha mãe essas paixões - exceto o bordar, que o faço só na vida - não o sei. Se herdei dela a paixão pela vida, provavelmente.Se herdei dela a independência do meu ser, com certeza.
Se herdei dela tanto a garra quanto a teimosia, parece óbvio.
Talvez dela ainda a perspicácia, a autonomia, a dureza das verdades, a rara ironia. Também dela o desapego. Hoje, eu mãe, disso sei.
Faço o mesmo. Repito, mesmo as coisas que jurei não fazer. Deve ser porque estão certas. Estava certa.
Muito tempo questionando e criticando, o dobro repetindo e aceitando.
É, sou filha. Até o olho da cor do mar, o sorriso maroto, um não sei quanto de feição. Um não sei quanto de encantamento. Um outro tanto de deslumbramento, mais um tanto de orgulho. Um olhar que diz tudo.
Um sem palavras que é um discurso.
Mas principalmente um não parar, um não estar satisfeita,
um querer mais de tudo, de todos, da Vida, de mim, do outro.
É, sou filha, de um Z que me define. Um Z desfilado por todo o alfabeto.
Mesmo ao estar distante, porque mesmo o estando, perto estou.
Da sua teta, meu sustento.
Da sua teta, mais que leite: vida e letras.


Possuo um grande tesouro: minha ignorância.
Para mim é uma imensa alegria - vencê-la!
Se eu conseguir que os outros lucrem alguma coisa com aquilo que aprendo,
então minha alegria será dupla.
Desde que eu vá descobrindo coisas novas,
a vida vai ser maravilhosa,
embora demasiado curta
para tudo aquilo que quero aprender
Zeny Diehl

sábado, 9 de maio de 2009

Olhar

Certo dia escrevi : "Rugas são segredos em braille", frase latente que saiu do nada.
Ou do tudo, sem nem saber. E veio morar dentro de mim.
Hoje me peguei pensando mais profundamente nisso. Em frente ao espelho, analiso meu rosto. Olho com o olhar de hoje, não com os olhos de outrora. Olho de forma mais atenta, com mais compaixão. Admiro, sem medo. Meus olhos, meus segredos. Estão neles contidos mais de 16 mil dias de bem ou mal olhar. Mais de 16 mil manhãs a me espelhar. Já foi olhar inocente de criança, admirador de menina, crítico de adolescente. Depois, olhar ansioso de jovem, preocupado de mãe. Já foi um olhar perdido, de quem está sem rumo, sem prumo. Hoje, um outro, lapidado pelo tempo. Sereno, tranquilo, olhos de tarefa cumprida. Um olhar doce. Um olhar esperançoso. Um olhar de alma lavada. Um não sei o que do que virá. Tem outro brilho, sempre próprio. Um brilho maduro. Tem um saber, tem um amar, tem a plena aceitação de mim. Hoje me olhei no espelho e me gostei. Mas do que ontem, talvez menos que amanhã. Só a Vida responderá!
E a coisa mais divina
Que há no mundo
É viver cada segundo
Como nunca mais...
Vinicius de Moraes

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Faxina

Muros sendo pintados, calçadas sendo varridas, gramas ceifadas. Troca de flores, cheiro de terra, vai-e-vem do pincel. Caminho pelas ruas e vejo faxinas. Vejo reformas, limpezas, cuidados sem fim. No caminhar, pensamentos distantes, meus voos diários. Penso como seria bom se fizéssemos isso por nós também. Faxinas, arrumações, tirar as ervas daninhas do caminho, plantar nossas flores da estação. Quem sabe uma segunda de mão, um reforço de cor, um novo brilho no olhar. Um pano para o pó dos pensamentos estagnados , outro para o chão das idéias velhas, encrustradas. Cobertores de mágoas ao sol, toalhas de esperanças ao vento, idéias novas no varal. Dia após dia esse reformar, um tratar, não de cremes mas de ações. Revirar gavetas do passado, tirar excessos de tristezas, limpar com cuidado o que fomos e o que somos. Varrer sentimentos, juntar os cacos, limpar cantos empoeirados do coração. Polir palavras, ceifar defesas, enfeitar os argumentos com vaso em flor. Abrir-se para novos ventos, novos ares, renovação do ser. Cortar segredos que nos travam, abrir as janelas para o novo, deixar entrar o calor, borrifar extrato de amor.
Que bom seria se fossemos casa de nossa Vida, se a tratássemos como tal. Cuidaríamos dela todos o dias.
Um novo eu todo dia, limpo e livre de cracas,
de braços abertos,amorosos e renovados , para receber, enfim, a nova Vida, e fazer vale a pena.

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena?
Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
Fernando Pessoa

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Vida

Ah, o Outono...céu limpo de um azul sem terminar. Serra ao longe, sonho em voar.
Meu olhar vai longe e com ele os pensamentos.
Sigo minha caminhada pela Vida, hoje urbana. Mas minha vontade é do silêncio, meu desejo do frescor, alegria do aroma de uma caminhada em meio ao tudo. Ou em meio ao nada. Calor do sol em meu rosto,
som dos meus pés no cascalho, sintonia de pássaros e bichos, soltos.
Cheiro de terra, humus e flor.
Sinto o toque aveludado do musgo, seu perfume de homem, sutil. Sinto a força da natureza, energia da tua seiva, a me alimentar.Vontade de ir, só. Vontade de seguir. De me deixar seduzir. De me deixar chamar.
Sigo minha caminhada pela vida e para a Vida. Que cores terá? Qual sabor? Qual toque me arrepiará? Que cheiro sedutor irá me lançar?
Sigo minha caminhada para a Vida, pé ante pé. Sigo firme, vontade de confiar. Sigo alegre, e ela , a minha Vida, a me incentivar. Aonde me leva, não sei. Sigo, apenas, me deixo levar.
Seiscentos e sessenta e seis
A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são 6 horas: há tempo...
Quando se vê, já é 6ªfeira...
Quando se vê, passaram 60 anos...
Agora, é tarde demais para ser reprovado...
E se me dessem - um dia - uma outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio.seguia sempre, sempre em frente ...
E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas.
Mario Quintana ( In: Esconderijo do tempo)

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Palavra

Não me canso de dizer: palavras benditas são tudo para mim. Definição. Paixão. Fetiche.
Mais que brilho nos olhos e o sorriso farto. Definem feito linhas da mão para a cartomante. Decrifram o outro e me decifram. Gosto do jogo delas, do jogo com elas. Na brincadeira com as letras, a dança dos sentidos, o amor pelos dúbios. Não canso de lê-las, interpretá-las, enroscar-me nelas, encaixar-me, rir delas e elas de mim. Desenham-me faces, definem-me sabores, aquecem os já calores. Levam ao céu e ao inferno, loucura ou doçura dentro de mim. Em sua presença, de nada me sei, sou outra, definida por elas. Encanto-me sob efeito de varinha mágica. Viro criança, me vejo mulher. Sou o que me definem.
E quão doce despertá-las em alma que as desconhece: vibro se tiro do outro palavras que não sabe. Deliro ao tirar do outro esse desconforto de não falar. Arrepio-me ao saber do outro o seu olhar, sem sabê-lo.
Sinto o outro nesse jogo de meras letras, corpo e alma nelas tem.
Ah, as palavras, amo-as todas. E amo o outro, que as declara para mim.
"Consumo-me pensando, hoje sou diferente de ontem, de dias atrás. Não parece, mas mudo...e mudo às vezes fico, sem palavras. Ah! Amadas palavras as quais anseio dar-te...Colo, quero dar-te...a mão, o beijo, o abraço amigo, o amor incondicional que conduz e acolhe, revitaliza e ilumina-nos a caminhada. Tu és minha linda guerreira, paladina do verbo terno e lindo de sentimentos penetrantes, que me atrai tanto, e ainda carente e desprotegida se expressa terna e carinhosa consigo mesma...
Oh, alma menina, mulher!
Sigo contigo ainda que não me vejas..."
GL

terça-feira, 5 de maio de 2009

Alice

E viveram felizes para sempre...
Já podia terminar aqui meu texto de hoje. Já saberíamos o fim da estória, como em tantos contos contados ao pé da cama, lidos pela milésima vez ao anoitecer. Muitos, e no fundo, muito iguais.
Tantas estorinhas, tanta ilusão. Crescemos esperando o príncipe montado em seu belíssimo cavalo branco. Procurando sermos perfeitas por dentro e por fora como nossas sonhadas princesas. Lindas, perfumadas, delicadas, suaves bailarinas vestidas de rosa, pés em ponta. A bruxa má, sempre feia, não queríamos - nem queremos - ser.
Muito menos a gata borralheira, antes da transformação.
Como seriam os contos, tantos, se contados de forma real? Nossos príncipes trabalhariam, correriam atrás de ter seu grande castelo. Nossas bruxas estariam ai, pela vida, em qualquer esquina, sala ou escritório, muitas fortes e belas, hoje sempre capazes. Nossos sapos seriam beijados e virariam gente normal.
E onde estão as novas princesas? Batalham, correm atrás de seus sonhos, isso bem sabemos. Mas continuam a se encantar com sapatinhos de cristal (que custam caro...), tiaras brilhantes, vestidos esvoaçantes a esperar a primeira valsa. Se preparam princesas, todos os dias, frente ao espelho da madrasta da vida. E sim, continuam a esperar seu príncipe em seu belo cavalo , agora metálico, e bolso cheio de ouro. O mundo mudou, o tempo passou, e ainda não se contam estórias de heróis de carne e osso, de princesas com celulite. Talvez assim acabaríamos com os sonhos, diriam alguns. Que horror! , diriam outros. As estórias mudaram, nem somos mais os mesmos, mas continuamos fantasiando a vida em coloridas páginas à lápís de cor, perfume de flor.
E para, ainda assim, vivermos felizes para sempre.
Procura a maravilha.
Onde um beijo sabe
a barcos e bruma.
No brilho redondo
e jovem dos joelhos.
Na noite inclinada
de melancolia.
Procura.
Procura a maravilha.
.
Eugénio de Andrade

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Carta

Um passo, depois o outro, um dia de cada vez.
Assim deveríamos ver a vida...Passo -a -passo, dia-a-dia, uma coisa de cada vez.
Como se, ao abrirmos os olhos, logo pela manhã, uma carta perfumada tivesse, ali, ao lado da cama.
E nela, nosso dia.
Roteiro, pauta, caminhos, que bom seria. Sem graça, diriam alguns.
Confortável, diriam outros. Seguro, os mais precavidos.
Mas de onde viriam os rompantes? De onde os romances? De onde as escolhas sem pensar? De onde os riscos a correr? De onde viriam os beijos roubados, os olhares malandros, o falar sem pensar? De onde o se entregar? De onde a malícia da Vida, seu tempero, sua cor? De onde friozinhos na barriga e arrepios de amar?
Ah, Vida, minha carta quero florida, envelope de cor.
Perfume de rosa, recado de amor.
Importante se viver um dia de cada vez
Desvendar um segredo a cada dia
Sentir a vida em cada momento
60 segundos por minuto
60 minutos por hora
24 horas por dia
30 dias por mês
12 meses por ano
Vários anos em uma vida
E tantos segredos a guardar
Difícil compartilhar as coisas guardadas
Tão fácil compartir o tempo
Dar as costas às mágoas
E assim mesmo permanecer com elas
Fingindo que tudo vai bem obrigado
Que o sol não incomoda,
Que a chuva não deprime,
Que o relógio perdoa
E que a cadeira não está vazia.
Escrito por Lex , em um blog qualquer

domingo, 3 de maio de 2009

Ausência


Ontem senti um vazio, não sei porque, não sei de que. Uma falta.
Um ar que não veio.
Talvez seja falta da Vida, por vezes tão distante, mesmo que em mim.
Senti falta do sol que se punha, do dia que passou e nem vi.
Falta do ontem. Falta do viver o que não vivi.
Senti frio. Medo. Ausência.
Uma saudade do que ainda não veio. Uma dor sem sintoma.
Talvez influência de um filme, talvez a nua realidade do dia, talvez o talvez.
Ontem senti saudades de mim, saudades da Vida. Saudades de viver a minha Vida plenamente vivida. De tocá-la. Sentí-la nas mãos, sentir seu perfume, seu amor em mim. Olhá-la nos olhos, sentir o sabor de sua boca na minha, o calor de seu peito no meu. Sentí-la em mim, plena e inteira, dentro de mim.
Ontem senti saudades da Vida, essa ainda não tão bem vivida
como quero e mereço.
Mas espero, sentada à janela, vê-la chegar mais uma vez.
Se Deus quiser, para sempre.


Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.
Carlos Drummond de Andrade

sábado, 2 de maio de 2009

Sedução

Ontem, antes de entregar-me aos prazeres do bom sono, namorei a noite.
Senti seu frescor, seu perfume, senti sua carícia a me arrepiar a pele.
Deu uma vontade louca de não estar ali, entre casas e sons urbanos. Deu uma vontade louca de estar à sós com ela, a seduzir-me. Vontade louca de me entregar, de me deixar sonhar, de me deixar ...
Vontade do amor sem pressa.
Saudade do tempo em que arranjava tempo para olhar para o céu, sempre estrelado. Coisas de infância, penso. Mas que enorme peso tem em minha vida, nas diárias simples palavras. Qual influência nesse coração romântico que agora esquece de admirá-la. Quais marcas suaves deixou em mim, como as pintas pelo corpo, minhas estrelas. Noite estrelada, conversa fiada, juras de amor. Contar estrelas, contas estórias, contar.
Despojada do que hoje sou, mulher sem tempo, namorei a noite.
Entreguei-me aos seus prazeres, simples e honestamente.
Senti seu perfume, embriaguei-me com sua sedução. Escutei seu cântico de sereia noturna.
Deixei-me levar.
Fiz com ela um amor gostoso, sublime, amor de amar.
Ó noite onde as estrelas mentem luz,
ó noite, única coisa do tamanho do universo,
torna-me, corpo e alma, parte do teu corpo,
que eu me perca em ser mera treva e me torne noite também,
sem sonhos que sejam estrelas em mim, nem sol esperado que ilumine do futuro.
Fernando Pessoa

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Pássaros são poemas

Ah, o silêncio da manhã. Tudo quieto, tudo inerte, tudo encantadoramente inerte.
Hoje é feriado, dia sem pressa. Amo.
Ainda escondida na cama e já pensando na Vida, ouço os pássaros, tantos, em minha volta, tão alegres já tão cedo. Tento reconhecer seus cantos, não pelo nome, que não sei. Pela alegria. Parecem brincar, ou falar compulsoriamente como faço quando estou muito alegre.
Todo ano tem ninho na minha casa, hora na chaminé da lareira, hora na varanda que dá para o jardim. Disso me orgulho, feito filhos ou netos. Encanta-me a jovialidade, a destreza, o desprendimento. Os cuidados com os ovos, a proteção do macho e da fêmea, pai e mãe.
A defesa da vida, da continuidade. O rápido libertar.
Ontem escutei algo diferente, feito flauta de conto de fada. O tempo parou. Supreenderam-me as pequenas jóias de corpo verde, pescoço vermelho e topete azul. Tinham um canto diferente, feito tenores, não sei explicar. Hipnotizante, o que vi e o que escutei.
Meu coração se encheu de algo que não sei...feliz.
Pássaros são lindos mesmo , doces, todos eles enfeitiçadores do meu coração. São livres. São fortes. Poemas em movimento. Inspiro-me nas sempre simples e sempre tocantes palavras do poeta com cheiro de mate, Quintana, quando diz que poemas são pássaros...
Eu diria, meu doce imortal, que também os pássaros são poemas.
Poemas coloridos que não cabem na minha mão.

Os poemas
Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde
e pousam no livro que lês.
Quando fechas o livro,
eles alçam vôo como de um alçapão.
Eles não têm pouso nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mão.
Se partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhoso espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...
Quintana, Mário. Esconderijos do tempo. Porto Alegre,1980.
(foto que tirei, da minha varanda, dia qualquer de felicidade de vê-los...)