domingo, 3 de maio de 2009

Ausência


Ontem senti um vazio, não sei porque, não sei de que. Uma falta.
Um ar que não veio.
Talvez seja falta da Vida, por vezes tão distante, mesmo que em mim.
Senti falta do sol que se punha, do dia que passou e nem vi.
Falta do ontem. Falta do viver o que não vivi.
Senti frio. Medo. Ausência.
Uma saudade do que ainda não veio. Uma dor sem sintoma.
Talvez influência de um filme, talvez a nua realidade do dia, talvez o talvez.
Ontem senti saudades de mim, saudades da Vida. Saudades de viver a minha Vida plenamente vivida. De tocá-la. Sentí-la nas mãos, sentir seu perfume, seu amor em mim. Olhá-la nos olhos, sentir o sabor de sua boca na minha, o calor de seu peito no meu. Sentí-la em mim, plena e inteira, dentro de mim.
Ontem senti saudades da Vida, essa ainda não tão bem vivida
como quero e mereço.
Mas espero, sentada à janela, vê-la chegar mais uma vez.
Se Deus quiser, para sempre.


Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.
Carlos Drummond de Andrade

2 comentários:

  1. Queria eu estar ai e poder te dar colo...

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  2. A sua Vida é completamente envolvida na sua vida. Esse vazio é uma simples armadilha dos universos paralelos ( Bioy Casares ), que por um portal vacilante , lhe abriu em sueños...bjs do norte.

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