domingo, 24 de maio de 2009

Braile

Outro dia falei que os cegos devem amar melhor. Que pelo fato de não verem, não teriam o pré-conceito que temos em relação ao outro. De como o outro está no momento da descoberta. De como o outro é,
feio ou bonito, gordo ou magro.
Peguei minha mente fértil pensando nisso de novo. Fui longe. Imaginei um (re)conhecer o outro de vendas nos olhos. O timbre da voz, o primeiro segurar. O som da gargalhada, a perspicácia das palavras. Um aguçar, todos. O primeiro toque, o chegar-se. Os cheiros, sabores, calores. Jogo de contrastes. Quente, frio, seco, molhado. Um paraíso para os sentidos. Tesouros escondidos, achados em braile.
Quais vantagens de um amor cego? Muitas, além do erotismo. Ser vista com olhos de dentro, reconhecida palmo a palmo, surpreendida tempo a tempo. Surpreender. Tatear. Descobrir. Uma aventura sem mapas.
Pura intuição.
Reflito e afirmo: cegos amam melhor.
Não nos veem sob a lente do hoje ou do amanhã. Não nos medem com os olhos. Não nos olham com olhos de mídia. Não nos comparam com Giseles ou Marias. Não nos secam com seu olhar perturbador.
Apenas nos vivem. Amam-nos como estamos, como somos.
Eu que sei bem o que é o verdadeiro amor, esse meu que tenho pela Vida, sei bem dessa diferença.
Ah, os amores...seriam tão melhores de olhos vendados...
que venham os cegos!
Te procuro entre as sombras da paixão
E enquanto não te achar eu não sossego
O teu corpo ao passar da minha mão
Me ilumina, como o braile, o mundo ao cego
Pois te ler é um prazer que eu nunca nego
É como ter para esta vida, uma razão
E dessas noites de saber em que me entrego
Sempre levo uma ou mais outra questão
Então me guia, meu amor, então me guia
Que esta estrada tão silente jaz tão fria
Sem o som da tua voz, sem teu calor
E me alivia, meu amor, ai me alivia
Que viver sem jamais ver a luz do dia
É não saber sentir mais nada além de dor
Amor Cego, Trabis de Mentia

3 comentários:

  1. Voce é realmente gloriosa. Se pudessemos nos despir dos preconceitos, e sentir apenas a essencia do outro, com certeza seriamos mais felizes.

    ResponderExcluir
  2. Dada a tua complexidade como mulher, e tua beleza ímpar, melhor seria vedar-nos ao conehcer-te. Só assim reconheceríamos a mulher interior antes de nos hipnotizares com estes olhos da cor do mar...

    ResponderExcluir
  3. Vem neste texto tua beleza e teu interior. Mulher completa que és e nos dás cada dia um pedaço de ti nestas páginas, tamanho desapego. Mas eu, simples mortal, não me desapego de ti. Tento, mas dura pouco a minha vontade.Pois a vontade maior é de amá-la por inteiro, corpo e alma, e só assim me sentir um homem que ama.

    ResponderExcluir