sexta-feira, 8 de maio de 2009

Faxina

Muros sendo pintados, calçadas sendo varridas, gramas ceifadas. Troca de flores, cheiro de terra, vai-e-vem do pincel. Caminho pelas ruas e vejo faxinas. Vejo reformas, limpezas, cuidados sem fim. No caminhar, pensamentos distantes, meus voos diários. Penso como seria bom se fizéssemos isso por nós também. Faxinas, arrumações, tirar as ervas daninhas do caminho, plantar nossas flores da estação. Quem sabe uma segunda de mão, um reforço de cor, um novo brilho no olhar. Um pano para o pó dos pensamentos estagnados , outro para o chão das idéias velhas, encrustradas. Cobertores de mágoas ao sol, toalhas de esperanças ao vento, idéias novas no varal. Dia após dia esse reformar, um tratar, não de cremes mas de ações. Revirar gavetas do passado, tirar excessos de tristezas, limpar com cuidado o que fomos e o que somos. Varrer sentimentos, juntar os cacos, limpar cantos empoeirados do coração. Polir palavras, ceifar defesas, enfeitar os argumentos com vaso em flor. Abrir-se para novos ventos, novos ares, renovação do ser. Cortar segredos que nos travam, abrir as janelas para o novo, deixar entrar o calor, borrifar extrato de amor.
Que bom seria se fossemos casa de nossa Vida, se a tratássemos como tal. Cuidaríamos dela todos o dias.
Um novo eu todo dia, limpo e livre de cracas,
de braços abertos,amorosos e renovados , para receber, enfim, a nova Vida, e fazer vale a pena.

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena?
Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
Fernando Pessoa

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