sábado, 2 de maio de 2009

Sedução

Ontem, antes de entregar-me aos prazeres do bom sono, namorei a noite.
Senti seu frescor, seu perfume, senti sua carícia a me arrepiar a pele.
Deu uma vontade louca de não estar ali, entre casas e sons urbanos. Deu uma vontade louca de estar à sós com ela, a seduzir-me. Vontade louca de me entregar, de me deixar sonhar, de me deixar ...
Vontade do amor sem pressa.
Saudade do tempo em que arranjava tempo para olhar para o céu, sempre estrelado. Coisas de infância, penso. Mas que enorme peso tem em minha vida, nas diárias simples palavras. Qual influência nesse coração romântico que agora esquece de admirá-la. Quais marcas suaves deixou em mim, como as pintas pelo corpo, minhas estrelas. Noite estrelada, conversa fiada, juras de amor. Contar estrelas, contas estórias, contar.
Despojada do que hoje sou, mulher sem tempo, namorei a noite.
Entreguei-me aos seus prazeres, simples e honestamente.
Senti seu perfume, embriaguei-me com sua sedução. Escutei seu cântico de sereia noturna.
Deixei-me levar.
Fiz com ela um amor gostoso, sublime, amor de amar.
Ó noite onde as estrelas mentem luz,
ó noite, única coisa do tamanho do universo,
torna-me, corpo e alma, parte do teu corpo,
que eu me perca em ser mera treva e me torne noite também,
sem sonhos que sejam estrelas em mim, nem sol esperado que ilumine do futuro.
Fernando Pessoa

2 comentários:

  1. Invejo a noite...que poderes tem sobre ti!

    ResponderExcluir
  2. Bom dia, minha Linda!Despertas em mim sentimentos contrários, como amor e inveja. Amor por essa mulher sensivel e completa que és. Inveja dos sentimentos teus, que não direcionados a mim.Beijo-te!

    ResponderExcluir