terça-feira, 30 de junho de 2009

Maré


Li uma frase das que gosto, daquelas simples, e que me fazem parar para pensar: mares calmos não fazem bons marinheiros. Serviu como uma luva. Melhor, como uma bóia, um bote salva vidas. Na maré estranha em que me encontro, tal pensamento serve como um consolo, um mérito.
Minha praia tem se mostrado estranha, nada visível. Olho ao longe tentando enxergar o dia de sair mar a dentro, mas o mar está em dias traiçoeiros. No silêncio dele, muito de revolto, como a total falta de sons que agitam as energias antes do temporal. Ele está ali, bem na minha frente, esperando para dar o bote. Um tombo. Um afogar-me. Um levar-me sempre além. Um tirar-me o ar, um perder de mapas, quebrada de bússolas. Um perder-me.
Tentativa vã de me derrubar. E eu, respeito. espero a hora certa. Fui criada na beira do mar. Reconheço e respeito seus humores. Conheço muitos de seus segredos - e ele, dos meus.
Dele, muita sabedoria, muito lição a mim.
Sábios são os pescadores que ficam a esperar o momento certo de agir, lançar barcos e redes de pescar. Do mar, tirar seu sustento e seu ensino. Se não dá, deitam em suas outras redes, ficam só a olhar.
O mar seu chefe, eles a respeitar.
(Crédito da foto: Rose Diehl)

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Espera


Típica segunda. Some-se a sempre presente vontade de ficar pensando na vida, uma tristeza enorme. Uma mágoa infindável. Acho que foi o final de semana nada produtrivo, retida em casa pela chuva, frio e falta de vontade de viver. Fechou com chave de nada uma semana que foi produtiva, sim, mas de forma forçada e nada elegante.

O que me magoa? Tantas coisas. Mas, principalmente a força que as minhas vidas - sim, pasmem, tenho muitas, feito gato em uma só - têm me feito rastejar. Sinto-mo gosmenta, pesada, com um peso insuportável nas costas.

O que me pesa? Ver que tenho potencial, mas que uma de minhas vidas me afeta. Tirana vida. Falsa vida. Acha que em me tratando de forma insignificante, manter-me-á sob suas falsas asas. A outra fala que me ama, mas guarda para mim restos, sobras do seu ser. Retenho o olhar, analiso os fatos e vejo que, sim, tenho me deixado levar. Tenho me afogado nos mesmo erros, procurando os mesmos problemas, vivendo vidas que não são inteiramente minhas.
Vidas que não me bastam, não me preenchem, não me completam.

Ainda bem que sou fácil de me levar. Ainda bem que , para mim, um bom banho e uma boa prosa já me tiram do limbo. Talvez seja uma só casca, nada dura e fácil de lascar. Mas já é um começo, uma proteção sobre o inverno de minh'alma. Quem sabe se na primavera de minha vida eu possa me soltar...ser eu mesma, amar-me e ser amada como mereço.
Quem sabe nasçam em mim folhas novas.
Quem sabe até flores.
Quem sabe um renascer...bela margarida de meu ser!

domingo, 28 de junho de 2009

Mergulho


Mais que umas férias , onde a correria para sua preparação e até própria vontade de tudo fazer certo cansa mais que qualquer coisa, estou precisando de um revisão de mim. Uma revisão de meus valores. Uma parada total. Um ficar de papo para o ar, como se diz. Desligar-me. Desplugar-me. Um ver-me de fora, como num filme. Como num sonho.
Tenho me sentido sempre correndo atrás, de coisas e pessoas. Ou em uma eterna espera. Por isso, meu chá de sumiço. Quero que sintam se faço falta, coisas e pessoas. Esperar, eu sinto, cansa mais que qualquer outra correria na vida.
Quero um mergulho profundo, eu e minha Vida. Quero um silêncio interminável ao lado dela. Junto dela. Um olho no olho que tudo diz. Uma respiração longa e relaxante. Rever as coisas, passá-las a limpo, ver o que nos serve e o que não nos serve. Limpeza de minhas gavetas, e ela das dela. E depois da faxina, um banho relaxante, morno e suave. Um abraçar-se infinito.
Um carinhar-se sem fim.
A correria desenfreada me afoga, limita meu ser. Tira-me o ar essencial. Torna-me ofegante. Um dia , depois outro, como uma folha de calendário que se passa sem nada anotar. Uma folha em branco, sem cor . Por isso essa parada necessária. Um ar.
Quero minha vida como um diário, muita coisa para contar. Não em ações, desenfreadas, mas em silêncios, meus devaneios postados em papel.
Preciso de uma revisão, para que minha máquina não funda.
Meu mergulho num mar de ar.

sábado, 27 de junho de 2009

Colo


Teoricamente, cresci. Mas existem lembranças e sensações da infância que nunca passam. Vêm cheias de um perfume de outrora, cheiro de jasmim. Como dançar com os pezinhos apoiados nos do meu pai para dançar. Ou o doce e morno beijo na testa quando eu, já na cama,
preparava-me para dormir.
Mas nada substitui a doçura de um colo. Dois firmes braços me envolvendo feito concha. Ali, muito de calor, aconchego, ternura, amor. Muito de proteção, de aceitação, de bem querer. O abandonar-se no colo de alguém que nos quer bem traz uma sensação única. As intenções podem até mudar, até a forma, que pode vir como de um caloroso abraço. Mas a sensação é a mesma. Um aninhar-me. Um silêncio aprovador em forma de quietas palavras.
Um sussurrar de encantamentos.
Meu oásis.
Eu quero um colo,
um berço,
um braço quente em torno ao meu pescoço,
uma voz que cante baixo
e pareça querer me fazer chorar.
Eu quero um calor no inverno,
um extravio morno de minha consciência
e depois sem som, um sonho calmo,
um espaço enorme,
como a lua rodando entre as estrelas.
(Fernando Pessoa)

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Passos errados


Não dava para deixar passar em branco a morte de Michael Jackson.Seu jeito e suas músicas povoaram meu cérebro por anos, desde as belas apresentações com os Jackson Five, a quem eu amava.
A vida dele pode nos dar boas lições. Umas boas, de não acomodar-se com as coisas e até com o que somos. Deixados de lado todos os problemas que o afetaram na vida, não podemos deixar de vê-lo como um batalhador. E nem a coragem de assumir isso perante um mundo ainda e sempre muito preconceituoso.
E tem um lado, que teoricamente abominamos, da procura incessante da beleza, de ser outro. Na real, acho que todos temos isso dentro de nós. Não tão doentio, não tão taxativo, mas , assumo, temos. Não queremos ser como somos. Estamos em constante negação de nós mesmos e sonhando com o que gostaríamos de ser. Fisico ou mentalmente. Michael , eu diria, sofria de Síndrome de um Peter Pan Narciso. E quem não tem em seu mais intimo desejo?
Eu , por exemplo, já falei que queria ser ruiva. E ainda um tanto mais alta, um tanto mais magra, um tanto mais isso, um tanto mais aquilo. Sonhei, muitas vezes, com ter uma voz mais sexy (tenho voz de menina, dizem...). Ser mais tranquila em meus atos, ser menos intensa emocionalmente. Mais inteligente, mais sabida - não essa sabedoria rasa que me degola.
Ser mais, um monte de coisas que não sou.
Pena ele ter esquecido de sua essência: sua voz encantadora em
um príncipe que povoou muitos pensamentos.
Uma leveza e graça em forma de passos muito bem dados e infinitamente imitados.
Deixa-nos a lição de que a vida cobra, algum dia, nosso passos errados.


quinta-feira, 25 de junho de 2009

Aula


A discussão foi sobre sexo pelo sexo e sexo com amor. Claro que , nós mulheres, amamos os dois. Como dizem as revistas por ai, faz bem para a pele. Eu diria para o ego, esse nobre companheiro, mas que nem sempre nos ajuda.
Mas quando há um envolvimento maior, tudo flui bem melhor. Não tem começo nem fim, não tem um meio ou finalidade. Não é mensurável. Paixão, amor, seja o que for que esteja em jogo, dá um toque todo especial ao momento. Um tempero a mais. Como um "viagra" natural, sem contra indicações. Deixa de ser uma maratona de demonstrações, uma contagem de prazeres, uma satisfação física. Passa a ser um encontro de almas. Uma viagem ao mundo do outro.
Um encontro bem além do carnal. Como descrever essa sensação?
Um poema.
Assim poderia descrever um amor bem amado, um amor feito com amor. Não que deixe de ser erótico, mas suas rimas e ritmos são outros. Um amor bem amado não tem tempo, nem espaço. Não tem começo nem fim. Não tem porques. Um passeio em rio de calma correnteza, suaves corredeiras. Um viajar sem destino e sem pressa. Um deixar-se levar. Uma troca, do olhar cúmplice, do calor do aconchego, do silêncio que tudo sabe e tudo diz. Um olhar interno que nos entrega. Uma entrega do todo meu. Uma soma.
Amar com amor foi o que aprendi com a Vida. Aula de amor, aula de amar. Na nascente, revelamo-nos os dois: eu, entregue aprendiz, e ela muito a ensinar...

Eu quero um calor no inverno,
um extravio morno de minha consciência
e depois,
sem som,
um sonho calmo, um espaço enorme,
como a lua rodando entre as estrelas.
Fernando Pessoa

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Luz

Queria ser ruiva. E com sardas. Atraem-me. Meu olhar as segue até sumirem no horizonte de meu olhar. Não nego. Devem atiçar meu lado masculino, diriam. Nego. Atiçam meu lado mais pueril. Lembram um mistério que não sei. Talvez sejam feiticeiras que arrastam almas infantis. Mais que ciganas, das quais sempre fugi.

Ruivas me atraem. Não que não esteja contente com minha loirice e olhos de mar. Mas ser ruiva me parece como estar a um passo do céu. Ou bem ao contrário. Não passam despercebidas. Não para mim. Pedras preciosas em meio a tantas iguais.

Eu, não vim de toda má: tenho pintas. Pequenos pedaços do sonho de ser linda. Há quem não goste, mas para mim parecem marcas de algo bom. Como se a Vida as usasse para marcar em mim sua passagem. E, graças, há quem ame. Talvez pense como eu pensava quando era criança: pintas nos vem cada vez que apontamos para as estrelas. E isso eu fiz, e faço, sempre que me dou ao imenso prazer, já muito esquecido, de sonhar olhando para o céu negro com pintas de luz.
Minha pele é meu imenso céu, particular, de noite de lua bem cheia e de infinitas estrelas, cheiro de jasmim real.
Marcas de minha luz.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Sapo?

Recebi um e-mail que me fez rir. Dava dicas, assim posso dizer, para uma mulher não entrar pelo cano, usando essa frase antiga e igualmente engraçada, em relação aos homens. Frases do tipo, " se ele não te quer, não force". Ou "não espere dele a perfeição", ou "saiba onde está pisando". E esta, que achei ótima: " nunca revele tudo a um homem". Acho graça, desculpem-me as crédulas de que esses conselhos servem de algo. Relacionamentos, sejam eles de que naipe ou intenção, sempre são um acesso ao escuro, seja pé ante pé ou um louco mergulho de cabeça. Do simples ficar até o tão sonhado casar, por todas, admito, tanto faz. O mistério que os envolve é o mesmo, assim como nós também o somos. As coisas mudam, o mundo é mutável e incerto. Porque os homens não o seriam? E se o relacionamento é com base neles, não se teria outra resposta.
Se não há convívio, não há como conhecê-los. Só no dia a dia se vê sua real riqueza, seu real valor. E até lá, muitos encontros e desencontros, todos sem nenhuma garantia de retorno. Não é um sim, um não, um gosto ou não gosto. Nada é claro. Tudo é um jogo, em que mais se perde do que se ganha. E quanto mais se conhece, menos se sabe.
Eu, espírito de criança como sou, levo o processo bem de leve, devagar, na boa conversa, na boa risada, mostrando meu lado mais pueril. Sinto-me atraída pelo senso de humor, que, por si só, mostra , pelo menos para mim, inteligência. Mostra o saber lidar.
Já fui - e essa é uma das grandes virtudes do amadurecimento - de sofrer pelos cantos, romanticamente esperando que o outro viesse ao meu encontro. Esperando um retorno, uma aceitação, um agrado. Esperando o tal príncipe encantado montado no cavalo branco. Acho graça quando os reencontro e vejo que estão mais para sapos esperando serem beijados. Eu virei a princesa, dona de mim, o que faz toda a diferença.
Mas tem homens, sim, que valem a pena. A Vida tem me provado isso, todos os dias quando me dá bom dia. Não tenho medo de conhecê-los, e muito menos que me conheçam. Reconheço neles um valer a pena. Mas isso vem com o tempo, meninas. E só para aquelas que sabem o que querem. Talvez não venham montado em belo espécime, nem em lindos cavalos metálicos. Talvez não sejam lindos pelo lado de fora, mas por dentro, garanto, serão belíssimos. Basta vocês os amarem. Como homens, não como sonho. E não tenham dúvida de que, quando se tratar de Amor, assim com letra maiúscula, ah, aí, amigas, nem teremos como fugir... entram em nosso ser e lá se instalam, sem pedir.
E você vai gostar!

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Difícil

Estava lendo uma matéria sobre tristeza e de como não devemos negá-la, como faz parte da vida. Recebê-la e entendê-la, reconhecer de onde vem. Como um inimigo a quem se pode - e deve - diblar. E entregar-se, mas já pensando em como se livrar dela. Ou consumí-la da melhor forma, fazer dela lágrima ou pó.
Porque até princesas tem seu dia de gata borralheira. Ou de bruxa. O que nos cansa é a ideia enraizada de que devemos ser sempre felizes, custe o que custar. Mas as bruxas e madrastas da vida no rondam a todo momento, tentando-nos, esperando a hora de nos servir a linda maçã envenenada. Talvez porque sejamos mais belas que elas. Talvez mais amadas. Ou pelo simples prazer de nos ver sofrer.
Ser princesa não é fácil. Quem dirá ser uma menina-mulher normal como eu. Uma luta constante entre meus sonhos e o que a vida pode me dar. Sei o quanto ela me ama e sei o quanto é difícil me ver sofrer. E, se até para a maçã as intempéries trazem força e mais
benefícios a quem dela se alimenta, que dirá a mim, simples mortal. Então, recebo as chuvas fortes ou a seca de tudo, os ventos arrasadores e as tempestades assustadoras. Recebo-as de braços abertos para que me fortaleçam. Lembro que depois delas, das nuvens negras, um belo sol virá e fará surgir em minha face o mais belo sorriso, a mais bela íris.
...Não sabe a bruxa que meus olhos ficam ainda mais azuis quando choro...
Se antes de cada ato nosso, nos puséssemos a prever todas as consequências dele, a pensar nelas a sério,
primeiro as imediatas, depois as prováveis, depois as possíveis,
depois as imagináveis,
não chegaríamos sequer a mover-nos de onde o primeiro pensamento
nos tivesse feito parar.
Saramago, Ensaio sobre a Cegueira

domingo, 21 de junho de 2009

Sonho

Ah, os sonhos...
De olhos fechados ou bem abertos. Meu alimento. Uma vida paralela, talvez. Entraram em discussão em minha pauta. Uns acreditam que "os sonhos são feitos de realidades, da realidade dos pés no chão, do real suor do corpo". Não os meus. Deve ser essa minha criatividade em 3D, comentei.
Monto-os em minha cabeça, basta fechar os olhos. Viajo neles. Monto um filme em mim e para mim. Sou uma bela roteirista, pensei. Vejo cores, sinto sabores, temperaturas e cheiros.
E a conversa continua: "não são feitos de coisas virtuais, por isso passo às noite, tentando montar um rosário de sonhos, e nas contas do rosário, a química que faz os sonhos, precisa do cheiro da pele, precisa de saliva, precisa do calor do corpo, das manhãs frias". Poético, falei. Lindo, na verdade. Adoro provocar respostas às minhas indagações. Tirar deles, simples homens, o que de melhor têm para me dar.
Tirar dos sábios seus eus em simples palavras.
Mas sonhos, para mim, não são um retrato real do real. Ou o são, mas passados à limpo em papel suave, cheio de Vida. São palcos e seus cenários, onde tudo posso numa fração de segundo, em plena perfeição. Cenas de um enredo que eu mesmo crio, direciono e atuo. Livre. Sem as amarras do que sou, do que o mundo é. Quando abrem- se as cortinas, o show é meu,
e viajo para onde e com quem eu quiser.
Sou como você me vê.
Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania,
depende de quando e como você me vê passar.
Clarisse Linspector

sábado, 20 de junho de 2009

Out

Ontem fiquei sem Internet. Parece uma coisa tão simples, um fato a mais num dia que já amanheceu complicado. Dei-me conta de sua importância na minha vida. Se fosse um final de semana, ou as tão sonhadas férias, que bom seria (apesar de que não passei um só dia sem postar aqui meus delírios...). Mas em dia de semana - e sexta! - motivo de dor de cabeça a apreensão. Meu mundo não estava on-line.
Parei para pensar em como ficamos sem isso tanto tempo. Um mundo todo ao alcance dos dedos velozes e dos olhos curiosos. Basta um nome na busca e infinitos textos e imagens para nos absorver
(deveria ser o contrário...).
Basta um sim e um novo amigo surge, sabe lá de onde. Basta um toque e chamamos alguém de longe, muitas vezes desconhecido, para um alô. Gargalhamos com ele ou dividimos nossas angústias transformadas em palavras. Falamos com alguém que vive além mar como se estivesse aqui na nossa frente. Trocamos ideias, percepções e confidências sem pestanejar. Namoramos. Apaixonamo-nos. Matamos a saudade dos que amamos e estão fora do alcance de nossos beijos, todos eles.
Internet tem sua serventia, penso. Traz nosso amigos para bem perto, mesmo sem o calor do toque. Torna nosso mundo vasto e simples. Amplia nosso horizontes e nossa visão da vida.
Quem sabe nos ensina o verdadeiro caminho de amar. Um caminho do entendimento, das boas palavras, da convivência sem amarras. Do bom conhecer. Do entregar-se sem preconceitos. Pouco importa se sou baixa ou alta, gorda ou magra. Minhas palavras saem fáceis pois meu corpo não participa. Fica em segundo plano, sem o uso das caras e bocas.
Não tenho anseios de bem agradar.
Ali, sou eu mesma. Sem máscaras a me travar.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Semear

Se você quer ficar de mal com tudo, ligue a TV. Alimente-se dessa falta de criatividade e de tato que é essa máquina de tristezas. Mesmo sob o disfarce dos apresentadores, treinados para nos enganar, as notícias saem falsas, saem ruins. São ruins. Mesmo que no meio de tanta miséria humana, este rosário de infelicidades que teimamos em seguir, eles venham a sorrir para contar uma pequena noticia dita boa, o saldo sempre é negativo. Não gosto, e muito recebo de crítica por causa disso.
Não que não me interesse pelo que passa no mundo, longe disso. Mas briga de trânsito virar notícia no horário nobre e nos famigerados programinhas matinais, ai já é demais. Não me cabe. Aos errados, a celebridade. Aos necessitados, a exclusão. São tantas e tantas outras violências mascaradas pelo dia a dia, que se teima em não ver...
Prefiro rir de um tal presidente que mata uma mosca em plena entrevista. Parece mais sadio. Até mais sábio, se souberem disso tirar partido. Dá uma bela metáfora. Melhor das do outro que faz comédia do que é sério, que se vangloria das suas, sempre pobres.
Acredito na ideia das energias em volta de mim. Se libero as boas, elas circulam melhor. Refrescam minha mente e minha vida ao redor. Se sopro as ruins, enforcam-me, tiram-me o ar. Romântica? Pode ser. Infantil? Sempre, louvado seja. Sonhadora? Claro, senão não escreveria em simples palavras. E feliz, muito feliz, mesmo quando não deveria. Já dizem por ai: se rindo já é complicado, imagine chorando, resmungando, amaldiçoando. Entristecendo.
Prefiro sentir a criança que existe em mim e espalhar gomos de alegria, feito quando era pequena e soprava paraquedas de sementes. Para onde iriam, pouca diferença. Importante era a beleza do ato, as sementes ao vento, o danças rumo ao futuro. Importante era - é - o bom semear.


quinta-feira, 18 de junho de 2009

Algemas


Tenho inveja, da boa - e destas, tenho muitas - de quem tem o dom das palavras de forma sintetizada, inteligentemente resumida. Gota única capaz de mover um mundo em forma de oceano. Poucas palavras com a força de
um poema longo e desmedido.
Furacão de um único vento.
Não é mais segredo: estampa-se em meu ser. Minhas reações são viscerais. Reviro-me com poucas letras. Freiam-me com tão curto pensamento. Extasiam-me com tão longo alcance. Flecha certeira. Sinto-me vaga. Sinto-me lenta. Dominada, paralisada, entregue. Presa indefesa. Escrava.
Melhor ainda se me dizem inspiração. Eu sendo alvo, as palavras me dominando. Sequestro instantâneo de mim. Faço-me refém. Recebo-as, mesmo que incertas. Abro-me a elas, sem ver outra saída. Deixo-me levar.
Estendo meus pulsos.
Algemas.
Faz horas que minha palavra língua não te toca.
Faz horas que não toco seus olhos céu.
A.V.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Fases


Sol em Sagitário, Lua em Libra , Ascendente em Câncer, Lua na Casa 3. Lua na Casa 3 .
Sol na Casa 5 . Vênus na sua Casa 6. Saturno na Casa 7.
Esse é um resumo do que sou, pelo meu mapa astral. Enviaram, feito presente. Eu mesma, envolvida em papel de mistério. Acho que na urgência de reconhecer-me. Por vezes, um desvendar sem querê-lo. Mostrou-me como sou. Volúvel, volátil, em constante mutação. Criativa ao extremo. Mente em sempre e total imaginação. Emotiva e entregue. E muitas, muitas outras coisas que reconheço mas não sei se vale a pena falar.
Assim é. Os astros me desenhando ao nascer. Definindo meu ser. Mostrando meu jeito, traçando caminhos. Posso até mudá-lo, alerta o mestre. Está ali como um caminho. Como vou passar por ele, minhas escolhas, boas ou nem tanto, podem definir se será de pétalas ou duras pedras.

Sou complexa, eu sei. Um imenso iceberg . Uma pequena parte exposta, outras sete a desvendar. Um à tona raso , escorregadio para quem não sabe , ou não quer, reconhecê-lo. E tanto segredo submerso, até para mim.
Nada em mim é fácil ou definido. Nada definível, a não ser a quem se atreve a ver além da íris, cor e infinidade de mar. Na minha dita simplicidade, muito de complexo, muito de mim. Nas minhas pausas, muito por vir. No meu silêncio, toda uma história para contar.
Que me venham os exploradores, os corajosos guerreiros de peito aberto, os bons estrategistas. Aqui estou, a esperar ser desvendada. O mapa está ai, tesouro a encontrar!
Mas bem já disse Cecília: tenho fases, como a Lua...



Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!

Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha
Fases que vão e que vêm,no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário inventou para meu uso.
E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...
(Cecília Meireles)

terça-feira, 16 de junho de 2009

Futuro

"Quando eu disse ao caroço de laranja,
que dentro dele dormia um laranjal inteirinho,
ele me olhou estupidamente incrédulo."
Essa frase de Hermógenes, um ser iluminado pela sua simplicidade de ver a vida, serve bem para que eu dê bom dia à Vida. Um brasileiro que nada contra a grande corrente. E segue seu nado bem na paz.
Bom dia, Vida!
Não vou me deixar levar pelas notícias do dia, onde a intolerância e a falta de esperança ganham espaço. Onde a desenfreada busca pelo poder e pelo ter inunda as pessoas de certezas erradas. Uma busca do nada. E a Vida, desde sempre, e a cada dia mais, tem me feito ver meu lado menina, longe dos arroubos desnecessários. Ela me orienta, frente aos desmandos do caminho. Eu a regulo, dando a ela uma leveza da qual ela tinha esquecido. Ela me dá rumo. Eu a acompanho com meu sorriso de menina.
Uma troca. Meu amor com a Vida é uma troca. Ou mais para um completar. Uma felicidade por osmose.
De minha parte, ingênua e desmedida.
Meus arroubos.
Da parte dela, muito do necessário, do previsto, do traçado. Eu, o frágil , que fica forte ao lado dela. Ela , meu forte, mas delicadamente alimentado pelo meu amar. Dou-lhe leveza e companhia. Ela, meu prumo e minhas certezas. Sementes, somos. Sementes de um futuro bom, tranquilo e banhado de amor. Semente de árvore frondosa que espera a hora para desabrochar. Em nosssas semenstes,que se juntam no amor, muito de nós, um mundo interinho a desvendar.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Sabor


Ando sensível, à flor da pele como se costuma dizer.
Muitos perfumes me rondam, como se uma vida paralela estivesse aqui, junto de mim. Perfume bom, sem igual. Entra onde estou, inunda meu espaço e meu ser.
Um cheiro de nostalgia e de coisa nova ao mesmo tempo, nascente e domo.
Isso tem ativado também os gostos. Entram pelas narinas e me invadem, conjunto perfeito com os cheiros. Minha boca agradece. Minha língua diverte-se. Fruta, flor, musgo, fundo menta, pura clorofila. Mel. Gosto com cor. Gosto de Vida. Um mistura exótica e rara, sem definição por palavras.
E ao mesmo tempo tão reconhecida em mim...
Sem grandes explicações, como tudo que gosto e que me incita, sigo sentindo-os, todos, deliciando-me com o que a Vida me dá.
Sigo seus prazeres. Se me fazem bem, porque questionar? Melhor vivê-los, vivenciar o que a Vida me traz de bom. Ela sabe o que faz...
Quando estou só
Tudo à minha volta
É pleno odor
Uma delicadeza tênue
Sensível a olho nu
Por isso penso no azul
Um azul distante
De invisivel íris
No ar
Se estala um fremito calor
E estar só
É pleno , como desejo estar só
Quando ao seu lado estar
E mesmo só
Estar em pleno estar.


domingo, 14 de junho de 2009

Código



Minha teoria, uma de tantas, estava certa. Muito se conhece do outro antes mesmo de sabê-lo. Muitos connhecem meu ser antes mesmo de eu me mostrar. Talvez porque minha alma está nas palavras que escrevo. Muito de mim nelas, só visto , para os mais astúcios, na profundeza de meus olhos.
"Estava aqui pensado que gosto de seus textos, porque eles vivem em estado de pausa; são pausas silenciosas; pausa em busca de uma profundidade", disse ele, a me analisar.
Decifrava-me. Na troca constante de palavras e gostos - que amo de forma clara e aberta -
do que é belo e forte, muito de mim, muito dele, puro mistério.
Vejo, sim , pausas em meu ser. Nos textos, na palavras escritas e sabidas, no olhar, nos atos. Até nas imagens que capto, poesia pura. Talvez para não me expor. Ou talvez para aguçar. Um livre pensar. Um livre arbítrio.
Muito de mim no que chamei de reticências.
Três pontinhos que podem conter uma vida.
Um esconder-me.
Um ocultar-me a espera de que me decifrem. Ou apenas uma isca para que me descrevam.
Na vida clara, sei ser suscinta. Prática até demais. Mas nas imagens, escritas ou vistas, porque devo sê-la? Decifrada, deixo de ser desejo.
Decifrada, caio no esquecimento.
Que me procurem nas reticências...

Se queres me conhecer, decifra-me!
Antes que meu barco parta para o mar infinito,
viagem sem volta ao centro de meu ser.

Se queres me decifrar, escuta-me!
Falam meus olhos e meu escrever.
Neles, meu fio e meus caminhos a te mostrar no labirinto

Se queres me entender, cala-te!
Escuta meu silêncio.
Nele, muito de mim, tudo de mim, mais do que podias crer.
Nas minha pausas, eu, por inteira.
Nua e aberta.
Joyce Diehl



sábado, 13 de junho de 2009

Meu


Amar e ser amada é, pelo menos para mim, a coisa mais deliciosa do mundo. Mais confortante, mais real, e ao mesmo tempo mais difícil de reconhecer. Seja qual for esse amor, de pai e mãe, filho, amigo ou amante.
E tão dificil de descrever... e muitas vezes de entender. Um desprendimento,
um querer maior que a nós mesmos. Mesmo sem sabê-lo.
Mas hoje vou falar dos amores que se escolhe, não dos que nos vem. É primordial que o reconheça, que o assuma, mesmo que só em íntimo pensamento. Que se traga para dentro do peito para fazer morada. E aí, todos os dias, dele bem cuidar. Sentir como se fosse parte de nós. Ser em nós. Sentir sua presença constante, mesmo à distância. Senti-lo ao lado, junto, sem vê-lo. Mas sabê-lo junto, sempre, em qualquer ocasião.
Falo de um amor que não cabe em palavras, muito menos em explicações. Apenas vive-se. Inteiros e entregues. Alimenta-se dele, sem tirar-lhe as forças , e sim, fortalecendo-o.
Ah, viver esse amor é bom demais. Recarrega. Reforça. Rejuvenesce. Nos faz vibrar por inteiro. Mantém a nossa chama interna sempre acessa. Mantém nossa plena atenção na Vida.
Se tenho um amor assim? Claro, desde a Nascente.

Um amor que vive em mim, hoje e sempre. Fortalecido no Domo e esperando o momento sublime em que a Vida irá nos acolher...


Eu quero um calor no inverno,
um extravio morno de minha consciência e depois,
sem som,um sonho calmo, um espaço enorme,
como a lua rodando entre as estrelas.
Fernando Pessoa

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Jardim


Hoje acordei me sentindo mais amada que ontem, mesmo sendo impossível.
Meu corpo vibrando, satisfeito de tanto Amor. Como se tivesse sido amada pela Vida em cada uma de minhas células, em cada um dos meus poros. Como se de cada um brotasse uma flor, linda flor, fresca e perfumada, rosa vermelha macia e sem espinhos.
Nunca gostei de rosas vermelhas porque achava que não me cabiam. Mas hoje, vendo esse Amor da Vida em mim, recebo-as, todas, como que encantada. Sinto-me merecedora, enfim. Fizeram - e fazem - de mim lindo e feminino jardim. Meu corpo as deixa florescer com o forte húmus da Vida. Vêm lindas, fortes, coloridas, veludo carmim. Perfumam meu ser e as mãos que as plantaram, desde sempre. Refrescam meus pensamentos, onde viajo de mãos dadas com quem me aquece. Cheiram Amor, um amor eterno e sublime, que a Vida me ensinou a aceitar e viver eternamente.
Um amor silencioso e dentro de mim.
Um amor que é só dela e de ninguém mais.
Meu jardim, assim completo, só para ela.
O arrepio é quando,
por serem tão leves,
seus dedos conseguem,
em cada um dos meus poros
soerguer uma flor.
Rita Apoena


quinta-feira, 11 de junho de 2009

Ideal

Perguntaram a mim como seria meu par ideal.
Não parei para pensar, tratando-se apenas de uma pergunta,
não um "sim" frente ao padre.
Falei o que me veio à boca, direto do coração.
Não procuro deuses gregos, pois eles não quero um amor só de ver.
Nem atletas indomáveis, pois não me é o amor um jogo.
Nem tão pouco os jovens sem estrada trilhada e sem parada.
Meu amor ideal tem palavras na boca, de onde saem mornas.
Morno também seu colo a me aconchegar.
Tem histórias de vida a me contar ao pé do ouvido enquanto me abraça a me aquecer. Tem nos olhos mar manso, porto seguro a me esperar.Tem sorriso pronto, mãos que mostram o caminho, passadas firmes que me levam...
direto para a Vida.
Meu par ideal se sabe e me cabe. Não preciso ensinar...
Talvez não ser é ser sem que tu sejas,
sem que vás cortando o meio-diacomo uma flor azul,
sem que caminhes
mais tarde pela névoa e os ladrilhos,
sem essa luz que levas na mão
que talvez outros não verão dourada,
que talvez ninguém soube que crescia
como a origem rubra da rosa, sem que sejas, enfim,
sem que viesses , brusca, incitante,
conhecer minha vida, aragem de roseira, trigo do vento,
e desde então sou porque tu és,e desde então és,
sou e somos
e por amor serei, serás, seremos.
( Pablo Neruda )

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Sobre o escrever


Amo escrever, isso é fato. Necessito disso. Em vão querer mudar.
E para isso, preciso de um ponto de partida, um passo, um pensamento vago. A idéia - ou inspiração - que pode vir de qualquer lado. De qualquer coisa, vista, sentida , ouvida, pensada. De uma palavra, bem ou maldita. De um ponto, de uma vírgula. De um tudo ou um nada. De uma primeira letra a um turbilhão,
túnel de tempo.
E mais: escrever, para mim, pede momentos de distração. De abstrair-me. De afastar-me do caso. De ver as palavras escritas de longe. De analisá-las sem pudor. Assim cria-se em mim espaço para novas idéias - ou as mesmas, recodificadas, ventiladas, refrescadas pelo vento do novo. Um respirar ao cérebro e à alma. Uma maturação, talvez. Não em barris de carvalho, mas alojadas em mim, em lugar quente e abafado, bem como se proliferam as bactérias e os fungos. Feito praga boa. Peste que faz florescer.
Escrever pede distração. Uma distração focada, não dispersa no total.
Concentração de verdade só nos momentos de total abstração deste mundo, nas tantas viagens, reais ou virtuais, que a Vida me cata e me leva para conhecer novos mundos.
Aqueles, de coloridos a dourados, perfume de flor e musgo,
caminhos que só ela me sabe levar...

terça-feira, 9 de junho de 2009

Longevidade


Recebo muitos e-mails e vejo muitas matérias tentando ensinar ou ditar as boas regras da tão sonhada longevidade. Comer pouco, andar muito,
beber muita água.
Mas tenho minhas teorias, apesar de ainda não estar conseguindo levar ao pé da letra: bom humor. Noto o quanto a falta dele me faz mal - e a tantos outros. Como me zera o cérebro quando o deixo ficar. Quanto meu corpo o sente, e dói , e segura meus movimentos. Retrai meus músculos, começando pelos faciais.
Acelera minha respiração, retesa minha nuca, trava meu maxilar.
Feito veneno.
Pior ainda é saber que pode ser controlado, e não o faço. Deixo-me abater pelas armadilhas da vida que eu mesma deixei montar. E foram tantas, tantas vezes as mesmas, sempre repetidas que, se caio,
deve ter algum motivo.
Mas voltando a falar de coisas boas - já destravando o maxilar, tenho plena certeza em mim que meu antídoto para a velhice é o bom humor. O rir, ou pelo menos sorrir de tudo, ainda mais de mim, de meus atos tolos e desmedidos. Juventude vem de não levar a vida tão a sério, já dizia o livro do qual li o prefácio e joguei em alguma gaveta. Juventude vem do sorrir para a Vida, mesmo que ela não compreenda (e mesmo assim me ame!).
Juventude vem da palavra bendita que puxa o sorriso do outro.
É a paixão pelo saber, pelo bem querer, pelo bem amar. É paixão pelo bem viver.
Essa é a Dona Joana, 120 anos estampados nessa cara feliz.

Quero chegar lá - ou até a onde a Vida me levar - com esse sorriso nos lábios . Com esse gargalhar libertador. Com essa fome de viver cada dia de uma vez. Um viver simples, ao lado de um amor caseiro, doce e liberto, que me faça sorrir seja lá qual for o motivo - talvez uma simples troca de olhar.
Quero sorrir como Dona Joana,
pelo simples fato de estar viva e poder comemorar.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Segunda


Uma nova semana começa, já curta. Tem feriado por ai.
Agenda cheia, acúmulo de tarefas que não podem esperar.
É segunda, eu bem sei. Meu começo é lento, não dá para acelerar. Já disse aqui que gosto das segundas para me organizar, montar estratégias, fazer listas. Sou a rainha das listas - que faço por fazer porque
meu lado prático resolve as coisas como quer, sempre.
Bom, hoje é segunda, não há como fugir. Um início - que aliás já foi ontem. Lista pronta em minha frente: casa, filho, família, trabalho, estudo. Vejo que não deixei espaço para mim. Não deixei espaço para ser eu mesma. Não estou na minha própria lista de atividades. Não porque tenha me esquecido. Muito menos porque não me dê valor, mas porque são prioridades. Exatamente porque me amo, não listo as coisas que me deixam feliz. Ou que preciso. Porque delas eu sei, não preciso lembrar. Faço questão - ou pelo menos tenho feito - em me dar gotas de felicidade de forma homeopática, feito os florais que tomo.
Dou espaço para a felicidade tantas vezes ao dia quanto necessário. Abro-me para elas. Desconheço overdose disso. Nunca ouvi falar em efeitos colaterais. Pode ser um e-mail que mando ou que recebo. Um texto que me vem e escrevo. Uma conversa animada, real ou virtual. Um telefonema não esperado no meio da tarde. Um recado no celular. Um beijo roubado de filho, ou de amor.
Um novo apelido que ganho.
Um comentário que recebo. Pessoas em forma de flores.
São tantas e tão fáceis as maneiras de me fazer feliz que nem caberiam em uma lista.
Meu dia é um desenho, feito à mão com lápis de cor.
Tenho nele todas as cores do arco íris.
Faço dele um belo desenho do dia para, à noite, sonhar colorido...

Uma coisa eu sei sobre os começos.
Os fins estão sempre lá.
Uma coisa eu sei sobre os fins.
Não há nada nos começos que os impeça a chegada.
E as linhas vão trocando cores inevitáveis.
Ane Walker

domingo, 7 de junho de 2009

Maçã do Amor

Quando era pequena - em idade, porque minha alma ainda a é - não gostava de maçã do amor.
Pode ser pelo cheiro da fruta que, sem o doce, perfumava meus cadernos da escola no caminho a presentear a professora. Ou pelo cheiro de circo, tão intimamente ligado à ela,
nas tardes de riso por vezes forçado, na falta de outro.
E hoje, amo.
Gosto de infância, pode ser. Gosto das tantas coisas que só se gosta depois de perder. Cor, sabor, cheiro, lembrança. Encanta-me a casca, crocante doçura carmim, grudando no dente ao primeiro morder. E o contraste dela com um interior claro e suculento.
Adoro sentir a mistura de dois, doce e azedo, duro e macio,
fazendo farra em minha boca.
Talvez me encante o lambuzado infantil. Talvez o lugar onde a vejo, circo ou festa. Ou me leve a passear de mãos dadas com a minha criança interior, sempre tão presente e sempre louca para festejar com a Vida. Talvez essa criança me faça rir de sua travessura, de seu babar de felicidade, do pingo na roupa,
língua no lábio, dedo chupado.
Não sei porque, mas hoje adoro maçã do amor. Quem sabe pelo fetiche de ser acordada por um beijo de príncipe. Paixão pelo nome ou pela travessura, essa que me faz amar sorvete, picolé e jujuba.
Talvez sejam gulas novas, fugas da meia idade.
Quem sabe fome de passado.
Ou somente, e tão somente, minha moleca querendo viver tudo o que pode com a Vida.

sábado, 6 de junho de 2009

Estrangeira

Descobri um dos tantos porques eu gosto tanto de viajar:
o sentir-me "estrangeira", sentir -me como "outra", como desconhecida, "não em casa". Gosto de experimentar - coisas, conversas, línguas, pessoas, palavras, caminhos, lugares, comidas. Gosto do novo, do inusitado, do provocativo. E até da insegurança, da instabilidade que o novo traz. Misto de medo e mistério.
Perder-me de mim.
Ser uma personagem.
Ou ninguém, frente a tantos. Sem nome, sem títulos, sem rótulos, sem passado. Aventurar-me e me deixar aventurar. Estar livre, solta das amarras do dia a dia, dos caminhos de sempre, dos horários impostos,
das tarefas infadonhas.
Ver e viver novas coisas. Vivenciar outras coisas, respirar outros ares - novos, refeitos. Talvez esse sonho já tenha começado desde sempre, nas infinitas horas que passei falando sozinha, sonhando planejando, "viajando"enquanto olhava, atenta, ao mundo cerscer ao meu redor.
E eu nele.
Talvez viaje desde sempre, quando ainda sentava ao sol vendo a vida passar. Ou desde os tempos de muito caminhar de mãos dadas com a Vida.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Despenteada


"Hoje aprendi que é preciso deixar que a vida te despenteie,
por isso decidi aproveitar a vida com mais intensidade...
O mundo é louco, definitivamente louco...
O que é gostoso, engorda.
O que é lindo, custa caro.
O sol que ilumina o teu rosto enruga.
E o que é realmente bom dessa vida, despenteia...
Fazer amor, despenteia
Rir às gargalhadas, despenteia
Viajar, voar, correr, entrar no mar, despenteia
Tirar a roupa, despenteia
Beijar a pessoa amada, despenteia
Brincar, despenteia
Cantar até ficar sem ar, despenteia
Dançar até duvidar se foi boa idéia,
colocar aqueles saltos gigantes essa noite,
deixar seu cabelo irreconhecível... "

Assim começava o texto - logo e irresistível - que recebi de uma amiga que,
pelo teor do texto, conhece-me muito bem!
Sou mulher despenteada, menina faceira e despudorada diante da Vida. Não sou apaixonada por espelhos, nem muito menos escrava deles. Gosto de mim assim, como sou. Sem tantas regras, sem ser arrumadinha, sem ser escrava de nada que me segure. Deve ser essa minha alma moleca, teimosa em se manter feliz e viva, fazendo da Vida minha preferida e eterna brincadeira. Cuido de mim um mínimo, até para não me mascarar na frente do espelho. Cara lavada, na medida do possível. Roupa macia, continuação da pele.
Não faço o gênero fatal, não me cabe.
A não ser quando faço disso meu papel no cenário montado, no jogo saudável da sedução.
E neste jogo de menina-mulher, traço bem meu caminho. A Vida vibra e gosta. Conhece bem meus gêneros, sabe bem desfrutar de minhas muitas facetas. E mais ainda de me despentear...
Sigo feliz, cabelo solto ao vento, feito a menina de cachos dourados que corria na beira do mar...
De lá para cá, mudei por fora - condição de crescer. Mas a alma , ah, essa continua a mesma da
pequena catadora de conchas...



Meu mar

Quero apenas cinco coisas...
Primeiro é o amor sem fim
A segunda é ver o outono
A terceira é o grave inverno
Em quarto lugar o verão
A quinta coisa são teus olhos
Não quero dormir sem teus olhos.
Não quero ser... sem que me olhes.
Abro mão da primavera
para que continues me olhando.


Recebi este pequeno presente assinado pelo delicioso Pablo Neruda. Jóia rara. Tanta emoção em tão pequeno poema. Tanta sabedoria em poucas e amadas frases. Como tudo que vem desse poeta que me encanta justamente pela simplicidade das idéias e profundidade de sentimentos.
Falava de meus olhos, da intensidade deles, mesmo que em simples imagem. Mas se assim não fosse, como usá-los? Que serventia além de me mostrar por inteira, como sou?

De que serviriam além de ludibriar ou disfarçar o rosto já envelhecido pelo tempo?
Meus olhos, entre verde e azul, não me servem como alento ou máscara. São minha alma. Aos atentos a eles, nada de palavras - seriam redundantes. São feito túnel, caminho direto para me conhecer. Hora de menina, hora de mulher, mas sempre sinceros, sempre diretos. Uso-os como forma de conhecer o outro.

Penetrar nele, reconhecer no outro o que representa para mim.

Pequenos camaleões em meu rosto, mudam de cor ao sabor do sentimento. Vagam ao sabor da maré do dia. Pura vivacidade e luz. Reconheço-os como tal. Penetrantes. Intensos. Assustadores aos mais desprovidos de aventura. São meu espelho, não sei ser menos. Não sei ser outra. Só sei ser.
Sigo olhando o mundo do meu jeito. Sigo compartilhando com a Vida o que temos de melhor para nos dar. Encaro-a de frente, entregando a ela - e tão somente a ela - o meu melhor. E ela, apaixonada, submetida, reconhece nestes faróis toda a luz. Se perde neles, faceira . E se entrega também, na profundeza desse mar. Mar que Deus me deu e que sei bem navegar.


quarta-feira, 3 de junho de 2009

Folhas

Outono , ao contrário do que dizem, parece-me o mês das cores.
O céu está num azul infinito, não maculado por manchas brancas. A luz do sol incidindo mais de lado, não tão a pino, mostra um amarelado especial em tudo. Tudo parece brilhar mais, feito ouro. Tudo parece mais poético, sem o vibrante que ofusca no verão, mas não menos forte. Outono parece-me denso. Uma estação que não se impõe. Apenas espera. Está ai sua força, penso.
No esperar a sua vez, sábia estação.
Ah, e as folhas. Mortas, dizem. Mas aos meus olhos, lindas e vivas. As cores me encantam. Paro para admirar seus tons de verde pálido, seus muitos laranjas, breves toques de vermelho.
Ah, as folhas. Mortas, mas não para mim. Gosto das cores, de como mostram suas veias, de como se orgulham de suas rugas, do barulho que fazem ao dançar com o vento. E como dançam, felizes, desligadas do frio que me arrepia. Talvez dai venha o seu calor. Talvez dai o meu encanto. Da dança com a Vida, sempre tão receptiva, sempre tão amorosa Vida. Sempre tão caliente Vida.
Ah, folhas, se dizem mortas, mas com muita coisa ainda para viver.
Tristezas no chão
são folhas de ontem
que o vento carrega
Trecho da música Tristeza de ontem, do grupo Sampa Crew

terça-feira, 2 de junho de 2009

Menina

Menina de serenos olhos,
amiga daqueles que te rodeiam,
refletes nas tuas perfeitas feições todo o puro,
verdadeiro e sincero amor de tua alma-criança.
Festejo cada encontro nosso, recolho cada palavra de carinho,
imagino cada emoção sentida...
elevo o pensamento aos céus, depois da cada dia vivido,
respeitosamente pedindo a tua felicidade.
Impresso na foto está o teu rosto sorridente
colocado no porta-retrato da mente,
habituando-me eu, assim, à tua presença.
Busco compreender os vôos inquietos da tua fantasia,
riqueza permitida apenas ao mundo-criança.
Agrada-me saber que tens sonhos unicamente,
porque aqueces os corações neles penetrando com a força de teu carinho.
Menina, de Mardilê Friedrich Fabre
A cada dia que passa e a cada emoção que vivo - e como a vivo -
estou mais certa de ter alma de menina.
E ao receber esse poema, que não conhecia, reconheci-me como tal.
Ou sonho em tê-la.
Tocou-me a alma. A muitos deveria entristecer ou até assustar.
Para tantos outros, vergonhoso ser. Afinal, estamos no mundo para crescer!
Ah, mas a alma de menina, quanto encanto!
Alma feliz, correndo atrás de fantasias, aberta ao mundo, crédula de tudo. Alma suave, dos tempos de andar cantarolando na beira da praia, caracóis louros ao vento. De desenhar casinhas na areia e bem receber o amigo invisível.
Ah, alma de menina, quanta poesia em pele branca e farol azul.
Tua gargalhada, doce gargalhada, continua em mim.
Se a vida é uma passagem, breve como dizem, porque não vivê-la com os olhos alegres e puerís? Porque não aproveitar as pedras do caminho e brincar com elas?
Se o sorriso infantil abre mais caminhos que a seriedade adulta, quebra paradigmas, derrete icebergs, faz-nos mais felizes, porque não entregar-se a estes "desatinos"?
Viemos ao mundo cheios de encantos. Éramos pura suavidade. Fomos nos trancafiando na vida, dita de adulto, até sermos encarcerados pelo amanhã.
O hoje, vejo como um presente: abro e aproveito o que tem para me dar.
O hoje, vivo sim, feito criança.
Criança que a Vida ama , beija na testa e põe para dormir.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Caminhada

Meu domingo pela manhã é de um caminhar sem pressa. De preferência ao sol.
É uma delícia sentir a pulsação cada vez mais forte, o sangue circulando com mais vigor, os músculos sendo dominados. O suor vai chegando aos poucos, feito prêmio. É como se ele me limpasse das coisas mal vividas. A mente, que começa cheia de travas, liberta-se e traz pensamentos novos, livres dos pesos cotidianos. Sorrio por dentro e por fora. Meu bom dia sai mais fácil e de uma leveza que só a caminhada - pelas ruas
e pela Vida bem vivida - podem trazer.
Um elixir. Um banho de energia. Um novo sabor ao dia.
A sensação que tenho é prazerosa, durante e depois, do sangue circulando com vontade, limpando os caminhos, renovando-me por inteira: meu corpo, minha alma , meu ser.
Meu domingo pela manhã é de caminhar com a Vida. Saio sem rumo e sem hora para voltar. É como um preparar para a semana que se inicia, sabe lá Deus como. Ali, passo a limpo a semana que se foi. Passo a limpo meus atos e pensamentos. E abro uma nova página, limpa e perfumada, para a semana que se inicia.
Ali, estou nova, pronta para outra.
Ali, estou livre. Sou livre. Sou eu, passada a limpo.
Minha caminhada em direção à Vida.
A Caminhada
Tua caminhada ainda não terminou....
A realidade te acolhe dizendo que pela frente o horizonte da vida
necessita de tuas palavras e do teu silêncio.
Se amanhã sentires saudades, lembra-te da fantasia e sonha com tua próxima vitória.
Vitória que todas as armas do mundo jamais conseguirão obter,
porque é uma vitória que surge da paz e não do ressentimento.
É certo que irás encontrar situações tempestuosas novamente,
mas haverá de ver sempre o lado bom da chuva que cai e não a faceta do raio que destrói.
Se não consegues entender que o céu deve estar dentro de ti,
é inútil buscá-lo acima das nuvens e ao lado das estrelas.
Por mais que tenhas errado e erres,para ti haverá sempre esperança,
enquanto te envergonhares de teus erros.
Tu és jovem.
Atender a quem te chama é belo, lutar por quem te rejeita é quase chegar a perfeição.
A juventude precisa de sonhos e se nutrir de lembranças,
assim como o leito dos rios precisa da água que rola e o coração necessita de afeto.
Não faças do amanhã o sinônimo de nunca, nem o ontem te seja o mesmo que nunca mais.
Teus passos ficaram.
Olha para trás...mas vá em frente pois há muitos que precisam que chegues
para poderem seguir-te.
Charles Chaplin