sexta-feira, 31 de julho de 2009

Carmem


Escolhi um vinho, chileno, que se chamava Carmem. Valle del Rapel , safra 2006. Dizia-se feito em homenagem a uma mulher, amada. Escolhi por intuição, não conhecia. Desceu gostoso, desceu redondo. Poético até. Simpatizei-me com ele já na carta de vinhos. Talvez o nome, talvez a descrição que mais parecia uma poesia. Aliás, a descrição de bouquets sempre parecem poemas com seus toques de sabor, perfume de algo, fundo de fruta.

Bebi o Carmem com gosto. Taça grande, requinte ao servir. Gosto de detalhes. Gosto de cuidados. Fazem parte de um ritual. Sem eles o vinho perde a graça. Sorvi com calma, sentindo primeiro seu aroma, depois seu leve passeio pela boca até se convidar para entrar. Levou-me a uma breve viagem no tempo, pelas imortais terras de Neruda, como se nesse sentisse toda a sua caminhada, do amor da mulher ao sabor do primeiro gole da primeira garrafa.
Um vinho em homenagem a uma mulher. Para mim que sou uma fã incondicional de mulheres marcantes e de marcantes homenagens feitas a elas, - vinhos, livros, poemas - padeci. Achei romântico, achei belo, achei triunfal. Orgulhei-me. Como se ele homenageasse tantas e tantas Carmens que admiro, tantas e tantas que invejo a coragem, a destreza, a forma de ser. Já não era só mais um vinho, vinha nele muito encanto, muita magia, muita história para contar. Quem teria sido Carmem? Que encantos teria sobre seu amado? Teria sido esse amor correspondido? Ah, Carmem, quantos encantos terias para seres imortalizada sob a forma de um licor de Baco...
Bebi o Carmem com gosto. Um vinho, só, mas feito
um romance em forma líquida.
Um romance de cor púrpura.
Um romance que degustei de forma vagarosa, saboreando cada página. E amei.

Porquês

Se tem uma coisa que adoro, mesmo que me assuste à primeira vista, são os assuntos que não domino. Amo ouvir falar e ver as ideias novas adentrando em meu cérebro e deixando-o em uma espécie de pânico, um pânico sóbrio e sadio. Imagino meus neurônios estupefatos ou sentados em uma grande biblioteca a correr atrás de respostas, como se fosse um grande jogo.
Mais ainda quando sou instigada a pensar sobre eles: o que é realidade? e a linguagem?o que é comunicar-se? Perguntas que se parecem simples, mas tente definir, apalpar, segurar entre as mãos e parecem vento. As palavras vêm e fogem. Não são definíveis como pretendíamos. Nem nós, por nós mesmos.
Paro para pensar que nada é assim facilmente definível. Por isso nada é consenso. Por isso há o debate diário entre quem quer se expressar. Por isso as discórdias, aceitas ou não. Por isso os egos se degladiando. Por isso esse constante pensar em minha mente. E o constante rir-me disso.
Entendo agora - um pouco, rss - porque muitos entram em estados de segregação interna. Muitos se fecham. Deve ser ou porque discordam de tudo, ou porque amedronta-lhes a ideia de não saber. Amedronta-lhes a ideia de não ter as respostas.
E eu vos digo, simples mortais:
que se danem as respostas pois, como dizem brilhantemente por ai ,
o que nos move são as perguntas...

Vontade


Voltou a chover, uma chuva fria de inverno. Ainda bem que é final de semana. Acho que vou proclamar dia da hibernação. Tomar muito chá quente, pegar filme no vídeo, enroscar-me com o filho debaixo das cobertas. Aninhar-me. Entocar-me. Nem ver o dia passar.
Não me importo com o frio. Mas com chuva junto, parece que a umidade entranha na gente. Gela meu corpo, deixa-me estagnada - apesar que minha mente continua a mil. Então, vou usar de minhas melhores armas, minha alegria e meu espírito infantil. Quem sabe assim engano meu corpo e ele se acelera?
Dias de frio e chuva são dias de lembranças. Vem a imagem de minha avó, menos de metro e meio de calor, cheiro de banho tomado e alegria. Acho que herdei dela o ser criança, sempre, além da mania, desde pequena, de usar lenços no pescoço, quase uma marca registrada. E de comer! Chuva era sinal de ovinhos recheados e bolinhos de chuva. E de belos empadões do que tivesse na geladeira. Nem me importava de ter que limpar a cozinha, tamanha bagunça. Fazia do cozinhar um ritual, uma mágica, entre nuvens de farinha e de louças sujas. E nós a esperar o raspar de panelas, as lascas de massa.
Dela também a ideia de calor de colo. Era grande e quente. Cheiroso até. Macio. Desses que se procura até depois de tempos. Desses que se procura no colo do amado após o amar. Colo de sossego e carinho. Colo de amor.
Faço de hoje um dia perfeito para minhas carências. Perfeito para um colo. Pena não tê-lo como gostaria. Vontade de um colo satisfeito, ele de mim e eu dele, eu menina, ele homem. Eu sendo dele, ele minha vida. Ele me embalando, eu entregue.
Colo de não sair. Colo de amar.





quinta-feira, 30 de julho de 2009

Combustível


Sou, a despeito de muitos, uma mulher bem normal. Cheia de defeitos e dona de algumas virtudes. Uma delas, pesno, é ver os defeitos, muito mais do que as próprias virtudes. Como se não me desse direito de ser feliz, já dizia a terapeuta. Como se toda a culpa do mundo fosse minha. Como se tudo o que me acontece, bom ou ruim, seja merecimento. Isso traz alguns sofrimentos, mas também algumas risadinhas internas de aceitação do que sou,
do que gosto de ser.
Ou até do que queria ser, bem mais do que sou.
Uma de minhas maiores dificuldades é a de receber elogios. Seja como profissional, seja como pessoa, seja como mãe, seja como mulher ou como amante. E mais ainda de ser merecedora de atenção, de carinho, de um olhar terno ou um olhar mais atrevido.
Pego-me rindo por dentro, entre feliz e desconfiada.
Será mesmo que foi para mim?
Mas tenho recebido sim, muitos presentes. Versos, palavras, mergulhos ao mar. Mascaram as faltas que sinto de mim e dos meus sonhos, tantos. Mostram a visão que os outros têm de uma Joyce que mascaro, ou tento. Muitos me dizem forte, muitos guerreira, alguns mulher, outros menina. Muitos me vêem de uma forma que não me sei. Aceito, acato, não sem antes achar graça ou corar o rosto. Fazem de mim uma pessoa que não sei se sou. E se sou, não o sei. São meus álibis frente à vida. São meus presentes diários.
São meu mel, meu alimento.
Combustível que me faz seguir.
Se penetrar no seu corpo
É perder o que resta de mim
Prefiro a ruína
Se nas entranhas tártaras de si
Corro perigo
Na perda trágica do fim
E das mascaras ósseas do ser
Então penetro me em ti
Labirinto sem volta
Lar da minha perdição
Lar que meus ossos habitarão.
Labirinto, presente de Adu Verbis



quarta-feira, 29 de julho de 2009

Carente


Quem lê meu blog com frequência sabe dos tantos pecados que cometo. E do meu pecado mais frequente, entre tantos. E hoje não poderia ser diferente. Meu pecado do dia: inveja
Não sei se já falei aqui, mas se repito é porque é forte: tenho inveja de quem passeia de mãos dadas. Pego na mão de meu filho sempre que posso. Ainda bem que ele gosta, ainda. Acho que mais por mim do que por ele. Gosto do calor e do aconchego. De sentir que alguém precisa de mim - ou seria bem o contrário?
Mas minha inveja maior é de mãos enamoradas. Ou pelo menos amorosas. Ver um casal se dando as mãos, passeando pelas ruas, ou enquanto conversa entre si ou com outras pessoas, deixa-me até acanhada. Tento guardar em mim a tamanha inveja, o tamanho olho gordo, como se diz. Passa-me uma mistura muito boa de carinho, de gostar, de querer.
E quanto mais enrugadas as mãos que se tocam, mais inveja fico. Mostra cumplicidade, mostra carinho, mostra um importar-se que pouco tenho em minha vida. Invejo. Ao mesmo tempo que acho lindo. E espero que a Vida me dê isso , enfim, um dia. Quero sentir sua mão me levando. Quero que me mostre caminhos. Que me mostre que se importa. Que faça a diferença. Que supra tantos anos de mãos frias e sozinhas. Ou pelo menos me diga: olha, estou aqui,
sinta o quanto te amo.
Invejo mãos dadas que se amam.
Espero achar a minha mão-metade. Espero que não demore. Tenho mãos carentes.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Necessitada


Ando precisava de uma massagem nos pés. Não só pelo cansaço da vida, mas para massagear meu ego, sedento de atenção.
Massageio os pés de meu filho quase todos os dias, desde que me disseram que isso era bom para dar base aos pequeninos sonhadores de Peixes. É quase um ritual que faço, uma delicosa rotina guarada para sempre. Como um conversar, de corpo para corpo. Um reconnhecimento do outro. A mão que percorre todo o pé e, nele, todo o resto, pelos ditos pontos mágicos. A mão que afaga, a mão que esquenta, a mão que alivia. O carinho que tira os nós, do pé e da vida.
Mas ando precisada que alguém me massageie, os pés e o ego. Que alguém me dê atenção. Como se isso demonstrasse interesse, como se isso dissesse "eu me importo com você", como se isso provasse, de alguma forma, que também sou amada como amo. Alguém que me desse mais apoio, que estivesse ao meu lado, escutasse o que tenho a dizer. Que me desse colo, como sempre digo. Um calor, um oásis, uma proteção.
Ando sem rumo. Desorientada até. Percorro caminhos de uma via só, onde só se dá, sem uma troca. Vias de mãos simples: um dia cansam. Ficamos ali, eternamente à espera de um retorno. Como uma criança que espera o pai na cerca da casa, em pé, rente ao muro. Estática. Ansiosa. Carente.
Já fiz muito disso na vida. Esperar. Mendigar. Não gosto. Não me faz bem. Canso logo. Quero ser esperada. Quero ser massageada. Quero ser amada. A Vida me ensinou o que é bom e o que mereço. Menos que isso, não me vale a pena.
E ela , a Vida, sabe disso. Ela sabe. Deve estar só me testando. Ou vendo até quando fico, à espera, no muro...

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Saberes

Hoje recomeçam as aulas. Estou entre preguiçosa e feliz. Não é fácil voltar a estudar, assim, depois de tanto tempo, mas essa é a vida que escolhi viver. Escolhi as aulas a dedo, entre teorias e práticas, redações e textos. Escolhi pelo tema e pelos professores. Ainda cansada das férias que não tive, sigo entre curiosa e temerosa. Encantam-me os saberes, o conhecer pessoas e pensamentos, o me inserir nelas e elas no meu dia a dia. Hoje recomeçam as aulas e espero com elas mais do que um simples aprender. Espero aprender com elas um saber viver. Aprender não só com as palavras e com os pensamentos que me puxam, mas também com os sorrisos. Aprender comigo mesma, a me virar nesse mundo que ainda pouco conheço. Nele, muito do que quero para mim, esse levantar da letargia da vida, esse seguir em frente sabendo cada vez mais. Hoje recomeçam as aulas, e eu entre feliz e cansada, ainda, de umas férias que precisava e não tive. Talvez assim eu aprenda a fazer pequenas férias dentro de mim, pequenas alegrias no meu dia, pequenas viagens dentro da minha semana. Talvez eu note que não preciso de um calendário ditando quando e como viver bem, que eu não precise que me digam quando e como posso ser mais alegre, quando e como devo aproveitar melhor a Vida,
essa Vida que me ama e me quer sempre feliz!

domingo, 26 de julho de 2009

Abrigo


Pasmem: dormi numa barraca montada dentro da sala de minha casa. Havia prometido para o meu filho, desde sempre. E com direito a cachorro junto. A princípio, neguei - tive dias de cão, entre resolver problemas de trabalho e meus. Nem senti as "férias" passarem. Estava - ainda estou - em estado lastimável de cansaço fisico e mental.
Mas a culpa, sempre ela, tomou conta de mim quando cheguei em casa e o "circo" estava armado. Dentro da barraca, muitos cobertores e travesseiros me esperavam. E um filho sonolento, mas feliz, de olhos brilhantemente felizes. Fiz um escalda pés, tomei uma taça de vinho e me enfiei , muito desajeitada, em um mundo azul e infantil. Nele, calor e maciez, silêncio e surpresa. E uma sensação de aconchego que nem sei explicar.
No bom toque dos tecidos e no calor dos dois, muito de colo. Foi como o mundo azul tivesse me abraçado, como se a aventura tivesse me transportado para outro lugar. Uma infância de cobertores tampando beliches, de camas enjambradas em casa de tia, de cabacas montadas em meio à casa, tantas. Em rios de colchão em dia de visita, em acampamentos bagunçados da vida.
Enfim: a madrugadora de sempre abriu os olhos bem tarde. E viu duas carinhas mais satisfeitas do mundo pela aventura da noite. Repetir? Não sei. Talvez perca o encanto do novo, do não explorado. Mas ele, meu filho, terá mais uma "aventura de férias" para contar. Talvez a história se repita com seus filhos. Talvez a Joyce vó se deite de novo com os netos, talvez ela mesma dê a ideia, talvez, talvez.
Hoje dormi numa barraca na sala com cachorro e filho. Hoje ganhei colo e abrigo. Hoje dormi como nunca, feliz.

sábado, 25 de julho de 2009

Paixão

Outro dia falei de como amamos os amores errados.
Hoje falo de paixão, e como ela move o meu mundo. Sempre.
Preciso dela, do acordar ao deitar. Ela é meu combustível, meu incentivo maior. Como um fogo que alimento para que não se acabe. Pode ser no trabalho, na vida pessoal, no amor. Preciso dessa motivação maior. Não que não cumpra com as minhas tarefas diárias sem ela, mas diferencia minhas obrigações de meu fazer com prazer. Dá tempero. Apimenta.
Ele, o prazer, tem que se fazer presente em minhas coisas. Quando ele some, ou perde seu calor, perco o tesão, a vontade fica fraca, deixo de lado as coisas. Por vezes até ignoro, como se não estivessem acontecendo. Triste, mas real.
Vejo as pessoas fazem as coisas de forma automática, feito robôs, e por vezes invejo esse fazer por fazer. Seguem, sistematicamente, a fazer o que tem que ser feito. Do trabalho para casa, da casa para o trabalho, sem parar para pensar. Anestesiadas.
Invejo. Não sei. Nunca soube. Nem sei se um dia saberei. Na verdade, nem pretendo. Deve ser parte dessa menina rebelde que vive em mim. Não me adapto bem a muitas regras, a mesmices. Difícil viver assim, mas vou seguindo meu caminho. Ele que sabe onde vai me levar. Ele que sabe aonde vou parar. Mas, sempre, sempre de mãos dadas com a paixão...


sexta-feira, 24 de julho de 2009

Contagiante


Tenho verdadeira cisma com algumas naturalidades nacionais. Não invejem os demais, mas tenho verdadeira adoração por mineiros e baianos. Algo neles me atrai. Com mineiro, paixão de anos, que já foi até tema por aqui, a conversa franca que começa mansa e logo se está completamente envolvido pela empatia. A fala sem pressa, a conversa sempre interessante.
Com baianos - e aqui me refiro às baianas em especial, deve ser a simpatia e a "cara de pau". Se sou "pau de enchete" - como eu mesma me intitulei outro dia - elas são enchente de paus! Não só vão parando e enganchando aqui e ali, como nos invadem com sua alegria, contagiam -nos com seu sorriso e espontaneidade.
Maria é um caso destes, torrente de paus que passou pela minha vida hoje e me marcou - não sei se para sempre, mas por uns bons tempos. Veio de rompante, puxou conversa, foi , voltou e fez de meu dia um agito só. Um tsunami em forma de pessoa! Senti como se eu, que por vezes me acho uma enchente, comparada a ela, fosse uma garoa, dessas que nem molha. Arrasou. Não deixou pedra sobre pedra. Fez meu dia valer. Fez-me ver que viver vale a pena.
E que sorriso é contagiante.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Flores

Falam tão mal, revistas e ditos entendidos, de amigos virtuais, como se fossem fugas, meios de se esconder da vida. Eu discordo. Tenho alguns, poucos, ótimos e que me bastam. Comunicamo-nos quase todos os dias, coisa que pouco faço em relação aos parcos amigos ditos reais, sempre tão ocupados. Uns trocam mensagens, outros mandam cartões , outros flores. Recebo flores e carinho todo santo dia e todo dia não santo. Adoro quando me escrevem, quando se interessam pelas minhas coisas, quando me fazem rir ou até chorar. Talvez seja exatamentre pela falta de contato visual. Talvez seja pela mesma vantagem que vejo nos amores "cegos" , que não têm preconceitos bobos em relação a nós. É um mero conversar, mero conhecer sem demais detalhes. São conversas francas e desinteressadas de quem não tem nada a perder. Conversa franca e cuidadosa de quem tem muito a ganhar. Gosto deles, assumo. Sinto falta se não me vêm. Sinto falta se não nos encontramos no mundo de cartões e palavras escritas com cuidado. Sinto falta quando não mandam flores, nem palavras amigas ou cartões divertidos. Mas eles são poucos, mas muitos. Fiéis companheiros dessa feliz troca de emoções! São tantos Ricardos, Fernandos, Anas e Cláudias que me fazem feliz a cada dia, que me fazem feliz a cada click, a cada abraço. Mesmo que virtual.
A meus amigos, lindas flores. Vermelhas e perfumadas.
Com mandam para mim todo dia...


terça-feira, 21 de julho de 2009

Lixo



Sempre me detenho a pensar como são difíceis os relacionamentos. Como é difícil a convivência entre duas pessoas, sejam elas de família, de trabalho, de amor. Não é fácil agradar e ser agradado. Parece que estamos sempre em sinal de alerta, esperando o pior, em defesa de algo. A qualquer deslize, nosso ou do outro, uma avalanche. Pode ter saído de um floco leve de neve, mas se não estamos atentos, ou pior, se estamos predispostos, vira uma enorme bola de neve, que pode desencadear uma catástrofe, por vezes sem precedência.
Bem já dizia a roqueira que "o mal é o que sai da boca do homem". Grande verdade. E deve ser por isso que me calo e engulo, na maioria das vezes. Detesto discussões, detesto brigas, detesto desalinhos pessoais. Detesto deixar sair de minha boca coisas que magoem a mim e ao outro. Sinto um gosto amargo na boca. Sinto meus olhos mortos. Sinto minha pele sem vida.
Por isso me calo, guardo em mim o ruim. Por isso , penso hoje, tenho momentos de introspecção plena, como se tentasse consumir dentro de mim as palavras mal-ditas, mal-interpretadas, mal-intecionadas. Tento limpar de minha memória os momentos ruins, poucos mas fortes. Nem sempre é fácil - quase nunca. Nem sempre consigo. Mas seria necessário para não formar dentro de mim esse aterro atômico que volta e meia me consome.
Meu morrer aos poucos.

Pau de enchente


Estou pagando com a língua, como dizem por ai. Uma das maiores reclamações dos tempos de adolescente - hoje nem me atrevo mais - era da capacidade de minha mãe em ir parando pelo caminho, conversando com um, cumprimentando o outro, puxando papo adiante. Chamávamos de "pau de enchente", que vai passando e se engalhando, juntando coisas pelo caminho.

Hoje pago com a língua. Sou igual. E como é bom ser pau de enchente! Não que pare pelo caminho para cumprimentar conhecidos - estou longe da marca da matriarca nesse quesito. Meu "hobby" é me ater aos desconhecidos. Puxo papo daqui, paro para fazer uma observação ali e lá vem a conversa. Não sei seus nomes, nem de onde vem, alguns no máximo o que estão fazendo na hora, feito os garis das ruas. Gosto de saber das coisas, do papo improvisado, do saber desprevenido. Do conhecer sem preconceito. Da empatia da hora. Não me preocupo com o depois. Não em preocupo com a troca de cartões de visita
(a não ser que esse seja o objetivo da hora).
Bem já dizia a música, bem já cantava Elis: somos como nossos pais.

Eu, como minha mãe. Pau de enchente. Uma enchente não de tragédia, mas de alegria. Uma enchente que inunda meu caminho de cores variadas, sotaques e sorrisos. Uma enchente que traz alegria para mim e, espero , para quem pego no correr das águas de bom humor que há em mim. Extravaso o que sou. Extravaso a Joyce serelepe e curiosa que há em mim. Não há neste gesto, como pensava, nada de exibicionista, nem de pretencioso.
Apenas um viver. Um bem viver. E um fazer sorrir.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Perfumada


Estava eu aqui me lamuriando em como as coisas tem sido difíceis para mim, num momento que preciso estar forte. Queixando-me, a mim mesma, pelos pequenos percausos pelo qual tenho passado logo que resolvi sair da inércia e ajeitar minha vida. Dos tantos caminhos que peguei, entusiasmada, e cheguei a lugar nenhum.
E foram tantos...
Eis que me chega uma mensagem que se pretendia simples, uma simples troca de delicadeza entre amigas - destas que só falamos via internet, das que não conhecemos pessoalmente e que nos aquece o dia a cada contato. Nela, minha amiga fala que seria muito bom nos conhecermos pessoalmente, que seria bárbaro, mas que se "quedaria muda" ao me ver. Porque pareço um "anjo com olhos de céu". Que a encanta não só meus textos, mas minhas palavras,
minha conversa, minha sabedoria frente a vida.
Somos assim, eu e ela, um par de brincalhonas. Essa recifense "arretada" me manda mensagens em espanhol, as quais respondo em italiano. Uma brincadeira que nos relaxa, nos faz rir e cria uma cumplicidade que nos faz vibrar.
Assim deveríamos ser sempre, um doce na boca de quem tem fome, um céu na vida que quem está no escuro, um riso na face de quem chora. Assim deveríamos amar, sempre.
Aquecer no frio, mesmo sem saber.
Assim deveríamos ser, sempre:
uma mão que entrega flores
e por isso mesmo, perfumada.

domingo, 19 de julho de 2009

Silêncio

Ando necessitada de um deserto e seu silêncio absoluto, daqueles onde se escuta só a passada na areia. Necessitada da areia quente aos pés e do vento zunindo no meu ouvido, deixando-me surda ao mundo. De um horizonte infinito para descanso de meus olhos e de minh'alma, hoje cansada. Ando necessitada de mim, da Vida, e só.
Tive um final de semana dividido em pouco. Sozinha, e ao mesmo tempo tendo tarefas a cumprir, e problemas a resolver, dos grandes. Quebrei horários, desliguei-me do tempo, curti o nada até onde deu. Meu silêncio, necessário, foi bom, mas pouco. Mas a sua quebra com horas de muito movimento - na vida e no pensamento - deu uma média abaixo do esperado, do que necessito, do que preciso.
Tive o silêncio, mas não o absoluto que procuro. Não do silêncio que traz respostas, as tantas que preciso. Faltou o abandono das ideias repetitivas. Faltou o abandono das ideias negativas. Faltou o contato com a areia, o calor do sol em meu corpo, um deixar-me levar sem medo. Um horizonte infindo que me acalmasse. Faltou um entregar-me ao nada, ao ócio imprescindível, mas difícil. Faltou o mantra do tempo em meu ouvido. Faltou o nada.
Onde encontrar isso em mim que tenho só me deixado levar? Entrado nesse ritmo louco, moldado em segundos? Onde encontrar as respostas rápidas?
A Vida sabe do que falo. A Vida sabe do que eu preciso. A Vida pensa como eu - esses seres estranhos que somos tentando se moldar ao mundo real. Ela mesma me proporcionou os meua melhores momentos quando se perdeu em meus olhos de mar. Quando me amou pela primeira vez, um amar em silêncio. Quando provocou a nascente, o primeiro delírio. Quando me fez - e me faz - esperá-la sem pressa. Quando fez meu mundo parar para recebê-la, enfim, no domo. A Vida, minha eterna amada e companheira, sabe do que falo, sabe do que preciso.
A Vida, penso, só ela vai me dar o silêncio que procuro.
Ela é o meu deserto e o meu tudo.
Ela, a Vida, é o meu mundo.

sábado, 18 de julho de 2009

Desejo

Recebi hoje um vídeo com um texto sobre a pessoa certa e a pessoa errada. Diz-se do Luís Fernando Veríssimo, não sei.

Falava do óbvio, não aceito por nós: gostamos, sempre , da pessoa errada, da coisa errada. A certinha nos enjoa, cansa-nos logo. Tudo muito previsível, tudo muito correto, tudo muito ensaiado, cansa. Como uma peça ou um conto que já sabemos o final , sempre "feliz". Está sempre ali, capítulo a capítulo, meticulosamente ensaiado. Não nos provoca, não nos incita, não excita. É sempre morno, sempre o mesmo gosto, hospitalesco, sempre o mesmo prato na mesma hora, que um dia esfria.

Por isso gostamos dos amores errados, dos amores arrebatadores. Dos amores que nos esquecem por dias, ou nos alimenta com migalhas que corremos para catar, tentando matar nossa fome, agora implacável. Do sabor que se espera com ansiedade, sem hora para chegar, e nos vem deliciosamente arrebatador. Saboreamos cada migalha com um cuidado especial, sentindo todos os seus gostos, sentindo todos os seus prazeres. Saboreamos o momento com verdadeira paixão, sem saber quando e se será repetido. Zelamos por ele, tiramos e damos a ele o nosso melhor, numa tentativa de o marcarmos como nos marca. Na espera de que voltem.

Ah, os amores errados. Já chegam com gostinho de partida. Doce prisão, de deliciosas algemas que recebemos e nos deixamos usar. Podem doer, podem magoar, mas fazem nossa pulsação disparar. Fazem-nos vivos. E deixam um gostinho de quero mais.

Ah, os amores errados, sempre tão certos. Sempre tão meticulosamente certos.
Sempre nosso tratamento de choque.
Ai, como é bom errar!



quinta-feira, 16 de julho de 2009

Treino

Passada a síndrome da abertura do festival de dança - mas não o cansaço - e revisadas todas as coisas, dei-me ao luxo de sentar num canto qualquer - na imensidão de um lugar quase vazio, ao contrário da noite anterior - e ver uns poucos ensaios da mostra competitiva - a marcação de palco, acerto de luzes e sons. A aluna tentando acertar, a professora - ou seria treinadora ?- pedindo acertos mínimos. Um reiniciar repetitivo, sem cansaço, a perseguição de uma perfeição do que eu já achava perfeito. Uma ,duas, três, quatro vezes a mesma coisa, o mesmo passo, o mesmo repetir, a mesma procura. A voz alta e enérgica de quem manda, a tentativa incessante e incansável de acertar de quem obedece. Uma obediência cega e surda.
Que bela aula nos dá a dança. Pode ser um espetáculo de uns minutos ou de uma hora, quantas horas, dias, meses de treino para o acerto de um só passo. Quanta procura de acertos no já certo. Quantas aparas no já correto e perfeito aos olhos de quem admira - mas não de quem seleciona.
Que bela lição de entusiasmo, de interesse, de uma conquista árdua por tão poucos minutos de glória. Uma glória efêmera e vaporosa que se perde se não captada pela bela lente de algum fotógrafo mais atento. Um detalhe que se perde em meio a tanta beleza, somente visto pelos olhos de lince dos jurados. Uma aula de persistência, de manutenção de foco, de caminho árduo para o correto.
Se fossemos assim com nossas coisas, seria até bom. Mas nada divertido. E eu prefiro o viver, o bem viver. E sorrir, sempre, o ser leve, sempre que der e a Vida aceitar. Meu palco é o mesmo, minha procura pelo meu melhor, também incessante. Mas meu jurado sou eu mesma. E sei bem onde quero chegar!



Inveja

Ontem convivi cara a cara com belas manisfestações da arte. A arte que escolhi para receber o festival de dança - e suas todas formas de manifestação, a arte das palavras bem ditas - sempre arrepiando-me e deixando-me atônita, e a arte da dança - esta, de rua, onde se diz tão difícil achá-la.
Nas artes convidadas por mim, mil formas de manifestação. Fez-se o convite, deu-se um tema
e o resultado veio das mais variadas caras e cores. Ali se viu que cada pessoa é uma só, sua própria visão do mundo, seu olhar sobre a vida e, desta vez, sempre entre delicadas e divertidas.
A arte convidada da noite mostrou que a dança de rua tem, sim, muitos encantos. Nos malabarismos do corpo, nos sons escolhidos - mistura de muitos - , no jogo de imagens, na sua interpretação da vida, muito de cada um e muito de nós. Nosso dia a dia foi retratado de forma inusitadamente dançante. E quem há de saber de onde vem tanta ginga, esta brasileira, que supera muitas que se dizem mais famosas. Nossa alegria e nossa irreverência estavam ali , mostrada em corpos que parecia de mola.
Mas eu, ah, eu fui seduzida mais uma vez pelas palavras. Do discurso improvisado , mas meticulosamente desenhado pela alma. Separei com delicadeza o homem político do homem poeta. Quem conhece os discursos do governador de minha terra sabe do que falo. Tirou do número sete - da 27a. edição de um festival que nos é caro, uma viagem deliciosamente articulada pelas sete maravilhas do mundo, os sete mandamentos, os sete pecados, os setes dias da semana. E nos levou, atônitos, a uma bela paisagem de tantos setes, do mundo nosso ao mundo da dança, viagem sem volta que se instalou em minh'alma para sempre. Invejei a clareza, a destreza, a memória de tantos nomes e tantas vidas. Invejei a força de palavras que deixam um mundo de vidas, das mais diversas, mudo e perplexo, não menos que encantado.
Ah, o poder do saber, e o poder do saber fazer, saber passar, saber envolver. Do saber encantar a uma platéia de gente de todo tipo. O poder de fazer de um momento que poderia ser igual a tantos, mais uma lição de vida. Ah, esse poder, invejo. Faço dele meu pecado, entre os sete do dia.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Protegida

Proteção, de onde vem? Entre olhos gregos, velas e santos, fico com todos. Não que me limitem, nem que direcionem meu dia, mas é como se, na fixação de pensamento neles e em meus pedidos, eu me concentre para mais uma jornada.
E não o faço em vão - na maioria das vezes penso nos outros. É como uma parada em meio ao dia atribulado, uma concentração de energia, uma união de forças de dentro de mim. Um fixar o foco, logo cedo, nas coisas de maior importância. Como um agendar dentro de mim. Um organizar-me no que o dia tem de mais forte. Ou em quem está ainda
mais necessitado do que eu, tantos.
Meu anjo da guarda é meu guia. Vejo nele um companheiro, meu lado masculino, uma Joyce dentro de mim que me mantém na linha. Não tem forma, nem sexo, mas sinto toda a sua alegria e sua proteção em nossas conversas, sempre em hora quieta e reclusa. Levo puxões de orelha ou incentivos, muitos. Peço conselhos, reclamo. Conversamos muito, rimos ou choramos juntos, com as mais diversas situações. Um amigo, que sempre está ali quando eu preciso. Um guardião full time. Um amigo que não me larga.
Bom dia, meu anjo da guarda!
Meu dia começa e está de agenda lotada. Teremos várias reuniões de guardiões de outros pelo dia todo. E estou sossegada, confiante. Sei que estarás do meu lado, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, por todo o passar do dia. E que vais me ajudar a enfrentá-lo
com meu sempre e belo sorriso no rosto.
E meu olhar maroto.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Labirinto

Conta a mitologia que Teseu, um jovem herói ateniense, sabendo que a sua cidade deveria pagar a Creta um tributo anual - sete rapazes e sete moças, a serem entregues ao insaciável Minotauro que se alimentava de carne humana - solicitou ser incluído entre eles. Em Creta, recebeu de Ariadne, a filha do rei Minos, um novelo que deveria desenrolar ao entrar no labirinto, onde o Minotauro vivia , para encontrar a saída. Teseu entrou o labirinto, matou o Minotauro e, com a ajuda do fio que desenrolara, encontrou o caminho de volta.
Como prêmio, levou consigo a princesa.
Labirintos tem essa particularidade, esse mistério e medo, de não se achar a saída. São como cada dia que amanhece, todo ele feito de surpresas, se não estivermos trancafiados na rotina, se fechados ao novo. Mas, quem não amaria arriscar se tivesse um fio condutor, um seguro de volta? Quão boa seria a viagem se tivéssemos certeza do bem voltar? Quão deliciosa seria a vida se tivéssemos certeza de achar nela só bons caminhos?
Não, não se engane, não teria graça. São as muitas encruzilhadas, os muitos labirintos, os becos sem saída que nos dão tempero. Um arriscar que faz bem. Os frios na barriga. Uma aposta que não se sabe o prêmio. Nada melhor que ver a vida como um cassino, ganhar ou perder, a adrenalina da mesa de jogo, das fichas apostadas, do som da roleta. A empolgante espera de saber se as fichas estavam na casa certa...
Trajetos são precisos, escolhas mais ainda, uma a cada segundo. Sem elas, não há vida. Sem, elas , não há entusiasmo. E como único fio condutor, nossa intuição, nosso livre arbítrio, nossa pele que se arrepia ao menor aviso.
Eles, nosso fio de Ariadne.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Futuro


Recebo todos os dias, on-line, um trio fantástico: I Ching, Horóscopo e Biorrítimo. Para uns pode parecer exagero, ou tolice; para outros o máximo. Eu vejo como um conselho de alguém de fora - daqueles que a gente não gosta mas presta atenção (dos íntimos, não gostamos e não prestamos a atenção, certo?).
Divertem-me, no lugar de me direcionar.
Mas o que gosto mesmo é de quebrar a banca, fazer o contrário, provar a eles que estavam errados. Se dizem que estou sem energia, caminho mais vigorosamente do que nunca. Se dizem que o dia não vai ser bom para a relação, corro atrás. Se o caso é de falta de paciência, redobro meus sentidos, domo minha língua e faço de um tudo para estar calma.
Assim me servem os conselhos: escutos-os, já articulando uma forma de burlá-los. Se bons, algo fica dentro de mim. Se alertas, escuto e zelo. Se asneiras, acho graça e rio. Não me assustam , nem me freiam. São apenas bandeiras de salva vidas em dia de mar bravo, sinalizando o perigo. São nuvens que me avisam para levar guarda chuva. São placas de estrada avisando que o caminho é tortuoso. Não mais que isso. Se nem eu sei como me sairei no dia, quem dirá eles. Não sei quando serei caça ou caçadora nesta savana da vida.
E assim sigo, mais um dia, mais uma semana, mês, ano. Não sei de hoje, que dirá do amanhã. Mal sei de mim, quem dera dos outros. Sigo meu instinto de fêmea, atenta a tudo. Sinto o cheiro do perigo e o vejo nos olhos do outro. Abro meu coração para o dia e vou. E ele, o destino, que seja meu eterno companheiro nesta minha jornada.
Minha bola de cristal.

domingo, 12 de julho de 2009

Eu

Gosto - amo, na verdade - de saber o que pensam de mim, como me vêem, como me descrevem. É sempre uma surpresa - e veja , essa pode ser agradável ou desagradável - ver-me refletida na palavra do outro, na visão que o outro tem de mim. Muitas vezes acho graça - já me tacharam de chique e de arrogante - e outras tantas levo a sério. Em resumo: guardo o que me basta e que me serve, nego o que me reprime ou me isola.
Desta vez, descreveram-me como uma " mulher de mil faces, uma mulher complexa, que não se conhece de um dia para o outro". Que seria necessária uma vida inteira para decifra-me, para ser "cúmplice dessa complexidade". E completaram: "e o mais assustador, é, que
és ao mesmo tempo uma mulher simples...".
Assim me vejo, não com mil facetas, nem complexa. Talvez aberta a cada mundo que se expõe em minha frente. E sim, muito mistério, pois nem eu mesma me sei. Ou não quero revelar, nem a mim. Prefiro assim: que eu seja uma surpresa para mim mesma, um descobrir para o outro. Assim, mesmo a Vida, que diz me conhecer a fundo,
não cansa nem desiste de mim!


sábado, 11 de julho de 2009

Sensatez

Ando lidando com muita gente , pessoas que conheço bem, outras nem tanto, e tantas outras que são novidade para mim. Com elas tenho que resolver muitas coisas e administrar tudo da melhor forma para que as coisas fluam bem. E, sim, tudo acaba bem, na medida do possível. É o que chamo de administrar bem os egos, inclusive o meu.
Minha arma é o sorriso, o bom humor, o incentivo, mesmo que não seja o que realmente penso. O meu eterno "pedir com jeitinho". Não é aqui uma questão de ser falsa ou verdadeira. Vem da minha mania , nada genética, de administrar da melhor forma os pequenos conflitos (mesmo que fique o ranço dentro de mim!) para que não virem guerra sem motivo. Isso parece sensato quando se lida com uma equipe onde o que merece atenção é o resultado bom e bem resolvido. No fim, já diz o ditado, tudo acaba bem.
E isso, penso, vem de criança. Fazia de um tudo para não incomodar ninguém. A sempre certinha, a sempre queridinha, a pequena que administrava, a seu modo, o conflito do mundo dos adultos. A que engolia - e engole - sapos para que não se multipliquem.
Se estou agindo de forma certa ou errada, não sei. Muitas vezes os sapos entalam na garganta. E me pego pensando se vale a pena, extravasando meus sapos pelos poros e lágrimas. Lembro, então, de um lembrete da Vida, sempre sábia, em um dia de conversa informal - destas que amo porque aprendo muito: briga não se compra, ela vem de graça!
Se estou agindo de forma certa ou errada , não sei. Mas levo sempre um belo estoque de sorrisos a pronta entrega, já que da vida não se leva nada a não ser os laços que se criou. E os sorrisos que se deixou pelo caminho...

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Bom dia, Vida!

Dia atípico. Aproveitei o primeiro dia de férias do filho e perdi a hora. Quebrei a rotina. É como se a Vida tivesse me amado a noite toda , tivesse saído quietinha e deixado ao lado da cama uma delícia qualquer. Um pequeno sabor, uma pequena dádiva,
um belo potinho de energia.
Acordei mais viva que nunca, apesar da chuvinha fria lá fora. O dia me espera , cheio de surpresas e acordos, de decisões e conflitos a serem administrados. Tomei um bom café - destes, de domingo - sem pressa. Olho para fora otimista de que tudo vai dar certo. Mesmo com a chuva.
Que capacidade é essa do Amor que me invade e me torna mais feliz? Que força tem sobre meu corpo e minh'alma? Penso nas coisas de forma simples, de escolhas simples, se quero hoje ser feliz ou não. Parece difícil, mas acho que não é. Vai depender do que sair de mim em forma de palavras e jeitos de olhar. Vai depender do jeito que receber os embrulhos do presente. Vai depender de como receber o outro em mim. Vai depender de mim.
Mas o dia está ai para ser vivido. Vou saborear os bombons deixados pela Vida, sentindo ainda seu beijo morno na minha testa, e levar um pouco - ou muito dela - para saborear durante o dia. Assim, a cada momentinho de frio interno ou de calor exagerado, lá ela estará para me dar prumo e respiro, balizar meu bom senso e
me manter feliz, como ela quer.
Bom dia, Vida!

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Segredo

Acho engraçado alguns paralelos que crio em minha vasta mente, sempre aberta à novas ideias. Outro dia confessava que alguns cheiros, como de café e de carne, são mais apreciados por mim do que seu próprio gosto. Como se me interessasse mais a espera, a expectativa, do que a satisfação total do desejo.
E, de fato, não somos sempre assim? A espera, o flerte, a caça, nos parece mais prazerosa que a própria conquista. E assim somos, com tudo. Desde a roupa nova ao novo amor. O prazer maior está até o conquistar. Um limite, tênue, entre o querer e o ter. Um prazer que vai até a primeira satisfação, o primeiro saborear. O gole final não tem mais o sabor da espera. Já não tem mais o sabor da prosa, não tem mais o sabor da lábia. Não tem mais a malícia.
E no amor, como seria? Ah, no amor tudo muda. O tal cheiro dura enquanto dura o amor. Como se a cada dia tivesse um cheiro diferente, um novo gosto ao degustar. Com um novo café a cada dia. É ser o mesmo e ao mesmo tempo ser outro. O mesmo bom dia chegando aos ouvidos amados de forma diferente. O mesmo gosto da boca com mil gostos diferentes. O mesmo olhar sendo outro a cada dia. A mesma mão percorrendo o amado por caminhos não revelados...
Ah, no amor, tudo muda se se é amado. Quem me ensinou? A Vida, que deve ter aprendido com Drummond...
Para entender uma mulher é preciso mais que deitar-se com ela…
Há de se ter mais sonhos e cartas na mesa que se possa prever nossa vã pretensão…
Para possuir uma mulher é preciso mais do que fazê-la sentir-se em êxtase numa cama,
em uma seda, com toda viril possibilidade…
Há de se conseguir fazê-la sorrir antes do próximo encontro
Para conhecer uma mulher, mais que em seu orgasmo,
tem de ser mais que amante perfeito…
Há de se ter o jeito certo ao sair, e fazer da saudade
e das lembranças, todo sorriso…
- O potente, o amante, o homem viril, são homens bons…
bons homens de abraços e passos firmes…
bons homens pra se contar histórias…
Há, porém, o homem certo, de todo instante:
O de depois!
Para conquistar uma mulher, mais que ser este amante,
há de se querer o amanhã,
e depois do amor um silêncio de cumplicidade…
e mostrar que o que se quis é menor do que o que não se deve perder.
É esperar amanhecer, e nem lembrar do relógio ou café…
Há que ser mulher, por um triz e, então, ser feliz!
Para amar uma mulher,
mais que entendê-la,
mais que conhecê-la,
mais que possuí-la,
é preciso honrar a obra de Deus, e merecer um sorriso escondido,
e também ser possuído e, ainda assim, também ser viril…
Para amar uma mulher, mais que tentar conquistá-la,
há de ser conquistado… todo tomado e,
com um pouco de sorte, também ser amado!”
Carlos Drumond de Andrade

terça-feira, 7 de julho de 2009

Procura



Teu olhar é uma luz no fim do túnel
Teu sorriso é sossego
Teu abraço é calor no fim de junho
Teu colo meu aconchego
Eu me esqueço em seus braços
Se deixar nem me lembro
Meu tempo, meu espaço
Meu mais seguro esconderijo
Teu olhar meu mundo protegido, protegido

Meu medo vai embora
Se você, se você me olha
Meu medo vai embora

Quando você me olha..


Essa música, embalada pela voz belíssima de Luciana Mello, mais parece um sonho. Ouço toda vez que preciso relaxar, devanear.
E sonhar. É tudo o que espero de um relacionamento, de um amor. Um oásis, um lugar de descanso, de entrega. Um deixar lá fora o dia que passou. Um descansar armas. Um esquecer-me do dia para viver um outro mundo, por vezes irreal.
Sonho infantil, romântico demais? Pode ser. Mas de que valerá um amor se não for com a intenção de me abstrair a mente das coisas diárias, das coisas que se tem que viver, mesmo não sendo escolha? Fazer-me mergulhar em um mundo a parte, cheio de boas intenções. Ou pelo menos, passar a limpo o dia.
Amor para mim é isso, um aconchegar, um porto que me recebe de braços aberto pós tempestade. Um sorriso que me atrai ao bom assunto. Um olhar que me consola. Um colo que me recebe sem restrições.Um momento de paz a dois para deixar meu medo ir embora...



Spa


Estou necessitada de praia. Sou. Estou quase em crise de abstinência, tamanha vontade. De uma caminhada ao sol, pés na água salgada e gelada, passadas na areia morna. Uma bela massagem nos pés e na vida. Um descarrego completo. Um olhar perdido no mar, o escutar de seu mantra. Não há para mim nada mais repousante. Nada mais resgatador de mim mesma. Nada mais ativador de minha essência. Um mero caminhar lento no sol me faz nova. Um caminhar sem pressa e sem batimentos fortes. Como um deixar levar-me.
Quando pequena tive a sorte de conviver com o mar. E desde pequena, amo fazê-lo. Um rir sozinha, um falar internamente, um silêncio meu que agora me falta. Uma terapia. Uma meditação. O massagear de pés no chão, o aliviar de pernas na água, um libertar-se de pensamentos, um perder-se de vista. Um Spa, só para mim.
Completo o desejo - já que desejo não se paga, por isso posso pedir muito - com um demorado mergulho. Tratamento intenso e interno. Limpeza geral de meu corpo e de meu eu. Sentir o vibrar da pele e a leveza do meu ser. Sentir-me inteiramente entregue e renovada, o corpo vivo e a alma lavada. Meu banho de vida. Eu, nova, para ela.
Eu ontem passei o dia
ouvindo o que o mar dizia.
Chorámos, rimos, cantámos.
Falou-me do seu destino, do seu fado...
Depois, para se alegrar, ergueu-se,
e bailando, e rindo,
pôs-se a cantar
um canto molhado e lindo.
... os poetas a cantar são ecos da voz do mar!
António Botto, em 'Canções'


segunda-feira, 6 de julho de 2009

Mergulho

Enquanto lia uma reportagem sobre sexo e seus prazeres, fui longe. Eu e meus devaneios, sempre tão produtivos. Pensei: não se conhece a si mesmo antes de um bom sexo. Não se sabe até onde se vai, até onde nos deixamos ir. Penso que seria muito bom ter uma certa amnésia do que somos, de quem somos, do que aprendemos, do que já vivemos, gostamos e não gostamos. Um encontro às escuras, com o outro e com nós mesmos. Não saber de nós nem o próprio nome e se deixar levar. Um amor de vendas nos olhos. Um amor sensorial. Um quebrar de barreiras impostas. Um muro de regras e limites.
No olho no olho, no conhecimento do outro, medimos o reconhecimento, adormecido. Privamo-nos de nos conhecermos a fundo, tamanhas imposições. Como seria bom soltar as amarras e amar intensamente! Deixar de lado os pudores e os tabus. Derrubar tantos e tantos muros intransponíveis. Viver livremente o que queremos viver, sentir intensamente o que podemos sentir. Libertar-nos do que fizeram de nós.
Ah, mas não falo aqui do sexo desmedido, de amor qualquer, de amor de uma vez. Falo do amor sentido n'alma , intenso. Por ele levanto a bandeira. Por ele questiono as regras.
Para ele é que quero me entregar.
Sem limites.
Um jogar-me no abismo do amar.
E eu sinto a menina brotando
da coisa linda que é ser tão mulher
O santa madura inocência
o quanto foi bom e pra sempre sera
E o que mais importa
é manter essa chama até quando eu não mais puder
E a mim nao me importa nem mesmo
se deus não quiser
"Infinito Desejo" , de Maria Bethania

domingo, 5 de julho de 2009

Navegar

Nossa língua, como é complicada! Tenho por ela sentimentos dúbios, avessos, por vezes contrários. Medo e paixão. Tesão e ódio. Um perder-se infinito. A mais nítida impressão que é feito um buraco: quanto mais se cava, mais profundo. Quanto mais sei, menos sei. Contradição e compreensão.
Claro que estou falando do português correto. Do lindo português que parece um mar, tamanha sua extensão e profundidade. Desse navegar constante à procura de seus saberes. Uma aventura pelo seu descobrimento. Um achado de tesouros, que comemoro feito pirata. Baú de jóias raras, encontradas após longa procura.
Falo do português perfeito, do mais que perfeito, cheio de seus pretéritos e futuros, indicativos ou subjuntivos. Não do que se fala e se houve nas ruas. Não do português monossilábico e desvairado que sai das bocas de linguagem própria. Não da língua das gírias intermináveis. Nem da eterna possessão de americanismos. Falo de um português que tem poesia em sua alma. Uma língua que tem melodia em seu dizer. Longe ainda da melodia das ondas do lusitano, mas ainda assim poético.
Mas, claro, não posso deixar de amar a língua de cada terra. Do tempero dos sotaques de lugar. Dos cantadinhos sulenses, dos preguiçosos do nordeste, dos sem pressa mineiros, dos erres carregados do interior, cada um com seu sabor. Estes, sim, tem uma aura própria,
tem sabedoria popular e muita estória para contar.
A esses, curvo-me, e me apaixono ao escutar.
A esses a permissão de "errar".

sábado, 4 de julho de 2009

Pulsação

Estou feliz, de novo. Ou pelo menos tentando o ser. Não que tenha resolvido os problemas e entraves que me travam, mas recuperei meus ares de guerreira, pós luta não vencida mas, pelo menos, assimilada e assumida. Paro para ver que a Vida é assim mesmo, um eterno levar. Uma eterna batalha do que quero e do que tenho, ao alcance das mãos e dos sonhos. Ou que mereço. Ou esse tal de merecimento seria algo que incutiram na minha cabeça?
Destino? Não sei. Está escrito nas estrelas? Tanto faz. Recebo, de novo, a Vida com a coragem que ela merece, apesar de falha. Ela não me tem sido muito atenta, largando meu coração ao Deus dará. Talvez seja inconsciente. Ou pela sua própria incapacidade de se auto administrar. Pela sua própria incapacidade de se adequar ao mundinho ao redor. Talvez a Vida não consiga viver bem a sua própria vida. Esqueço que ela é humana, tamanho o apreço que lhe tenho. Parece-me uma deusa, algo intocável. Por isso meu apego, meu egoísmo infantil. Sei que não é só minha, mas me é única. E isso é o que importa. O que me importa.

Uma bela e fortalecedora maneira de a ver.


Vida, minha vida,
Olha o que é que eu fiz
Deixei a fatia mais doce da vida na mesa dos homens de vida vazia
Mas, vida, ali, quem sabe, eu fui feliz
Vida, minha vida,
Olha o que é que eu fiz
Verti minha vida nos cantos, na pia
Na casa dos homens de vida vadia
Mas, vida, ali, quem sabe, eu fui feliz
Luz, quero luz,
Sei que além das cortinas são palcos azuis e infinitas cortinas,
com palcos atrás
Arranca, vida, estufa veia e pulsa, pulsa, pulsa, pulsa, pulsa mais!
Mais, quero mais
Nem que todos os barcos recolham ao cais
Que os faróis da costeira me lancem sinais
Arranca, vida, estufa, vela, me leva, leva longe, longe, leva mais!
Vida, de Chico Buarque


sexta-feira, 3 de julho de 2009

Peso


Ah, a eterna briga com a balança, o eterno confronto entre o que eu quero e o que eu posso. A mim parece mais uma mera substituição de outros quereres. Um colocar para dentro o que não consigo colocar para fora, esse engolir a seco que me ronda. Um teste de limites, um chato teste de vontades, na qual sempre fui reprovada. Gosto dos sabores e prazeres, muitos, de vários tipos e naipes, e não controlo os que tenho ao meu alcance. Bons tempos os das mulheres parideiras, retratadas nuas e faceiras em quadros de belo gosto....felicidade retratada.
Como já bem disse a música " tudo o que eu gosto é imoral, é ilegal ou engorda". E minhas gulas são muitas. Não me enquadro em processos fechados, nem a regras muito precisas. Muito menos a manuais e modas. Preciso de uma certa - grande - maleabilidade para bem viver. Necessito de vez em quando de quebrar correntes, soltar amarras. De libertar as ideias fechadas. Devorar o que amo. E amo questionar, e por isso muitas vezes sou incompreendida.

Não veem em minhas palavras dúvida, e sim contestação.
Minha fuga? Comer. Ou escrever. Isso quando não disparo a falar...
Não me adapto bem a casúlos. Minhas asas são muito grandes, minhas ideias espaçosas, apesar de extremamente simples -são direcionadas a simples pessoas e seus ouvidos simples, não a troféus, nem a títulos. Não me adapto bem a clausuras. Principalmente as de comportamento e viveres. Não me cabe deixar de viver por estar infrigindo normas impostas. Minha consciência do que sou não me deixa quieta na fila indiana.
E assim sigo, num eterno adaptar-me, por vezes doloroso, muitas vezes engraçado. Pegando meus caminhos, entrando em atalhos, fugindo da formação.

Vivendo. E do meu jeito, sendo feliz.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Amores



Recebi uma mensagem que me tocou fundo. Sobre o amor. Eu que falo tanto dele, não havia refletido deste outro lado do amor, tão essencial em mim. Do lado de dependência do amor. Do amor como um sentimento unilateral. E está certa a mensagem, apesar de minha relutância.
Amar depende do outro, não se ama sozinho. E nem se tem poderes e certezas sobre ele. Muito menos sobre o amor do outro, nem sempre refletido em nós como e o quanto queremos. Isso é real. Nada romântico, mas real.
A mensagem trouxe um trecho do livro "As mais belas questões da filosofia no cinema"do filósofo Ollivier Pourriol, que dizia : "Amar não depende apenas de nós. Amar é depender. Depender de um objeto que pode sempre nos escapar, uma vez que não formamos senão um com ele. Se amamos uma pedra, é fácil , podemos ficar tranquilos guardando-a em casa ou conosco. Impossivel fazer a mesma coisa com um homem ou uma mulher. A bem da verdade, não podemos sequer ter certeza de que a pedra nunca será roubada, perdida ou quebrada. Na medida mesma em que ela nos é exterior, em que não faz parte de nós, dependemos dela se a amamos. Amar um ser humano é ainda menos fácil, por dois motivos, pois, primeiramente, não estamos seguro do amor do outro,e, em segundo lugar, não temos certeza da duração,
da perenidade desse amor ".
Mas quanta coisa há de se guardar de um amor. Quando amamos, e nos entregamos a esse amor, tanta coisa muda em nós. Transpiração, inspiração, fôlego, feições. E quando se vai, ah... quando se vai...deixa uma marca, sempre e para sempre, como uma lembrança de não ter sido em vão. Feito um sinal, uma tatuagem. Basta um perfume, um aroma, uma risada, uma voz, um nome, e tudo volta à tona feito um vendaval. O tempo volta, feito túnel do tempo. Tudo volta, sem avisar. Cheiro, gosto, cor, calor, sabor. Como se o tempo não existisse,
passado e presente em um só lugar.Adicionar imagem
Ah, e o que se dirá de amores que vem surgindo ou ressurgindo ? De rompante ou de mansinho, alojam-se em noss'alma , retém nosso espírito. Feito sol de inverno, vem de mansinho. Damos atenção, pedimos seu carinho, não vendo o perigo. E que calor podem dar!
Amores são amores, os de ontem e os de hoje.
Não são meus, são da Vida.
Mas deles muito a guardar!

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Prova


Assisti mais um episódio de "Troca de família". Para quem não conhece, programa onde há a troca de mãe ou pai entre duas famílias, para uma convivência de uma semana. Um laboratório, um "reality show" sem modismos, sem ensaios, nem a esperança de virar astro. Fazem por um valor em dinheiro, onde o pai ou a mãe "trocados" decidem onde a outra família deve gastar.
Vi, pela primeira vez, trocarem os pais. Sempre vejo mães, e como tal, as mudanças dentro das famílias é sempre mais real. Talvez pelo senso que nós, mulheres, temos, do dever incutido de melhorar as pessoas ao nosso redor, seja por amor ou por controle. Pensei, levianamente: com pais, nada vai mudar. Instalam-se nas novas famílias e deixam a vida rolar.
É o que sinto, o que vivo, o que vejo.
Mas a lição foi ainda melhor. Um bela surpresa. A troca foi radical, de estilo de vida bem diferentes: um pescador de Canoa Quebrada e um micro empresário da cidade de São Paulo. O que poderíamos esperar de algo tão inusitado? O que já se sabe: a mágica da simplicidade de um lado, a amarração de preconceitos do outro. Um belo conviver de um lado, sendo o pai e o amigo que não tinham, e um estar só e não conviver do outro, mera visita. Um fazer-se presente do homem que preza a família - mesmo a emprestada - e um manter-se ausente do homem de negócios. Um experimentar a vida do homem que se entrega a ela, e um mero observar do homem que se acha dono dela. Da boca do simples, verdades em forma de afeto. Da boca do pedante, nada além de sua própria imagem.
Uma lição, para todos. Incluo-me nisso. E a verdade marcada pela volta ao lar. Um é recebido com abraços secos, olhares desesperançosos ; o outro, com sorrisos abertos e beijos sinceros. Um devendo um acerto de contas com os seus. O outro, nada a acertar: já está tudo certo.
Na simplicidade , tudo é claro, tudo é válido. Tudo se vê e tudo se compreende. Tudo é claro, nada redundante. Nela , muita sabedoria que não se tem em livros ou em contratos. Nela, a verdadeira forma de viver e de amar. Uma não pedância.
Uma lição de vida.
Um despertar.