sexta-feira, 31 de julho de 2009

Carmem


Escolhi um vinho, chileno, que se chamava Carmem. Valle del Rapel , safra 2006. Dizia-se feito em homenagem a uma mulher, amada. Escolhi por intuição, não conhecia. Desceu gostoso, desceu redondo. Poético até. Simpatizei-me com ele já na carta de vinhos. Talvez o nome, talvez a descrição que mais parecia uma poesia. Aliás, a descrição de bouquets sempre parecem poemas com seus toques de sabor, perfume de algo, fundo de fruta.

Bebi o Carmem com gosto. Taça grande, requinte ao servir. Gosto de detalhes. Gosto de cuidados. Fazem parte de um ritual. Sem eles o vinho perde a graça. Sorvi com calma, sentindo primeiro seu aroma, depois seu leve passeio pela boca até se convidar para entrar. Levou-me a uma breve viagem no tempo, pelas imortais terras de Neruda, como se nesse sentisse toda a sua caminhada, do amor da mulher ao sabor do primeiro gole da primeira garrafa.
Um vinho em homenagem a uma mulher. Para mim que sou uma fã incondicional de mulheres marcantes e de marcantes homenagens feitas a elas, - vinhos, livros, poemas - padeci. Achei romântico, achei belo, achei triunfal. Orgulhei-me. Como se ele homenageasse tantas e tantas Carmens que admiro, tantas e tantas que invejo a coragem, a destreza, a forma de ser. Já não era só mais um vinho, vinha nele muito encanto, muita magia, muita história para contar. Quem teria sido Carmem? Que encantos teria sobre seu amado? Teria sido esse amor correspondido? Ah, Carmem, quantos encantos terias para seres imortalizada sob a forma de um licor de Baco...
Bebi o Carmem com gosto. Um vinho, só, mas feito
um romance em forma líquida.
Um romance de cor púrpura.
Um romance que degustei de forma vagarosa, saboreando cada página. E amei.

Um comentário:

  1. Fiquei encantado com teu texto. Mostra toda a tua sensibilidade também com vinhos.E mais ainda encantado contigo. Pareces uma miragem, um oásis em um deserto de mulheres tão vazias...Quem dera minha!

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