domingo, 5 de julho de 2009

Navegar

Nossa língua, como é complicada! Tenho por ela sentimentos dúbios, avessos, por vezes contrários. Medo e paixão. Tesão e ódio. Um perder-se infinito. A mais nítida impressão que é feito um buraco: quanto mais se cava, mais profundo. Quanto mais sei, menos sei. Contradição e compreensão.
Claro que estou falando do português correto. Do lindo português que parece um mar, tamanha sua extensão e profundidade. Desse navegar constante à procura de seus saberes. Uma aventura pelo seu descobrimento. Um achado de tesouros, que comemoro feito pirata. Baú de jóias raras, encontradas após longa procura.
Falo do português perfeito, do mais que perfeito, cheio de seus pretéritos e futuros, indicativos ou subjuntivos. Não do que se fala e se houve nas ruas. Não do português monossilábico e desvairado que sai das bocas de linguagem própria. Não da língua das gírias intermináveis. Nem da eterna possessão de americanismos. Falo de um português que tem poesia em sua alma. Uma língua que tem melodia em seu dizer. Longe ainda da melodia das ondas do lusitano, mas ainda assim poético.
Mas, claro, não posso deixar de amar a língua de cada terra. Do tempero dos sotaques de lugar. Dos cantadinhos sulenses, dos preguiçosos do nordeste, dos sem pressa mineiros, dos erres carregados do interior, cada um com seu sabor. Estes, sim, tem uma aura própria,
tem sabedoria popular e muita estória para contar.
A esses, curvo-me, e me apaixono ao escutar.
A esses a permissão de "errar".

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