terça-feira, 11 de agosto de 2009

Fome


Faz algum tempo falei com uma amiga que não comia por fome e sim pelos outros. Pelo pai, pela mãe, pela família toda. Pelo filho em fase decisiva da vida, pela falta de companheiro em casa. Comia pela falta de mim. Como se comer preenchesse lacunas. Com se comer me preenchesse. Um doce aqui, um café com leite acolá. Hoje, necessito de um salgado. Amanhã, de um biscoito doce. Outro dia, um chocolate. Como se cada um destes sabores suprisse algo,
preenchesse gavetas vazias.
Como coisas saídas do nada e muitas vezes até sem pensar. Como nas horas mais impróprias, as mais impróprias coisas. Como coisas que não gosto. Mato fomes, conhecidas ou não. Mato fomes inconscientes e também escancaradas. Procuro ali meus prazeres, fantasmas que me rondam. Tento matá-los, matando-me aos poucos. Um comer solitário, enganador, perturbador.

Sim, porque comer bem é uma atividade não solitária. Pede companhia, pede alegria, pede o outro do outro lado da mesa. Pede uma prova na boca, pede gargalhada solta e olhar cúmplice.
Sou dos sabores, todos.

Dos mais inusitados aos mais simples. Das exóticas misturas ao pastel de feira. Gosto do comer sem frescuras, da mesa simples - mas bem servida, da mesa bem acompanhada de amigos. E sempre, sempre acompanhada pela alegria. Não há sabores se não houverem sorrisos. Gosto do comer como grupo, como encantamento, uma descoberta . Sou gulosa da Vida. Gulosa de tudo. Melhor ainda se for a dois...

2 comentários:

  1. Assim fica cada dia mais dificil viver sem você...

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  2. Essa sua fome de vida me deixa pasmo! Assim como fico pasmo cada vez que lhe leio: cada vez melhor!bjs mineiros!

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