quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Livres


Na minha caminhada de hoje, andando no meu rítmo e ao mesmo atenta à vida ao redor, notei várias pessoas passeando com seus cães. Uns iam faceiros, cheirando tudo, latindo uns para os outros, parando sem o menor aviso, rabos abanando.
Livres, leves, apesar das coleiras.
Outros seguiam lentos, sérios, ao lado de seus donos, cabeça levantada, corpo ereto, feito compenetrados soldados. Presos, pesados, adestrados.
Pensei em nós, humanos, se gostaríamos. Somos, sim, meio adestrados, para vários assuntos. Seguimos regras o dia inteiro, temos nosso limites, passaportes para a boa convivência com a sociedade. Mais que coleiras, adestramentos.
Doutrinas, dogmas, leis, regras.
Parei para pensar se não seria mais divertido - pelo menos vez por outra - ser como os cães mais soltos, encantadores cães que direcionam a nossa caminhada, a nossa passada - e não nós as deles. Guaipecas da vida. Encantadores de donos.
Talvez achássemos mais graça nesse, por vezes,
marasmo que se chama viver...

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Troca

Converso diariamente com várias pessoas pela Internet. Conversas essas feita de palavras escritas, poucas faladas, lindas imagens. Sinto nelas o mesmo desejo que o meu: carinho. Palavras que nos animem, que nos dêem alento, que nos façam sorrir, que nos façam gostar de nós mesmos mais um pouco. Que nos ensinem mais sobre a vida. Palavras que nos dêem um motivo a mais para seguir.
Alguns chamam isso de solidão. Criticam porque não o sabem. Acham, que o mundo que chamam de real é o único que existe, o único plausível, o único cabível.
Não sabem do que passamos uns aos outros. Não sabem de nossos caminhos. Não sabem de nossas reais intenções.
Eu chamo de troca. Simples troca de um pouco de mim para ele e muito dele para mim. Doação de nós, de nos darmos um pouco ao outro, fazendo o dia dele - e o nosso - um pouco melhor. Há uma troca de carinho, de alegria, de experiência vividas. Troca de sorrisos e de motivações.
Meu combustível logo pela manhã...

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Lição

Se é verdade o que dizia minha mãe, que raios e trovões mostram que estão fazendo faxina no céu, a coisa por lá anda feia. Ou bonita. Estão nesse arrasta arrasta, nessa limpeza geral desde ontem à tarde.
Também em mim devia haver uma faxina. Ando quieta, pensativa, triste até. Pena não poder usar de raios e trovões para dar uma geral também dentro de mim. Precisava. Tenho acumulado tristezas e devaneios vãos. Tolos, mas meus.
Mas em mim só chove, gotas que caem ou que teimo em deixar trancadas em meu ser. Nada de tempestades, nada de furacões, nada de algo que me faça acordar.
Quem sabe é chegada a hora de eu mesma fazer meu temporal. Revirar as coisas, renovar o solo e torná- lo fértil outra vez. Ou quem sabe até uma chuva arrasadora que me faça começar do zero. O que preciso, eu bem sei. Talvez me falte a força da natureza. Talvez um raio que me faça acordar. Talvez não me falte nada, apenas coragem de recomeçar...

domingo, 27 de setembro de 2009

Cães


Cães. Sempre tive, desde pequena. Sempre habitaram minhas casas. Pego-me pensando o porque de tanto apego. Transformam nosso vida, como mais um filho, por anos. Prendemo-nos a eles, dependemos de seus carinhos. São bebês para uma vida toda.
Mas , diriam os mais antigos, não se fazem mais cães como antigamente. Não são mais os safados que fugiam de minha casa, voltando descaradamente três dias depois. Não são mais cães de jardim, não fuçam como antes, não mais correm atrás de pássaros, não latem para o leiteiro, não comem mais nossos restos. Desumano? Tenho minhas dúvidas: duravam mais.
Isso me faz lembrar de um, Paquito, o primeiro que fez parte real de minha vida. Um fox paulistinha safado de doer. Cansei de tirar de sua boca restos de pássaros e até de filhotes de gatos intrusos. Cansei de judia-lo com minhas brincadeiras. Era forte, saudável, safo.
Nada dependente. Nada de colos. Nada de frescuras.
Nada de humanices. E tudo de aventuras.
Meu cão de hoje, um daschund cor de mel, é pura manha. Sobra de ninhada. Já nasceu pedinte. Pede aconchego, e ai de quem tirá-lo do meu. Pede massagem - ai de mim se parar. Pede comida, mas só se vier acompanhada de um agrado. Um simpático interesseiro. Um delicioso dependente. Cão de casa, não mais de caça. Ou melhor: cão de colo.
E mais: fica depressivo se não dou a atenção que acha que merece.
É, não se fazem mais cães como antigamente: eles estão cada vez mais humanos...

sábado, 26 de setembro de 2009

Vagar


Sou uma mulher cheia de pecados capitais. Um deles, e sempre forte , é a inveja. Já falei de muitas aqui. Confesso mais uma: invejo quem viaja. E nem estou falando de grandes viagens ao redor do mundo. Pode ser para qualquer lugar que não se conheça. Aos olhos de muitos, a coisa mais fácil. Aos meus, somente sonhos.
Vejo nelas, nas viagens, um aprendizado maior. Conhecer lugares, línguas e sotaques, trejeitos, pessoas, modos de vida. Conhecer novos sabores e cheiros. Provar de cada lugar tudo o que tem para me dar. Saborear dos outros seus saberes, todos.
Tenho um apetite voraz.
Meus olhos brilham quando assisto algo sobre outros países na TV. Ou quando converso com amigos de longe. Saber mais como se vive na Bélgica e no Marrocos. Como se sobrevive na selva amazônica ou da tal pescaria no Pantanal. Deliro ao saber, feito curiosa criança.
E não me bastam grandes centros nem pontos de turista. Quero mais. Quero os conheceres não catalogados, nem lembrados pelos viajantes de hotel.Viajar para mim é sair da zona de conforto, da zona de mesmice. E, criativa como sou, faço muitas,
mesmo sem sair do lugar.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Futuro

Li meu tarot para os próximos seis meses. Fala muito de lutas, de enfrentamentos, de dúvidas, de difíceis - mas necessárias - mudanças. Pede de mim o silêncio da espera, a estratégia da luta. Gosto de sabê-lo não para esmorecer e sim, enfrentar. Bem o sei. E já me preparo.
Melhor assim. Não gosto do morno. Não gosto da letargia, essa letargia que me engessa faz tempo. Não posso mais olhar o deserto de minha vida sem pensar em como prosseguir. E é dando o primeiro passo que se começa a grande jornada.
Um primeiro e difícil passo no sol escaldante.
Então relembro as conversas - em meu precário inglês - com meu amigo Ibrahim, morador do deserto de Marrocos: da simplicidade, muito; do deserto, força e sabedoria para enfrentar; das estrelas, muita luz; do silêncio, respostas.
Lembro, mais uma vez, que tenho dentro de mim uma guerreira, guerreira de muitas armas.
Só falta saber lutar.
E sonhar, muito. Como já dizia o gauchinho Quintana, " sonhar é acordar-se para dentro"...

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Viagem

Adoro esse mundo moderno. Estava agora mesmo no Skype com meu amigo Ibrahim, do Marrocos. Ele trabalha num pequeno "hotel" - Maison du Sud - em meio ao nada, com pacotes que incluem passeios pelo deserto e outras aventuras. Nas fotos se vê um mundo totalmente diferente daqui. Quartos minúsculos, pouquíssimo mobiliário. E uma luz precária , mas altamente romântica.
Em nossas conversas, ele fala de toda a poesia que é o deserto, das cores da areia , da luz das noites. Das estrelas no céu, coisa que não vejo há anos. Fala da paz do silêncio de lá.
Minha imaginação viaja e vive isso tudo, mesmo que por um momento. Imagino o deserto, na verdade, como um oásis. Uma parada no tempo. Quase um reconhecimento do tudo que é o mundo desde a sua criação. No deserto e seu "nada", muito.
Eu que gosto do silêncio me daria bem por lá. Faria uma viagem para dentro de mim, um reconhecer, um redescobrir, um novo caminhar. Talvez difícil como andar na areia, talvez leve como o vento a soprar. E, como ele mesmo diz, ficaria linda escondida por baixo das roupas, só meus olhos a observar....

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Saudade


Recebi uma mensagem que falava sobre esta palavra mágica, indiscritível e tão brasileira :
"A Saudade é uma prova, um certificado, carimbado e assinado embaixo de que não estamos inteiramente sós e nem vazios". Veio junto esta imagem que me lembrou as brincadeiras infantis de bem me quer, mal me quer. Quantas flores despetaladas para saber se alguém nos amava ou não. Bom se fosse assim tão fácil.
Mas saindo do limbo triste de não sabê-lo, penso que cada pessoa tem, sim, um lugar especial em nosso caminho. Conhecer alguém tem, sempre, algum significado, mesmo que não o reconheçamos no ato. Não é à toa que entram em nosso caminho, forrando-o de flores ou de espinhos. Estão lá para nos ensinar algo. Nossos amigos, nosso irmãos, nosso filhos, nosso amores estão lá a nos dizer que "não estamos sós e nem vazios". Cada um preenchendo algo, cada um com sua lição, cada um em seu momento, cada um participando de uma cena, de um ato, muitas vezes da peça por inteiro, coadjuvantes deste teatro que é a nossa vida.
Por isso, vivo-os intensamente já que não sei por quanto tempo deles desfrutarei a companhia. Não sei por quantos atos serão meus companheiros de cena, nem se essa cena será por eles lembrada.
Por isso dou a eles o meu melhor.
Quem sabe assim mereço aplausos no final.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Mudança

Hoje começa a primavera. Quem me contou foram os passarinhos que estão desde cedo a cantarolar. Para quem presta atenção ao seu redor, esta estação é de preparação, de semeadura, saindo da hibernação pela qual passamos, sim, no inverno. A natureza é sábia também neste ponto: um ciclo, entre prepara-se (outono), hibernar (inverno), semear (primavera) e colher (verão).
Também pode, e deve, ser assim na vida. Saindo das cobertas do frio, para nós não tão rigoroso, é hora de despertar. Planejar, arar a terra e nela colocar as sementes do que queremos no verão. Do que queremos no nosso verão, não este de calor pura vivacidade e sim o de dentro de nós, nossa energia máxima. Do que queremos para nós. Tempo de abrir a casa, limpá-la, deixar o novo tempo entrar.
E eu quero Vida. Muita Vida. Vou arar meu solo com garra, com as próprias mãos e tantas armas. Vou à luta. Quem sabe assim venha uma bela colheita na próxima estação.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Crises


Estava assistindo um programa na TV sobre a " crise dos 30". Achei até graça: aos trinta achei que era a dona do mundo. E o próprio mundo deu um jeito de me mostrar que eu não era dona nem de mim mesma.
Com exatos 30 anos, perdi o emprego, a irmã, o apartamento, numa sequência só. E descobri que estava grávida desde o primeiro dia de meu namoro, um namoro de mês. A tal crise veio depois. Crise de grana, crise de trabalho, crise de ser mãe ser querer ou poder. Medo de que meu filho passasse fome ou coisa pior. Crise me deu ao sair de um dos melhores bairros da cidade e ir morar na longínqua periferia. Crise me deu quando passei por seis meses de enchente, quando saia para trabalhar, deixando o bebê em casa com a babá, sem saber se conseguiria voltar. Crise me deu quando passamos por seca por outros seis meses, com carro pipa a nos abastecer. Mais crise ainda quando tive que me abandonar e seguir caminhos que não queria. Caminhos nos quais até hoje estou.
É, passei pela crise dos trinta. E ela me trouxe medo da vida. Deixei nela muito de mim, coisas tão difíceis de resgatar. Ainda.
Na crise dos 40 achei que devia mudar.

Hoje, com 45, ainda acho que devo mudar. Tento.

Crise, tenho , todos os dias. Ou pelo menos uma vez por semana. Melhor eu pensar como os chineses, onde o ideograma da palavra crise contém as sementes de novas oportunidades.

Quem sabe são as ditas cujas que me fazem lutar...

domingo, 20 de setembro de 2009

Joy


Faz algum tempo que frequentei um grupo de conversação sobre a vida com um pastor daqui. Não se falava em religião e sim em comportamento, sentimentos e muito mais. Ele me deu um apelido que levo no peito : Joy. Seria uma tradução simples de alegria em inglês. Via muito disso em mim, e falava que nomes vêm porque os merecemos, porque nos descrevem de alguma forma. Vejo que estava certo.
Alegria. Tenho. Sou. Um jeito ingênuo de ver a vida, de ver as coisas. Um jeito menina, um jeito moleca. Um jeito romântico até. Espírito de criança, penso. E gosto. E sigo assim, brincando, perfume de flor. Leve, solta, risonha. Fazendo da vida uma grande brincadeira. Se levar a vida tão a sério como os que se dizem adultos levam fosse do bem, não deveria estar como está.
Que o dominem as crianças, sábias crianças por ele a andar!

sábado, 19 de setembro de 2009

Volta

Querido diário, hoje estou de férias.
Depois de uma semana fora de casa, curtindo as Joyces que há dentro de mim, estou sozinha em casa. Que me desculpem as beatas, mas é um alento. Tenho que trabalhar, é certo, mas a sensação de estar sozinha comigo mesmo me agrada.
A semana foi ótima, trabalho e vida. Uma semana longe das mesmices. Pude ser eu. E consegui, enfim, dividir-me assim - já que antes me enfiava no hotel em clausura. Descobri que descobrir coisas de nada dói. Que conhecer pessoas é bom. Que deixar-me conhecer, melhor ainda.
Enfim, voltei feliz. Estou feliz. E com gostinho de quero mais. Agora já sei para onde fugir quando quiser me achar...

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Cafezinho

São Paulo me recebe bem. Quando se arranja tempo para fazer amigos, lá vem a boa recepção e bom o cafezinho. Bem coisa de paulista. Combina com as casas de velhos tempos, cheias de valores na parede e delicados tapetes. Combina com as conversas bem estruturadas
e a simpatia dos sorrisos.
Sinto nela o cheiro doce do bem estar.
Falam de uma São Paulo que não para. Essa está lá fora. Aqui dentro, quando para, recebe em sorrisos e atenções. Uma São Paulo hospitaleira, uma São Paulo caseira que adoro.
Que me faz sentir em casa, tão em casa que pretendo voltar.
E quem sabe um dia ficar.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Olhos de turista

São Paulo tem muito de poesia. Vejo isso com meus olhos sempre de turista, de viajante no tempo e no espaço. Deve ser minh'alma de arquiteta. Ou de meu coração de amante.
São Paulo tem formas que me encantam, vistas que me supreendem, um vasto de pequenos detalhes. Um mar de detalhes a cada passo, dos velhos casarões aos modernos prédios,
das vitrines iluminadas mostrando o novo.
Enquanto o táxi disputa seu espaço e vence caminhos, meus olhos brilham. Passeio de delícias. Vontade de andar, ver , tocar, fotografar. Vontade de viver uma São Paulo que me parece tão distante.
A Sampa de Caetano é poesia concreta. Poesia em concreto. Poesias de Lina e Oscar, coloridos de Burle Max. E tantos e tantos outros poetas e suas belas poesias concretas hoje habitadas pelo nada.
E vistas por ninguém...a não ser por olhos de turista...

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Bom dia!

Mesmo estando numa cidade abastecida pela correria e pelo movimento, vou fazer de meu dia um dia bem especial. Vejo lá fora um entra e sai, um sobe e desce, um corre corre do qual fujo, sempre.
Não dormi como imaginava - e precisava - e apesar do belo banho de banheira, tão merecido. Ansiedade pela vida, talvez. Ânsia de viver, penso. Tomo um chá enquanto escrevo, e escrevo de forma lenta. Como se navegasse contra o dia lá fora. Como se organizasse minha vida em mim. Não tenho pressa, apesar de tantas tarefas a me esperar. Quero curtir esse silêncio, esse momento só meu. Fazer deste dia não um e sim"o".
Fazer de meu dia um bom dia. Fazer de mim o que sou. E o que mereço ser.
Bom dia, Joyce!

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Mala pronta


Ah, viajar!
Mesmo a trabalho, adoro. Primeiro , um resumir-me em uma mala. Caber lá tudo o que quero e tenho que levar. Um pensar só em mim, entre cremes e lenços coloridos.
Depois fazer da minha cabeça uma agenda, enchê-la de compromissos só meus. Um virar-me sozinha. Um viajar egoísta de que tanto mereço. Trabalho, sim, mas descanso também. Ou não sou filha de Deus?
A casa fica politicamente correta. Ontem foi dia de deixá-la em dia. Cardápio certo, compras feitas, cachorro no veterinário, filho no médico. Tanto e tantos acertos necessários - ou não. Espero que a senhora certinha não tenha esquecido de nada! E que viaje de cabeça livre de culpas...
Então vou. Na mala, mais do que roupas. Levo muito de mim, preenchendo os poucos espaços sobrantes. Um espaço para o trabalhar, um espaço para o divagar, um espaço para o me amar.
Um carinho comigo. Nem que seja um banho mais demorado...
Ah, viajar. Um SPA. E meu...incrivelmente só meu...

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Férias


Essa semana é minha e há de ser muito especial. Vou arregaçar as mangas e ir à luta, ou melhor dizendo, às lutas, tantas. Fazer de mim a mulher que quero ser. Ou ser eu mesma, como sou e de quem ando me escondendo pela força do hábito. Ou pelo empurra empurra da vida.
Serão só uns dias, mas tenho muitos planos. Nem que seja o de dormir cedo para que a pele fique boa. Ou levantar só depois que a preguiça se despedir. Dar um tempo para mim, sentir-me viva outra vez. Ver-me como a mulher que sou - mas que anda escondida. Complexa e completa.
Viajo animada. Minha companhia não podia ser melhor. Levo na mala muito de mim. Muito de meu sorriso e de minha sempre tão grande vontade de viver. De sobrepeso só meu olhar, brilhante, e a esperança que a semana seja lentamente percebida.
Eu, enfim, nova, outra vez...Eu, assim como sou.
Um viver-me!

domingo, 13 de setembro de 2009

Eu, mulher


Muitas vezes pensei - e até falei - que queria ser homem. Achava bem mais fácil, isso desde a adolescência. Via as meninas da casa às voltas com faxinas, limpezas e arrumações. Aos meninos, levar o lixo e talvez varrer o pátio, depois do vento ter descabelado as árvores. Para nós a clausura, para eles a rua. Achava uma discrepância. Acho, ainda.
Para uma festa, a eles basta um banho e a roupa de sempre. A nós uma infinidade de vaidades, dos pés à cabeça, da escolha da roupa - e seus tantos complementos às reclusões no salão.
Para o dia a dia dos sortudos, banho e , talvez, barba. Para nós, uma infinidade de dores e calores.
E, pior, isso tudo só para agradá-los...
Hoje penso diferente. Hoje acho que está ai meu diferencial. E não mais faço por eles e sim por mim. Cuido-me porque me amo. Gosto da pele lisinha, das unhas em cor, do cabelo bem cuidado. Da pintura que ressalta meus olhos. Do batom que emoldura meu sorriso. Gosto da massagem, no corpo e no ego. Do perfume em minha pele já desgastada pelo tempo.
Hoje, gosto-me. Faço desses rituais meu recomeço.
Reconheço-me, hoje, eu mulher!

sábado, 12 de setembro de 2009

Boca e olhos

Descreveram-me como somente boca e olhos.
Boca pequena por fora, grande por dentro. Boca que fala abertamente, sinceramente. Que transforma palavras ditas e pensadas em escritas. Sempre meio sorrindo, meio indagando. Metade menina, metade mulher. Meio o que sou, meio o que queria ser. Incógnita e verdade.
Pelo olhar do outro, também sou olhos.
Par de olhos da cor do mar, um mar profundo onde me exponho. Neles muita verdade, cara à mostra, dada a tapa. Onde se perdem por querer. Ou não. Vai da coragem de aventurar-se. Vai da curiosidade de desbravar meu mundo. Vai do interesse em desvendar a mandala.
Fácil descrever-me desta forma.
Quem me dera não vissem o resto, em constante manutenção. Quem me dera fosse mesmo só olhos e boca. Seria mais fácil manter-me alegre e satisfeita.
E bem comigo mesma...

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Sobre ontem


Ontem recebi várias manifestações contra a minha "tristeza" estampada no blog. Fiquei feliz, já que tenho amigos, mesmo anônimos. E triste por entristecê-los.
Escrevi coisas que estavam dentro do meu coração, ferindo a alma. Se presas, machucam. Se soltas, abrem gaiolas e voam. Assim sou eu, feito Marilyn, tenho lá meus defeitos, tantos. Assumo, todos. Já diz o ditado que não se agrada todos. Aceito e acato. Mas lembro que escrever é minha cura. Tiro das palavras meu sol e meu sustento. Tiro de mim as nuvens negras e as transformo em nuvens de chuva, regando meu solo fértil. Nele, muitas flores, cores variadas, belos perfumes a serem colhidos e entregues a quem merecer.
Entrego-as, hoje, a quem se importou.
Assim sou eu, guerreira e mulher. Eu sou meu sol! Eu me sei!
E por isso sigo, feliz! E cheia de amigos, mesmo sem saber...

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Espera

Tive um dia ruim. Um dia de mágoas não resolvidas, de falta de acenos da vida. Um dia de tentativas e erros, tantos que já nem sei. Entreguei-me à tristeza, que me aguardava de braços abertos. Senti-me sufocada, sem ar, sem rumo, pressa à areia movediça do caminho mal escolhido. E sem ter para onde ir.
Reli o texto de Martha Medeiros, A morte devagar, e parei na parte que dizia que "morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o preto no branco e os pingos nos is a um turbilhão de emoções indomáveis, justamente as que resgatam brilho nos olhos, sorrisos e soluços, coração aos tropeços, sentimentos."
Em poucas palavras e em meio a muitas, tudo o que eu precisava. Um alento, uma chance, um ar. Apaixonada sou. Passional. Amo, muito, não sei amar menos. Não sei viver menos, não sei ser menos. E quando algo ou alguém me impedem se ser como sou, frusto-me. Morro à mingua. Sufoco em mim o que sou. Deixo de lado meu eu para não ferir aos outros. Mas nem sempre consigo, nem sempre é possivel. Nem sempre se agrada gregos e troianos. Aliás, nunca.
Hoje assumo minha incapacidade. Mas assumo também minha vontade de ser feliz outra vez. Na batalha entre as duas, rezo para ser feliz.
Hoje e sempre. Sento e espero o sol...

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Alerta

Estudar Semiótica - aliás, com um mestre que sabe garantir de nós toda a atenção - fez-me apaixonar ainda mais pelas palavras. Seus vários sentidos, seus tantos significantes, suas dualidades, suas dicotomias, ali, ao alcance de meus olhos e de minh'alma. Um jogo, uma brincadeira, um mergulho ao fantástico mundo dos sentidos. Amei.
Deve vir dai minha paixão pelas palavras. Como sempre digo, bem escritas e bem ditas. Apaixono-me pela forma clara que me vêm. Apaixono-me pela clareza de ideias, ainda mais se forem de forma suscinta. Poucas palavras dizendo muito. Uma palavra dizendo tudo. Que dom tem certas pessoas em fazer delas poema...
E tão poucas se importam com isso. Tão poucas pessoas se importam em bem escrever. Tão poucas lêem. Vejo isso ao meu redor, essa preguiça interna, essa inércia, essa falta de atenção que se retrata no mal escrever. Palavras tão simples, estas, do dia a dia, sendo trucidadas pelo simples desinteresse de conhecê-la.
Uma pena. Uma língua tão singela, tão poética, tão sonora quanto a nossa sendo apagada. Que me perdoem o poetinha, pela paródia mal feita, e os maus leitores pelo alerta grosseiro, mas escrever correto é fundamental! Que me perdoem meus leitores pelos meus erros.
E que me apontem!

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Igual

Conversando com minha mãe tempos atrás, e descobrindo fatos que a levaram a dar uma reviravolta na vida aos 75 anos de idade, lembrei a música cantada por Elis : somos como nossos pais. Mudou o século, tudo mudou, somos duas pessoas diferentes e , incrível - e triste - saber, escutamos os mesmos discursos vindo de quem já se disse apaixonado. Descobrimos, enfim, quem somos, ou quem não somos, da boca do outro. Se acatamos ou não, só o tempo dirá.
Não há fuga, penso. A tristeza sempre se mostra com a mesma face...

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Caleidoscópio

Na brincadeira de descrever-me com uma só palavra, recebi uma que me encantou. Veio de uma amiga virtual, uma amizade que farei questão de tornar real. Descreveu-me com a palavra Caleidoscópio. E explicou: "muita cor, muita alegria e sobre tudo arte, muita arte! A palavra vem do grego e representa tudo que vc é (kalos), "belo, bonito", (eidos), "imagem, figura", e (scopeο), "olhar !"
Amei. Egocêntricamente, amei. É uma das descrições mais precisas do que quero ser. Do que procuro ser no meu dia a dia, com as pessoas que amo, que quero bem. Uma alegria ambulante, contagiante, bonita, colorida. E poder ver em mim a arte, todas elas, desde a de bem viver e bem sorrir até a de bem escrever, seria tudo de bom. Um sonho, que transformaram em palavras. Uma só palavra que define tudo e tanto. E eu, amante das palavras, curvo-me à sua força.
Eu, amiga, chamar-te-ia de Alegria, assim, com letra maiúscula. Pela que tens, pela que nos passas, pelo que és no mundo. Imensurável Alegria, da leveza de teu ser!
Seria meu caleidoscópio menos lindo sem te saber...

domingo, 6 de setembro de 2009

Imagem

Participei de uma brincadeira que me apareceu pela Internet. Constava em descrever-me com uma só palavra. Poucos responderam, mas já de grande valia. Descobri que, pelo menos para os amigos, sou algo mais, sou forte, sou alguém com algo para dar.
Descobri que sou pura inspiração. E esta resposta veio de alguém a quem prezo muito, que muito já me ensinou nessa vida, mesmo de longe.Descobri que sou um vulcão, coisas de minha irmã, sempre assustada com minhas constantes erupções. Que sou complexa, de uma amiga a quem tenho a maior admiração. Fora os devaneios, as brincadeiras, onde descobri que sou êxtase, sou sexy, deleite, Mulher com M maiúsculo, poderosa, completa, perfeita, o máximo. Mas também carinho, amiga, amor.
Gostei! Fazem de mim uma imagem que gostaria de ser, não sei bem se a sou. Mas minha auto estima acata e agradece. E sigo feliz meu caminho pela vida, dando o meu melhor, sempre. quem sabe eu me assumo como me vêem e escrevo meu novo livro? Seria bom.

sábado, 5 de setembro de 2009

Nós

Dei-me de presente um dia. Passei-o fora, longe de tantas coisas que me travam, por vezes sufocam. Voltei nova. Uma conversa com jovens, uma janta com amigos, uma cama só para mim. De companhia na noite e quase o dia todo, eu. Um cuidar de mim, um levantar sem hora, um banho sem pressa. Um café sem pensar em nada. Um passear sem chamadas, vendo vitrines, observando pessoas, sentando para um café. Eu e eu. Tiramos o dia de folga. Muita conversa, muito riso, muita promessa uma para a outra.
Foi bom, nos reconciliamos. Provamos roupas, experimentamos calçados. Demo-nos um tempo para sermos felizes. Merecíamos. Na correria do dia a dia, pouco tempo para nós, muito tempo a espera dos outros. Muito tempo a espera que nos vejam, que nos sintam, que nos dêem atenção. Que nos respeitem. Que nos completem.
Nisso concordamos, eu e eu: completamo-nos. Quando juntas, estamos inteiras. Quando uma só, felizes! E dessa felicidade me alimento e sobrevivo na selva da solidão.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Cadê?

Estou irritada e ao mesmo tempo rindo das armadilhas da vida, e de como , mesmo se programando, as coisas vem como querem!
Hoje vou a outra cidade falar sobre tendências. Faz parte de meu trabalho. Programei-me para levantar sem pressa, fazer as coisas de forma pensada, em meio ao meu próprio silêncio interior. Qual erro! Todos da casa levantaram cedo - até o cachorro que costuma levantar tarde! Acordei, já, com o barulho assustador da porta do meu quarto, não prevista em meus mais terríveis sonhos (aliás, ainda sonhava quando o fato se deu...). E com mil perguntas impertinentes e desnecessárias. A pergunta do dia é: azedo ou dou a volta por cima? Minha vontade era de voltar para cama e recomeçar tudo de novo...
Procurei meu silêncio, precioso e necessário, em vão. Meu silêncio programado e útil. Mas tenho o dia pela frente, quem sabe me recupero. Tenho - delícia! - uma noite sozinha em um hotel. Uma noite só para mim, cheia de cremes, escritas ou de nadas. Uma cama grande e cheirosa ao meu inteiro dispor. E amanhã um acordar calmo, meu, egoisticamente meu.
Enfim, só meu!
Procurei meu silêncio de hoje, mas acho que ele se assustou com a correria da vida...
espero que volte amanhã!

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Gula

Cansei de brigar com a balança. Uma briga inútil de como sou com o que queria ser. Uma discussão infindável entre o que desejo e o que posso.
Delicio-me com pratos coloridos, com enormes pratos verdes - ou pratos de "vaca" como diz meu filho. Saboreio com vontade todos os gostos. Como porque gosto.
Não me apetecem muito os doces - a não ser os amargos chocolates quase puros, leve sabor de menta ou laranja. E dos bolos "de vó", aqueles simples, sem recheios nem frescuras, com uma bela caneta de café com leite ou os chás de minha mãe. Amo integrais e outras naturebas. Mesmo assim, engordo. Talvez seja fato o "engordar só de olhar". Ou do que sempre digo, que comemos pelos problemas, excessos ou faltas. Como garantia de que nada nos falte no coração.
Mas, admito publicamente: sou, na verdade , gulosa da vida. Gosto das misturas, dos devaneios gastronômicos, do bom vinho com o bom queijo (castigo máximo, não posso comer!), das misturas inusitadas de damascos com roquefort e figos com presunto parma, da caponatta sobre a torrada, do palitinho no chutney. Sou da comida simples, mas feita com carinho, das misturas sexies e inusitadas, do experimentar na língua. Comer , para mim, é prazer.
Luxo? Não. Bom gosto. Gosto. Do bem feito e bem servido. Do prato que tem história para contar desde o seu feitio. Da taça fina à toalha xadrez e limpa. Mas sem frescura, sem pompa e sem circunstância. Mas com amor, muito amor. Melhor ainda se com um amor do lado...
Eu tenho muitas fomes.
E você, tem fome de que?

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Dádivas

Recebo, todos os dias, lindas e encorajadoras mensagens via e-mail. Falam de amor, falam de afeto, falam da força que há dentro de cada um, dentro de mim. São imagens de crianças, de lindas flores, relaxantes paisagens. Trazem, sempre, uma luz para o meu dia, resolução para meu problema, alegria para minha tristeza. Algumas me fazem rir, outras chorar.
Mas a causa é sempre nobre, o saldo sempre positivo.
Penso na disponibilidade de uma pessoa em fazer tantas outras felizes desta forma. Nesse mundo corrido e egoísta em que vivemos, qual dádiva. Não deixo de pensar que isso seja uma forma de amor. Um amor por vias modernas, mas amor. Um amor sem grandes pretensões além daquela de me ver bem. Um amor desprendido, sem pedir nada em troca.
E vicia, ah, como vicia. Abro meu micro pela manhã já esperando minha dádiva diária. Meu sorriso já a postos, meu coração já saltitante. Procuro, meio que ansiosa, o nome nos remetentes. Procuro nas mensagens meu bom dia, minha boa tarde,
minha boa noite.
Meus presentes do dia.
Meu dia mais feliz!

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Escuro


Ontem procurei meu olhar de menina e não achei. Devia estar oculto nas sombras da vida que não cansa de me magoar. Ontem vi o poder das palavras mal ditas. Feriram meus ouvidos de menina e minha alma de mulher. Hoje já não sei quem sou, tamanha mágoa.
Mais uma vez vejo o real peso das palavras. Como ferem, se ditas sem pensar. Disse e ouvi, nesta burrice que se chama discussão. É , penso, o mal é mesmo o que sai da boca...
Mata aos poucos, feito cicuta.
O que faz as pessoas se magoarem tanto? Penso que seja o peso do ego. O quem sou, o que quero ser, o como quero que me vejam. Por isso, tão difícil seguir o caminho. Não vamos sós, nem ao menos levamos só quem amamos. Levamos, sim a sombra pesada do que querem de nós,
este peso mórbido e empurrado.
Ontem procurei em mim a menina e não achei. Hoje não sei, deve estar escondida em algum armário. O fardo que querem que leve é pesado demais.
Quem sabe ela cria asas e voa, quem sabe para um mundo de paz.
Quem sabe, quem sabe...