sábado, 31 de outubro de 2009

Troca


Hoje estou na casa de meus pais. Ou melhor dizendo, de minha mãe, já que, sabiamente, resolveram morar separados. Neles vejo retratada a total importância que tanto falam de que , no futuro, precisamos de alguém com quem se possa conversar. Passados os anos sensuais de uma relação, a amizade se faz imprescindível. E com ela o diálogo. O sempre tão difícil diálogo.
O passar dos anos traz uma solidão imensa, por vezes insustentável. E com ela a necessidade de falar. E principalmente de ser ouvido. Tão pouco e já basta. Tão pouco e nos custa. Talvez nos falte a lembrança do que fomos. Dos nossos dias de muitos porquês, aos quais os pais respondiam da melhor forma. Talvez seja essa hora da troca. Da real importância da palavra filho. Da nossa real importância neste mundo. Nosso real valor.
Pais e filhos , um dia, trocam de lugar. Os que já cuidaram tanto agora pedem cuidados. Os que nos deram tanta atenção, agora a merecem. O que nos amaram tanto, esperam ser igualmente amados. Trocam de lugar, sim. Mas continuam sempre sendo nossos eternos educadores.
Nem que seja da forma de amar.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Espelho


Hoje pego a estrada com meu filho. E isso me traz muitas lembranças. Do rostinho na janela a ver tudo, perguntar tudo, admirar tudo. E de perguntar se falta muito ainda no pátio da rodoviária...Para os pequenos, uma aventura. Como se o outro lado do mundo fosse aqui, do lado de fora da janela.
Agora , quase um homem, pega seu livro e entra em seu mundo. Volta e meia se encosta, feito saudade de colo. Ou puxa conversa, sempre com muita intensidade. Vejo nele o que sonhei que fosse: independente, livre das amarras, mas atento. Assim o é com os mais novos e com os mais velhos.
E assim espero que seja pela vida toda.
Os filhos, já disseram por ai, são do mundo. Não são nossos. Não são de ninguém. E cabe a mim, como mãe, soltá-lo. Por isso aproveito até as pequenas viagens para estar com ele.
Ouvir sua voz, sentir seu calor.
Ver como pensa da vida. Ver nele, eu mesma.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Marca

Eu, como eterna amante das palavras, detive-me cara a cara com ela. Li, respirei seu aroma, senti-a penetrar em minh'alma:
"Da vida não quero muito. Apenas quero ter uma certeza que tentei tudo que quis, tive tudo o que esteve ao meu alcance, amei tudo que valia, e perdi apenas o que no fundo nunca foi meu". " .
Amei. Simples e profunda ao mesmo tempo. Das que mais gosto, as das que pensamos que até nós poderíamos ter dito. Como não pensei nisso antes, nossa mente dirá. Disso que eu gosto, das palavras sem pedância, dos ensinamentos de esquina, do livre acesso à minha mente atenta. Não me marcam a pele, mas deixam marcas profundas em meu ser. Feito tatuagem interna, quieta, pronta para aflorar quando menos se espera.
Da vida, não quero muito, digo eu. Só que passe me deixando mais sábia, mais sabedora de mim mesma.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Salut!


Nesse mundo de pura aparência, nada como se redescobrir. A cada dia que passa, da aceitação diária de quem somos - e de novas linhas no rosto - ao reconhecimento de nossa maturidade, há um passo importante. Um viver (não um apenas envelhecer) o dia a dia de forma cada vez mais intensa - mais pensamento, menos movimento. Ver-se como vinho em belo tonel do mais puro carvalho. A cada dia mais apurado, tirando do seu conteúdo seu melhor sabor.
Vinho.
Nós mulheres podemos nos ver como vinhos. Belas bebidas a serem apreciadas, sorvidas, sem pressa. E ao gosto de poucos, mas bons, apreciadores.
Salut!

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Escolhas

Desde que acordamos até o fechar dos olhos para dormir, fazemos escolhas. A cada segundo, uma escolha. Boa ou ruim. Chamam de livre arbítrio.
Tenho outra visão, já que, pelo jeito, faço mais escolhas ruins do que boas. Penso certo, sei o que é melhor para mim, mas não o faço. Penso em ler mais e ficar menos no computador, ou brincar mais com filho ao invés de escrever tanto e minutos depois faço bem o contrário. Penso em comer menos e segundos depois enfio qualquer coisa inteira na boca, faminta. Aceito que tenho que dormir mais cedo e me deixo levar até altas horas enrolando por ai. Sei o que é certo, faço o errado.
Será mesmo livre arbítrio? Será mesmo que somos livres para fazer as escolhas? Ou prisioneiros de nós mesmos? Tento soltar as amarras da mesmice, do conforto, do ir levando a vida, coisas que me pesam. Difícil. Mudar é difícil. Fazer as melhores escolhas, escolher a carta certa, pelo que vejo, também.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Diferente

"Quando perdemos o direito de sermos diferentes, perdemos o privilégio de sermos livres". Recebi essa frase sem dono. E nela tanta coisa. E muito de mim.
Não me encaixo nas ditas regras sociais. Não sou uma dona de casa exemplar, nem mãe dedicada. Nem trabalhadora assídua, nem exímia estudante, muito menos amante à disposição. mergulho no que me interessa, ou no nada. Sou além disso - e acima de tudo - eu mesma. Mulher.
Sigo a vida que me vem a cada dia que amanhece. Não tenho estratégias além das sonhadas. Nem textos pré escritos. Grandes sonhos, só o de ser feliz. Mudo sempre de ideia e de opinião, se me convenço do contrário. Um ser em constante mutação. Se não bipolar, camaleoa. Umas vezes para ser vista , outras tantas para me esconder entre tantas. Esgueiro-me pelo caminho, sigo em frente, esqueço o ontem facilmente. Meu jeito de ser. Minha pele. Meu rumo.
Meu traçado em busca de algo, sigo.
Simples assim. E sendo feliz - sempre que dá...

sábado, 24 de outubro de 2009

Mergulho


Ligo o rádio e escuto a nova música dos Titãs, onde fala repetidamente - meio "a la Vinícius" - "que seja pra sempre enquanto durar".
E vem a imagem que faço de mim, gostando ou não, daquela que se joga de cabeça. Faço da vida um bungee jump, muitas vezes mergulhando sem nem saber onde. Muitas vezes sem pensar, outras tantas sem estratégia nenhuma. Agradeço ao meus anjos da guarda (assim, no plural mesmo, não deve ser tarefa para um só...) que sempre dão um jeito para que eu saia ilesa.
Ou talvez eu não seja assim, tão atirada. Talvez esteja menosprezando minha energia interna, capaz de medir as consequências. Talvez seja minha reconhecida alma moleca.
Mergulho, sim, quando dá, quando quero. Levo tombos, sim, mas quem não leva? O negócio é saber levantar a poeira e sair, sem nem olhar para trás.
E fica a certeza: as feridas cicatrizam, cedo ou tarde.

Bela

Desde ontem meu tema para o dia - sim porque tiro um tema por dia para compreender melhor a vida e eu mesma - é sobre como somos ligados à aparência, fenômeno esse já estudado por tantas pesquisas. Sabe-se que as pessoas mais bonitas tem melhores empregos e até ganham mais. E , mais recentemente, que os homens perdem o raciocínio quando encontram-se à frente de uma beldade - seja ela fake ou em carne e osso. Coisas já sabidas, agora provadas.
Tem um lado bom de não estar nesta "lista": esforça-se mais para conseguir as coisas. Sabe-se mais da vida, ativa-se mais outras áreas em nós. Não deslumbradas pelo sermos belas, corremos atrás do "prejuízo", sendo mais alegres, mais ativas, mais vivas com certeza. Espertas. Ágeis. Inteligentes. Perspicazes. Descobrindo em nós outros valores. Outras belezas.
Novos encantamentos. E sorte daquele que nos notar.
Beleza não põe a mesa, dizem uns. Beleza é fundamental, disse o poeta.
Belezas são muitas, digo eu. E cada uma tem a sua para mostrar.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Sábias

Tem dias que tenho a plena certeza de ter alma de criança. Basta uma coisa qualquer para me deixar alegre e saltitante boa parte do dia. Feito criança que se diverte horas a fio com uma tampa da garrafa ou boneca velha.
Vejo nisso a prova de que a vida pode ser leve. Pensamento ingênuo, sim, mas saudável. Conheço poucas pessoas que estão sempre de bem com a vida, e elas, prestem atenção, são "infantis". Não tem a pedância, que engessa, dos adultos. Não perdem tempo com palavras difíceis de entender. Nem o peito estufado para dizer quem é. Crianças simplesmente são. Tem sorriso fácil. São facilmente agradadas pela vida. E nisso, uma sabedoria imprópria para maiores. De cabeça, não de idade. Nas almas ditas infantis, muito dela. Há de se saber encontrar.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Lâmina

A cada dia sinto em mim a força das palavras. As que me vêm como que gratuitas. Entre tantas, uma se destaca, aponta caminhos. Como se abrisse meu cérebro e se alojasse lá. Uma semente. Por vezes, um choque.
Ontem pensei sobre meu papel - e de todas as mulheres - na vida das pessoas ao seu redor. Desafiador. Somos lâminas de afiar. Como se a cada dia pegássemos o lápis de escrever da vida de cada um - companheiro, filho, tantos - e o afiássemos para que a escrita do dia saia plena, legível, forte. Ou até como se os passássemos a limpo. Um ajeitar de gestos, um incentivo proposto, um corrigir de atos. Uma grandeza de vida quase nunca vista, a não ser quando se perde.
A cada dia vejo mais meu lugar no mundo. E a cada dia noto meu esquecer-me. Há de se estar alerta, afiando também nossos lápis de cor. Esboçar em nosso caminho a tela do que somos: Mulheres.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Tudo

Filho em casa, quebrando a rotina. Você acorda, "programada" para fazer suas coisas e ele está ali, pedindo atenção. E levantou a mil: já tomou café, já cuidou dos bonzai, já deu a volta com o cachorro, já dançou na minha frente tentando me fazer rir.
E eu tonta, já, com tanta energia! E eu, aqui, ainda tentando acordar ...
Revejo as infinitas brigas internas que tive nessa vida, entre a mãe e a profissional. Entre a mulher que queria silêncio e a mãe que escutava o filho.
As tantas e tantas culpas engolidas, sufocantes, que nem me cabem mais.
Aliás nós, mulheres, alimentamo-nos delas, das culpas. Das enfadonhas culpas de não sermos as perfeitas, mulheres mutimídia diria. Mãe, mulher, amante, profissional, dona de casa, enfermeira, terapeuta, massagista, veterinária, professora. Muitas, muitas em uma só. Multimulher. Tudo. Pelo menos para os outros...

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Descoberta


"Não tenho tempo para mais nada, ser feliz me consome muito".
Quando li essa frase em algum lugar que nem me lembro mais, fiquei hipnotizada. Apaixonei-me perdidamente. Seu sentido e sua simplicidade ficaram vibrando em minha cabeça por um bom tempo. Senti-me novamente criança. E como é boa essa sensação...
E ao me sentir criança, lembrei de como a vida pode ser leve. Achar um bom sentido em tudo, um lado B, tirar o peso excessivo que colocamos nas pequenas coisas - peso que elas nem sempre tem. Achar graça no inusitado, quem sabe até no lado não tão bom da vida?
Fico aqui a lembrar das tantas e tantas vezes que estava contrariada com alguma coisa - ou pessoa - e reverti a situação. E do quanto me senti forte, leve, até esperta. Ri sozinha. Acho que era meu lado menina satisfeito pela façanha. É, ser feliz consome muito, mas dá uma energia que nem sei descrever. Só sentir.

domingo, 18 de outubro de 2009

Nova


Ontem andei de bicicleta depois anos sem fazê-lo. Engraçado, a máxima confere: uma vez aprendido, jamais se esquece. Que bom se fosse tudo assim na vida. Nunca fui muito esperta para isso, sempre pedalei meio tropeça, se é que se pode dizer isso. Meio sem rumo, sem estratégia, sem firmeza - bem diferente de como ando com o carro.

Mas a sensação foi ótima. Um reviver, um renascer, uma volta no tempo. Gargalhamos muito, divertimo-nos feito criança, passando em poças e sujando a calça. Sentir o vento na cara, esse sim, sem explicação de quanto me faz feliz. Voltei cansada, suada, quebrada, mas de alma lavada. E , por fim, descubro o como mantia a forma na juventude. Frequencímetro em punho, descobri que pedalar e correr tem a mesma função de me arrasar...

Jogo

"E aprendemos e aprendemos...E em cada dia aprendemos".
Assim termina o poema de Jorge Luis Borges.
E assim começa meu texto.
A todo momento, a cada piscar de olhos, a cada partícula de ar que nos entra, aprendemos. Tudo nos serve de lição. Do gozo ao choro. Nesse mundo de apredizagens, nada se perde, tudo se transforma. Tudo serve de combustível, de matéria prima, de alimento. De nossas alegrias às nossas tristezas. Tudo são descobertas ou redescobertas. Nossos 'bem quereres' e nossos 'mal quereres'. Nosso arrancar de pétalas. Brinco de arrancá-las.
Quem sabe descubro que a Vida me ama?

sábado, 17 de outubro de 2009

Rega


"Devemos agradecer às pessoas que nos fazem felizes; são elas os jardineiros encantadores que fazem nossas almas florescerem".
Recebi e amei. Tenho muitos, graças ao cara que inventou a Internet - deveria ser canonizado ou receber o Prêmio Nobel da Paz. Vou do Chile ao Marrocos, com direito a escala na Bélgica em três toques. Torno-me, meio na marra, uma poliglota universal. Uma viajante do mundo. Crio aqui meu esperanto de saberes. Sei do deserto e de suas cores através de um amante da vida, ao mesmo tempo que "escuto" sobre muitos lugares de alguém que já viveu para viajar. Da Bélgica, muito do país de lá na "voz" de um ator que lava e passa suas próprias roupas.
Mundo louco. Deliciosamente louco. Sei da amiga que não vejo a tempos, do amigo que ficou para trás. Sei que hoje chove em São Paulo, mas que o sol estão torrando em Recife. E que o calor de Manaus está infernal... São eles, todos, meus jardineiros. Regam minh'alma todos os dias com suas mensagens encantadoras, seus sorrisos virtuais mas cheios de calor real.
Como é real meu sentimento de também regá-los.

Armadilha


"Quem, por medo do terrível, prefere o caminho prudente de fugir do risco, já nesse ato estará morto. Porque o medo lhe terá roubado aquilo que de mais precioso existe na vida humana: a capacidade de se arriscar para viver o que se ama".
Esse pensamento do sábio Rubem Alves, de quem invejo a jovialidade infinita, por vezes me define. Mas por vezes não, exatamente pelo próprio medo. Medos estes que não são meus , penso, ou de mim. Medo pelos outros, de fazê-los sofrer. Eu mesma, não tenho nenhum mais forte - a não ser os óbvios de mãe.
Ficamos, muitas vezes, às margens de nós mesmos, pelo "simples" medo de magoar, de ferir. Ou de sermos julgados, tendo os outros como juízes. Mulher tem muito disso, pelo fato de nos exigirmos tanto. De estarmos sempre à procura de sermos perfeitas - na mesa, na casa, na vida, na cama. Estamos sempre na margem de risco. Sempre a perigo. Sempre insatisfeitas, devendo - não por nós, mas pelos outros. Sempre nos dando mais, sempre cedendo, sempre acatando. E sempre esperando.
Descubro que meu medo é esse: o de me esquecer como pessoa e virar boneca inflável...

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Mergulho


Ainda sobre ler, acredito que os textos nos venham não por acaso,mas porque o atraímos - como , dizem, fazemos com as pessoas. No meio de um texto imenso sobre comunicação, li a seguinte frase: " percebemos a realidade não enquanto tal, mas sim enquanto a imaginamos", de Antonio Holhfeldt.
Definiu-me.
Vivo meu mundo de forma tão imaginativa que custo a lembrar do que realmente fiz ou falei no mundo dito real. Minha cabeça é uma constante fábrica de ideias, que só para - quando para - enquanto leio algo que me puxa, ou me interesso por um filme. Como num mergulho. Como se o ar da vida me faltasse e eu respirasse de outra forma. Impregno-me de coisas noivas, de novas ideias que ficam ali, latentes, até que se possa voltar à tona e pô-las para fora. Minha meditação. Meu encanto. Saber é meu pão.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Promessa

Comecei o dia bem. O sol me acordou de forma lenta e carinhosa. Acho que contratou os passarinhos para uma "manhãnata", e isso já foi meio caminho andado para que meu dia tenha um outro brilho.
Acordei alegre, levantei disposta, beijei o filho, sorri para mim no espelho. Bom dia, querida! Caminhei, corri, peguei sol da manhã, elixir da vida. Na volta, meu café com leite e mil recados no msn, no e-mail. Mil sorrisos e mil abraços vindos de longe. Como posso deixar de me sentir bem?
Bom dia, minha linda! A semana promete. Vê se guarda em ti esse calor e esse sorriso. Assim, se o sol fizer greve de novo, já tens ai um bom estoque para ser feliz!

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Doce


Hoje é dia das crianças. E da padroeira do Brasil. Nada contra Nossa Senhora Aparecida, mas deveria ser dia de São Francisco de Assis, meu mestre protetor, delas e dos animais. Ou São José, com sua cria ao colo.
Ou bem poderia ser dia de ser criança, todos nós. Levantar e deixar remela no olho, tomar café da manhã ainda de pijama , e depois se jogar no sofá para ver desenhos. Ou sair correndo para brincar na rua, sem relógio, sem tempo, sem nada, só vontade de ser feliz. Quem sabe gargalhar por qualquer coisa. Ou cantarolar a mesma música por dias a fio -
imitando o personagem em frente a TV.
Isso. Fazer de um dia qualquer nosso dia de ser criança. Nosso dia de ser como sonhou nosso Criador: puras, ingênuas, suaves, e por isso livres. Despertar em nós o que temos de melhor , nossa alma mais pura, nosso sentimentos mais leves.
E disso entendia bem Thiago de Mello, em seu Estatuto do Homem:
" Fica decretado que todos os dias da semana, inclusive as terças-feiras mais cinzentas, têm direito a converter-se em manhãs de domingo".
E eu completo: desde que não faltasse brigadeiro...

domingo, 11 de outubro de 2009

Weiberfastnacht

Essa deve ser a melhor parte de gostar de ler: sabe-se de tudo! Sou uma curiosa de ideias, de pensamentos, de modo de vida. E enquanto a vida me priva de viajar, sigo sabendo do mundo o que me cabe. E aprendendo - e me divertindo - muito com ela.
Li sobre a Weiberfastnacht, por exemplo, o “carnaval” da cidade alemã de Colônia. Até isso tem seu lado de aprendizagem. Além da boa comida e chope da melhor qualidade, primam pelo capricho em lugares públicos, bares e restaurantes,
por se tratar de uma festa de rua.
A tradicional festa possui ainda uma peculiaridade: no primeiro dia da festa, quem manda são as mulheres. Trata-se da Quinta-feira das Mulheres (dai o nome Weiberfastnacht), quando elas 'tomam a chave da prefeitura e saem pelas ruas cortando gravatas dos homens, numa alusão à castração masculina em detrimento de sua imagem'. Esta tradição remonta à primeira metade do século 19, quando um grupo de mulheres da região resolveu divertir-se da mesma forma como faziam seus maridos, que as deixavam em casa, fazendo o trabalho duro, enquanto eles se embebedavam e riam à toa pela cidade. Acho que já vi isso em algum lugar...
Cortar gravatas, um ato simbólico. Deveríamos fazê-lo, sempre. Não dessa forma pitoresca, mas sendo nós mesmas, enxergando-nos como pessoas, como mulheres, e não só como mães dedicadas, fiéis esposas, respeitáveis profissionais.
Quem sabe assim sobra um tempo para um chopinho
com as amigas...

sábado, 10 de outubro de 2009

Rugas


Parece ironia, mas recebi um e-mail que achei ridículo, que mostrava mulheres que tinham sido capa de revista masculina. Tinha imagem de quando estavam no auge e como estão hoje. E eu falava em mulheres maduras e seus novos encantos ainda estes dias.
Achei revoltante, ainda mais que fora enviado por uma mulher madura. Quem sabe elas se vêem imunes ao passar dos tempos. Quem sabe não se olham no espelho
e a cada dia acham uma ruga nova.
Nada contra, as pessoas se divertem com o que querem. Mas imagino que nas palavras de mulheres maduras, tantas Clarices e Maitès em tão bons livros, muito mais de interessante para se ver do que as linhas que, impreterivelmente, todas teremos. Quem sabe até nos capítulos cheios de vidas femininas das novelas de "Manoeis". Talvez ali aprendamos mais a nos preparar para o longo caminho a seguir. Talvez assim aprendamos anos respeitar.
E nos amar, como somos. E como viermos a ser.
Enrugadas e envelhecidas, todas nós.
Sem distinção.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Desejo


Feriadão chegando. Bom se meu cérebro codificar isso e resolver tirar folga. Talvez um passear leve na praia, sentindo a mistura da areia e da água em meus pés. Ou uma caminhada em meio ao mato sentindo o presente de tantos sons, cheiros e temperaturas. Quem sabe até um filme, em casa, debaixo de cobertas, pipoca , filho e cachorro. Afinal, chuva promete.
O que fazer, não sei. Vou deixar rolar, já que ando travada pela vida mal escolhida. Mas espero, sinceramente, que faça diferença. Nem que seja um abrir de olhos e saber-se sem rumo, virando para o lado e puxando a coberta. Um café sem pressa e sem culpas. Um caminhar sem tempo de voltar. Ver vitrines, sentir calçadas, provar um doce, comer chocolate. Respirar meu tempo livre. Deitar na rede olhando o nada. Viver. Deixar o balanço da vida me levar. Um levar não breve, um levar alto, vista de horizontes, por do sol feliz.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Dois em um

Dia das crianças chegando. Dia de todos nós, eu diria. Porque se tem uma coisa que me mantém feliz é meu lado infantil, pouco explorado ultimamente. Gargalhadas bem dadas, brincadeirinhas com o filho, correria atrás do cachorro, deter-me a olhar flores e coisas pelo caminho. Seguir rotas de formigas. Sorrir, sempre e muito. Amo. Renova meu ser. Devia me dar mais chances como estas. Devíamos. O mundo adulto é seco, pobre de felicidade.
Não me alimenta, não me serve.
Notei como faz bem ser criança quando fiz um trabalho voluntário em um lar assistencial. Dava "aula" de leitura. Recebia a todos, entre 6 e 12 anos, contava uma história, emprestava livros, pedia para que contassem as suas. Em cada beijo bem estalado, renovação de minhas células e de minh'alma. Faz-me falta. Pretendo voltar. Não sei se por elas ou por mim.
Sai por "falta" de tempo ou pelo coração mole. Levaria umas tantas para minha casa de bom grado, mesmo sabendo de que isso é pura ilusão. Não sou assim tão entregue, tão disposta como mãe. Tenho, assumo, várias limitações neste campo.
Sou egoísta demais para isso.
Segunda é dia das crianças. E na padroeira do Brasil. Quem sabe rezo a ela pedindo para manter meu espírito eternamente jovem.
Serei eternamente grata.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Milagre


"Há duas formas para viver a sua vida.
Uma é acreditar que não existe milagre.
A outra é acreditar que todas as coisas são um milagre".
Albert Einstein
Isso que tenho pensado nestes dias que tirei para me repensar. Tudo pode ser visto desse forma entre poética e verdadeira. Tudo pode, ou é, um milagre. Se acordei, se abri os olhos, se beijei meu filho ainda na cama, foram pequenos milagres. Se senti o gosto quente do café em minha boca, se ouvi as noticias na TV, mesmo que ruins, tudo é um milagre. Se estou com sono é porque dormi pouco. Se com fome, comi pouco. Mas só de saber que estão, sono e fome, ali, ao meu alcance, mostra que estou viva. Pulsante. O resto é resto, e há de se enfrentar.
E como é fácil ser feliz. Passo a passo, sigo em frente, entre vacilante e confiante. E, pelo menos a mim, basta um sorriso, uma mensagem, um beijo , um olhar. Sou fácil de agradar: abro um sorriso e me deixo invadir pelo milagre de me ser.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Presente


Hoje amanheceu um dia meio estranho. Fez-me lembrar algo antigo, como que tirado de um baú.
Lufadas de vento quente em meio ao dia frio, pinceladas de amarelo no céu meio fechado. E um silêncio inacreditável, como se anunciasse mudanças, de tempo ou de vida.
Ao caminhar, senti como se estivesse sozinha no mundo, como se envolta com uma redoma. Estranha, deliciosamente estranha. Compartilhando comigo mesma tão mágico momento.
Quem sabe seja um presente de Deus. Quem sabe eu presente. Tem momentos que é melhor curtir, sem tentar entender, nem escrever sobre.
Melhor aceitar o presente, desembrulhá-lo e só.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Dama


Perdemos Mercedes Sosa. Para muitos, só uma bela voz. Para outros tantos, marca de um tempo, voz de liberdade e luta, lembrando-nos do que somos capazes. As músicas envolvidas por sua bela voz viraram hinos, ou hinos que viraram músicas. Uma vida de batalha, uma batalha calma e sóbria, contada em voz forte, ao mesmo tempo que aveludada. Voz de quem acalenta ao mesmo tempo que encoraja. Voz de mãe. Colo de muitos, Colo de todos nós em tempos de bocas fechadas. Porta voz de muitas liberdades perdidas. Porta voz da vida.
Hoje, com certeza, o mundo está mais fraco. Mas o céu está mais feliz.
Canta com ela nossos hinos de paz.

sábado, 3 de outubro de 2009

Madura



Estava aqui revendo umas coisas, pensando noutras. Pensava em como a vida é injusta, dando a nós a experiência que deveríamos ter desde jovem, num corpo que já não o é tanto assim.
Olho minhas rugas no canto dos olhos - que já chamei de vida em braille - e fico a pensar onde vão parar. Que caminho seguirá meu corpo ao envelhecer. Como serei daqui a 10 anos. Ou mais.
Lembro de meu filho perguntando para a vó , então com seus 60 anos, porque ela era tão enrugadinha. Hoje ele me vê "enrugadinha". E estou longe disso.
Rugas não vêm só de falta de cuidados - se fosse só isso, não teria nada, tamanho fanatismo. Rugas vêm de mágoas, de tristezas, do franzir frente à vida. Estão aqui, e as acompanho de perto, dou carinho e atenção, para ver se me esquecem.
Mas penso pelo outro lado. Somos, nós, mulheres atiradas no abismo dos "enta", mais femininas. Somos mais sensuais, pelo menos quando assim queremos. Somos mais completas e complexas, belas charadas. Não nos satisfazemos com pouco, com restos, com sobras, com rapidinhas. Desenvolvemos outras capacidades a serem admiradas além da casca.
E isso nos fez assim, mulherões. Firmes de caráter e de vontades. Guerreiras, únicas. A nós cabem os homens mais fortes, os corajosos, os destemidos cavaleiros que enfrentam as guerras. Aos fracos, medrosos de suas falhas, deixamos as mulheres fracas dos bordéis.
E que façam bom proveito...

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Esperança

"A vida é uma pedra de amolar: desgasta-nos ou afia-nos,
conforme o metal de que somos feitos".
Essa frase atribuída a George Shaw descreve bem essa fase da minha vida. Às vezes afia-me com pedra de amolar; às vezes, forja-me com fogo. Ultimamente tem me moldado com silêncio, com parada, com o nada. Tanto faz, aproprio-me do que é meu ,
acato, aceito.
Espero que faça de mim uma mulher mais forte. Espero por parte da vida que me molde ao que é meu, pouco ou muito. Mas que me dê a paz tão desejada.
Que me mostre meu merecido caminho.
Que me dê, enfim, o que é meu.
Que me devolva o que sou, meu eu.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Oculto

Amanheceu chovendo e frio. A vontade era a de ficar na cama e nela acampar um dia todo, dividindo-me entre livros e sonecas, esperando o sol de minha vida chegar. Mas a vida não para porque quero. Mesmo que não ache o dia útil, ela não para. Olho o teto do quarto enquanto escuto a chuva que levou embora o canto dos pássaros. Estariam eles também à espera do sol?
Para me animar, relembro uma frase de Guimarães Rosa:
"Quando nada acontece há um milagre que não estamos vendo".
Pego-me pensando qual serão os próximos capítulos, o que me reserva o grande autor, se melodrama ou comédia. Melodrama já o faço, atriz nata. Quem sabe uma comédia romântica, destas que amo? Lembro que nelas também tem doses de dramalhão...
Acorda, mulher de pouca fé! Vai, levanta!
Lava o rosto, escova o dente e se olha no espelho!
Vê se dá um sorriso , mesmo amarelado pelo ontem, e diz:
Bom dia , dia!
Quem sabe ele vira teu amigo e te consola?