segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Espera

Ah, os verbos. Por isso adoro a fala mãe, que requer cuidado em dizê-la. Como os verbos ser e estar, tão diferentes para nós, tão iguais em outras línguas.
Hoje pensei de novo sobre eles. Sou feliz, mas não estou. Sou, eu, em meu ser, em minh'alma, uma pessoa extremamente feliz, leve, de bem com a vida. Ela, a vida, que tem deixado a desejar, talvez tentando me ensinar sobre ela mesma, talvez tentando me persuadir a deixar as coisas como estão.
Mas sou movida por sonhos. Ingênuamente movida a sonhos. E ai vem um vento mineiro, morno e com cheiro de quero mais, que me diz que "sonhos são como deuses: se não se acredita neles, deixam de existir". Sim, sonhos, tantos. Meus. Muitos já deixados para trás, outros novos, beirando o caminho. Sim, sonhos tantos, que ainda hei de realizar.
Sim, sonhos, muitos que ainda hão de chegar.

domingo, 29 de novembro de 2009

Novo


Domingo, sol lindo, milagre. E eu esperando, ansiosa, por um curso de roteiro de cinema, com Tabajara Ruas (teve um dedinho dele na maravilhosa minisérie A Casa das Sete Mulheres). Um misto de expectativa e timidez.
Sim, timidez. Sou, tenho. Mas gostei da forma nada tímida que consegui esse curso. Essa sou eu, a que corre atrás. Esta tenho sido eu, de novo. Parece besteira , mas a cada coisa que quero e consigo, sinto-me melhor. Um curso, uma viagem, uma superação qualquer. As ideias que corro atrás. Só pelo batalhar já me sinto bem. São indícios de que os tempos de engessamento estão ficando para trás. Indícios de que a casca que deixei crescer em mim está caindo. E depois dela, eu, "verde", pronta para me reconstruir.
Domingo, sol lindo, e eu feliz pro passar um dia todo dentro de uma sala fechada. Quebrar paradigmas. E, quem sabe, encher uma gaveta antes vazia - ou cheia de papéis embolorados - de meu cérebro com coisas novas. Quem sabe absurdamente novas.
Quem sabe um renascer?

sábado, 28 de novembro de 2009

Conjugações


Ontem em conversa com um amigo, dei-me conta de uma ideia que já havia trabalhado, mas tinha esquecido em alguma gaveta mofada de meu cérebro: vivemos verbos.
Sim, nossa vida é feita de verbos. Verbos nos definem. Nossa ação é definida por eles. Acordar, abrir os olhos, espreguiçar, levantar, falar, beijar, vestir, lavar,escovar, vestir, comer, entrar sair, estudar, trabalhar, etc.etc.etc. Tudo demanda verbos.
Somos corpos a espera de comando - e que bom quando os temos, comandos e corpos obedientes. Que triste seria se não os tivesse. Fico a pensar na angústia de não tê-los.
Ou de perdê-los.
Meus verbos são muitos, tantos e todos os prováveis. Dos ditos racionais e de sobrevivência, a outros que cultivo por minha boa vontade. Sorrir é um deles, minha marca registrada. Ser feliz, outro. Amar, sempre, imprescindível. Beijar sempre que possível. Que bom poder fazê-los.
Meus verbos prediletos, resumidos em um só: viver!

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Saberes


Hoje começam as férias de meu filho e acabam o meu silêncio produtivo. Levantei cedo, de surdina, e logo estava ele atrás de mim. Nem meu sossegado banho matinal foi possível. Chego a pensar que não vou mais escrever. Chego a pensar que não haverá mais um minuto sequer que possa estar a sós com as Joyces que me habitam. E olha que ele já é um adolescente...

Posso ter duas saídas. Uma, encrencar e levar o barco num mar revolto, cheio de "chega para lá". Outra, usar de minha sapiência - e de muita paciência - e conseguir contornar as coisas. Ver o mar, ali, revolto, e deixar que as ondas me levem para um lugar mais calmo. Como a dica para não se afogar. Quanto mais me debato, mais afundo.

Hoje começam as férias de meu filho e temos muitos dias ainda pela frente. E planos diferentes. Eu pretendo dar uma geral na vida, coisa que faço todo final de ano. Gavetas, armários, roupas, pensamentos. Talvez uma aula de dança, quem sabe. E me exercitar muito, corpo e alma.

Ele , pelo que diz, pretende aventurar-se - que tanto faz na frente do computador ou da vida. Faz, sim, muitos planos, e em todos me inclui. Passa para mim a responsabilidade total de ser feliz.
Ah, se ele soubesse que a felicidade está nas coisas não planejadas do amanhã e sim da vivência do hoje, ai sim, teria, umas boas férias...

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Sonho


Tenho um jeito próprio de levar a vida, certo ou não. Alterno dias de paradas para pensar e refletir com dias de total ação. Saio da letargia ao impulso em um momento só. Como se me preparasse para tal momento. Como se um dia fosse treinamento para outro.
Assim sigo, e sempre, defeituosamente sempre sem pensar no futuro. Penso, sim, mas de forma romântica, do que gostaria de fazer, de ver a Vida ao meu lado quando acordar, da vida que sonho levar.
Segredo que é uma vida bem simples - quiçá olhando de minha janela aquele mar parado como eu em meus momentos de pensar. Quem sabe sentada em uma poltrona velha e confortável, numa mesa antiga, marcada pelo tempo e cheia de coisas que gosto ao meu redor. Ver de minha janela o pescador que volta de seu trabalhar. Ver no azul do mar minha poesia, no vôo da gaivota minha sintonia, ao meu lado meu bem querer.
E escrevendo. Ah, quero morrer escrevendo - nem que seja para mim mesma.
Tenho sonhos simples, sonhos fáceis de sonhar. Tomara a Vida me dê essa chance de me realizar...

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Alice


Hoje acordei com a música Maria, Maria de Milton Nascimento na cabeça. Depois entendi o porquê. Era a vida me dando um consolo. E uma força. A letra tem tudo a ver com meu momento. E de tantas mulheres que se deixam levar pelo machismo dominante. Com eu.
"Mas é preciso ter força, é preciso ter raça, é preciso ter gana sempre". Assim dia a música. E assim o é. Alguns podem se perguntar qual problemas eu teria em relação à vida. Afinal, arquiteta formada, estudando jornalismo aos 45 do primeiro tempo. Fiz meu nome , sou conhecida e reconhecida. Tenho um lindo filho de 14 anos, já plantei várias árvores, penso já no meu livro - ou meus tantos. O que mais poderia querer?
Respeito. Na minha vidinha pacata, muito assédio moral. Não dava trela ao assunto até entender. Se se vêem no direito de me menosprezar, de me mal querer, se me menosprezam e nem assim me deixam ir, é, sim, assédio moral. É que a gente se acostuma com as coisas. Até com as ofensas. E acha que tudo é normal. Acorda, ALICE! Não é!
"Mas é preciso ter manha, é preciso ter graça, é preciso ter sonho , sempre". Isso que vejo, nisso que acredito. Esmurrar de nada adianta. Berrar só dá voz ao agressor. precisa-se de estratégia, do calar para vencer. E seguir, forte e linda. Seguir sorrindo, minha marca registrada.
...Quem traz na pele essa marca possui a estranha mania de ter fé na vida....

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Olhos de menina

Admirando as fotos de Corrie White, temos uma pequena noção da perfeição da vida. Como uma simples gota de leite ou de qualquer líquido pode conter tanta beleza. Um assunto que me acompanha desde sempre, desde os tempo que ficava horas observando os desenhos que o vento fazia na areia ou que o mar deixava nela. Desenhos sem explicação.
Simples e ao mesmo tempo da mais alta complexidade.
Imaginava neles tecidos para o vestido da princesa, brincos que a deixassem mais bela. Anéis de vegetal, colares de conchas. Até das bolas de espuma fazia tais divagações. Devia ter seguido o que queria: desenho de produto. Quem sabe jóias. Quem sabe.
Mas voltando ao que a vida me deu, aos caminhos que segui - e sigo - vejo em cada canto sua beleza. Tenho guardada em mim essa visão pura e atenta da menina que corria na praia. Vejo , ainda, castelos nas dunas, crateras de lua no chão. Vejo mundo de elfos nos musgos das árvores.
E nisso tudo, vejo muita poesia. Uma poesia imensa e linda que só um grande ser pode ter criado. Um mundo não visto aos olhos cegos de adulto. Um mundo ao alcance de todos, um frescor na nossa imaginação. Quem sabe se, atentos, damos mais valor a tudo?
Eu erro, sim, ao dar mais valor a isso do que aos parcos e chatos passos do meu dia...

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Nuvem


Por vezes penso que aquele ditado que diz que "desgraça não vem sozinha" tem um fundo de verdade. Explico: meu final de semana começou a dar para trás ainda no sábado, como se tivesse passado uma nuvem negra por mim. E foi de repente. Instantâneo. Sem aviso.

Começou com a história de sempre, da tal pergunta " o que estou fazendo aqui". Um lindo casamento e eu triste. E rindo, falsamente rindo. E enquanto ria e conversava "animadamente", revia internamente minhas perdas, meus desvios de caminhos.


E de lá para cá tenho tentado me aprumar, colocando a cabeça no lugar, revisando coisas. Vendo em cada uma delas algo de bom. Mas parece que mente suja trás sujeira. E não sei se é só comigo: se não estou bem , nada na casa funciona, nem máquinas.


Hoje me vejo sobrevivente. Coisas tolas, bem sei, mas afetantes. Como rosetas na grama que me parecia macia. Sento, enfim, na calçada e tiro-as, uma por uma. O dia amanheceu, não vai me esperar melhorar...quem sabe a Vida me agrada e me faz melhorar?

domingo, 22 de novembro de 2009

Começo


Ontem, um casamento. A cerimonia toda muito alegre, noivos rasgando seus rostos em sorrisos, eternas trocas de carinho. Uma festa. Vida, cor, boa convivência.
Na rápida e sábia fala do padre, a frase " sem o amor eu nada seria" ecoou em minha mente. Somou-se a isso a benção de todos os presentes sobre o casal. Um apostar, um unir de pensamentos, um unir de corações. Uma energia boa a circular, energia real de amor e cuidado.
Tomou-me por inteira. Não tive esse caminho normal de flertar, namorar, noivar, casar. Há, por esse caminho, um comprometimento maior de um com o outro, penso. Ou deveria. Uma escolha feita aos poucos, não um arrebatar de sentimentos aos tropeços. Deve ser bom sentir isso sendo concretizado em um novo recomeço a dois. Deve ser boa a sensação de receber o outro em nossa vida de uma forma ritual. Não sei se isso faria alguma diferença, mas deveria.
Talvez ali estivesse a chave de anos de bem viver.
Olho para o lado e vejo casais se amando ainda depois de anos. Um carinho, um chamar para dançar, uma mão segurando a outra, por vezes já craquelada pela vida. Não tive, não tenho.
Se tiverem a receita, que me digam.
Quem sabe um dia a Vida me pede em casamento?

sábado, 21 de novembro de 2009

Revelação


Prestando atenção às chatices do dia, vi o quanto a falta de privacidade me incomoda. Altera-me quando não tenho. Acho chata essa imposição da vida de que nós, mulheres, mães, não temos direito a ela. Uma salva de palmas às raras mães/mulheres que deixam na mão dos homens as tarefas do dia a dia. Não só os enfadonhos ir e vir, mas também as paradas, tantas, para prestar atenção aos seus ao redor. Meu sonho de consumo.

Eu dona de mim e mandante. Ele servo obediente.
Meu filho está de férias. Uma mãe sabe o que isso significa. Ao invés de paz em casa, tumulto. Parece ligado em bateria recarregável. Não para de falar, nem muito menos de pedir a a atenção. E ai parece que cria um círculo vicioso - ou seria melhor dizer circo? - ao seu redor. Até o cachorro se vê no direito de me buscar. Perguntas como " o que vai ter de almoço" as nove horas da manhã, ou " o que vamos fazer hoje" por vezes, descontrolam-me. Sentada em frente ao computador, mil ideias a escrever , perco o chão. E a estribeira.

Deve ser por isso que tomo tantos banhos nas férias, meus oásis.
Mas, enfim, a vida segue e eu me pergunto até quando. Dizem que filho criado é trabalho dobrado. Hoje ele foi passear em outra cidade com amigos. Talvez eu aproveite melhor meu dia. Talvez sinta falta. Talvez veja que é na adversidade que crio mais.

Que seja ela, a princípio, a minha inspiração, o meu bem estar...

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Novos ares


Minha vida já anda com ares de férias. Deve ser a proximidade delas ou o sol que nesta época do ano que entra cedo, cedo. Acordo animada, mesmo nos dias que não está prevista a minha sempre bela caminhada. Acho que já entrei no espírito de verão. Gosto. Visto azul e sorrio para a Vida, minha eterna companheira.
Pergunto-me porque não poderia ser sempre assim, mesmo no mais rigoroso inverno. Porque a natureza é sábia, bem sei. Basta ouví-la. No outono fazemos uma preparação para o tempo fechado que virá. Um tempo de guardar. Um acúmulo de energia para o inverno, onde fechamo-nos para pensar, como um hibernar de ideias. Já a primavera é tempo de preparação para um abrir. Tempo de plantar. Ficamos atentos aos movimentos, fazemos planos, medimos passos. É esse sol, esse cantarolar dos pássaros, essa aragem fresca que nos chamam para a rua, para o bem viver. É a vida nos avisando do tempo que virá. Logo, logo, já vem o verão, explosão de luz e calor, tempo de expansão, tempo de se expor. Nele queremos aproveitar tudo do que temos direito, nossas vontades e anseios, nossa colheita do que queremos ser. Tempo de colher.
A natureza é sábia. Também podemos ser, se ficarmos atentos, ligados a ela. E tal feito a Mãe, também sermos sábios e tirar de seus ensinamentos belos proveitos.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Viva


Acordei bem cedo para caminhar, quando a cidade ainda ensaiava acordar. Como é fascinante essa hora do dia! Um mundo lavado pela noite. Perfumes inebriantes das flores acordando, a luz diferente do sol se espreguiçando. De sons, só o feliz canto dos passáros começando um novo dia.

Fora o frescor, ah, o frescor matinal. Arrepiou-me o corpo e a alma.


Nesse cenário, caminhei, lenta, sem pressa. Esqueci frequencímetros e regras. Aproveitei os poucos momentos de paz e enamorei da vida. Senti na pele o bem viver. Senti a mágica alegria de estar viva. Sorvi o perfume de um novo dia. Meu sorriso no rosto, meio tímido ainda, denunciou os prazeres, tantos. Estes, tão simples, renegados, esquecidos em meio a horários e papéis. Estes, onde vemos a prova de algo maior. Nosso presente diário. E eu, viva.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Bom dia, Vida!

Hoje acordei particularmente feliz. É aniversário de uma pessoa que prezo muito, que tem uma importância enorme em minha vida, mesmo não estando ao meu lado. Uma pessoa que me incitou a tirar de mim meu melhor. Que me ajudou a ser quem sou. Que me ensinou o caminho do Amor. Que me ensinou a amar as palavras e a própria vida. Ensinou -me sobre a Vida, assim, maiúscula, vivida com intensidade e paixão.
As nossas pegaram caminhos diferentes. Mas ainda assim reconheço nela meu prumo e meu chão, meu fio condutor. Devo a ela minha sensibilidade, meu bem querer. Devo a ela um sentido maior ao que dizem viver. Com ela, vejo as palavras com letra maiúscula. Com ela, leio nas entrelinhas. Com ela, sinto mais cada passo no chão. Com ela, sinto-me. Vivo. Sou.
Hoje acordei particularmente feliz. Talvez seja a Vida me dando o Bom Dia do resto de nossos dias. Talvez seja a Vida me dizendo que me Ama. Talvez seja a minha fé, hoje reforçada, de que temos ainda muita vida pela frente.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Sabedoria


"E no meio do inverno eu descobri que dentro de mim havia um verão invencível".

Quando li essa frase de Rubens Alves, tremi. Definia-me. Acho dentro de mim , invariavelmente, muitos verões. Ou pelo menos primaveras, quando o tempo ainda não está totalmente firme, mas as flores garantem o frescor das manhãs, e os pássaros chamam alegria. Sou uma otimista incorrigível. Tenho baques, como tantos, mas ponho a culpa nos hormônios e sigo em frente.
A única coisa que me pega de jeito, e me derruba se eu deixar, é o não seguir o que penso. É o não fazer o que sei ser o melhor para mim. Tenho em minha frente as respostas e ignorantemente ignoro. Isso acaba comigo, esta fraqueza, essa fragilidade humana que me impede de ser feliz.
Mas a minha capacidade de sair do buraco é imensa. Talvez tenha aprendido que depois da tempestade vem um dia lindo, que o sol brilha mais depois da chuva. E que a parte mais escura da noite é de madrugada, pouco antes do amanhecer de um novo dia.
Não, não sou perfeita. Sou é teimosa. E aprendi a esperar o melhor momento. A usar de estratégias para ser feliz. Não dou mais murro em ponta de faca, nem choro pelo leite derramado. Espero, sempre, o melhor tempo para agir. O meu melhor tempo de reagir. Talvez seja uma falha, talvez seja uma vantagem.
Não sei. Só sei que dentro de mim sempre há um verão invencível.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Ela


Hoje minha mãe faz aniversário. Tem exatos 30 anos mais que eu, por isso nunca esqueço sua idade.
Caso a parte, ela. Mulher de "sempres". Sempre trabalhou. Sempre deu aulas, dia e noite. Sempre estudou. Fez faculdade depois dos 40. Voltou para a faculdade depois dos 70. Sempre procurando, sempre aprendendo, sempre apanhando e sempre levantando.
Mulher de " jás". Já pintou, bordou, esculpiu, desenhou. Já plantou sua árvore, já teve cinco filhos, já escreveu vários livros.
Mulher de começos. Começou a escrever aos 65. Começou a usar computador com 70. Começou uma nova vida aos 75. Está sempre começando algo. Sempre tentando algo novo. Sempre em constante mutação. Sempre.
Mulher de nuncas. Nunca pára, nunca está satisfeita, nunca aceita a ela mesma. Nunca deixa para trás uma ideia. Nunca desiste do que quer. Nunca desiste de tentar. Nunca deixa de falar.
Nossas divergências, penso, vêm de nossas semelhanças, muitas. Desde os olhos de mar até o jeito direto de falar. Descubro que só se conhece a mãe quando se é. E que só se é quando se conhece a mãe....

domingo, 15 de novembro de 2009

SuperAção


Uma das coisas que ainda vou fazer - quem sabe nestas férias, já que tenho pressa de ser eu mesma - é aula de dança de salão. Cansei de ficar a mercê da felicidade de saber dançar. Cansei de ficar sentada à mesa com medo de errar. Do medo de não sabê-lo e por isso não o fazer.
E são tantos, o medos. Muitos, que transformo tudo em não gostar. Fica mais fácil. Mas a idade vai trazendo a maturidade de reconhecer o que são medos e o que são gostos.
Nos últimos anos tenho perdido muito deles. Hoje até acho graça. De viajar sozinha. De pegar a estrada. De usar vestido, salto alto. De ser bonita. De corresponder a um flerte,
só para treinar o ego. De ser eu mesma.
Este está sendo o ano de perder os medos, por mais banais que sejam. De correr. De andar de bicicleta. De me impor sem magoar. De discussão - as sadias. De ser do contra. De me arriscar. De me comprometer. De amar e dizer eu te amo. De dizer não, este o mais difícil. Descubro neles, no ir contra os medos, uma força enorme,
a da satisfação de conseguir ultrapassar as barreiras impostas.
Que me venham as aulas de dança!
E que deixem meus receios para trás...

sábado, 14 de novembro de 2009

Surpresa

Sempre fui preguiçosa em relação a exercícios. Sentia deles os benefícios, mas nada que me fizesse amá-los. E isso desde as aulas de colégio. Detestava.Depois arranjei a desculpa de uma lombar com defeito de fábrica. Um defeito de nomes complicados
que servia muito bem de desculpa.
Hoje, no auge de meu motor 4.5, sinto-me outra e com pena pelo tempo perdido. Ando com vontade pelas ruas da cidade. E , para minha própria surpresa, alterno com corridinhas. Mínimas, mas que me valem um sorriso de superação. Tímidas, mas que mantém meu frequencímetro na medida certa. Meu coração, minhas coxas e meu bumbum agradecem. As roupas perdidas também. Mias ainda as roupas esquecidas no armário. Acima de tudo agradece a minha auto estima. Mais pelo superar-me que o agradar-me. Mais pelo sentimento que pelo espelho. Um ultrapassar de marcas, um alcançar de metas, um esquecer medos.
Que me venha o 4.6!

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Férias


Férias chegando e vejo meu filho fazendo mil planos. Como um diário, tenta aprisionar cada dia de sua extensa pretensão de ser feliz. E assim são muitos, programando tanto, sendo tão intensos que voltam cansados. Saem para supostamente descansar e voltam exaustos.
Eu , ao contrário, queria umas férias diferentes. Um não prever. Uma não pretensão. Deixar acontecer. Sentir-me livre outra vez, como já fui e amava ser. Seguir de ventos, feito passageiro de balão. Saber a saída mas não saber a chegada.
As propostas são muitas. Voar está entre elas. Quem sabe dominar as ondas. Ou subir paredes. Mas o que quero mesmo das férias são férias. Não do corpo, mas de alma.
Experimentar coisas novas, não programadas.
Vivenciar. Viver.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Desabafo


Por vezes, muitas delas, sinto-me completamente ingênua frente ao mundo. Recebo um e-mail que diz "tudo vai dar certo", que me enche de alegria e do que sou, uma menina. Outro fala de perigos, de golpes, trazendo para nós os medos, tantos. Fico me perguntando o porquê das coisas ruins. O que nos leva a apostar nelas, a escutá-las e a cada dia nos fecharmos mais à vida e à felicidade?
Vivo como se numa redoma, e por isso muitas vezes criticada. Talvez eu esteja errada e todo o mundo seja mal. Talvez eu esteja certa e, sendo otimista, estaria vedada a tais manifestações ruins. Talvez o bom atraia o bom. Assim como meu sorriso, sempre atento, atrai outros. Atraiu gente feliz. Ou quem fica feliz com ele. Quem dera.
Mas, nego-me a me enclausurar. Nego-me a tornar-me desconfiada. Nego-me a olhar o mundo por detrás das grades. Nego a crer que não tem mais saída. Que não tem mais volta. Meus músculos faciais são meus amigos e meus defensores. Quem sabe o lado mal da vida se assusta e me deixa passar...

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Dica



Acordei hoje com o cantarolar dos passarinhos. Identifiquei um por um, como se cantassem só para mim. Um cantarolar sempre alegre, sempre festivo, pronto para o dia. E alegrando já cedo o meu. Fizeram-me abrir um sorriso. Começar bem. Ver o dia com outros olhos, com outro sabor. Com outra energia.
Devíamos ser como eles, acordar de bem com a vida. Acordar feito criança.
A vida agradeceria sendo sempre bem melhor...

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Hóspede


Mais uma vez fui contemplada com um ninho de passarinho na varanda da minha casa. O ritual se repete todos os anos e já ficamos esperando tal momento. Os cuidados para receber os hóspedes temporários são muitos, desde silêncio até leveza na faxina. Acompanhamos o dia-a -dia, da construção do ninho ao revoar dos filhotes. Cuidamos para que não haja nenhum intruso e torcemos pelo futuro dos novos habitantes dos céus. Fica no adeus o ninho ali vazio nos lembrando de momentos tão doces. Poucos e rápidos, mas bons.
Engraçado esse apego a coisas tão simples. Mas nelas, muito a dizer, muito a ensinar.
Do respeito ao carinho. Do bem amar.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Lúcios


Este final de semana tive o prazer de assistir a peça Lúcio 30-80, com o comediante Lúcio Mauro (ai, que saudades da Ofélia!) e seus filhos. Levei meu filho, 14 anos, para conhecer um dos maiores personagens da TV brasileira. Não errei: ele amou.
Nela muito de emoção e de riso. Encantei-me pelo olhar profundo daquele homem que já nos fez rir tanto, o lúcido Lúcio, com seus intensos 80 anos. No contraste entre a comédia jovem do filho e a comédia discreta dele, muita história para contar. Neles se confunde a própria história desse país de comediantes natos, grandes mestres do picadeiro.
Mas fiquei mesmo extasiada com o Monólogo das Mãos, onde o Grande Lúcio descreve, com toda a sua intensidade, a serventia delas, para o bem e para o mal. " A mão que afaga é a mesma que joga pedras". Vi nisso uma verdade de doer. Carinhar e bater. Apertar de mãos ou jogar de granadas. Salvar e matar. Nelas, nas palavras bem ditas, meu encanto.
E hoje, Lúcio, uso das minhas para te agradecer ao belíssimo momento.
Marco de vida, que não morre jamais.

sábado, 7 de novembro de 2009

Aprendiz


Essa semana fui ao cinema e hoje vou ao teatro. Mais que um simples entretenimento, vejo nisso algo bem maior. Como se meu cérebro se abrisse ao novo. Como se em cada evento destes eu abrisse espaço dentro de meu ser para recebê-lo. Volto outra. Da comédia romântica ao cult-movie, abro meu ser. Além do teatro que sempre me extasia. Sinto como se minhas células cerebrais se renovassem. Uma faxina, trocando velhas e muitas vezes inúteis experiências por novinhas em folha. Saio entre introspectiva e alegre. Mas saio, sempre, diferente.
Para isso servem as novas experiências, penso. Para isso as coisas novas, de textos a amigos. Para renovar-me. Para fazer-me outra. Parto do pressuposto que estão ali para isso.
E faço valer a pena. Vivencio-as como posso. E delas tiro proveito, alimento, alegria. Ou lição.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Valor


Ainda dentro do tema Mulher - assim, mesmo, com letra maiúscula - vale lembrar nosso valor maior, de colocar nossos homens para cima. Sejam eles amores, amantes ou amigos. Ou filhos, pais, muitas vezes irmãos. Nosso papel maior. Nosso exercício diário de astúcia,
estratégia ou compaixão.
Já diz o ditado que atrás de um grande homem tem uma grande mulher. E isso é notável, a céu aberto e olhos fechados. Temos uma força motora dentro de nós. De impulsão. De tino. Empurramos, puxamos, pomos para cima. A isso eu chamo amor, um amor desinteressado. Nosso. Próprio. Fazemos pelo outro o que muitas vezes não fazemos por nós mesmas. E nem sempre somos valorizadas. Nem sempre bem vistas. Nem sempre lembradas. Talvez depois, quando tivermos seguido nosso rumo. Talvez depois vejam em nós o verdadeiro valor. Talvez sejamos exemplo. Ou memórias póstumas. Mas nos bastaria, hoje, um simples obrigado.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Fulana


Recebi um convite em minha casa para um casamento de um amigo meu. Um convite igual, como qualquer outro, de tantos. Estava escrito no grande envelope branco: fulano de tal e sra. Machista, como sempre. Nós, mulheres, que movemos o mundo, viramos senhoras. Perdemos a identidade. Não somos ninguém. Não somos nada. Uma abreviatura. Meras três palavras. A que acompanha, apenas. Ou a mãe de fulano. A senhora de ciclano. Já fomos a filha de tal. Irmã do outro. Já perdemos nosso nome tantas vezes por ai que nem sei.
Porque de tanta pompa? Porque de tantas regras? Não seria mais apropriado e muito mais encantador meu nome e o dele? Fulano e fulana. Até as lojas usam deste subterfúgio para nos fazer sentir mais a vontade, mais importante. Uma chamada mais intimista que cabe, sim, a um convite de casamento.
Paro para pensar e até acho graça. Começam ali uma nova vida, juntos. E já moldados às regras da casa. Ela será a próxima vítima: vai virar "sra. fulano de tal".

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Hoje


O corre-corre me assusta um pouco. Posso dizer que me irrita. Perco o prumo. Bastou um pequeno feriado e cá estou eu entre mil tarefas, mil papéis, mil e-mails para ser mais exata. Talvez seja porque entramos em novembro - e eu em parafuso. Pouco tempo e muita coisa. Deve ser a tradicional correria de final de ano. Como se tivéssemos pouco tempo para passar o ano a limpo. 365 em poucos. Como se isso adianatasse para alguma coisa. Como se o dia 31 de dezembro fosse um marco, uma the end, e dia 01 de janeiro uma nova página. Ledo engano.
Os dias passam e a gente só corre atrás. Não se para muito para um pensar. Uma faxina, seria mais correto dizer. Um jogar fora o que não presta. Um aceitar de mudanças. Um real mudar. Somos uma eterna esperança de mudanças sem que movamos uma palha. Como se negar resolvesse os problemas. Como se um dia após o outro resolvesse as coisas por nós. Bom se fosse.
Comecei meu dia fazendo uma lista. E já deixa-a de lado para conversar com amigos, responder e-mails entusiasmados, atualizar sites e profiles. Quem sabe isso me dá um gás.
Quem sabe depois eu corro atrás. Quem sabe...

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Mania


Meu filho, hoje com 14 anos, tem um jeito bem próprio de ser. Não sei de onde, talvez de mim, quando ainda não tinha me curvado frente à vida. Tem ares leves, frente a seu tempo e à sua idade. Se isso é bom ou ruim, só o tempo dirá.
Uma característica é certa: não para de falar. O cantarolar.
Chamo de mantras. Ele pega uma idéia ou um som - da hora ou inventado - canta/fala incessantemente. Dizem que os mantras tem energia própria. As palavras também.
Reconheço nele essa forma de se expressar. E reconheço nela sua grandeza. Bem melhor assim, penso, do que se eu tivesse outras preocupações como horas exageradas frente ao micro ou jogando vídeogames. Pena não combinarem, muitas vezes , com meu amor pelo silêncio. Talvez da próxima vez eu entre em alfa e o deixe também viajar. Cada um com sua mania.
E com seu entendimento, dele e do outro.
Amém.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Visita


Mudo de lugar, mas não de práticas: fui caminhar logo cedo. Adoro as cidades desertas pelos feriados. Adoro seu silêncio e como ficam bonitas quando sós. Ou talvez seja porque reparamos mais em seus detalhes, seus panos de fundo, sem os atores de sempre. Vemos ali seu cenário, ou o nosso, de nosso passar pela vida.
Revi os ipês roxos de minha infância já esquecida. O passar de tantos anos deu a eles uma nova paginação. Talvez pelo passar de tempo que lhes trouxe troncos mais vigorosos e florações mais intensas. Talvez pelo meu olhar, mais atento e cauteloso. Mais romântico, diria. Formam belos tapetes de pétalas por onde passo, feito rainha. Piso com pesar nas flores caídas ao chão. E olho admirada de seu colorido cor de lavanda. Pena não terem tal perfume, mas ai já era presente demais...
Revejo meus ipês e a mim mesma. Minha infância normal, mas divertida.
Meu jeito de ser que volta e meia revisito.
Como meus tapetes roxos. Meu chão.

domingo, 1 de novembro de 2009

Redescoberta




Só quem é mulher sabe a necessidade que temos de nos sentirmos bonitas. Sem isso, nem vontade temos de sair de casa. Não que precisamos ser belíssimas, mas pelo menos achar em nós algo de interessante. Precisamos nos ver como mulheres. Ver algo que nos faça ir em frente. Um olhar, um colo, uma boca, olhos, sorriso. Algo que nos destaque no mundo. Algo que nos defina, por mais que não achemos nada de interessante em nós. Não deixar de vestir algo porque nossas pernas não são de anas ou de ivetes. Ou não nos maquilarmos porque nossa boca não é Julie. Ou que vestidos são só para mulheres perfeitas. E decotes para as mais avantajadas. E há quem esconda os pés em sapatos fechados.
Eu mesma já passei por isso. Hoje retomo meu caminho e aceito meu lado feminino. Vejo em mim fragmentos do que sou. Boto um vestido e um bom salto, maquio meus olhos e boca. Olho no espelho e me gosto como sou.
Nem deusa, nem princesa, nem miss.
Eu, apenas. Eu, mulher.