sábado, 16 de janeiro de 2010

Ser


Ando muito sensível. Como sempre digo, brincando, chorando até em propaganda de papel higiênico.

E as imagens dos últimos dias tem me deixado estupefata. Os deslizamentos em Angra já tinham me deixado assim. Mas as cenas estarrecedoras do Haiti deixaram-me sem palavras. Minha vontade era esquecer quem sou - ou muito pelo contrário, ser quem eu realmente sou - e ir até lá ajudar, nem que fosse dando colo, afago. Coisas simples como dar de beber. Quantas vezes já me peguei pensando em ser mais útil, menos fútil. Ser um médico sem fronteiras, trabalhar numa missão de paz, sei lá. E nessas horas essa vontade sai pelos meus poros.

Muitos me julgam frágil. Madame. Mas nos tempos de trabalho voluntário em hospitais, pegava "pesado". Não me venham com grávidas pelos corredores, eu dizia. Gostava de atender pacientes em câncer terminal, crianças com Aids. Quem nunca entrou na ala de queimados infantil não sabe o que é sofrimento. E ver que vem destas pessoas o melhor olhar. Um olhar agradecido, que podia muito bem ser de raiva. Agradecido por toda e qualquer ajuda. Agradecido por estar vivo. Um olhar inesquecível.

Dentro de um hospital , asilo ou o que for, transformo-me. Sou o meu melhor. Dou o meu melhor, meu melhor sorriso, minha melhor palavra, meu certeiro incentivo. Sou solidária, firme, cheia de atitudes. Sou eu.

Está ai uma coisa que todos devia provar. Ou provocar, procurar. Ser algo para alguém desconhecido. Sem propósito além do fazê-la melhor. Ser humano, na real ideia da palavra. Ser, como todos deveriam. Doar, nem que fosse sangue, na "falta" de tempo. Ou apenas contentar-se em juntar donativos e se iximir de toda e qualquer culpa. E depois conseguir dormir em seus alvos lençóis.

Ando sensível, mas isso não conta. Deve ser essa minha vontade cada vez maior de Ser...

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