domingo, 28 de fevereiro de 2010

Ouro


Bem diz o sábio ditado: " a palavra é de prata, o silêncio é de ouro". Acho de uma verdade fenomenal. Quantas vezes senti que falei demais? Que teria ganho mais se tivesse calado a boca na hora certa, na palavra mal dita? Certo estavam os velhos Novos Baianos (*) quando nos deram o alerta.
Tenho medo das palavras, não do silêncio. Nele, muito delas, mas dentro de mim. Rebeladas ou controladas. Li hoje num texto que "algumas pessoas se sentem simplesmente deprimidas, ao se perceberem pensando (ou repensando) a respeito de coisas que as incomodam. Outras pessoas aproveitam esta fase para iniciar - ou dar um impulso maior para isto - um movimento de auto -análise crítica ou terapias".
Assim vejo meus silêncios, que muitas vezes assustam aos mais chegados - e até a mim mesma! - tão acostumados, eu e eles, à minha decorrente alegria, minha língua solta ( real ou virtual) e , por vezes, exageradamente falante. Uma tagarelice solitária. Acho mesmo, quase uma certeza cientificamente provada dentro de meu laboratorial existencial, que a muita fala é tristeza enrustida. Substituta astúcia de lágrimas. De tanta solidão. De tanto deixar.
Sou - somos? - feito palhaço no picadeiro...Sabe lá quanta tristeza deixou no camarim antes de entrar em cena...
Porque o mal nunca entrou pela boca do homem...porque o mal é o que sai da boca do homem...
(*) O mal é o que sai da boca do homem, letra de Pepeu Gomes, Baby Consuelo (hoje "do Brasil") e Luiz Galvão.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Dois


No meu passeio com o cão vi o casal se aproximando. Lado a lado, passo conjugado e firme. Bom terem atividades juntas, pensei. Mostra união, mostra interesse de estar ao lado. Interesse até pela saúde, podemos pensar. Afinal, se caminham lado a lado devem ter coisas em comum, nem que seja o simples caminhar. O simples sentir do calor do outro, seu compasso, sua energia no ar. Senti uma pontinha de inveja e um caminhão de vontade de ser uma igual.
Meus pensamentos românticos cessaram quando vi que a mulher usava fones nos ouvidos. Surda ao mundo ao seu redor. Feito adolescente que se fecha em seu mundinho para fugir do mundo paterno ( leia-se pai e mãe. Ou melhor, família em geral!). Surda ao seu mundo exterior. Surda para ele. Olhava o chão, como quem se procura. Ou se esquece. Ele, peito aberto, feito militar, passo forte. Mudo, como já se pode imaginar. Mas só por fora, porque imagino o turbillhão de coisas que teria para falar.
Que mundo é esse onde se casa para se isolar? Se une para se separar? Onde um par são dois desiguais. Onde um é grego, outro troiano. Não mais macho e fêmea, homem e mulher. Não mais complementos. Nem namorados, nem amantes. Muito menos amigos, pois a estes contamos até o que não podemos contar. Somos, quando muito, pai e mãe. Será que isso um dia vai mudar?
Nesse compasso, sigo sozinha. Já dizia o ditado, melhor que mal acompanhada. Não quero ao meu lado um corpo,
nem na vida e nem na cama.
Quero um amor. Um viver. Um completar.
Menos não me serve, fico com o cão...

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Faltas


Dizem os cientistas que só , humanos, utilizamos, 10% de nossa capacidade.
Fiquei pensando: capacidade de que? De pensar? De raciocínio? 10% de que, meu Deus?
E vou mais longe: tenho certeza que nós mulheres usamos bem menos. Usamos nada de nossa enorme capacidade de persuasão, fadada a nosso diária labuta frente à vida. Quase nada de nossa estratégia de guerreiras, ficando, na maioria das vezes, paralizadas nas trincheiras, esperando o ataque. Pouco de nossa força de fêmea, deixando , na grande maioria das vezes, o primeiro passo com ele, o grande macho. Afinal, foi assim que nos ensinaram.
E usamos, pouco, muito pouco, de nossa enorme capacidade de amar. Em tempos modernos, tal mixaria concentra-se em um ou dois filhos, um companheiro - nem sempre receptivo ou reativo - um pai, uma mãe, talvez um ou outro irmão que nos é caro (está certo, irmão não se escolhe...). Talvez um cachorro (que horror! diriam os que não os têm). Muito de amores impostos ou que nos vêm, pouco de conquistados. E tentamos, pelo menos tentamos, suprir dessa falta em armários abarrotados de roupas e prateleiras entupidas de botas, em gulosas colheradas de sorvete e intermináveis barras de chocolate, em lágrimas de filmes da sessão da tarde. Neles - roupas, botas, sorvetes, chocolates e lágrimas - nossos 7% de procura de algo - ou algos - que nos falta.
Que refaçam as contas os cientistas. Temos, ainda, muita capacidade a revelar...

SPA


Enfeite-se com margaridas e ternuras
E escove a alma com flores
Com leves fricções de esperança
De alma escovada e coração acelerado
Saia do quintal de si mesmo
E descubra o próprio jardim
Carlos Drummond de Andrade

É assim que me sinto nessa manhã de sábado só minha. Sozinha em casa, levantei sem a hora a me chamar. Sem compromissos além do de me fazer feliz. Estou lenta e quieta, como gosto de ser. Como preciso ser vez por outra. Um assimilar do dia de ontem. Um assimilar de minha vida, um assimilar de mim.
Hoje acordei outra, mais amada que ontem. O amor me fez bela companhia, o sol me deu bom dia. Tenho, ainda, um dia todo pela frente. Um dia meu. Inteiramente meu. Não programarei nada além do necessário. Nada que não queira. Vou me enfeitar com margaridas e ternuras, escovar a alma com flores, friccionar-me com gotinhas de esperança. Tomar meu banho de mim mesma. E regar meu jardim com a chuva de me amar.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Lembrete

Recebo, todos os dias, muits mensagena pela Internet. Umas boas, outras passáveis, muitas péssimas. Umas até me fazem rir, um mal necessário, diria. Outras me comovem a ponto de guardá-las em uma das tantas pastas de meu já abarrotado micro. Deveria chamá-la de "Lições". Ou seria melhor "Lembretes", já que "sei" de tudo, apesar de esquecer ou deixar de lado.
A que me tocou, pasmem, é de uma bebida mal falada pelas mães mais cautelosas. O que não faz a menor diferença em eu achar que tem gosto de detergente. Mas não nego: têm sempre uma bela campanha. Talvez pelo mal que sabem fazer. Talvez para fazer de nós, mães, sua aliada. Ou pelo menos não tão do contra (é , está certo, tem um plus agora, diz-se vitaminada ...).
Pois bem, esqueço de quem é e me detenho na beleza da mensagem. Mostra um senhor com seus 102 anos saindo para uma viagem ao encontro de seu bisneto ou tataraneto, suponho, que vai nascer. Fala no forte espanhol, uma bela e real mensagem de incentivo e de conselhos ao recém chegado. Vai proclamando no caminho sua lição, feito leitura de carta deixada. Que o pequeno não se prenda aos medos dos outros, que não se atenha aos que dizem que nasce numa má hora, num mundo ruim. Mas que se atenha ao único lado ruim da vida:
que ela passa demasiadamente rápido.
É, constanto, a vida passa demasiadamente rápido. Eu, no meio dela - sendo bem otimista rsss - tenho ainda tantos planos, tantos sonhos. Tanta esperança guardada. Tantos anseios pela Vida, essa ainda presa ao seu passado. Tantas ideias na gaveta. Tantos, tantas, muitos. Quem me dera pode-los viver um dia...Quem me dera chegar aos meus 100 e poucos anos com tamanha lucidez...Quem me dera saber viver...

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Puritana


Ainda dialogando - ou pelo menos tentando - com os meus amigos filósofos, seria a virtude a simples "arte de bem viver. E a prudência, pelo menos segundo Sêneca, a maior das virtudes. Disse ele " quem possui a prudência guarda também a temperança; quem é temperante é constante; quem é constante não se perturba; quem não se perturba, não tem tristeza; e quem não é triste, é feliz". Parece meio - muito! - óbvio, mas sem graça - se é que era para ter alguma. Como a comida que vem à boca só porque faz bem. Ou essas tantas coisas que fazemos para ver se a velhice demora um pouco mais para chegar. Mas não seria, por acaso, uma velhice cheia de vontades escondidas no porão?
Eu preciso de um tempero. De um molho. De um gosto. De um pique na corrida. De um susto - no bom sentido. De sexo na segunda. De uma ducha gelada. Uma colherada generosa de geléia de menta na bola de sorvete ( tá legal, nem o sorvete estava na lista...). Da pimenta moída na hora, sobre a comida ainda quente. Do olhar trocado - aquele que aquece a alma. Do beijo roubado, sem a intenção de devolver. Do amor de última hora. Do choro no meio do filme. Portanto, nada de prudência, nada de temperança, nada de nada, a não ser do que me faz feliz. Portanto, senhoras e senhores, descubro-me uma não virtuosa!
Nunca fui muito dada a cumprimentos de leis, a regras impostas, nem as da escola primária. Nem a dinheiro guardado, nem a pensar no futuro. Mas obedecia. Obedeço. Guardo - ou pelo menos penso em. Chego no horário, mas por pura imposição, não por querer. Como do meu prato, sonhando em devorar o prato do vizinho. Carrego as bolas necessárias, até as mais pesadas. Muitas empurro com a barriga cheia de desejos. Não por que queira, mas porque preciso. Nem que seja para não ser preterida ou banida. Nem que seja para me fazer igual. Mentirosamente igual. Externamente igual.
Enfim, eu, uma falsa puritana.
Também.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Filosofando


Lendo Nietzsche ( filósofo alemão, 1844-1900) para minha aula, como ouvinte, de Ética. Assim falava Zaratustra. Lendo-se assim, para quem não conhece, mais parece grego, como dizemos. Ah, mas nele, tanta compreensão de mim e dos meus. Pessoas e mundo que me cercam há anos... "Redondos, justos e bondosos são eles uns com os outros, como grãozinhos de areia são redondos, justos e bondosos com grãozinhos de areia". Achei esse trecho em meio ao texto. Quem já não se sentiu um grãozinho, minúsculo, fora do potinho? Fora de sua praia?
Eu, muitas vezes. Primeiro por ter sido uma menina gordinha. Depois por ter sido uma menina não tão rica quanto outras. Ou nem tão safa. Depois por não ter sido moderninha a contento (só isso dava um novo texto, quiçá um livro...). Já na faculdade, por não ter sido louca suficiente. Como profissional, por não ter sido sido suficientemente obediente. Nos amores, por não ter sido casta a contendo das sogras sonhadoras e seus falso puritanos filhos (ah, mas me amam, sogras e filhos, até hoje...). Hoje, sou, por não ser uma igual. Ou não ser quem eles querem que eu seja. Nunca fui. Não serei. Até que a morte nos separe.
Mas como disse outro filósofo, Kant (1724-1804), que "a virtude significa uma força moral da vontade", lutei. Sempre. Desde pequena. Uma lutadora silenciosa. Aquela de quem nada se espera. Pequei, sim, conforme Aristóteles. Peco, sempre, pela excesso e pela falta. E que me crucifique Platão, que me use como (mal) exemplo, mas se virtude é a purificação de todo e qualquer prazer, ah, que me queimem em praça pública!
Sem eles, não sou. Eu? Eu sou mais Leila(*)...
(*) Ela, a "Diniz"...

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Meteoro


Também temos nossas mulheres maravilhosas. Muitas Leilas, feito o meteoro Diniz. Passou rápido pela Terra, poucos 27 anos . O suficiente para torná-la estrela. Já como professora era Leila: aboliu a sua mesa para ficar sempre entre os alunos. Amou pela primeira vez aos 17. Casou. Sua primeira passagem: o amor durou só três anos. Virou atriz, primeiro nos palcos depois nos dramas da televisão. Quebrou tabus de uma época em que a repressão dominava. Escandalizou a muitos ao exibir a sua gravidez de biquíni na praia. Depois ao dar de mamar em público. Linda. Solta. Livre, Leila, até onde se poderia ser. Falava o que pensava. Chocava todo um país ao pregar um amor livre, descomprometido, vivido ( "Transo de manhã, de tarde e de noite") . Uma mulher à frente de seu tempo, ousada e que detestava convenções. Foi invejada e criticada pela sociedade machista, mal vista pela direita opressora, difamada pela esquerda ultra-radical e tida como vulgar. Promíscua, diziam. "Não terei papel de prostituta", disse outra grande mulher, Janete Clair. Não se deu por vencida: deu nova luz às esquecidas vedetes da época, acordou o teatro de revista com sua curta passagem. Meteoro rápido, abatido pela vida.
Leila, não a garota, a "A Mulher de Ipanema", era defensora do amor livre e do prazer sexual. Separava amor de sexo ( "Você pode muito bem amar uma pessoa e ir para cama com outra"). Um símbolo da revolução feminina, que rompeu conceitos e tabus por meio de suas ideias e atitudes. Que irritou falsas feministas. Que se tornou símbolo da liberação feminina dos anos 1960 e 1970. Que nos acordou. Se não a nós, nossas mães e avós. Passa o meteoro, deixa a estrela. E não nos deixa de "Mãos vazias"(*) .

Toda mulher quer ser amada
Toda mulher quer ser feliz
Toda mulher se faz de coitada
Toda mulher é meio Leila Diniz.
(Rita Lee)

(*) Filme que a consagrou com o prêmio de melhor atriz, no Internacional Film Festival , na Austrália. Morreu ao retornar ao Brasil, em acidente aéreo.

BB


E o que você diria de Brigitte Bardot? Sonora, até no nome. Ou simplesmente BB, o que a torna mais sexy ainda. Nascida Brigitte Anne-Marie Bardot em Paris. Atriz, cantora, mulher. Mas não só isso. Virou símbolo sexual por décadas. Começou como capa de revista, incentivada pela mãe (sempre elas, colocando em nós seus próprios sonhos...). Estreou no cinema aos 17 anos e no mesmo ano, após dois anos de namoro à revelia dos pais, casou-se com Roger Vadim ( seu olheiro, mentor, amante e amor). Em seu segundo filme, apareceu de biquini, o que fez com que seu pai (sempre eles?) recorresse à Justiça para impedir que as cenas fossem levadas ao cinema. Sem sucesso. Como sem sucesso seus outros tantos filmes (fez 17 em apenas cinco anos). Até estrelar (palavra certa!) em E Deus fez a Mulher (1956) sobre uma adolescente amoral numa sociedade fechada. Sucesso. E escândalo mundial. De menina rebelde a sex-symbol, retratada nua na película de poucos minutos.
Provou, anos depois, que podia ser, sim, linda e ótima atriz. Linda e inteligente. Linda e completa. Casou-se 4 vezes. ( uma"devoradora de homens" para a época). Foi musa inspiradora de letrados homens - John Lennon e Paul Maccartney, Bob Dilan, Elton John, Billy Joel, Caetano Veloso e até os "moderninhos" Red Hot Chili Peppers ( é, a sedução de BB ultrapassa o tempo...). Tocou, cantou, seduziu. Amou. Foi amada.
É. Viveu.Vive. Não mais sob os holofotes, mas lutando pelo que acredita: liberdade de homens e animais. E dela mesma.
Que lição podemos tirar- se é que já não o sabemos, apesar de nos fazermos de cegas? Mulheres que se atiram na vida. Que VIVEM ( assim, mesmo, com letras maiúsculas). Não são somente seguidoras de regras. Nem meras acompanhantes do relógio de outras vidas. Nem coadjuvantes. Nem se atem ao que os outros querem ou pensam. Elas SÃO. Sãs as Carlas, as Jacques,
as raras que descobriram a força que tem.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Carlas


Muito já falei da força de toda mulher, dessa força interna, suave, da qual pouco usamos - se é que um dia descobrimos. Não basta ser forte. Não basta ser linda - implícita aqui toda a beleza. Não basta ser sexy. Nem a sandália de tiras finas. Vide tantas Marilyns que acabaram antes de começar.
Falo da mulher que se descobre como tal. Invejo, no bom sentido.Usam disso a seu favor, de uma forma bem pensada. De uma forma sorrateira, livre, leve. Não passam por nenhum lugar sem deixar sua presença marcada, seja pelas suas atitudes frente à vida, seja pelo simples passar. Lembre-se de Jacqueline Keneddy e Brigitte Bardot e entendera do que falo...
Um exemplo mais atual? Carla Bruni. A menina nascida em berço embalado de boa música ( mãe concertista de piano ,casada com um industrial e compositor clássico ) veio ao mundo para brilhar. Não antes de passar por um exílio forçado antes mesmo dos dez anos. Do exílio , passado da França, deve ter vindo esse ar francês. Viveu bem: largou os estudos para ser modelo ( foi uma das 20 mais bem pagas do planeta) e conquistou belos homens (Mick Jagger, Eric Clapton, Kevin Costner, entre tantos). Herdeira de uma fortuna , não desperdiçou a vida vivendo à toa. Descobriu a linda voz. Redescobriu-se. Compôs. Virou cantora. Viveu ( "Continuo a ser criança, apesar de meus 40 anos, apesar dos meu trinta amantes", diz uma das letras ).
E vive!
Hoje é primeira dama da poderosa França ( "Meu homem, eu enrolo e fumo"/"[amor] mais mortal que a heroína afegã, mais perigoso que a branca colombiana", letra onde fala de sua paixão por Nicolas Sarkozy). Quebrou paradigmas, mostrou-se nua, mostra-se amada e amante. Sabe do poderio de suas armas . E as usa muito bem. Comporta-se bem em frente à rainha e comporta-se mal entre quatro paredes.
Pode invejar. Mas não essa inveja mesquinha que assola nossas mentes. Tenha, sim, uma inveja boa, dessas da qual se tira proveito. Da qual se aprende alguma coisa. Daquela que faz você acreditar no sabor de ser Mulher. Esqueça tudo o que você aprendeu. Esqueça tudo o que você faz. E ache dentro de você a "Carla", que todas temos e que tudo pode.
Desde que use as armas - certas - de se amar.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010


Vi no Jornal Nacional, entre incrédula e emocionada. Cavalheiros de Caeté (ah..Minas e seus encantos...), poucos, em plena Quarta-Feira de Cinzas, invadem a igreja e trancam as antigas portas. Só eles. Nem o padre e muito menos as mulheres. Trazem consigo manjericão, cachaça e roupas limpas. É o dia do banho de Nosso Senhor dos Passos.É assim há mais de 200 anos, nada muda. Um ritual. Com cuidado é retirada a coroa, que passa pela cabeça de todos do grupo. Uma benção? A imagem de Cristo é despida e o banho de cachaça começa. Isso mesmo, você não leu errado: banho de cachaça, que escorre da cabeça aos pés da imagem. As mãos são delicadamente lavadas. A aguardente que escorre vai para a gamela. E é essa cachaça que eles provam em sinal de fé, ali mesmo, com o santo ainda nu. Depois de seca, a imagem começa a ser vestida novamente e vai para o altar. O toque do sino avisa que Nosso Senhor está pronto. Todos entram para tocar a imagem e levar para casa um pouco da cachaça, que eles consideram milagrosa. Usam para um tudo. “O que vale é a fé”, disse uma das mulheres que aguardava ansiosa. Só podia se chamar Salomé.
Não senti a cachaça em mim, mas as lágrimas. Pelo ritual, pelo preservado apesar do mundo louco, pelo inusitado, por essa fé que move o mundo. Nem que seja esse mundinho pacato de Caeté, deliciosamente mineiro. Uma fé gostosa, ingênua. Verdadeira.
E feliz.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Cinzas


O dia amanheceu triste, choroso. Chuvinha fina, fria, daquelas que dá vontade de ficar o dia todo na cama, só ouvindo essa benção dos céus. Mas o dia não espera. A vida bateu na porta e disse que estava na hora. Na hora de que, penso.
Talvez porque seja quarta-feira de cinzas. Talvez um dia de ressaca da vida. Um dia de reflexão. Mas nem sou católica e nem espero que me purifiquem com a marca na testa. Nem que me lembrem de meus tantos pecados. Mas não posso negar que acordei diferente. Deve ser o choro das colombinas ao se despedir de seus pierrôs. Que inveja! Não pulei Carnaval, nem arranjei pierrô, e estou eu , aqui, feito uma delas a me lamentar do dia.
Hoje me peguei pensando no lado bom de uma Quaresma. Um parar para pensar. Refletir. Precisamos, todos, eu mais que muitos. De pequenos ajustes ( ou enormes?), de provar algo a nós mesmos. Nem que seja que, sim, conseguimos ficar esses dias ( mais de quarenta, já que os domingos não contam...) sem algo que nos é caro. Um jejum, uma penitência. Mas não falo de coisas terrenas, sorvetes, doces ou café. Isso são, a meu ver, coisas fáceis de cumprir. Falo do que nos é mais imprescindível, como o amor. Ou beijo de filho. Mas isso já negligenciamos tanto,
sem nem se dar conta...
Descubro que meu fardo, pesado, seria passar todos esses dias sem escrever. Podia até tentar, mas minha cabeça ia estourar de gavetas lotadas de pensamentos.
Afinal, escrever, para mim, é minha terapia. É um esvaziar-me.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Arco íris


Caiu uma chuva louca ontem à tarde. Dessas sem aviso - pelo menos para quem estava no mundo da lua, feito eu. A chuva, por si só, não seria o problema, não fosse um vento doido que a acompanhou. E a rapidez com que veio.
Pois bem, não sabia o que fazer primeiro. Casa escancarada por causa do calor, varal cheio de roupas (sim, isso ainda existe, roupas secando livremente ao sol...). Corri para resgatar as peças antes que voassem, enquanto a chuva pegava forte. Eu corria e ria ao mesmo tempo, da infâme ação, divertindo-me feito criança. Dava até gritinhos, por causa da chuva fria e das pedrinhas que machucavam meus pés descalços. Para completar a cena, hilária, meu cão latia muito, meio que assustado - ou seria se divertindo? - com a situação.
Pois bem: resgatada a roupa e fechada a casa, ficamos nós dois, criança grande e cão, a observar o temporal. Eu de pé, frente a porta de vidro da sala, ele sentado ao meu lado. Eu com os cabelos pingando e as vestes molhadas, ele úmido. E, longe das desgraças que podem ter acontecido, foi inusitado ver cadeiras voando, vasos caindo, cortinas loucas pela casa afora (é...tem gente mais desligada que eu, penso). E sempre a mesma boa sensação. A mesma que me acompanha após um banho: o cheiro bom, o frescor, a bela aparência do renovado.
Ah, não posso negar: chuvas mexem comigo. Das infindáveis de inverno que me calam às fogueteiras de verão que me acendem. Não sei qual delas sou. Mas sonharia ter esse poder na vida, da transformação de nós na criança que fomos.
E , quem sabe, trazer comigo um arco-íris e um belo sol depois...

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Lista

Lembrei ontem do filme Antes de partir, com o sempre irreverente Jack Nicholson e o sempre doce Morgan Freeman, onde a ideia era viver tudo antes de morrer. Quase peguei para ver mas já não cabiam mais filmes em meus braços (afinal, para que serve o carnaval ?).
Parei para pensar, ainda no caminho de volta para casa.
O que eu gostaria de fazer antes de morrer?
Longe da "moda dos Cem" ( cem lugares que você tem que conhecer, cem vinhos, cem filmes, cem homens - ops, esse ainda não tem!), o que eu gostaria de fazer antes de partir?
Algumas já estão na mão, falta resgatar. Como voar...de asa delta, claro! Já tenho um sonhado vôo duplo que me chama faz tempo. Nesse quesito, acrescento um belo vôo de balão.
Conhecer lugares? Só aqui seriam mais de cem só no Brasil. Mas não posso negar que Barcelona me atrai. E muito. Desde sempre. E lugares exóticos - como a Índia e o Marrocos (não, não, Dubai não está na minha lista). Ah, e tenho um fascínio por cavernas, chapadas, essas coisas maravilhosas que nosso país tem. E voltar a ver o por do sol em Ouro Preto ( mas ai é um rever de uma história...). Duas viagens por ano estava de bom tamanho, mas não daria conta de minha lista...
Loucuras? Fazer uma destas trilhas, caminhos - Estrada Real, Santiago, sei lá. Um caminhar sem volta e sem pressa. Mais uma? Viagem de moto, sei lá para onde. Talvez sem destino. Ia amar...Ah, não posso esquecer de participar do Galo da Madrugada.
(nem que tenha cem anos!)
Você colocaria coisas que quer aprender? E sim. Sou movida a isso. Francês, por exemplo. E sobre vinhos, uma paixão cara mas que cresce a cada dia em mim. E sobre filmes, outra paixão. Lugares. Quem sabe ponho na cabeça um método tipo leitura dinâmica?
Facilitaria muito.
Sonho grande? Morar um tempo fora do país. Esse até repasso para o filho - visitá-lo já seria tudo de bom. Mais palpável, mas não menos sonho, morar numa casa com vista para o mar. Tudo isso com alguém que ame ao lado. Pelo tempo que for, sempre bom.
Nossa, nem cheguei perto de cem. Mas acho que sonhar,
quanto mais , melhor!
Dizem, até, que é de graça. Mas a cabeça cobra.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Descoberta


O medo de amar é o medo de ser
Livre para o que der e vier
Livre para sempre estar onde o justo estiver

O medo de amar é o medo de ter
De a todo momento escolher
Com acerto e precisão a melhor direção

O sol levantou mais cedo e quis
Em nossa casa fechada entrar pra ficar

O medo de amar é não arriscar
Esperando que façam por nós
O que é nosso dever: recusar o poder

O sol levantou mais cedo e cegou
O medo nos olhos de quem foi ver
Tanta luz

É, certo estava Beto Guedes, nessa música que nos embalou tantas noites de amor não correspondido. E na letra, tantos medos...
Hoje vou me apegar à palavra MEDO. Essa trava que nos segura - ou pelo menos provoca calafrios - a cada coisa a decidir, a cada novo enfrentar. Do desconhecido. Não da dor, nem das perdas - pessoas, saúde, da violência, do não voltar do filho para casa, pois essas vão além - são pavores. Falo desse medo diário, momentâneo, por vezes ridículo, mas nem por isso menor. Tenho medo do projeto novo, da folha em branco, às vezes até de um simples texto. De começar uma conversa, uma negociação, uma discussão (por isso, meu incompreendido silêncio). Tenho medo da primeira aula. Do primeiro encontro. Medo da inércia que por vezes me prende. Tenho medo das provas da vida. Medo de não ter vontades novas. E são tantas...
Mas descobri que ele é como um tampão: uma vez fora do caminho, tudo está, ali, ao nosso alcance. Desato a falar, a fazer, a descobrir, a me descobrir. A ter ideias. A ser. E descubro no final do dia que eles estão lá para me refinar, deixar-me alerta,
para que não caia no abismo do tudo sei.
...O medo de amar é o medo de ser...

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Fervendo


Assisto pela televisão e fico imaginando como deve ser bom o carnaval de rua de Recife e Olinda. Acompanhar a passagem do Galo da Madrugada, ver os malabarismos do frevo pelas ruas, a lavagem das ladeiras pelos garis, os trios elétricos que puxam foliões feito imã. Tudo é festa. Até em hospitais, onde médicos fazem um desfile pelos corredores, enquanto pequenos pacientes se divertem com suas fantasias..."Você não estava doente?" Perguntou o repórter à menina. "Ah, já passou", respondeu a pequena colombina...
Fico aqui pensando o que fiz - estou fazendo - com essa foliona que existia - existe - em mim. Eu, aqui, em plena festa nacional, fazendo pular apenas as teclas do computador...
Fora essa minha ciumeira doida, uma inveja boa dos que estão lá, a suar a camisa para viver a vida, o carnaval de Recife me parece ser uma coisa maior. Vi uma reportagem sobre toda a estratégia da cidade para manter viva a folia. Desde aulas de frevo em escolas públicas até a formação de percussionistas. Se pensarmos na pobreza que assola a região, o carnaval passa longe de ser só uma festa anual. Envolve, ainda, a produção das milhares de sombrinhas coloridas (para dançar, brincar e até de lembrança), a confecção de tantas e tantas roupas, a montagem das estruturas, além da megaestrutura dos trios.
É...já são mais de cem anos de frevo ( que vem de frever, uma versão popular de ferver, o que, por si só, explica a efervescência). E 60 desde que Dodô & Osmar montaram em sua fubica com o cepo elétrico e "fundaram"o primeiro trio. E tem ainda o Galo da Madrugada, arrastador de mais de 2 milhões de amantes da alegria. E , a partir dai, quanta história para contar...
Tem muita violência ainda? Tem. Sempre tem gente para atrapalhar. Mas poderiam ser bem mais, se tantas pessoas não estivessem envolvidas em nos envolver.

Certo está Caetano por nos fazer cantar:

Atrás do trio elétrico
Só não vai quem já morreu
Quem já botou pra rachar
Aprendeu, que é do outro lado
Do lado de lá do lado
Que é lá do lado de lá
O sol é seu
O som é meu
Quero morrer
Quero morrer já
O som é seu
O sol é meu
Quero viver
Quero viver lá
Nem quero saber se o diabo
Nasceu, foi na bahi ...
Foi na bahia
O trio elétrico
O sol rompeu
No meio-dia
No meio-dia

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Colombina


Ah, Carnaval...Para uns festa, para outros, como eu, silêncio imposto. Não que não goste, longe de mim! Na verdade, amo. Aquele de bloco, de rua ou clube, onde, mesmo que por poucas horas, somos nós mesmos. Bichos soltos.
Porque amo a alegria, seja ela qual for. Não a engarrafa e servida em copos de plástico. Não a que me vem pela televisão. Não da falsa alegria violenta. Gosto da alegria pura, da cantoria nas ruas, da fantasia de cada um. Da minha. Das marchinhas que embalam as descidas. Do soltar-se para a vida. Do vivê-la intensamente, mesmo que pouco. Do mergulho na festa. Da brincadeira. Do chiste, do deboche, do jogo de máscaras. Do vestir a minha fatasia e sair por aí, com a máscara de mim mesma .
É... a Vida que me aguarde. Vou ser uma velhinha louca de pedra.


Tristeza
Por favor vai embora
A minha alma que chora
Está vendo o meu fim
Fez do meu coração
A sua moradia
Já é demais o meu penar
Quero voltar aquela
Vida de alegria
Quero de novo cantar

(Tristeza, marchinha de Haroldo Lobo e Niltinho)

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Ganhos


Incrível...sou movida a ideias. Basta dar um passo na rua, e elas vêm, livres e soltas, em bando ou revoada. Muitas fogem ao sabor do vento. Outras impregnam feito cheiro, pó : só saem quando convidadas.
Hoje impregnou-me a palavra "perda". O verbo, o substantivo, e todas as suas implicações. À primeira vista, pode parecer uma palavra negativa. As perdas, tantas, menores ou maiores, reparáveis ou não, pelas quais passamos pela vida.
Mas não foi esse sentido, digamos, negativo, que tomou conta de mim. Muito pelo contrário. Foi hilário brincar com a palavra - e brinquei. Perder peso, por exemplo. Para muitos, como eu, a glória. E com essa perda, perder as roupas que não cabem mais, por estarem grandes. Perder a mania de roer unhas, outro bom exemplo. Perder o medo de se achar ridícula de vestido - ou de unha pintada de vermelho. De se achar sexy, enfim. Perder a vergonha de si mesma. Ou, muito melhor, perder a razão por um bom motivo, como estar apaixonado. E com isso, perder a cabeça, o juízo, sempre tão bom! São todos, na verdade, ganhos!
Ah, as palavras e suas surpresas, seu dúbio entendimento...
Fazem -me perder o chão! (risos)

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Alice


A vida é engraçada. Estamos constantemente em um revival. Um jeito de se vestir, uma música a escutar, uma história a se contar. Estamos de novo na "Era de Alice", aquela mesma, do conto infantil Alice no País das Maravilhas ( de Lewis Carroll, considerada obra clássica da literatura inglesa. Uma das interpretações diz que a história representa a adolescência, com uma entrada súbita e inesperada - a queda na toca do coelho...mas teve leitores como Oscar Wilde e a rainha Vitória...blábláblá). A que procurava não sei o que num mundo de uma louca fantasia. Não me lembro bem da história. Na verdade, encantou-me mais o coelho com pressa ( "é tarde, é tarde, é tarde é muito tarde"...) do que a menina, que achava sem graça.
Eis que a história sai dos amarelados livros e ganha as telas de cinema mais uma vez ( e não só como desenho!). E ganha as passarelas. E vira uma tendência de moda - acredite se quiser. Um inverno de peles alvas e batons vermelhos da Rainha Branca. De vestidos de babados e botinhas românticas na pele livre de cores da própria Alice. Na onda, lançou-se maquiagem, batom, esmaltes e muito o mais inspirados na obra. Se vamos gostar, não sei. De usar, talvez não, mas não vejo a hora de ver Johnny Depp como o Chapeleiro Maluco...
O conto tem muito a nos dizer, sobre escolhas e charadas que se põem em nosso caminho. Somos todas Alices, muitas vezes sonhadoras, outras realistas e amargas demais. E descobrimos, a várias alturas dos acontecimentos, que a vida é feita de escolhas (já divaguei sobre isso aqui...). E se pensarmos assim, de forma bem lúdica, parece que fica mais fácil: quero ser infeliz ou feliz? Fraca ou forte? Vencida ou vencedora?
Afinal, enfrentando a vida dessa maneira, seria bem mais fácil seguir o conselho do criador da personagem:
"Comece pelo começo, siga até chegar ao fim e então, pare" .

(Lewis Carroll)

Acorda, Alice!


Ainda falando de Alice, lembrei de um amigo que falava sempre uma frase quando a gente resolvia "viajar na maionese":
- ACORDA, ALICE!
Riamos muito, pois ele berrava a frase, quase a nos sacudir para a vida. E assim o era. Após a risada, retomávamos o assunto de uma forma mais séria, mais pé no chão. Menos "Alice"...
Sinto falta, muitas vezes de um "acorda, Alice" em minha vida. Pego-me delirando sobre um certo tema, quase à exaustão, até que a Vida me chama a atenção e me acorda. Muitas vezes a resposta estava ali, tão na cara que eu não enxergava, feito dedo na ponta do nariz. Por vezes acho graça, como se procurasse o presente de Natal, estando sentada sobre ele...
É, a felicidade, como já escrevi aqui, pode estar num improviso. A resposta certa também...ou talvez precisemos de nossas rainhas loucas e de chapeleiros malucos...

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Verde


Hoje me peguei pensando: e se for verdade aquilo dos filmes, que Deus ouve todos os nossos pedidos, nossas sempre tantas reclamações? Deu pena só de pensar...Vou, humildemente e solitariamente tentar livrá-lo das minhas, tantas. Pelo menos hoje.
Fazia um calor infernal aqui por umas duas semanas. Sempre acima dos 40 graus à sombra - imagina no sol ou dentro de casa. As paredes quentes, o banho desligado quente, como quente o puxador do armário...(e tem gente que acha que no Sul é frio...). O país todo mergulhado num calor insuportável. Muitos lugares com temporais arrasadores diários. Fiquei imaginando as pessoas que enfrenatm de cara muito sol ou muita chuva. Tantas bem mais sofredoras que eu. Ou das merecedoras de um vento qualquer, a suavizar. Resolvi não reclamar mais. E só por isso me senti mais fresca, digamos. Talvez o ato de reclamar mexa tanto com as energias, feito a raiva, e nos aqueça mais, penso.
Ontem caiu uma chuva de derrubar árvores. Sentei na sala a me deliciar com a paisagem. Com o cheiro da terra, enfim, bem molhada. Com o som da chuva caindo, um mantra pacificador. Adorei até o barulho, antes assustador, dos raios. Pensei ser um alerta divino, uma forma branda de darmos valor ao que temos. Há, sempre, algo pior. Sempre. Talvez seja um teste de resistência. Talvez estejamos sendo preparados, aos poucos, para algo maior.
Hoje chove, fracamente e insistentemente, refrescando corpos e almas. Estou como a grama verde, agradecida. Senti-me abençoada antes mesmo de abrir os olhos. Abençoada chuva, que reclamamos em outras épocas do ano. Benção talvez não merecida.
Bem se faz chamá-Lo de Pai...

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Divã


Muitas vezes a gente se firma numa opinião que custa a se modificar. A minha, que tenho quebrado com muito bom gosto, é sobre filmes brasileiros. Há um certo - muito! - preconceito sobre esse universo, talvez baseados nos tantos e tantos filmes onde, se não tivesse a tal "sacanagem" como a gente mesmo taxava, não era filme brasileiro. Assistimos qualquer coisa que seja americana, mas relutamos para ver o que está se fazendo aqui.
Tenho assistido alguns - bem menos do que devia, mas não por má vontade e sim, por ignorância. Cidade dos Homens, Mulher Invisível, Divã, Verônica (esse me deixou pasma...) eu vi numa tacada só, pegando no vídeo cube. Se eu fosse você, os dois, vi no cinema. Levei meu filho, que adorou. Meu nome não é Johnny também, achei que ele precisava ver. Não posso deixar de citar o meu predileto - O Auto da Compadecida - que já vi e revi tantas vezes e sempre me emociona o discurso de Nossa Senhora ( com a fantástica Fernanda Montenegro) ...e a frase inesquecível de Chicó (Selton Mello): " não sei, só sei que foi assim....". Não dá para perder Olga , nem Central do Brasil, mas ai já estou entrando na lista dos "obrigatórios". Vi outros, bons ou nem tanto, mas que não lembro os nomes ( coisa minha, sou péssima para isso). Ou deve ser porque eram comédias de mais. Outros, confesso, não fazem meu gênero. Não gosto de muita violência ou do humor escrachado. Nem histórias onde se chora copiosamente...de amarga, já chega a vida, dizem!
Ah, mas Divã, com a Lília Cabral, baseado no livro homônimo de Martha Medeiros, esse me deu arrepios pela veracidade. Da boca da personagem saiam frase "minhas", "roubadas" de tantas e tantas noites sem dormir. Ou de textos não publicados. Sou Mercedes, eu pensava. Somos, todas nós. Estou até lendo um livro da autora - Doidas e santas - para ver até onde ela teve a ousadia de me roubar as ideias da mente.
Meu divã, Martha, é esse computador, onde sento todos os dias e me (d)escrevo...

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Catavento


Domingo atípico. Subimos a serra para fugir do calor ( que diferença fazem alguns poucos graus a menos...). Levamos o cachorro, o que muda tudo. É como se tivéssemos um bebê a bordo: tudo gira em torno dele. E como nos ensina que o segredo está nas pequenas coisas! No caminhar de poucas quadras, no viajar de janelas abertas com o vento na cara, do se impressionar
com coisas tão banais.
Ah, o vento friozinho na cara, o descabelar tão proibido, o brincar com as mãos contra o vento, o retorno no colo aconchegante da dona...Quanta coisa nos ensinam nosso cães. Tão pequenas coisas que nosso coração já fechado não vê. Deveríamos escutar, vez por outra, a criança que há dentro de nós. Os dias ficariam mais leves e nós, com certeza, mais felizes.
"Não há espaço para a tristeza e a solidão num coração feito para amar a vida"

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Baú



Ontem, por conta do calor demasiado, acampamos, eu e meu filho, na sala de estar. O frio do piso de cerâmica e o ventilador sobre nós - além do gostinho de aventura, é claro - fizeram-nos dormir feito anjos. Até o cachorro entrou na festa.
Arrumada a bagunça, pûs-me a pensar , de novo, nas tantas formas simples de ser feliz. Acho que a primeira regra é não tê-las. Ontem lavamos o cachorro na varanda, aproveitando o sol de 40 graus. Depois comemos sorvete, juntos - e direto do pote! - em frente à televisão. Terminamos a noite nesse dormir improvisado.
Felizes, ontem e hoje.
Relembrei o quanto nos contentávamos com pequenas alegrias quando criança. O verão era um festa. passávamos meses na casa de praia, ainda de madeira. Banho no rio depois da praia ( com sabonete e tudo!), sopa quente quando a noite esfriava, pão feito em casa e doce de fruta no pote. Até dos banhos nas bacias de alumínio tenho saudades.
Ah, e as redes de balanço, quanta festa! Uma infinidade de atrações em uma peça só. Pendurar-se de todas as formas, cochilar no silêncio do fim de tarde, balançar levemente ou apostar quem ia mais alto. Para os pais, perigo, para nós, barco pirata, carro, avião.
Nessas horas discordo de Mario Lago , que disse :
"O tempo não comprou passagem de volta.
Tenho lembranças e não saudades".
O que eu tenho é saudade...e muita...

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Revelação


Não sou muito de novela, mas em tempos de "férias" e calor, é melhor que nada, já que não se tem mais, infelizmente, a mania se sentar na varanda e contar estrelas no céu. Ou causos.
Mas algo me atrai nas novelas escritas por Manoel Carlos. É como se eu lesse um bom romance. Gosto dos diálogos, da força que ele impõe, mesmo sutilmente, às palavras.
Hoje o tema era adultério. Mulheres, claro, pois homem pratica de uma forma tão normal, tão enraizada e fácil, que nem puxa conversa sobre o assunto, penso eu. Falavam do gosto de uma traição. Achei graça - e talvez verdade - que tinha um gosto doce no dia, mas amargo no outro. Muitas mulheres ainda vivem sob a sombra de tantos anos. Pensam como suas mães e suas avós. Ou como quer que pensem os padres e pastores de plantão. As já traídas dizem que temos que aproveitar a vida. As beatas, que é pecado, que a família está acima de tudo. As apaixonadas, raras, que assim como está, está bem. Mas, acima de tudo, vejo muitas mulheres - e homens - vivendo a vida pela metade. Por comodismo, por precaução, por interesse meramente econômico ( é, separar sai caro...). Levam a vida, não a vivem. Um mero passar de dias. Bem sei do que falo.
Mas aí vem meu lado moleca, que quer viver. Vem meu lado mulher, tão viva ainda. Vem meu lado fêmea, sempre forte e escancarado -apesar da palavra por si só ser escrachada por todos. Bom se encarássemos melhor esse assunto. Bom se vivêssemos melhor esse lado. Bom se não deixássemos o lado mãe tomar conta de nosso espaço. Bom se não abafasse tantos outros. Com certeza eles não precisariam trair. E nós, nem pensar. Teríamos na boca o doce gosto de bem amar...

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Presente


Ontem ganhei o dia. E em um lugar totalmente inesperado. Uma resposta de que estou no caminho certo. De que certas coisas , tão pequenas, valem muito a pena.
Sempre disse, e repito, que gosto das pessoas simples. Adoro cumprimentá-las quando passo por elas porque respondem, sim, ao meu anseio, dando um bom dia com vontade, olhando na minha cara. E dessa maneira vou conhecendo e sendo reconhecida.
Meu "causo" hoje é sobre um senhor de certa idade que trabalha em um supermercado. Junta os carrinhos de compras deixado pelos clientes. Trabalhava em outro, onde invariavelmente eu o cumprimentava. Um dia avisou que tinha sido demitido e eu o animei. Sempre nos víamos no bairro, ele sempre gentil, eu sempre interessada.
Há um tempo atrás foi contratado por outro mercado, onde compro hoje. E lá estava ele a "me" servir com seu trabalho e seu sorriso ao me ver. Hoje, ajudando-me com as compras, pediu licença para falar. E com os olhos cheios de luz - e os meus cheios de lágrimas - disse que eu era uma pessoa que iluminava os seus dias. Ah, e que eu estava cada vez mais linda...
Quanta meiguice nascida de um simples bem tratar. Quanto sorriso leal recebo de garís e carregadores, dessa gente comum que parece invisível a tanta gente.
Quanto respeito , quanta admiração.
Assim se ganha o dia...E há ainda quem não acredite que a felicidade vem de um imprevisto...

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Simples



Se as coisas são inatingíveis... ora!

Não é motivo para não querê-las...

Que tristes os caminhos, se não fora

A presença distante das estrelas!
(Mário Quintana)


Nesse versinho quase infantil do poetinha, muitas verdades. O que seria de mim sem meus sonhos? Morreria a míngua, triste, sem graça seria a vida.
Sonho, muito, o tempo todo. Planejo meu filme do futuro. Acho que sem isso eu estaria outra. Não teria esse sorrisinho contínuo nos lábios. Nem o brilho incessante nos olhos da cor do mar. Nem teria ânimo para levantar pela manhã.
Não quero muito, só respeito com vista para o mar. Claro que não pretendo passar necessidades, mas a vida tem me levado a crer que preciso de pouco. Meu sonho? Uma casa, simples, de onde possa ver o mar. Uma cama cheirosa onde me acorde o sol. Uma mesa onde possa sentar e escrever. ( Ah, sem escrever não vai dar...). Eu só vou precisar de vestidos, minha homenagem, enfim, à liberdade de viver. Comida simples, flores em vasos, móveis brancos, cortinas de renda.
Quero do meu lado a Vida como ela sempre prometeu. Acordar e vê-la ao meu lado. Cuidar dela, amá-la como sempre sonhei. Ser amada por ela como sei que me ama, de forma intensa e amorosa, esse amor de tantas vidas e tantas outras.
Meus sonhos são simples, feito de estrelas do meu mar de anil...

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Doce


Ontem brinquei com meus amigos mandando uma mensagem que dizia que a felicidade pode estar em um pote de sorvete. Muitos acharam graça, outros prontamente concordaram. Dá para se pensar que de brincadeiras assim podem sair grandes verdades.

A minha paixão por sorvete é sabida pelos que são mais atentos. Trocaria qualquer refeição do dia por minha porção diária de felicidade. No belo conjunto de doce e gelado, que sorve fácil e se dissolve na boca, muitas respostas. Quase uma meditação.

Brincadeiras a parte, acho, mesmo, que algumas respostas da vida - pelo menos para mim - vem de forma inusitada. De rompante - ou estariam sendo ruminadas sem que se perceba? - dúvidas que parecem verdadeira charadas, ruelas encurraladoras que dão em muros, desfazem-se em segundos feito a bocada do sorvete. Por vezes, acho até graça.

Enfim, dá para se pensar. Seria um sorvete apenas um desvio? Já cansei de ver que uma reposta só vem quando você está desatento - pelo menos em relação a ela. Como um olhar de fora, despreocupado. Como um olhar amigo, interessado. Um ajudar doce e confortável, mesmo que nem sempre gelado...

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Viagem


Voltei. Estava apresentando Buenos Aires ao meu filho. Só eu e ele. Rica experiência, dessas de colocar no livro da vida em páginas douradas.
Buenos Aires me diz muito. É um aula a céu aberto da plena convivência do novo e do antigo, do ontem e do hoje. Caminhamos por aquelas ruas sem parar. E a cada quadra, uma surpresa. Para ele muitas: nunca havia saído do país. Outra moeda, outra língua, outro viver.
Para mim um reviver de um tempo muito bom que ficou para trás. E um me virar sozinha, sem o acostumado apoio de sempre, de alguém que resolva e faça tudo por mim. Administramos tudo juntos, eu e ele, passeios e gastos. Vimos tudo com olhos curiosos, além dos simples olhos de turista. Provamos sabores, sentimos cheiros, admiramos cores. Café, couro, sorvete, flores, tudo.
Das folhas pelo chão às sacadas lotadas de plantas e vazias de gente. Das ruas sossegadas da Recoleta ao empurra-empurra do Camiñito. Do que antes era glamour e hoje virou pesadelo. Do pesadelo do porto que hoje virou Madero. Do glamour do Café Tortoni que não se perde no tempo. Um saber sem tempo, sem medos e sem senão.
Viajar é isso, meu filho, penso eu. Um conhecer, um desfrutar, um experimentar sem fim. Um arriscar. Apostar. Uma bela lição de ser feliz.