quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010


Vi no Jornal Nacional, entre incrédula e emocionada. Cavalheiros de Caeté (ah..Minas e seus encantos...), poucos, em plena Quarta-Feira de Cinzas, invadem a igreja e trancam as antigas portas. Só eles. Nem o padre e muito menos as mulheres. Trazem consigo manjericão, cachaça e roupas limpas. É o dia do banho de Nosso Senhor dos Passos.É assim há mais de 200 anos, nada muda. Um ritual. Com cuidado é retirada a coroa, que passa pela cabeça de todos do grupo. Uma benção? A imagem de Cristo é despida e o banho de cachaça começa. Isso mesmo, você não leu errado: banho de cachaça, que escorre da cabeça aos pés da imagem. As mãos são delicadamente lavadas. A aguardente que escorre vai para a gamela. E é essa cachaça que eles provam em sinal de fé, ali mesmo, com o santo ainda nu. Depois de seca, a imagem começa a ser vestida novamente e vai para o altar. O toque do sino avisa que Nosso Senhor está pronto. Todos entram para tocar a imagem e levar para casa um pouco da cachaça, que eles consideram milagrosa. Usam para um tudo. “O que vale é a fé”, disse uma das mulheres que aguardava ansiosa. Só podia se chamar Salomé.
Não senti a cachaça em mim, mas as lágrimas. Pelo ritual, pelo preservado apesar do mundo louco, pelo inusitado, por essa fé que move o mundo. Nem que seja esse mundinho pacato de Caeté, deliciosamente mineiro. Uma fé gostosa, ingênua. Verdadeira.
E feliz.

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