terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Puritana


Ainda dialogando - ou pelo menos tentando - com os meus amigos filósofos, seria a virtude a simples "arte de bem viver. E a prudência, pelo menos segundo Sêneca, a maior das virtudes. Disse ele " quem possui a prudência guarda também a temperança; quem é temperante é constante; quem é constante não se perturba; quem não se perturba, não tem tristeza; e quem não é triste, é feliz". Parece meio - muito! - óbvio, mas sem graça - se é que era para ter alguma. Como a comida que vem à boca só porque faz bem. Ou essas tantas coisas que fazemos para ver se a velhice demora um pouco mais para chegar. Mas não seria, por acaso, uma velhice cheia de vontades escondidas no porão?
Eu preciso de um tempero. De um molho. De um gosto. De um pique na corrida. De um susto - no bom sentido. De sexo na segunda. De uma ducha gelada. Uma colherada generosa de geléia de menta na bola de sorvete ( tá legal, nem o sorvete estava na lista...). Da pimenta moída na hora, sobre a comida ainda quente. Do olhar trocado - aquele que aquece a alma. Do beijo roubado, sem a intenção de devolver. Do amor de última hora. Do choro no meio do filme. Portanto, nada de prudência, nada de temperança, nada de nada, a não ser do que me faz feliz. Portanto, senhoras e senhores, descubro-me uma não virtuosa!
Nunca fui muito dada a cumprimentos de leis, a regras impostas, nem as da escola primária. Nem a dinheiro guardado, nem a pensar no futuro. Mas obedecia. Obedeço. Guardo - ou pelo menos penso em. Chego no horário, mas por pura imposição, não por querer. Como do meu prato, sonhando em devorar o prato do vizinho. Carrego as bolas necessárias, até as mais pesadas. Muitas empurro com a barriga cheia de desejos. Não por que queira, mas porque preciso. Nem que seja para não ser preterida ou banida. Nem que seja para me fazer igual. Mentirosamente igual. Externamente igual.
Enfim, eu, uma falsa puritana.
Também.

Nenhum comentário:

Postar um comentário