quarta-feira, 31 de março de 2010

Redescoberta


Ontem fiz uma coisa que minha intuição palpitava a muito tempo: caminhei com meu cão à noite. Precisávamos, eu e ele. Ele, surpreso pela surpresa, saiu em disparada. Eu, surpresa comigo mesma de, enfim, escutar-me, segui alegre.
Grata recompensa. No palco, uma noite sem nuvens, envolva numa aragem fresca, ao som de grilos e sapos. Os atores do show, nós. Ele a mil, como se nunca tivesse saído para passear. Eu relembrando as noites divertidas na casa de praia. Ele impulsivo, como se o sair à noite o fizesse mais macho. Eu, menina, voltando no tempo em que televisão e computador eram meros coadjuvantes em minha vida. Voltamos, os dois, plenamente satisfeitos. Ele caiu duro na cama, eu cai delicada em mim.
Quanta coisa boa vamos deixando para trás. Não sabemos mais o sabor das noites. Não sabemos mais o sabor das pequenas coisas, pequenos prazeres perdidos no perder tempo de nossa vida. No caminhar lento sem destino certo. No passear romântico de mãos dadas. Na troca de carinhos ao ar livre, nas promessas românticas ao pé do ouvido, no comer um sorvete a dois. Nada mais sabemos das estrelas, nem que elas estão lá, a nossa espera, todas as noites. Nem da lua que hoje é crescente, amanhã cheia. Não vemos mais sua luminosidade sobre nós. É como se não existissem, lua , estrelas, céu. Nosso céu, hoje, é um teto, nossa visão, uma tela de LCD. A noite, um mero período de passar. Perdemos o espetáculo montado para nós todas as noites.
Um show sem espectadores. Um show para ninguém. Sem aplausos.

terça-feira, 30 de março de 2010

Melhor de mim


Andei falhando em minhas postagens. Ou por falta de suporte - e aí, nada pior do que querer e não poder - ou por falta do que dizer. Melhor: de como dizer.
Vivenciei coisas muito diferentes nessa última semana. Meu Outono. Minha troca de folhas. Muita informação em mim. Um abrir de portas lacradas pelo tempo. Um tirar de mofo de meus sentimentos mais profundos. Mexeu com minhas vontades e com meus medos. Isso me aquietou.
Ou deixei de lado meu replicante pensar e resolvi viver? Quanto mais se pensa, menos se pensa...
Viajar me faz isso. Como se tivesse que abrir espaço em mim para vivenciar o desconhecido. Espaço para o novo no velho encralacado. Mas essa viagem pareceu ao centro de meu mundo. Ao meu mais íntimo ser. Um limpar do baú de mim. Resgatar meus melhores sentimentos. Esquecer os que não me servem. Reaprender que tudo pode ser assimilado, compreendido e aplicado. Reaprender os reais valores que tenho e que a vida tem a me oferecer. E aceitá-los de bom grado e peito aberto. Reviver a pessoa que sou, sem as amarras do simples passar pelos dias, sem deixar reabrir em mim as feridas do passado. Aceitar as coisas que me vem, fazer por merecê-las. Merecer. Ver o que sou como um presente por estar presente. Ser meu presente.
Voltei como que em carne viva. Extremamente sensível, fortemente palpitante. Como se tivesse viajado em mim. Como se reconhecesse em mim cada pedaço. Como se recuperasse meus elos perdidos e fizesse dele uma corrente inabalável. Como se tivesse, enfim, achado em alguma gaveta travada pelo tempo a pessoa que realmente sou.
Abro a gaveta e gosto do que vejo. Tem um cheiro diferente ali. Mistura de ingenuidade e matureza. De simplicidade, alegria e interesse pelo que me vem. Uma mulher sincera e honesta. Uma menina-mulher capaz de amar seu mundo, de se amar. De se entregar de coração aberto para o novo. Ou ao renovado. Capaz de se perceber. Capaz de ser seu todo. Toda eu.
Então me vem a frase do agora:
" O melhor que eu posso ser é ser eu mesmo, seja lá o que isso for"
Bob Dylan

domingo, 28 de março de 2010

Achado


"Quem nunca se perdeu no outro, jamais se encontrou".
Essa frase de Manoel Afonso de Mello, encontrada por mim numa camiseta em plena livraria, despertou o que penso hoje, e li: quem nunca se perdeu no Outono, jamais se encontrou.
O Outono me chegou como previsto, cheio de imprevistos. Mal começaram a soprar seus primeiros ventos, muitas novidades. Algumas folhas minhas estão custando a cair, muito mais lentas do que o esperado; enquanto outras, apressadas, caíram todas, juntas, de rompante, deixando meu dorso nu. E eu, sentada agora a escrever com vista para meu novo mundo, deixo-me levar pelo frescor desse vento que me diz: acalma-te! Espera!
O que é teu , virá!
Ah, belo Outono. Começou com novos cheiros e gostos. Fez de mim - e faz - uma nova mulher. Como se tirasse de mim o meu melhor. Meu lado mais feminino, meu lado mais potente e forte. Como se me desse novos rumos, novas razões de me ser. Novas razões para um velho ser.
Ah, que belo Outono.Trouxe consigo seus melhores ventos. Trouxe folhas amareladas de bons ensinamentos. Trouxe um vento renovador que veio para ficar.
Aprendo como é preciso perder-se para se encontrar...

sábado, 27 de março de 2010

Espelho meu


Fu, O Retorno. Depois de um período de escuridão e obscuridade sempre volta a luz.
Assim falava meu I Ching de hoje, esse abafado sábado em terras gaúchas. E é bem essa impressão que tenho. Afastar-me de mim foi uma ótima coisa a fazer nesse momento. De longe me vejo outra, como já disse ontem. Mas é muito mais do que me ver: sinto-me Joyce. Sinto-me sendo-me novamente. Como que voltando àquela Joyce que já fui,
longe dessa covarde que me tornei.
Depois da escuridão, a luz. Desde quando estive/estou no escuro de mim mesma? Desde que momento da vida me esqueci de me ser?
Já fui uma batalhadora e tanto. Aquela que escolheu, sózinha, de um dia para outro, seu destino. Que deixou para trás o conforto de seu mundo criado e se lançou no seu próprio mundo. Que saiu de casa ainda jovem para estudar em outra cidade, sozinha. Aquela que enfrentou a nova vida tendo como única defesa ela mesma. Aquela que conheceu a vida usando da própria vida. Aquela que apesar de tão pouco se achar, conquistou um mundo. A que sempre usou de boas estratégias para se lançar nos abismos. A que sempre se lançou , sim, de cabeça, com rompantes de paixão pela vida. A que não se deixava levar sem antes querer. A que não se amava mas mesmo assim chegava lá. A que se conquistou e conquistou seu ser. Aquela Jacque, Joca, J, Joyce e tantas outras que sabiam onde queriam chegar. Que sempre soube conquistar pessoas e vidas, mesmo as mais duras. Ou menos válidas.
O escuro, penso agora, cegou-me por longos anos - que vejo, hoje, tão necessários. O escuro - que bem hoje o sei - trancou minha coragem em gaveta com chaves que desvendo, agora, uma a uma. O escuro, penso, deixou-me menos corajosa, mas não menos esperançosa. Fez-me ver a vida com mais cautela, mas não menos requerente. Não menos sonhadora. Não menos capaz de me ser por inteiro, apesar das aparências.
Como um vulcão imponente e silencioso, minha força está lá, minha energia concentrada, pronta para se auto expelir. Para percorrer o mundo como sou. Para marcar os caminhos que são meus. Para que eu volte a ser inteira e de novo. Eu mesma como sou.
Essa que amo ser.
E que estou reaprendendo a amar.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Spa


Sexta-feira e eu aqui olhando esse espaço em branco. Sexta-feira e chove em Porto Alegre. Chuvinha fina, não avisada. Não interfere no dia que tenho pela frente, mas faz da cidade grande um tanto quanto melancólica. E de mim , mais pensativa.
Aproveito meu "spa" para me saber. Para mim, meu estar sozinha me faz bem. Como se me renovasse. Eu, renovada. Ou renovando. Estar comigo mesma é o melhor que me dou. Eu e minha vida, meu nós. Indiferente ao que tenho ou não para fazer, sozinha, sou outra. Ou eu mesma, sem as amarras. Um ser sem pressa. Um vivente, não passante. Espero meu café, programo meu banho. Escrevo. E nesse lento compasso, penso-me, toda. Penso-me, assim, de longe, com vistas da outra Joyce que sou. Ver-me, assim, de longe, como quem vê outra pessoa, fortalece-me. Como quem lê um romance. Ou escuta uma amiga falar de seus problemas. Penso nas coisas que fiz e nas que me escaparam, sorrateiramente, no passar dos dias. Listo em minha mente, hoje em compasso de férias, os sonhos não realizados e os tantos a realizar.
Mas a vida me parece melhor no agora. A vida me parece melhor no hoje. Talvez porque veja , hoje, só o que quero. Talvez porque vejo meu nós fortalecido. Porque vejo meu eu nos olhos do outro. Talvez porque hoje me veja como sou. Meu ser eu mesma.
Hoje é sexta -feira, e eu, mulher que sou, curto meu spa de me amar.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Pronta


Um quero-quero me acorda, talvez anunciando o meu Outono. Abro a janela do quarto, escuto o silêncio do amanhecer e recebo o vento anunciado. Esse novo vento prometido faz tanto tempo - pelo menos dentro de mim. Ah, como essas coisas de tempo são loucas!
Sobre a cama, a mala. Nela, como sempre é, meu resumo. Um pouco de mim - ou meu tudo - neste retângulo verde de pouca profundidade. Olho e descubro, em meio a um sorriso só meu, que preciso de pouco. Resumo-me a pouco. Caibo, eu e meu mundo, numa pequena mala. Talvez faltem ali alguns detalhes - destes compráveis em alguma farmácia, conveniência conveniente ou livraria. Mas meu necessário ali está. Até demais. Caberiam em uma frasqueira...
Ah, e meu lap, inseparável companheiro fiel de minhas palavras. Sem ele, nada sou. Não sei mais me (d)escrever em papel e caneta. Não flui como a minha pressa. Não acompanham a minha ânsia. Como se o barulho ínfimo do teclar já fizesse parte de minha história. Como se o teclado já fizesse parte de meus dedos. Como se o lap fosse meu eu. Ou eu, em pequena peça branca.
Meu cérebro cabe na minha bolsa...
Na pequena mala levo muito de mim. Meus eus, todos. As tantas Joyces a serem desvendadas. Descobertas, desbravadas, reconhecidas, amadas. Sim, todas, ansiosas pela hora de serem amadas. Ver no olho emocionado do outro meu próprio reflexo também emocionado. Ver o nós. Ver-me outra vez. Viver-me.
A impressão que me vem é de um mero passar de dias. De anos. Como se essa manhã de Outuno fosse um marco. Um início, um reinício de mim. Uma qualquer , diriam. Mas não em meu mundo, não em mim. Não hoje. Hoje é o dia. Nada será igual em mim. "Sei que nada será como antes, amanhã", já dizia a música. Vou me sentar à mesa de toalhas verdes e apostar minhas fichas. Todas. E ganhar . Ou ganhar.

...Sei que nada será como está
Amanhã ou depois de amanhã
Resistindo na boca da noite um gosto de sol...
(Nada será como antes, Milton Nascimento e Ronaldo Bastos)

quarta-feira, 24 de março de 2010

Ah, as virtudes


E quais seriam as sete virtudes, contraponto aos pecados?
Ordenadas em ordem crescente de santicidade, as sete virtudes sagradas são: castidade no sentido de auto satisfação, de alcançar a difícil pureza de pensamento, em contraposição à luxúria. Generosidade ou desprendimento, de ações e pensamentos, contra a avareza. Temperança, moderação opondo-se à gula. Presteza no lugar da preguiça. Paciência, serenidade no lugar da ira. Compaixão se opondo à inveja. Humildade contra a soberba.
Não é difícil viver dentro desses preceitos se se está feliz. E se é como dizem que a felicidade está em momentos, penso se não seria cada momento destes uma vida. Uma vida própria dentro de uma vida maior. Um fragmento do todo. Em cada momento feliz, um mundo. E no balanço geral do todo, nosso saldo positivo ou negativo. Olho minha unha ruída no fervor do mal momento de ontem e vejo nela minha ira. Ou minha total falta de paciência com a vida, já que tenho pressa de ser feliz. Sinto meu corpo me perguntando se não vou caminhar, e dou de cara com a preguiça. Minha generosidade, sim, está garantida no sorriso que hoje trago na cara. Um novo dia, penso. Bem poderia ser, já, o bom começo de meu melhor.
Mas lembro de "seu Arthur " - meu jardineiro emprestado - e seu sorriso ao final do trabalho bem feito - e sinto que fui generosa mais comigo do que com ele. E da compreensão, nele, do quanto tão pouco pode fazer muito. Seria luxúria de minha parte, querer ser feliz a todo custo? Ser feliz até com momentos que não são meus?
Faço um levantamento baseado nessas lágrimas que me saem tão fáceis. Nos sorrisos que tão facilmente consigo, na emoção que tenho estampada na cara. Penso que não sou tão pecadora assim. Mas isso já seria uma espécie de soberba.

terça-feira, 23 de março de 2010

Sete




Meu dia começou com resquícios de ontem e resolvi rever meus valores. Como uma rápida revisão deles. Ontem, quando o dia começou a dar sinais de chatice, dei-me ao luxo (na cabeça de quem foi criada nos padrões culposos de comportamento) ou prazer (na cabeça de poucos, até na minha, quando me dou ao prazer de ser eu mesma) de assistir ao filme Seven , indicado como tarefa pelo professor de Filosofia de meu filho. Para quem já conhece, não é, com certeza, um filme de fácil compreensão, muito menos para cabecinhas iniciantes no mundo do real pensamento. Fala dos sete pecados capitais, ou condições humanas conhecidas atualmente como vícios, tão antigas que precedem aos religiosos de plantão. Tive, em muitas partes, que esclarecer ou complementar informações sobre detalhes do filme ou dos "pecados" ali citados. Coisas que já sabia ininteligíveis por ter assistido previamente e solitariamente para não ter grandes surpresas ( zelo de mãe!). Enfim, um filme imperdível para se ter
mais conhecimento do todo humano.
E em uma das partes finais, tão chocante, uma grande lição. A de que temos banalizado a vida, que já não nos importamos mais com tantos "pecados" cometidos a céu aberto, em nossas casas, em nossa vida. E expurgados pelo serial killer, um homem dito como rico e culto. Ira, cobiça, gula, inveja, vaidade, preguiça e luxúria , ditados por São Thomas de Aquino ainda no século foram os pecados contemplados. Vivemos isso em nosso dia a dia, pois mais santos que nos façamos. Estamos sempre querendo mais e usufruindo menos. Sempre reclamando mais e agradecendo menos. Querendo viver mais e nos matando aos poucos. São esses sentimentos ruins que fazem de meu dia um dia pior. E de mim a mulher que não sou. Invejo os que se contentam com migalhas de viver. Cobiço os que sabem bem viver. Sou gulosa, de comida e de vida. Tenho ira pelas coisas que me travam, que não me deixam ser feliz. Sou vaidosa ao ponto burro de sempre me comparar e por isso sempre achar que podia estar melhor. Tenho mil ideias e preguiça de colocá- las em prática ( se pelo menos soubesse vende-las...). Ah, e a luxúria, descrita como "deixar-se levar pelas paixões", não nego: meu mais forte pecado!
Olho para meu jardim e vejo "seu Arthur" a catar inços na grama, um por um. Um senhor a quem tenho apreço mesmo sem saber muito de sua história. Tirei-o do conforto melancólico da solidão e ofereci mais que trabalho ou dinheiro. Oferecei ocupação e dignidade. Ofereci horas de descanso de sua alma cada vez mais entristecida pelo esquecimento de muitos. Ele me olha e sorri. Isso me enche o coração da certeza que apesar de tantos "pecados" em mim, acho espaço para essas coisas mínimas, mas que fazem de meu dia um dia melhor. E de mim, mais pessoa. Mais gente. Menos pecadora, talvez. Ou isso seria mais uma luxúria de minha parte, a a paixão por viver? Que me julguem os que se deixam levar pelo rio da vida
sem nem ver a beleza de suas margens...

segunda-feira, 22 de março de 2010

Bom dia!


"O dia está na minha frente, esperando para ser o que eu quiser. Aqui estou eu, o escultor, que pode dar forma.
Tudo depende só de mim".
Enviaram essa frase que, dizem, é de Charles Chaplin. Pouco importa.
O que importa é o que ela me diz.
É chegado o Outono. Uma nova estação, promissora. E hoje o dia acordou Outono. Já assim cedo, fez sol, nublou, ameaçou chuva, e lá vem o sol de novo a nos deixar tontos sem saber o que virá. ( que o digam as donas de casa no tira e bota da roupa no varal...).
Assim é a vida, pensou, meio que rindo de canto de boca. É a natureza, mais uma vez, dando uma bela lição. Nunca sabemos o que vem pela frente. Nunca sabemos nada do segundo seguinte, que dirá do amanhã. Do depois. Do Inverno, da Primavera, do Verão. Podemos até programar, fazer previsões ( e tem gente que ganha a vida com isso). Eu mesma, eterna sonhadora, recebo via e-mail , todo santo dia e todo dia não santo, I Ching (adoro as lições que traz, da forma que diz, poeticamente, sempre usando de elementos da natureza), biorrítmo ( por vezes leio e vou do contra) e horóscopo ( veio no pacote rss).
Sem nem ler meus preceitos, acordei como ando nos últimos dias: esperançosa. Feliz. Sapeca, poderia dizer, como se deixasse transparecer em mim minha menina interior. Talvez seja essa minha procura de me saber. Ou de ser eu mesma, coisa que não fazia há anos. Recebo o dia - sem saber como ele será - de braços abertos e sorriso escancarado. Dei a ele meu melhor bom dia e meu sorriso mais gostoso. Alguns diriam que é loucura, tratando-se de uma mera segunda feira. Para mim não tem dia: o que conta é esse sol que tem nascido forte dentro de mim. Penso que a chuva, os raios e trovões, os dias frios que virão, tem hora para acabar. E depois deles todos, meu sol. Lembro que ele, o sol, sempre está lá, mesmo que pareça , por vezes, escondido.
Está lá, sempre. E é nele que me fixo.
No meu e no de meu mundo.
Meu brilho.

domingo, 21 de março de 2010

Vivendo



Li em algum lugar que Albert Einstein , quando esteve no Brasil em Março de 1925, ao visitar o Jardim Botânico do Rio de Janeiro, abraçou uma jequitibá rosa e beijou suas raízes. Estão lá, ainda, as duas, feito prova viva da história. O gênio falava, já naquele tempo, em energia da natureza e na quase obrigação de agradecê-la.
Senti um alívio, pois era como se eu, a partir desse momento, fosse considerada normal ( ou não, tratando-se que de quem é, rsss...). Sinto isso no frescor da água da chuva, no cheiro indescritível que vem da terra molhada, no som das águas batendo no solo, no perfume da flores. Nas maciez de certas folhas e pétalas perdidas. Tenho essa mania em mim, da plena vivência com a natureza, mesmo sendo raros os momentos que me dou esse presente. Após a chuva, esfrego minhas mãos nos musgos das árvores e cheiro: meu perfume predileto. Tem aroma de homem feito, de aventura - ou tudo isso junto. E que vigor vem delas! Uma energia difícil de explicar, tão fácil de sentir, desde que com a alma exposta. Pena eu ter me moldado ao mundo e ficar tímida em demonstrar esse amor pela natureza. Pena eu deixar de lado a menina que sou e seguir tentando ser adulta. Mais pena ainda , tenho, da pessoa que ainda não vivenciou isso. Que nunca abraçou uma árvore, nem sentiu sua energia radiante, seu calor interno.
Triste de quem não vivencia isso. Muitas vezes, eu.
Que o Outono me traga de volta meu bem ser eu...

sábado, 20 de março de 2010

Colheita


Hoje, enfim, começa o Outono. Adoro. Nisso sou mediana: gosto mais das estações de preparação que de enfrentamento.
Mas quero um Outono como eu e meu. Um Outono faminto, voraz. Não um Outono normal, mais um de tantos anos. Não um passar de tempo. Espero, dele, muito, mais ainda do que tenho esperado nas últimas estações. E se é como os yôgues dizem, que esta estação é uma preparação para o longo Inverno, preparo-me. E sigo feliz.
A natureza com sua sabedoria, bem conhece o que vem pela frente. As folhas caem para que a árvore mantenha sua energia vital centrada na sobrevivência ao duro inverno. Os bichos guardam esperando o tempo de esperar. Uma espera para o enfrentar de uma época de poucas provisões. Uma preparação já pensando numa Primavera forte e cheia de encantamento. E esta uma preparação para o estonteante Verão.
Sábia é a mãe. Basta atentar. Nosso corpo faz o mesmo, mesmo que não percebamos. É tempo de pré recolhimento. Época de um sol mais ameno, mais horizontal - mas não menos laranja, como as folhas que caem. Nosso sono vem mais cedo, nosso pensar fica mais centrado. Um pensar sobre a vida, um pensar sobre o hoje, um preparar para as mudanças que virão. No Outono, deixamos aos poucos de lado a vida frenética e quase sem pensar do Verão. Vamos nos recolhendo mais, ficando mais dentro, acompanhando o que dita o sol. Nosso corpo pede mornos para nos aquecer aos poucos e raízes para que finquemos os pés, para que estabeleçamos as bases. É hora de ser, de se saber, de pensar, de repensar.
E deste meu Outono, tanto espero! Sementes que plantei e das quais espero meus frutos. Olho através da janela da vida meu pomar com novos olhos além do azul de meus olhos de menina. Escolhas que fiz e, espero, dêem belos resultados. Quero para mim uma boa conheita. Um Outono de folhas dançantes - daquelas que brincam ao vento rompante das tardes. Quero para mim um Outono de cores vivas, sem a palidez do nada. Um Outono vibrante como o pensou Vivaldi. Vivo. E meu.
Quero. E hei de ter. Um Outono que me traga o meu calor. Um Outono que me traga o Amor. Um Outono que me traga. Que me dê. Que me presenteie com o que estou a esperar.
Minha colheita de amar.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Visita


O tempo passou e me formei em solidão...Tive bons professores: televisão, vídeo, DVD, e-mails... Cada um na sua e ninguém na de ninguém. Não se recebe mais em casa.
Essa queixa de José Antônio de Resende tem um certo fundamento, mas nem tanto.
Concordo que deixamos de viver para ficarmos em frente a televisões e computadores. Não vemos mais o passar lento das noites, as luas e suas quatro fases a nos definir. Há meses não vejo o céu e suas milhões de luzes. E anos que não vejo o nascer do sol. Coisas que me eram tão caras na infância, hoje tão raras. Como se a poesia da vida estivesse morrendo.
Ah, as visitas. Na vizinha ao lado, sem muita cerimônia. Ou na amiga da mãe, todos de banho tomado e roupinha de domingo. Mas lembro mais do sono ao som das intermináveis conversas, e os doces oferecidos, nem sempre ao gosto infantil. Naquela época, não se gradavam às crianças. Nós é que nos adequávamos à vida de adulto. Na verdade , já fiz muito disso, o fazer visitas. Mas nos tempos que nossos filhos eras crianças e que nos reuníamos para agradá-los. E nos intervalos de sermos pais e mães, divertiamo-nos. Uma coisa não mudou, nunca: reunir, com ou sem cerimônias, significa comer. Não pela palavra, não pelo querer do outro saber. Reunimo-nos pela boca, desde os tempos das cavernas.
Mas não culpo a tecnologia. Eu até a uso bastante para aplacar a solidão. Viajo o mundo sem sair do lugar. Conheço pessoas que me agradam a alma - e eu a delas. Falamo-nos todos os dias, incentivamos uns aos outros, carinhamos uns aos outros desse novo jeito de carinhar. Solidão temos em casa, nos relacionamentos vazios. Solidão temos à mesa onde imperam, hoje, os filhos. Usamos do som da TV para ficarmos surdos ao sentir do outro. Usamos do bom ou mal filme para sairmos de nossa realidade pobre de relações. E usamos da internet para fazer as viagens tão sonhadas, as de corpo e as de alma. Usamos da tecnologia para nos sentirmos mais dentro do mundo, mais nós mesmos. Saber mais dos outros e de nós mesmos. Saber mais do bem viver.
Penso na internet como a praça da cidade. Sentamo-nos no banco da vida a ver quem passa, a conversar e trocar emoções com quem nos agrada. E se, a partir dai, ele pegar a minha mão, ah, promessa de um ano bom. Quem sabe nasce ali na tela um grande amor?

quinta-feira, 18 de março de 2010

Caminhe!


Está de mal humor? Caminhe. Triste? Mais um belo motivo para tal. Estressado? Nada mais relaxante. Caminhar, ainda mais logo cedo, tendo o sol preguiçoso como companheiro, é tudo de bom. Acorda os músculos, ativa a mente, relaxa a alma. E pode ser o exercício para tantos outros sentimentos. Os cheiros do caminho , de café recém passado à flores desabrochando, atiçam o olfato. E os olhos agradecem a luz da manhã e seu brilho suave. Sinta na pele o arrepiar do ventinho fresco matinal, ao mesmo tempo que seus músculos vão se aquecendo com o sol e com o sangue melhor circulando. Vá treinando também seu silêncio, tão raro, alternado com bons dias ao Deus dará, sem nem esperar resposta.
Mas não caminhe distraído de tudo. Atenha-se às passadas firmes, brinque com elas, hora rápidas, hora lentas. Faça esse jogo com as pernas, sinta nas fibras de todo o seu corpo a resposta imediata a tais impulsos. Converse com seu corpo, veja o que ele quer. Se está precisando de piques ou de um simples levar. Veja o que seus braços querem, se dançar ao sabor das passadas ou ficarem tímidos apenas te acompanhando. Brinque com os músculos sempre esquecidos da face. Mecha-os, comprima-os e relaxe-os, nem que seja fazendo caretas ou cantarolando (relaxe, ninguém na correria da manhã tem tempo para pensar de está louco/a ou não...).
Não, não caminhe distraído de tudo. Só dos pensamentos incessantes. Fuja deles. Faça da simples caminhada, meditação. Basta distrair a mente, zombeteiramente. Brinque de esconde-esconde com os pensamentos que te vem. Deixe-os loucos focando seu pensamento na sua respiração. Ou no nada. Ou numa música que não sai da sua cabeça. Cantarole se for preciso. Faça pouco caso deles. Voltaram mais simpáticos, mais humildes, menos donos de si e de sua mente. ganhe a batalha. Seu prêmio será sua calma e uma voluntariosa nova maneira de pensar.
Está vivo? Caminhe. Não há melhor forma de bem começar.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Despertar


Tenho tido umas certezas dentro de mim. Presentes diários que a vida tem me dado para compensar essa rapidez com que ela me passa.

Hoje, por exemplo. Senti a energia do Amor em mim. Tenho dormido pouco, tentando encontrar uma fórmula de diblar essa correria imposta pelo passar das horas. Se aparecesse um gênio, de cara pedia para que meu corpo e mente se sustentassem com umas duas horinhas de sono ao dia. Ou, sonhando já bem alto, um simples relaxar. Tenho tanta coisa para fazer, ler, escrever e viver , que sinto arrepios quando a noite se aproxima.
Ai descubro a energia do Amor, quatro letrinhas que encerram em si um mundo. Só tenho essa explicação para ter dormido depois da meia noite e ter acordado com tanta energia em mim seis curtas horas depois. Com um sorriso nos lábios ainda secos, com um certo brilho no olhar ainda fechado, com boa música nos ouvidos, com disposição suficiente para animar o filho para a escola, depois colocar um tênis e caminhar a passos firmes. E fico aqui pensando porque não posso ser assim todos os dias...
Não tenho outra explicação em mim: o Amor me acordou. Disse bom dia ao meu ouvido, já arrancando de mim meu melhor sorriso, ainda dengoso. Deve ter feito isso para se agradar também. E me agradou. E muito.
Feito um sol.

terça-feira, 16 de março de 2010

Terno


Ontem envelheci. E explico. Meu filho, único, que completou 15 anos esse fim de semana, foi convidado para fazer parte do "bolo vivo" ( 14 casais dançando em volta da aniversariante e seu par...é, ainda existe isso...) de uma amiga de classe. Pedia-se terno ( ou roupa, como dizem os especialistas) na cor preta. Fomos nós a procurar. Ele com seu alto bom gosto e eu com minha tarefa de pouco gastar.
Foram várias tentativas, dado ao número, pequeno, que usa. O mundo mudou, usa-se terno bem mais cedo, mas esqueceram de avisar às lojas. E para um homem mirim que espera de uma roupa tudo de bom que ela tem a dar, tarefa árdua. "Não quero parecer um garçom", dizia ele, a cada loja que entrava.
Por fim, achamos. Tarde perfeita. Belo atendimento, roupa à altura ( e tamanho) do exigente consumidor, terno ( ou roupa?) italiano com preço brasileiro. O filho contente com a padronagem, a mãe com a promoção, o vendedor com a meta atingida. Éramos só sorrisos.
Soluções à parte, volto a fita. Ver meu filho, ali, escolhendo, experimentando, discutindo com o vendedor os detalhes de tecido, feitio, manga, barras e preços (sim, ele se preocupa com isso) feito um grande homem, envelheci. Disfarcei minha emoção - ou seria encantamento? Ou um acordar? - Um homem. Que ainda me pede carinho, rouba-me beijos, mas um homem. Não mais o bebê que ligava o vídeo as seis da manhã para esperar o "tetê". Nem o menino que montava Legos ou fazia manobras com os carrinhos de ferro. Nem o moleque que fazia malabarismos com a bike (...bicicleta? o que é isso?).
Um homem. Ou quase isso. Olho-me no espelho e não me vejo mãe. Vejo-me mulher. E cada dia mais. Como se o crescimento dele me trouxesse vantagens desconhecidas. Como se eu visse que valeu a pena e que posso continuar meu caminho de bom grado. Meu caminho de ser ainda mais feliz. Meu caminho de me achar. Caminhar de quem fez sua parte, deu o seu melhor.
Sigo feliz. Terno momento.

Sac(o)!


Esse é o país do embuste. Estou revoltada. Como consumidora e como cidadã. E explico e que me dêem razão os tantos lesionados.
Assinei, burramente, uma revista da Editora Abril. Achei o tema interessante: história. Mas não sabia que ia dar tanta história assim. Primeiro pela entrega e cobrança em duplicidade. Clonagem? Não me perguntem o porquê. Se nem eles sabem, imagina nós, simples consumidores. Depois de vãs tentativas, falando com máquinas e escutando musiquinhas infâmes, resolvi da melhor forma: doei, todos os meses, uma das revistas.
Chegada, enfim, a hora da renovação - que me veio também em duplicidade e com valores e números para contato completamente diferentes, mais parecendo mais uma clonagem. Tentei um número e depois de passear pelos labirintos sem fim dos passa-passa de ligações, esperas infindas e propagandas em meu ouvido já saturado, resolveram dizer que não era aquele o número a ser acessado. Respiro fundo e ligo, de novo. Dá vontade de rir ou de chorar: a mesma musiquinha irritante de fundo, a mesma sequência de propagandas e informações em voz de aeroporto, a mesma brincadeira irritante de passa-passa. Lembrou-me um programa de humor. Atende-me uma sem nome. Pede motivo, que nesta altura não em faltam. Digo, todos. Conto a minha versão da história. Diz que está tudo ok, tudo cancelado, depois de infindáveis dados. Peço um número de cancelamento, algo que me dê a certeza do sossego. Não tem. Pergunto como funciona isso, caso venha a ter problemas. Ela avisa que é assim o procedimento e que por isso está tudo gravado. Respiro fundo e deixo meu recado, os porquês, todos. Discurso sobre os meus motivos. O como queria ter sido atendida. O que esperava de uma empresa que trabalha, mesmo que indiretamente, com a cultura de um país. Peço desculpas à atendente, que, pelo descaso, parece já acostumada. E após longos e exatos 59 minutos perdidos em minha vida, desligo. Fica em mim a sensação de impotência. De um não atendido. De um não ser cidadão. De mais uma vez ser considerada um número, uma gravação, como se fossemos robôs. Números. Deu saudades do tempo de compra de caderneta...quem sabe é por isso que o nome da revista é
"Aventuras na História"?

segunda-feira, 15 de março de 2010

Viva


Assisti ontem, a convite de meu filho, ao filme Simplesmente Complicado (It's complicated!), com a maravilhosa Merry Streep. Fala de uma mulher que depois de dez anos de divórcio e de terapia, resolve ou é levada pela vida a ser amante de seu ex, agora casado com uma mais nova. Ou seja, vira a "outra". Até ver, como deveria ter feito desde o começo, que está acima disso tudo, que se superou , que é, sim uma mulher completa. Já criou seus filhos - todos já saindo de casa - é uma grande profissional, uma grande mulher. E acima de tudo, sabe bem viver. Nas confissões- sempre tão necessárias e tão relaxantes que temos, quando temos ( eu nem sei mais o que é isso, já que fui renegada...) - com as amigas, os melhores diálogos. Ali, muito de mim, de nós, mulheres, sempre atrelando nossas vidas aos filhos, aos companheiros, deixando para sermos nós mesmas só depois que eles " se vão". Quando se vão...
E quanta luz na personagem. Que inveja boa tive/tenho. Fiquei me pensando daqui uns anos. Que tipo de mulher madura serei? Será que manterei essa vivacidade? Que diferença faz as mulheres que tem vida própria, que seguem seus caminhos, que não dependem de ninguém, a não ser delas mesmas, para decidir sobre suas vidas, para saber o que quer dela.

Eu não posso reclamar. Não por enquanto. Não como mulher, já que me sinto mais eu mesma a cada dia, a cada aniversário do filho. Como um desprender. Como se minha tarefa principal fosse aos poucos completada. E como se a cada dia eu estivesse podendo ser mais eu mesma. Mais madura, mais centrada, mais dona de mim. Saber o que quero e o que não quero, já um bom sinal, penso. Fazer minhas escolhas de forma mais livre, sem tantas culpas. Sem tantos " se". Ou tantos "quando'. Se eu fosse mais nova; quando meu filho crescer. Se eu fosse mais independente financeiramente; quando ele sair de casa. Se eu me soltasse mais; quando achar um grande amor. E assim sigo, cheia ainda de "ses" e "quandos". Melhor que nada, já que questionar é crescer.

Mas não posso negar - e nem a vida me deixa pensar de outra forma. Sou vinho de boa safra, guardado em boa adega. Cada dia melhor. Quem de mim beber, saberá.

domingo, 14 de março de 2010

Tempero


Essa semana - bom, foram só 4 dias, mas quão eternos... - fora de casa - e dentro de mim - me fez bem. Muito bem. Coloquei para fora meu outro lado, ou eu mesma. Fugi, querendo ou não, dos padrões impostos. Experimentei novos horários, novos sabores, delineei novos sorrisos e novas falas. Vi novos olhares. Provei novas sensações, muitas inesperadas. Usufrui de minhas 24h do dia feito de forma muito presente. E feito presente.

Uma deles foi, enfim, fazer as tãos esperadas fotos em estúdio. Ver-me, ali, sendo valorizada pelos olhos experientes de um fotógrafo profissional despertou em mim várias mulheres. Ou novas maneiras de ser eu mesma. Novos eus, ou meus tantos eus tão fortemente guardados. Ou simplesmente esquecidos em uma gaveta embolorada pelo tempo que teima em ser chato, por vezes aborrecedor. Mas estrategicamente revelados, meus novos ângulos, ou das tantas Joyces que existem em mim.

Outra foi a inusitada percepção de novos gostos. Ao aceitar o convite para conhecer a comida indiana, surpresa e encantamento. O lugar, os cheiros, a aventura de experimentar primeiro para depois se saber o que é. A língua e os sentidos como cobaias. Mistura inusitada - pelo menos para mim - de carnes com yogurtes e ervas, arroz com cravo, frutas conhecidas com sabores nem tanto. A brincadeira do saborear sem sabê-lo, tentativa nem sempre acertada da descoberta, toda ela válida, toda ela divertida, toda ela encantadora. Sensações novas que despertaram em mim minha curiosidade de menina e minha satisfação de mulher.
Viajar, seja para onde e tempo que for. Um abrir-se a novas aventuras, do levantar até o deitar. Viajar me ilumina. Enriquece ainda mais meu saber e meu ser. Eu, lá, viajante do tempo e espaço. Eu como sou. Inteira, entregue, palpitante.
De corpo e alma. Viva. Viva!

sábado, 13 de março de 2010

Torcida


Hoje meu rebento completa quinze primaveras. Ou quinze verões, dada a data e seu jeito vivo de ser.
Dizem-me candidata a vó. Longe da piada engraçada, mas de mal gosto - não por mim e sim por ele - sinto-me outra. Mais forte, mais digna da palavra mãe. Como se minha tarefa estivesse sendo como que completada. Como se meu projeto estivesse, enfim, virando obra, dependendo tão somente de leves acabamentos (mas não esqueço que precisam de ajustes constantes e de manutenção para o resto da vida).
Sendo eu, além de arquiteta, "escritora", posso dizer que finalizo um bom texto. Um texto doce, que comecei sem preparo e sem esperar. Um texto que caiu em meu colo ( ou seria dentro dele?), que surgiu em uma das páginas de meu dia a dia e que encarei
da melhor forma que pude. Ou soube.
Ai está ele, seja obra ou texto. Olho em seus olhos e imagino quanta coisa temos ainda para vivenciar juntos. Quantas conversas, duras ou amenas. Quantos olhares mudos. Quanto compreender ou repreender ainda. Quantas mãos dadas e beijos bem recebidos. Quanto a viver. Talvez reviver. Talvez repensar.
Hoje vejo como uma nova etapa. Deixo de carregá-lo no colo, de levá-lo pela mão. Caminho ao seu lado, mesmo que não me veja. Olho distante, mesmo que não perceba. E torço para que seja feliz. Esse, sim, o meu presente, sempre presente.
Sempre.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Maturando


"A maturidade me permite olhar com menos ilusões, aceitar com menos sofrimento, entender com mais tranquilidade e querer com mais doçura".
(Lya Luft )

Madura a frase, certeira talvez. Mas falta dela um certo encantamento que me ilumina os dias. Deve ser pelo meu lado menina que não me deixa ser assim tão passiva. Nem tão madura.
Aliás, vejo isso nos textos da Lya. Uma falta de um sei lá o que que lhe ilumine o olhar. Tem ela um olhar profundo, doce, mas triste. Como se trouxesse nele a certeza do envelhecimento da alma. E reflete, a meu ver, em seus textos. Desesperançosos, por vezes.
A maturidade pode ser vivaz, luminosa. Conheço mulheres admiráveis sobre seu salto de mais de 60 anos. Invejo e tento copiar, pois é assim que me vejo e me sonho. Uma maturidade que não deixe para trás o brilho do olhar, o amar a aventura que é viver, o sorriso do bem viver. São avós ou nem tanto, são mulheres de sucesso não só material. Ao se olhar para elas, tanta luz, tanta vida, tanta coisa a dizer além de mágoas que vejo nos olhos de tantas, como se a resignação fosse um consolo. Como se envelhecer fosse sofrer. E que luz vem do olhar de quem bem viveu e vive, de quem se amou e ama, de quem se compreende e se deixar ser. De quem é. De quem não fica no fui, quem fala em sou e vou ser. Quem sonha, sempre, independente da idade.
Serelepes meninas, como eu.
Porque o corpo envelhece, sim. Mas a alma nem tanto.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Calada


Meu já conhecido fetiche pelas palavras cresceu. Virou tara, se for pensar no seu lado, digamos, animal. Ou Amor, se pensarmos sob um ângulo mais romântico, uma veia mais poética, não minimalista. Devo esse crescimento não a mim mesma, mas à vida, que tem me presenteado com muitas delas, tão sentidas que me tem feito corar. Ou me apaixonar mais, se é que isso é possível. Hora me fazem saltar a fêmea interior, hora a menina, que vira mulher.
O poder das palavras me atrai. Por vezes me escraviza. Mutila-me. Ou me reforma. Até a pele melhora. Feito um Spa do Amor, invade meu ser e me torna mais lívida, pura, sentida.
Ai, as palavras. Imã. Seguem-me. Atraem-me. Cedo, logo cedo. E me entrego de corpo e alma. Deixam-me sensível. Inteiramente entregue. Nua. Delas.
Calada.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Encaixe


Ah.... eu e minha mania de achar texto em qualquer assunto. Ontem, chegando de avião, vi na cidade, assim, vista de cima, tanta história para contar. O como as casas se encaixam, num jogo orgânico, fechando o quebra cabeça. E o balé fluído das fileiras de carros. O quanto de história para contar em cada casa, cada beco que, assim de longe, parecem tão poéticos. À distância, tanta poesia, tanto romantismo, feito fotonovela. De perto, nem tanto.
Mas a distância sempre dá esse ar de perfeição, de facilidade. Tudo, visto de longe, parece tão mais perfeito. Tudo, visto de fora, tão fácil de resolver. E a cidade me dá lições para a vida. Se até ela se encaixa e convive com suas imperfeições, porque não eu? Porque não nossa vida?
Ah, se nos deixassemos levar, tão mais fácil. Como a cidade que cresce, que anda, que funciona bem a seu jeito, levar a vida. Deixar ela acontecer.
Aprender a ter calma e deixar as peças se encaixarem da melhor forma.

terça-feira, 9 de março de 2010


Hoje estou saindo em viagem. Mesmo a trabalho, gosto. Convivo bem com meus horários, deixo um pouco de lado o ser mãe. Não que ser mãe me canse, mas vejo essas saídas - poucas mas deliciosas - como pequenas paradas, oásis na paisagem por vezes monótona do dia a dia. Ter a minha hora para deitar e acordar. Um sem pressa por causa dos outros. Banho sem pressa, arrumar-me sem pressa, café da manhã sem pressa, sair sem pressa. Olhar-me no espelho da vida feito só para mim. Sair como quero - já que não terei os olhares de sempre me aprovando ou desaprovando, mesmo que não pergunte.
Gosto disso, dessa certa liberdade. Visto -me de forma diferente, experimento maquiagens, lanço modas minhas. Lanço-me na rua confiante de ser: pelo menos ali, eu mesma. E ganho das ruas e da vida novos temas, do que vejo, escuto ou sinto.
Ah, e o que dizer do silêncio por detrás das quatro paredes de um quarto de hotel? Eu , que trabalho com a voz, faço desse silêncio, presente. Ao chegar de um dia feito de muito falar, calo-me. Sinto-me. Vejo em mim a outra mulher, a que sabe bem viver. Ponho para fora meus medos e delírios, ansiedades e confortos. Massageio a alma sob a forma de cremes. Massageio o ego sob a forma de mostrar a que vim. Massageio a mim mesma enquanto me agrado. Meu banho de ser. Sou eu, como sou.
Férias.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Piedade, Senhor!


"Mulheres existem para serem amadas, não para serem entendidas".
Bem sabia o poetinha das mulheres. Bem nos sabia.
Não fomos feitas para sermos entendidas. Somos um turbilhão de coisas juntas - isso sem falar nas mil e uma funções que nos delegam sem ao menos nos consultar. Bom seria se nos amassem de qualquer forma. Eles e nós mesmas. Ninguém nos ama como merecemos. Um amor puro e livre, sem segundas, nem primeiras, nem quaisquer lugar na fileira interminável de intenções que não a de simplesmente nos amar. Amar nossos traços, mesmo que envelhecidos. Amar nosso olhar, mesmo que instantaneamente perdido. Amar nossa gargalhada mesmo em hora errada. Nosso sorriso, mesmo que amarelo. Nosso choro, mesmo que de alegria. Nosso gozo, mesmo que só da vida. Amai-nos na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, diria o padre. Amai como eu vos amo, diria Ele. Quem souber nos amar, esse sim, será amado.
E esse Amor seu maior Prêmio.
"No longo capítulo das mulheres, Senhor,
tenha piedade das mulheres
Castigai minha alma, mas tende piedade das mulheres
Enlouquecei meu espírito, mas tende piedade das mulheres
Ulcerai minha carne, mas tende piedade das mulheres!
Tende piedade da moça feia que serve na vida
De casa, comida e roupa lavada da moça bonita
Mas tende mais piedade ainda da moça bonita
Que o homem molesta — que o homem não presta, não presta,
meu Deus!
Tende piedade das moças pequenas das ruas transversais
Que de apoio na vida só têm Santa Janela da Consolação
E sonham exaltadas nos quartos humildes
Os olhos perdidos e o seio na mão.
Tende piedade da mulher no primeiro coito
Onde se cria a primeira alegria da Criação
E onde se consuma a tragédia dos anjos
E onde a morte encontra a vida em desintegração.
Tende piedade da mulher no instante do parto
Onde ela é como a água explodindo em convulsão
Onde ela é como a terra vomitando cólera
Onde ela é como a lua parindo desilusão.
Tende piedade das mulheres chamadas desquitadas
Porque nelas se refaz misteriosamente a virgindade
Mas tende piedade também das mulheres casadas
Que se sacrificam e se simplificam a troco de nada.
Tende piedade, Senhor, das mulheres chamadas vagabundas
Que são desgraçadas e são exploradas e são infecundas
Mas que vendem barato muito instante de esquecimento
E em paga o homem mata com a navalha, com o fogo, com o veneno.
Tende piedade, Senhor, das primeiras namoradas
De corpo hermético e coração patético
Que saem à rua felizes mas que sempre entram desgraçadas
Que se crêem vestidas mas que em verdade vivem nuas.
Tende piedade, Senhor, de todas as mulheres
Que ninguém mais merece tanto amor e amizade
Que ninguém mais deseja tanto poesia e sinceridade
Que ninguém mais precisa tanto alegria e serenidade.
Tende infinita piedade delas, Senhor, que são puras
Que são crianças e são trágicas e são belas
Que caminham ao sopro dos ventos e que pecam
E que têm a única emoção da vida nelas.
Tende piedade delas, Senhor, que uma me disse
Ter piedade de si mesma e da sua louca mocidade
E outra, à simples emoção do amor piedoso
Delirava e se desfazia em gozos de amor de carne.
Tende piedade delas, Senhor, que dentro delas
A vida fere mais fundo e mais fecundo
E o sexo está nelas, e o mundo está nelas
E a loucura reside nesse mundo".
(O desespero da piedade, Vinícius de Moraes)

domingo, 7 de março de 2010

Invisíveis


Amanhã é do Dia Internacional das Mulheres. Não sei se gosto ou desgosto, já que para mim não faz diferença. Ou não tem feito. Acho que a nenhuma, a não ser as amadas e as amantes.
Faço parte da legião de mulheres invisíveis. Sim, já que não nos vêem como mulher. Somos vistas como mãe, como companheira nas horas difíceis, como organizadora de um lar. Somos conselheiras e orientadoras. Somos professoras. Somos quem deixa o caminho certo para que eles passem pela vida da melhor forma. Somos as primeiras a levantar e as últimas a deitar. As primeiras a lembrar e as sempre esquecidas. As últimas a usufruir do que quer que seja.
Visão ruim, pessimista? Não. Realista. É o que vejo, na minha vida e na de tantas. E olha que a minha vida é bem mansa - por imposição ou jeito de ser. Fico imaginando aquelas que trabalham tanto quanto o homem e ainda acumulam os afazeres domésticos. Que ao invés de descansar ao chegar em casa, como ainda fazem muitos deles, preocupam-se com a janta de todos, com os banhos, com os sonos, com os sonhos. Com as faltas e com as sobras. Com os direitos e deveres. Deveres, aliás, elas tem muitos. Direitos, raros, conquistados com o uso da força que têm. Culpas, tantas, nossa eterna companheira. E ao final de mais um dia, internacional ou trivial, porto de descanso - ou descaso - de muitos.
Ah, se pudéssemos ser nós mesmas. Se nos vissem como fêmeas e não parideiras. Se não fossemos só peitos e bundas. Se nos dessem o devido valor. Ah, seríamos, enfim, Mulheres. E amanhã seria um lindo dia. O Dia Internacional das Mulheres.
Como todos os dias deveriam ser.

sábado, 6 de março de 2010

Asas


'' A alegria e o amor são as duas asas para as grandes ações"
(Goethe)

Reconheci minha'lma nesta frase. Para quem me sabe, sou movida por elas, minhas asas. Se me faltam, não voo, não vou a lugar nenhum. Não saio de mim mesma.
Tenho muita alegria em mim, mesmo que interna. Está lá, eu bem sei, à espera do despertar. Está até nas lágrimas que caem vez por outra. Emociono -me fácil, sou presa fácil para as coisas boas e nem tão boas do mundo. Sou facinha de agradar, mais do que de magoar.Tenho, sim, uma enorme alegria em viver. Vontade, mesmo. Amo a vida, mesmo que não demonstre, infelizmente, como queria ou até deveria. Sou feliz do meu jeito, do jeito que dá,
do jeito que me ajeito.
Alegria para mim é tudo. Acho que tudo se resolve com um sorriso, melhor ainda com uma gargalhada gostosa. E dou. Mesmo quando não devo. Tem coisa melhor do que vontade de rir quando não se pode? O riso ali, reprimido, estanque, louco para sair. Sai com vontade, mesmo antes do abrir das comportas. E basta um olhar ou um lembrar, e vem de novo,
feito ondas sucessivas do meu melhor.
E do amor, que diria eu? Amo, muito. Tudo, ou quase. Do meu jeito e de várias formas. Da flor nova que achei no caminho, ao cheiro do limo das árvores depois da chuva. Amo o sol que me invade o corpo, o vento novo do outono que vem chegando. Amo a ideia que me vem na pior hora, a frase que me puxa um texto.
Amo meu jeito menina de ser. E como a mulher aparece sem esperar. Amo a risada de meu filho, que puxa a minha. O beijar a sua testa enquanto dorme, amo seu cheiro de sono logo pela manhã. O calor do colo de minha mãe, que tão pouco peço. Amo de paixão rir de minha irmã e suas traquinagens de bem viver....é como se eu risse em dobro.
Amo o rasgo de felicidade do meu cão ao sentir cosquinhas. E o como me olha pedindo colo. Amo sorvete que como à revelia, melhor ainda se em colheradas divididas. E o bom vinho que me aquece a'lma e expõe verdades.
Amo as mensagens que me fazem rir ou chorar. E a simples lembrança de me mandar. Amo a simples ideia de me ver amando. Amo esse Amor que ainda não veio, mas vem para ficar.
Amar e rir. Rir e amar. Minhas asas de paixão, minhas asas de bem voar.
Livre voar, sem medo do céu.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Única

Porque se chamava homem
Também se chamavam sonhos
E sonhos não envelhecem
Clube da Esquina II, de Milton Nascimento,Lô Borges, M.Borges
Isso bem sei, vivo deles, dos sonhos. De ter uma vida inteira, completa, como sonhei e sonho sempre. Com alguém ao meu lado que viva comigo, que me vivencie, que me acompanhe, que esteja ao meu lado - não esperando que eu corra trás. Nem que me empurre. Nem que me reprima. Que me deixe livre como sou, mesmo que me cuidando de longe. Que eu veja em seu simples "bom dia" que deseja que eu tenha, mesmo um dia bom. Que eu sinta no seu retorno que sentiu minha falta. Que faço a diferença. Que sou. Que existo. Quero ver no simples o seu bem querer. Na forma como me olha quando estou distraída, na forma como me encara quando estou atenta. No como olha meu corpo como se uma deusa. Como me toca como se amada.
Como se única.
Como se dele.
É...sonhos não envelhecem. Nem meu jeito romântico de ser. Esse meu jeito menina-mulher que só ele entenderá...

quinta-feira, 4 de março de 2010

Março


Hoje o dia me acordou estranho. Lembrou os dias de virada de tempo na praia. Céu escuro, vento quente, com aquele silêncio assustador que chega anunciando o temporal. Anunciou e mandou. Só deu tempo de deixar meu filho na porta da escola. Mal enxergava um palmo na frente do para brisa. Nada, além de água.
Banho. Assim pensei, banho. Quem sabe são as águas de Março tão cantadas, fechando o verão. Fechando um ciclo. Anunciando o outono, que tanto gosto. Seus ventos já estão por aqui. Uns ventos frescos, como se viessem da serra. Geladinhos, por vezes. Adoro.
Acaba aqui a correria dos dias de sol. Da energia que emana dele e nos faz velozes. Outono me acalma. Faz-me mais lenta, mais eu mesma. Gosto das estações não definidas. Sou outono e primavera, folhas secas e flor. Nem gelo nem sol a pino. Só nisso sou metade. Mas não na maneira de ver o passar dos dias, as estações do ano, as mudanças da natureza. As árvores soltando seus restos, ficando nuas para começar uma nova vida. Os tons dourados pelo chão, a luz difusa do sol de final de tarde. Os dias que não se definem entre quente e frio, como se brincassem e ser outras coisas. O corpo de recolhendo mais cedo, o pensamento se tornando mais meu, o corpo se fechando aos poucos. Aos poucos me entrego, sigo a natureza. Ela, sábia, sabe o que faz. Eu, aprendiz, sigo.
Mas esse Outono tem uma nova luz. Um novo olhar. Promessa de tempo bom, mais do que a natureza pode me dar. De uma nova vida. Talvez seja uma nova estação em mim, um bem querer que veio para ficar...
São as águas de Março fechando o Verão, é a promessa de vida em meu coração...
(Águas de março, Tom Jobim)

quarta-feira, 3 de março de 2010

Tic tac


Acordei como o dia, melancólica, como o lento passar do tempo. Uma saudade do que não sei, do que não conheço. Saudade de um amanhã que teima em demorar. Das horas que nem ainda vieram. Vontade de um gosto que ainda não sei. De um calor que ainda não senti. Do abraço prometido, do beijo esperado. Da promessa a ser cumprida. Da comprida espera.
Tic tac, tica tac, tic tac...
Saudade da nova era, do meu novo ser. De um nós. Tenho saudade do que ainda não vivi, mas sonho. Da palavra que já sei, mas dita pela boca que desconheço. Da força do abraço que me enlaçará um dia, ou muitos. Do olhar que muito já me prometeu, mas que ainda não olhei. Sou saudade pura. Infinita. Palpitante saudade do que ainda não vivi. Mas vivo.
Estranha essa sensação. Um viver de amanhã. Um viver esperado, nada comedido. Um esperar esperançoso demais da conta. Até parece conversa de louca, mas estou o mais lúcida possível, dentro de minha própria escala joyceniana de ser, que vai do nada ao tudo. Deve ser essa espera de anos. Deve ser essa ansiedade do tudo. Essa apaixonante mania de querer bem viver.
De me sentir viva.
Viva!

terça-feira, 2 de março de 2010

Longe


Olhando, ainda estarrecida, as imagens de mais um país mergulhado no caos frente à resposta da natureza, fico a imaginar como seria se estivéssemos no lugar do povo chileno. Ou do já esquecido por nós, Haiti. Mais ainda dos sofrimentos mais próximos, como Angra. Ou mais distantes no tempo, como minha bela e Santa Catarina, sempre tão sofrida e por isso mesmo, tão facilmente assimilada. A tragédia vira cotidiano, assim como as mortes, desde que não cheguem muito perto. Mergulhamos na vida deles por uns dias, choramos junto, colocamo-nos no seu lugar, sofremos, como se assistindo um filme. E brevemente esquecemos. Esquecemos da tristeza que está longe, das perdas que não são nossas. Como se vendo na televisão ou até contribuindo com aquela roupa que sobrava no armário, assim de longe, tornasse-nos melhores. Ledo alívio que compramos, trocados por migalhas.
Lembro de um breve contato que tive com um amigo virtual, Guillermo, morador de uma encantadora ilha no sul do território chileno. Até no nome poética: Chiloe. O lugar tinha - tem? - uma aura de paz. Um colorido fascinante. Apaixonei-me. Chamei de paraíso na Terra. Um lugar pequeno no meio do nada imenso do oceano. Sabe lá como está. Sabe lá como ficou. A natureza sempre tão bela e tão ainda desconhecida.
Pelo meu olhos e pelo meu coração.
Vejo na tela a mulher que perdeu tudo. O homem que perdeu a mulher. A família que perdeu a esperança de se levantar. Perdas, sempre tão difíceis. Sempre tão rapidamente esquecíveis para quem é espectador, sempre tão demoradas para quem perde. Só quem perde, sabe. Parece poético dizer que estão felizes porque vivos. Soa fácil porque não o sei.
Está ai uma das aventuras da vida que prefiro não viver.
Nem de longe.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Maré


Tinha preparado um texto para hoje, segunda, primeiro dia do mês de Março. Fiquei ontem sem internet, ou seja, sem amigos e sem ter como tocar meus trabalhos para frente, sem ter como escrever aqui, etc. Uma sucessão de probleminhas que, no conjunto, podem abalar almas carentes como a minha. E como problemas sempre saem em bandos por ai, desvairados, clonaram meu cartão, o outro ficou com a senha bloqueada, enfim... caos eletrônico!
Podia aqui ficar choramingando meus problemas. Bom se fossem apenas os de ordem material. São tantos que se parar para pensar, travo.
Maré de azar? Então me veio uma mensagem desprovida de qualquer intenção a não ser a de me alegrar. Simples, despretenciosa, e por isso mesmo grande, forte: " no mar , quando não se pode lutar contra a maré , vai-se a favor dela até ir saindo devagarinho". Frase de quem surfa, veleja, convive com o mar. Frase de quem vê no simples surfar, lição.
Ir a favor da maré, do repuxo, tento. Problemas existem, dizem, para nos testar. Outros falam em pesos que podemos suportar. Em tempos de espera para algo melhor. Mas gostei da lição do mar. Já olho a praia, tão próxima, e vejo lá a vida a me esperar...


Eu gosto de tudo, tudo o que traz você aqui
Eu gosto do nada, nada que te leve para longe
(Lugares proibidos, Helena Elis)