terça-feira, 2 de março de 2010

Longe


Olhando, ainda estarrecida, as imagens de mais um país mergulhado no caos frente à resposta da natureza, fico a imaginar como seria se estivéssemos no lugar do povo chileno. Ou do já esquecido por nós, Haiti. Mais ainda dos sofrimentos mais próximos, como Angra. Ou mais distantes no tempo, como minha bela e Santa Catarina, sempre tão sofrida e por isso mesmo, tão facilmente assimilada. A tragédia vira cotidiano, assim como as mortes, desde que não cheguem muito perto. Mergulhamos na vida deles por uns dias, choramos junto, colocamo-nos no seu lugar, sofremos, como se assistindo um filme. E brevemente esquecemos. Esquecemos da tristeza que está longe, das perdas que não são nossas. Como se vendo na televisão ou até contribuindo com aquela roupa que sobrava no armário, assim de longe, tornasse-nos melhores. Ledo alívio que compramos, trocados por migalhas.
Lembro de um breve contato que tive com um amigo virtual, Guillermo, morador de uma encantadora ilha no sul do território chileno. Até no nome poética: Chiloe. O lugar tinha - tem? - uma aura de paz. Um colorido fascinante. Apaixonei-me. Chamei de paraíso na Terra. Um lugar pequeno no meio do nada imenso do oceano. Sabe lá como está. Sabe lá como ficou. A natureza sempre tão bela e tão ainda desconhecida.
Pelo meu olhos e pelo meu coração.
Vejo na tela a mulher que perdeu tudo. O homem que perdeu a mulher. A família que perdeu a esperança de se levantar. Perdas, sempre tão difíceis. Sempre tão rapidamente esquecíveis para quem é espectador, sempre tão demoradas para quem perde. Só quem perde, sabe. Parece poético dizer que estão felizes porque vivos. Soa fácil porque não o sei.
Está ai uma das aventuras da vida que prefiro não viver.
Nem de longe.

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