quinta-feira, 25 de março de 2010

Pronta


Um quero-quero me acorda, talvez anunciando o meu Outono. Abro a janela do quarto, escuto o silêncio do amanhecer e recebo o vento anunciado. Esse novo vento prometido faz tanto tempo - pelo menos dentro de mim. Ah, como essas coisas de tempo são loucas!
Sobre a cama, a mala. Nela, como sempre é, meu resumo. Um pouco de mim - ou meu tudo - neste retângulo verde de pouca profundidade. Olho e descubro, em meio a um sorriso só meu, que preciso de pouco. Resumo-me a pouco. Caibo, eu e meu mundo, numa pequena mala. Talvez faltem ali alguns detalhes - destes compráveis em alguma farmácia, conveniência conveniente ou livraria. Mas meu necessário ali está. Até demais. Caberiam em uma frasqueira...
Ah, e meu lap, inseparável companheiro fiel de minhas palavras. Sem ele, nada sou. Não sei mais me (d)escrever em papel e caneta. Não flui como a minha pressa. Não acompanham a minha ânsia. Como se o barulho ínfimo do teclar já fizesse parte de minha história. Como se o teclado já fizesse parte de meus dedos. Como se o lap fosse meu eu. Ou eu, em pequena peça branca.
Meu cérebro cabe na minha bolsa...
Na pequena mala levo muito de mim. Meus eus, todos. As tantas Joyces a serem desvendadas. Descobertas, desbravadas, reconhecidas, amadas. Sim, todas, ansiosas pela hora de serem amadas. Ver no olho emocionado do outro meu próprio reflexo também emocionado. Ver o nós. Ver-me outra vez. Viver-me.
A impressão que me vem é de um mero passar de dias. De anos. Como se essa manhã de Outuno fosse um marco. Um início, um reinício de mim. Uma qualquer , diriam. Mas não em meu mundo, não em mim. Não hoje. Hoje é o dia. Nada será igual em mim. "Sei que nada será como antes, amanhã", já dizia a música. Vou me sentar à mesa de toalhas verdes e apostar minhas fichas. Todas. E ganhar . Ou ganhar.

...Sei que nada será como está
Amanhã ou depois de amanhã
Resistindo na boca da noite um gosto de sol...
(Nada será como antes, Milton Nascimento e Ronaldo Bastos)

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