terça-feira, 23 de março de 2010

Sete




Meu dia começou com resquícios de ontem e resolvi rever meus valores. Como uma rápida revisão deles. Ontem, quando o dia começou a dar sinais de chatice, dei-me ao luxo (na cabeça de quem foi criada nos padrões culposos de comportamento) ou prazer (na cabeça de poucos, até na minha, quando me dou ao prazer de ser eu mesma) de assistir ao filme Seven , indicado como tarefa pelo professor de Filosofia de meu filho. Para quem já conhece, não é, com certeza, um filme de fácil compreensão, muito menos para cabecinhas iniciantes no mundo do real pensamento. Fala dos sete pecados capitais, ou condições humanas conhecidas atualmente como vícios, tão antigas que precedem aos religiosos de plantão. Tive, em muitas partes, que esclarecer ou complementar informações sobre detalhes do filme ou dos "pecados" ali citados. Coisas que já sabia ininteligíveis por ter assistido previamente e solitariamente para não ter grandes surpresas ( zelo de mãe!). Enfim, um filme imperdível para se ter
mais conhecimento do todo humano.
E em uma das partes finais, tão chocante, uma grande lição. A de que temos banalizado a vida, que já não nos importamos mais com tantos "pecados" cometidos a céu aberto, em nossas casas, em nossa vida. E expurgados pelo serial killer, um homem dito como rico e culto. Ira, cobiça, gula, inveja, vaidade, preguiça e luxúria , ditados por São Thomas de Aquino ainda no século foram os pecados contemplados. Vivemos isso em nosso dia a dia, pois mais santos que nos façamos. Estamos sempre querendo mais e usufruindo menos. Sempre reclamando mais e agradecendo menos. Querendo viver mais e nos matando aos poucos. São esses sentimentos ruins que fazem de meu dia um dia pior. E de mim a mulher que não sou. Invejo os que se contentam com migalhas de viver. Cobiço os que sabem bem viver. Sou gulosa, de comida e de vida. Tenho ira pelas coisas que me travam, que não me deixam ser feliz. Sou vaidosa ao ponto burro de sempre me comparar e por isso sempre achar que podia estar melhor. Tenho mil ideias e preguiça de colocá- las em prática ( se pelo menos soubesse vende-las...). Ah, e a luxúria, descrita como "deixar-se levar pelas paixões", não nego: meu mais forte pecado!
Olho para meu jardim e vejo "seu Arthur" a catar inços na grama, um por um. Um senhor a quem tenho apreço mesmo sem saber muito de sua história. Tirei-o do conforto melancólico da solidão e ofereci mais que trabalho ou dinheiro. Oferecei ocupação e dignidade. Ofereci horas de descanso de sua alma cada vez mais entristecida pelo esquecimento de muitos. Ele me olha e sorri. Isso me enche o coração da certeza que apesar de tantos "pecados" em mim, acho espaço para essas coisas mínimas, mas que fazem de meu dia um dia melhor. E de mim, mais pessoa. Mais gente. Menos pecadora, talvez. Ou isso seria mais uma luxúria de minha parte, a a paixão por viver? Que me julguem os que se deixam levar pelo rio da vida
sem nem ver a beleza de suas margens...

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