sexta-feira, 19 de março de 2010

Visita


O tempo passou e me formei em solidão...Tive bons professores: televisão, vídeo, DVD, e-mails... Cada um na sua e ninguém na de ninguém. Não se recebe mais em casa.
Essa queixa de José Antônio de Resende tem um certo fundamento, mas nem tanto.
Concordo que deixamos de viver para ficarmos em frente a televisões e computadores. Não vemos mais o passar lento das noites, as luas e suas quatro fases a nos definir. Há meses não vejo o céu e suas milhões de luzes. E anos que não vejo o nascer do sol. Coisas que me eram tão caras na infância, hoje tão raras. Como se a poesia da vida estivesse morrendo.
Ah, as visitas. Na vizinha ao lado, sem muita cerimônia. Ou na amiga da mãe, todos de banho tomado e roupinha de domingo. Mas lembro mais do sono ao som das intermináveis conversas, e os doces oferecidos, nem sempre ao gosto infantil. Naquela época, não se gradavam às crianças. Nós é que nos adequávamos à vida de adulto. Na verdade , já fiz muito disso, o fazer visitas. Mas nos tempos que nossos filhos eras crianças e que nos reuníamos para agradá-los. E nos intervalos de sermos pais e mães, divertiamo-nos. Uma coisa não mudou, nunca: reunir, com ou sem cerimônias, significa comer. Não pela palavra, não pelo querer do outro saber. Reunimo-nos pela boca, desde os tempos das cavernas.
Mas não culpo a tecnologia. Eu até a uso bastante para aplacar a solidão. Viajo o mundo sem sair do lugar. Conheço pessoas que me agradam a alma - e eu a delas. Falamo-nos todos os dias, incentivamos uns aos outros, carinhamos uns aos outros desse novo jeito de carinhar. Solidão temos em casa, nos relacionamentos vazios. Solidão temos à mesa onde imperam, hoje, os filhos. Usamos do som da TV para ficarmos surdos ao sentir do outro. Usamos do bom ou mal filme para sairmos de nossa realidade pobre de relações. E usamos da internet para fazer as viagens tão sonhadas, as de corpo e as de alma. Usamos da tecnologia para nos sentirmos mais dentro do mundo, mais nós mesmos. Saber mais dos outros e de nós mesmos. Saber mais do bem viver.
Penso na internet como a praça da cidade. Sentamo-nos no banco da vida a ver quem passa, a conversar e trocar emoções com quem nos agrada. E se, a partir dai, ele pegar a minha mão, ah, promessa de um ano bom. Quem sabe nasce ali na tela um grande amor?

Um comentário:

  1. "Vejo a internet como a praça da cidade..."
    Fantástico!!!!
    Saudade,
    Lila

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