sexta-feira, 30 de abril de 2010

Pingos



"Olha,
Entre um pingo e outro
A chuva não molha."

Esse versinho quase infantil de Millôr Fernandes me fez sorrir, o que é prenúncio de um verso bom (risos). Achei leve e inteligente, a mesma leveza e inteligência que vejo nos filmes ditos para crianças , em que as mensagens não são para as crianças, e sim para os adultos. Sentados, todos nós, nas confortáveis poltronas e catando pipocas, rimos da intenção enquanto os pequenos riem do desenho. Quanta verdade no diálogo entre a vaca e o frango, entre os pinguins sempre tão inteligentes, nas falas da formiga teimosa. Nas personagens muito de nós,
nosso trejeitos e manias, nossas falas do cotidiano.
Mas voltando à frase de Millôr - antes que me perca a falar de desenhos, que amo , e lembrar, num susto, que ainda não assisti Alice !!!- adorei pensar assim, muito além da chuva. Tanta coisa a se pensar sobre este pequeno tesouro em forma de palavras. Um mundo todo entre um pensamento e outro, um pingo e outro. É, entre um pingo e outro, o alívio - no meu caso nem sei, pois amo a chuva. Entre um problema e outro, um oásis. Mínimo, quase imperceptível, mas está lá. Uma "nanofelicidade", eu diria. Mas de um valor enorme, quase incálculavel,
como do número de pingos que caem.
Está lá. E deve ser isso que me conforta, que me deixa deixar levar.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Cascas



É tão bom ter com quem conversar sobre todas as coisas, penso . Ontem falávamos sobre cascas, essas que criamos sobre as feridas a fim de nos defendermos. É tão bom ter com quem conversar sobre todas as coisas, penso. Ninguém precisaria, necessariamente, de terapeutas nem psicólogos se tivesse com quem conversar. Mas não com qualquer "quem", e sim alguém que nos entendesse, escutasse e se permitisse - e nós o mesmo - abrir caminhos, ou mostrar nosso lado melhor. Precisamos de amigos profissionais quando não os temos por perto.
Mas, enfim, retomo, para não perder o rumo do assunto: cascas. Tocamos nesse assunto e logo pensei em escrever sobre isso. Cascas. A natureza já usa delas para se renovar. E em nós, é uma bela forma de nossa pele de tentar proteger nossas feridas. Mesmo que a cutuquemos incessantemente, elas voltam, se formam rapidamente. E se formam cada vez mais fortes à medida que mexemos nelas. E ai, sim, com o passar do tempo e das mágoas, se fecham, secam, cicatrizam. E é chegado o momento, até sem que percebamos, das cascas saírem. Fizeram seu trabalho. Proteção. Se caem é porque estamos curados. Pelo menos da ferida em questão.
Cascas, já tive muitas. Outras tantas estão secando. E sabe lá ainda quantas ainda vão se formar, tantas necessárias for. Mas é um começo. Isso prova que estou viva,
que ainda tenho muito a dar.
Cascas a cair e cascas a se formar. Que sejam perfumadas e úteis como a da canela.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Nova


"Eu estou quase achando que posso me lembrar de me sentir um pouco diferente…”
(Alice no país das Maravilhas, Lewis Carroll)
Tudo tem lembrado Alice. As páginas das revistas, os e-mails que me chegam mostrando móveis - tanto que fiz uma matéria em minha revista sobre o assunto, sobre o banho de Alice na moda das ruas e das casas- , as vitrines das lojas e livrarias. Fico aqui pensando como um filme - não sei exatamente se ele ou sua campanha publicitária - pode mover o mundo em "prol" de algo. Bom se fosse algo que tivesse mais utilidade, menos futilidade, mas, enfim, dá um bom caldo para meus textos (risos).
Então li essa frase em uma delas. E combina muito com meu agora. E explico - pelo menos o mínimo para que me entendam e não me internem de vez. Passei os últimos 15 anos de minha vida ( e mais uns meses de gravidez) esperando a vida acontecer. O fato é que passei por tantos sustos , uma sequência deles que, derrepente, me vi medrosa. Ou melhor: medrosa em umas coisas, melindrosa em outras. E melindres e melancolia não movem o mundo de ninguém. No mesmo ano perdi emprego, irmã, apartamento, carro. E o "gran finalle": descobri-me grávida, ainda deitada na mesa de exames da médica que tinha procurado alegando estresse. Nadei, nadei e morri - ou quase - na praia. Sai de um ótimo padrão em Curitiba e fui morar na chamada "curva do tomate" - para quem sabe, divisa com São José dos Pinhais. E bem no tempo da famosa aranha marrom e do sequestro de crianças, tudo no mesmo lugar e ao mesmo tempo, no meu bairro. E eu com um filho ainda pequeno. Cabe ai a tal frase: "desgraça" não vem sozinha. Enfim, paralisei. Deixei lá minha coragem. E recebi a vida como me veio. Fui feliz como podia ser. Lições da vida? Poupar para os tempos de inverno - lembra da história da cigarra? - e sempre ver um lado bom nas coisas, por pior que se apresentem. Morreu em mim a pedância, nasceu a fragilidade e a aceitação. E marcas do medo.
Enfim, não é mais hora de lamentos. Estou aqui lutando por meus direitos - a meu modo, passo-a-passo, sem declarar oficiosa guerra. Meu bebê já é um quase homem, e eu não tenho mais desculpas que me impeçam de me ser. Tenho achado meus caminhos ainda em passos lentos, numa caminhada desenhada a lápis e papel, mas os sei. E sei o quanto são corajosos. E como a menina Alice , "eu estou quase achando que posso me lembrar de me sentir um pouco diferente…”. Ou mais eu. Ou eu por inteira. Não sei se um livro novo, ou um novo capítulo do mesmo. Mas as palavras a colocar são mais maduras.
E assumidamente mais felizes.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Atenta


Enfim apareceu o sol, depois de uma semanada toda de chuva - daquelas que me deprimem pela constância. Adoro o intercalar dos dois, a chuva lavando a vida, o sol a aquecendo, meu ideal. E sol me traz a possibilidade de dar minha caminhada matinal, colocar os músculos em movimento, sentir a respiração ofegante, sentir-me viva. Acho um desperdício termos pernas e não usarmos a contento, deixando-as destinadas a poucos e frouxos passos durante o dia, um simples ir e voltar. Para mim, caminhar é como se levasse minhas pernas para passear. E elas levam meu corpo todo e principalmente meu cérebro, que anda ávido por um descanso. Sentir o corpo vibrando , mesmo depois de horas, faz-me crer que estou mais viva. Que estou inteira. Que sou.

E não sou só eu. Como tinha gente se espreitando pelas calçadas! Sozinhas ou acompanhadas, rápidas ou pegando leve. As que caminham pela saúde, as que caminham a seguir seu caminho. Na falta de uma praça - ou clube , ou seja lá o que for - todo lugar é lugar, tudo vira pista de atletismo. Com obstáculos, diria, atenta aos buracos
E nas andanças vejo tudo e muito - isso quando não desligo de tal forma a nem saber mais onde estou. Olho as vitrines e suas modas, todas iguais. Vejo como as mulheres, inclusive eu, não passam imunes por uma lotada de botas, os homens nas de motos. Acho doce o casal que anda junto e ele, num impulso quase paternal, pega a mão dela para atravessar a rua ( as feministas que me perdoem, inclusive a que fui, mas acho o máximo de demonstração de carinho). Reparo os cães a procurar o calor da manhã, os gatos se espreguiçando nas janelas, disputando lugar com os travesseiros e edredons da noite que foi fria . O cheiro de café que convida aos botequins e à boa conversa. As meninas de perna de fora, os rapazes a segui-las com os olhos.
A vida parece mais viva quando aparece o sol. Parece mais colorida, mais ativa. Ou foi só minha mente que se reciclou ao se expor. Meu começar bem o dia.


segunda-feira, 26 de abril de 2010

Força feminina


Muitas vezes acho graça de até onde vai minha cabeça. Pego um assunto e dele me vem tanta coisa, tanta ideia para textos e para a vida e tudo o mais, que me perco no mundo cibernético. E no meu. Por vezes acabamos por nem lembrar mais o que estávamos procurando. Descubro ser meu cérebro uma outra via dentre tantas, meu Web interior...Enfim, deixa eu retomar o texto antes que me perca...(suspiro)
Lembrei, numa destas "viagens", da frase de Clarice Lispector: "Tenho fases como a Lua". Isso porque estava revendo assuntos como o Feng Shui, da qual já fui uma estudiosa até descobrir que estava dentro de mim a capacidade -ou não - de fazer as coisas acontecerem. Mas sinto que está na hora de me retomar. Fortalecer meus eus. Redescobrir-me. Respiro fundo...é melhor voltar ao texto... parece "síndrome de segunda-feira", mas ai já é outra conversa.
A Lua. Pouco nos damos conta e tanto nos influencia. Tanta coisa a nos ensinar. Lua Crescente, como o nome diz, as coisas crescem, evoluem - nem que sejam quilos na balança. Pêlos crescem mais se você os apara nesta lua- e ai não adianta reclamar da depiladora! Crescem ideias, também, vontades e tudo o mais. Desejos, sonhos. Nessa fase estamos "podendo". Bom para quem e o que se tem pressa. E quando ela chega no seu auge, então dita Cheia, hora de colher - frutos, ervas, propostas plantadas. Hora de fartura, proposta ou sonhada. Mas como a Lua , como mãe que é, é generosa, hora de semear coisas novas também.
Então a Lua se cansa e começa a minguar. Hora perfeita para podas e cortes, das coisas que não mais queremos ou daquelas que precisamos"arredondar". Mas não para cabelos - agora entenda isso! Hora boa para adubar, forçar a barra, lutar por algo, puxar aquela conversinha chata e difícil. Enfim, limpar as gavetas do armário e da vida e se preparar para o melhor. Preparar-se para o novo - ou Lua Nova ( que nunca entendi , desde pequena, porque se esconde!). Nela, as plantas ficam mais sensíveis - imaginem nós. Bom para cortar cabelo se não quisermos que cresça rápido. Vêm mais lentos, mas mais fortes. Bom para acertar arestas da vida. Bom para conversas definitivas. Os resultados podem até demorar mais, mas vêm mais densos.
A Lua...tão distante e tão importante , bem além de um simples iluminar. Se estivéssemos atentos aos ensinamentos da mãe natureza, as coisas poderiam ser mais fáceis. Ou iguais, mas nós mais preparados, mais compreensíveis com nós mesmos. Aceitaríamos mais nossas derrotas e nossas preguiças, quiçá nossas tristezas. Como fêmea que é, a Lua tem suas fases. Bem o sei. Acho que vou juntar a minha força de fêmea com a dela...

domingo, 25 de abril de 2010

Terceiro ato


Fim de semana chuvoso e frio. Seria um igual an tantos outros se meu filho não estivesse recebendo os amigos numa, digamos, versão atualizada da "noite do pijama" como chamávamos quando ele convidava os mesmos amigos para passar a noite juntos.
O fim de semana especial começou cedo, ainda ontem, quando foram se divertir juntos. Depois, almoço, sozinhos, no novo shopping - o que durou quase a tarde toda. à noite , pedido de comida chinesa e um papo descontraído na mesa de jantar. Deixei-os sozinhos para não atrapalhar, mas me diverti com as conversas , observando de longe. Orgulhei-me da boa conversa, das piadas inteligentes, das tiradas perspicazes. Senti um certo conforto, uma sensação de dever "quase" cumprido. Orgulho, diria. Meu mais importante projeto, enfim, quase finalizado. Faltam ainda uns detalhes, como sempre acontece. E eu, com minha'lma de arquiteta, sei bem que sempre falta alguma coisa, sempre algo pode ser melhorado. Se não por mim, pelo mundo.
Lembrei da frase que minha irmã escreveu no livro sobre bebês logo que ganhei o meu - hoje um "quase homem" de 15 anos: "filhos são feitos para o mundo", saída das sábias frases de Khalil Gibran. "Seus filhos não são seus filhos. São os filhos e filhas da Vida desejando a si mesma", já dizia ele.
Filhos são feitos para o mundo. Tenho isso bem nítido em mim. Sempre tive. Sempre fiz com que se virasse sozinho, sem redomas. Não o aprisionei, nem super protegi, nem incuti nele minhas ideias e por isso fui muito criticada ao longo desses anos todos. Pelo largar, que acho tão importante para eles. Mas minha melhor crítica vem de mim mesma, de minha consciência limpa de ter feito o meu melhor. A prova está aqui, ao meu lado, servindo o café para os amigos. Sem a ajuda da mãe, goste ele ou não.
Filhos são feitos para o mundo. Penso que cabe a nós, pais, apenas um ver de longe, um assistir a próxima cena. Talvez dar uns toques no intervalo da peça. Mas o sucesso deles não depende de nós. Nem o nosso deles. Porque somos amigos e não proprietários. Somos meros coadjuvantes da peça que eles escrevem todo dia ao acordar...sua saída do casulo de ser meu.

Gibran Khalil Gibran , poeta libanês-americano (1883, Líbano /1931, Nova Iorque).


sábado, 24 de abril de 2010

Mudando


Andava cismada com borboletas. Melhor dizendo, encantada. E não só a ela em , que amo desde pequena, pelas cores e pela destreza, mas tudo que a ela remetia: bijuterias, cartazes, roupas. Tal cisma desfeita ao entrar em uma loja de Porto Alegre, ali, bem ao lado da "praça do bric".
Em pleno domingo ensolarado, um sem "nada" para fazer, olhar vitrines e achar, entre elas, o tesouro. Adoro conhecer lojas de objetos, destas, saídas do nada. Lá dentro um pouco de tudo que gosto em termos de enfeites para a casa.: almofadas, futtons, louças, enfeites, móbiles, adesivos para geladeiras e paredes. Uns engraçados, outros românticos, bem combinando com minha nova fase. Acho mesmo, cá entre nós, que olhar coisas novas me renova, tem um efeito parecido com uma boa meditação.
E entre tantas miudezas, elas, as borboletas, muitas, em todo tipo de peça e todo tipo de trabalho - bordado, pintura, estamparia. Encantou-me um chaveiro com uma delas, coloridíssimamente bordada, que levo agora sempre comigo, num de meus extremos de me ser (adoro penduricos!). Amei. Pelo desenho e pela pessoa que a escolheu. Encantou-me o bordado, a delicadeza de traços, o receber. Mas só na hora de usá-la no local imaginado - solta, ali, pendurada em minha bolsa - li na etiqueta seu significado. E entendi meu recente fascínio. Ou meu fascínio de sempre.
Estava lá a explicação de tamanha atração: " Em grego antigo, borboleta diz-se Psyché, ou seja, Alma. Por sair do casulo ao nascer, a borboleta é símbolo da alma imortal. Representa auto transformação, clareza mental, novas etapas e liberdade. Assim como a borboleta, que é irresistívelmente atraída pela luz, a alma também é pela verdade divina. Por isso é símbolo da busca da verdade". Gelei. Num pequeno texto, talvez escrito sem maiores pretensões além da de bem vender, tanto de meu momento atual. Tanto de mim como sei que sou e quero voltar a ser. Eu tentando, enfim, sair do casulo. Eu, de novo, borboleta.
Olho para ela. Tons de vermelho vivo, cor que hoje me fascina. Toques de ouro. Ainda não solta, mas presa ao que mais quero: ser eu mesma, por inteiro!

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Fora, Alice!


Hoje estreia Alice, o filme mais esperado do ano (por enquanto, já que essas coisas tem um que de ligeireza). E fazendo uma matéria sobre o que muitos chamam de "alicismo" - hoje entre aspas, amanhã, quem sabe, nas páginas do Aurélio - , ou seja, um mergulho frenético no mundo de Alice, dei-me conta de como somos fúteis ao contrário.
E de como pequenas loucuras nos fazem bem.
Junte-se a isso um texto que recebi sobre o não se levar a vida muito a sério, muito regrada, e que estariam nos nossos "defeitos" toda a graça. Ri sozinha. Pensei: ai dá um bom texto.
Quando crianças, a época que nos dizem mais livres, vivemos de regras para que tenhamos um bom crescimento, sem grandes desvios de caráter, dizem. Impomo-nos - e repetimos isso com nossos filhos - uma retidão que nos isola da criatividade. Quem de sã consciência arrumaria seu filho com a melhor roupa para ir a uma festinha de aniversário? Brigadeiros e terra farão a festa, as mãos limpas em cada centímetro de nos mesmos, enquanto nós , pais, descabelaremo-nos com a roupa ex-nova arreganhada. Literalmente, sem a mão na "massa" - leia-se ai massa de modelar ou próprio barro do jardim - não se cria nada. E nem se é feliz. Saberemos isso quando tivermos o maior índice de depressão em filhos criados limpos frente ao vídeogame. E faremos tudo ao contrário com nosso netos...
Quando adultos, além de termos que ser "retos" (reto, retidão, palavras tão duras!) para sermos "levados a sério", temos que dar o exemplo aos ditos menores. Vejo os jovens sendo certíssimos de segunda a sexta e aprontando tudo, como bando de loucos, nos finais de semana. Vivemos nós, adultos e jovens, na prisão do dia-a-dia, sem nos dar ao "luxo" de cometermos pequenas loucuras. Como devorar potes de sorvete frente a televisão , deitados na cama, sem nos preocuparmos em não sujar a roupa. Ou andarmos pela rua a passear de mãos dadas - coisa que já não se faz - e se dar ao luxo de uma sonora gargalhada. Assim, mesmo, sem grandes motivos, a não ser o de ser feliz. Somos, todos e sempre, contidos. O guardanapo que limpa a boca é o mesmo que tampa o sorriso, que segura a risada. Nem usamos branco para não sujar. Eles ficam melhores alvos e perfumados se pendurados em nossos gabides do armário.
Hoje estréia Alice. Sei que vou gostar mais do Chapeleiro Maluco do que da menina certinha (não seria por isso terem escolhido uma atriz desconhecida?) . Sei que vou me encantar com a Rainha Vermelha. Talvez esses personagens tenham mais a ver comigo.
E, quem sabe, no escuro do cinema, possa eu ser eu mesma?

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Devoção




Não sou muito dada a devoções - a não ser pelos mais de 30 "São Francisco" que tenho em casa - mas respeito e até admiro quem o faz. Não aquela devoção cega, mas a feita de coração.
Isso senti quando admirei a imagem de Mãe Oxum em Ipanema, Porto Alegre. Começando pela imagem, belíssimamente feita, com detalhes tão femininos - como as pequenas flores enfeitando a vestimenta. E pela devoção demonstrada pelas flores e velas a ela entregues. Se em súplica ou agradecimento, já não sei.
Senti naquele momento uma aproximação maior com ela . Ao pesquisar sobre aquela que me encantou em terras gaúchas, entendi o porquê. Oxum é a Deusa dos lagos, rios e cachoeiras. Por isso está lá, ao lado do Guaíba, que muitos chamam de rio, outros de lagoa. Conforme li, suas filhas - ou devotas - são amorosas, românticas e muito apegadas à família e ao lar. E como detestam brigas, fazem de tudo para viver na mais perfeita harmonia. A protetora das águas doces está também fortemente relacionada à sensualidade, pois é considerada a deusa da beleza. Vaidosa como toda mulher deve ser, tem como símbolo o espelho, esse amigo que tanto amamos. E não mede esforços para conseguir o que deseja. É também considerada a deusa das artes, do dinheiro e da riqueza, sejam lá quais forem. Muito sentimentais, seus filhos se emocionam por qualquer motivo. Na vida profissional, procuram sempre estabilidade financeira para ter tudo o que a vida pode oferecer de bom. Nas relações pessoais prezam demais a verdade e a lealdade que colocam acima de qualquer coisa na vida.
Releio e me acho um pouco filha de Oxum. Nem tanto pela riqueza, mas pela estabilidade: gosto de me sentir segura neste campo, mas nunca de forma exagerada. Acho que é para poder me dedicar de corpo e alma aos outros que me interessam mais, como o amor e a harmonia. E sentimental , amorosa e amante do amor, ah, isso sou , toda. Sempre.
Que Mãe Oxum me abençoe! Quem sabe volto lá e faço eu a minha oferenda?

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Tesouro


É como eu sempre digo: viajar é a melhor forma de conhecer o mundo e a vida. E por isso mesmo conhecer muito de nós mesmos. Ontem fiz uma "peregrinação". Peguei avião, táxi, ônibus e tudo o mais para voltar à casa de meu filho - nem mesma sei se é ainda a minha casa ou se minha casa sou eu. E nestas tantas andanças não perdi meu tempo de viver. E conhecer mundos tão diferentes. Se não me serviram de exemplo, serviram de palco para mais um texto.
Da conversa com um jovem - em idade, porque em alma, eu mesma o sou - que está a descobrir o mundo, a escolher seus primeiros caminhos sem segurar a mão da mãe, descobri que estou no caminho certo na educação do meu filho. Falamos da diferença que faz na vida de todos a experiência de morar longe da redoma dos pais, convivendo bem de perto com as diferenças, com o mundo dos outros. O como isso dá base para saber como enfrentar o mundo. Eu bem o sei. Depois conheci um senhor que resolveu viver só depois de seu "susto com um derrame", como ele mesmo falou. O contraste das mãos trêmulas com a certeza de querer viver me impressionaram. E aproveitei bem essa minha maneira não preconceituosa de escutar. Fui toda ouvidos, diria. Seu hobby é pegar um ônibus para alguma cidade vizinha, passar o dia e depois voltar ao lar. Assim, mesmo, sem lenço. Sem documento já não sei, pois nada se faz mais sem eles. Gosta de sentir essa liberdade. Seu prazer está em caminhar por ruas não conhecidas, conversar com pessoas menos ainda.
Para completar, uma médica. Contra tudo e contra todos, cursou Medicina na Colômbia. Foi sozinha, mala na mão, pagando de seu próprio bolso, escolhendo seu destino, realizando seu sonho. Fez. Voltou. Lutou contra várias doenças, e ali estava, fogosa pela vida, a procurar mais. Esperar tudo. Dela e do mundinho ao redor que a chama de louca. Linda, em seu modo livre de viver.
Dá para acrescentar um dado a tudo isso. Não é só a viagem em si. É muito mais o se abrir para ela, para o que nos apresenta. Ver a paisagem da vida com outros olhos, curiosos, respeitosos, longe de preconceitos. Conversar também nos faz crescer. Conhecer o outro faz abrir caminhos nos sonhos. Faz com que nos sintamos capazes - ou pelo menos sabendo o que não queremos para nós. Faz com que nos sintamos vibrantes, longe da anestesia geral. Que vejamos no outro nossos sonhos projetados (ou não...).
Sigo meu caminho caminhando do meu jeito, mas não posso negar que a história dos outros mexe comigo. De um jeito ou de outro.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Frida


Assisti pela "enésima" vez o filme Frida , sobre a vida da artista mexicana (1907-1954) com assinatura Kahlo, que, pela visão de críticos, fazia poesia em forma de quadros.
Ou seria o contrário?
O filme é lindo, criativo, ativo, e lança mão dos quadros dela - e todo o seu colorido até para retratar mazelas da vida - para fazer sua sequência de fatos e até , a partir deles, as cenas do filme. Tens cores fortes e vibrantes - como ela mesmo é - e mesclado de sofrimento e riso, como ela mesma o foi. Já nascida diferente e bem a frente de seu tempo, não se curvou nem diante da vida que a levou a viver mais tempo deitada em uma cama do que mancando, a seu modo, pelas ruelas da cidade. Para isso, teria deixado bem claro até a ideia de ser cremada: " Não me enterre. Já passei muito tempo deitada", disse certa vez. Ou quando teve, entre outros agravantes , que amputar dedos dos pés: "Pés. Para que os quero se tenho asas para voar".
Enfim, uma mulher amante. Amante de muitos/as - até de Leon Trotsky em seu exílio. Amada uma vida toda por Diego Rivera, artista da época. Amante da vida. Amante dela mesmo. E mesmo assim com seus medos, tão bem retratados nas telas. Mas sem esquecer seus sonhos. Paro e penso as tantas formas que temos de nos domar. Telas com suas cores e cheiros, textos com tantas charadas por trás de tão simples palavras. Formas que temos, todos e todas,
e nos vivenciar.
Assisto mais uma vez Frida e me calo. Meu cérebro é invadido por uma força maior. Corro para o computador para me falar.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Meu porto


Hoje me despeço, por pouco tempo, do leve vento minuano. Volto em breve para fincar meu pé direito nas primeiras passadas rumo ao meu encontro.
Eu, sempre atenta às palavras, detenho-me ao nome da cidade: Porto Alegre. Porto define algo ou lugar que nos recebe. Onde nos sentimos seguros para um simples passeio, pernoite ou vida toda. Um chegar que bem recebe, feito braços amorosos. Imagino que sou tripulante de um barco entre perdido e ansioso para chegar, ver terra firme. Depois de dias, meses e até anos vendo a paisagem da vida passar, vivendo a mesmice do alto mar, desço. Aporto. Alegro-me com a boa recebida. Acolhida. Olho em volta e me sinto bem. Sinto-me em casa. Acho-me entre as ruas arborizadas e o sotaque gostoso. Caminho entre as ruas como se na minha própria caminhada. Vivo nas casas como se minhas. Entro nelas para ficar.
Ah, melhor ainda se alegre. Um porto alegre é tudo que preciso para voltar a sorrir, para voltar a ter vontade de gargalhar. A ter vontade de me ser por inteira ou de nova me descobrir. Acordar e saber que tenho uma nova chance de ser feliz. Acordo bem. As palavras fluem. Devem ser os espíritos de Drummond e Quintana baixando em mim...

domingo, 18 de abril de 2010

Gauchando




Ainda sobre meu encanto com as viagens e suas viagens, ontem consegui, enfim, fazer um tour por Porto Alegre. Uma breve passada pelo centro e seus lindos prédios nas horas calmas de sábado a tarde. Depois uma sequência de paisagens que mais pareciam de outra cidade. Um margear de rio e seus clubes de barcos, as surpresas das curvas desconhecidas por mim. Um sem rumo até então em minha cabeça. Um deixar levar que tanto amo. Mais precisamente para a região sul e sua Ipanema, a praia que namora o Guaíba, um lago que se diz rio. Em plena metrópole, a surpresa de achar uma faixa de areia e uma faixa de água enamoradas. E enamorados por elas, pessoas. Para completar, um calçadão lotado de leve caminhada e boa conversa regada a chimarrão. Ou seria mate? Mata-me de inveja!

Cara de verão, não fosse o lindo " se por "do sol de Outono. Nele , o jogo de cores, formando faixas de pratas e dourados. Nele, um barco esperando a próxima partida. Nele, mulheres devotas e o brincar de cães e gente. Fiquei ali a contemplar a troca de cores, a dança dos metais - a prata da água e o ouro do sol, pepitas de luzes da cidade acolá. Fiquei ali a sentir o passar lento das horas trazendo o frescor da noite. Máquina em punho e o desejo enorme de perpetuar tal momento em mim. Imagens a mais e o desejo de muitos textos que certamente escreverei. O dito mais lindo por do sol do sul encanta. Seduz. Instala-se em mim para sempre. Até mais que o "amarradinho" do Bat Bat. Prometo voltar. Que Mãe Oxum me chame.

sábado, 17 de abril de 2010

Encantamento


Livros. Não é de hoje que tenho um certo fetiche por eles. Seja numa biblioteca, livraria ou casa de alguém, fascinam-me. Amor conquistado desde pequena. Não sei se pelo retrato de sabedoria que me passam, ou pelo próprio cheiro que amo. Ou pelo que me dizem: aqui tem muito saber. Muita vida. Muito encantamento e muita descoberta esperando para serem desvendados. Uma história, vivida ou imaginada. E quanto mais amarelados, mais respeito. E quanto mais coloridos, mais infantis, mais me divirto, assim como me divertem as palavras.
Aliás, esta deve ser a chave de tal feitiço: as palavras. Já é sabida a minha paixão por elas. As escritas, as faladas, as pronunciadas com precisão, as engasgadas pela emoção. As não ditas, mas imaginadas. As que me vêm de um complexo olhar ou de uma tão simples olhada. As poucas, acompanhadas de olhos molhados. As muitas desde que ditas com razão. Até as veneradas por mim pelo sentido dúbio.
Uma relação de amor e ódio. Detesto as mal ditas. As ditas por acaso da raiva ou falta de sentido. As ditas por dizer na tentativa de me convencer do contrário que dizem os olhos. Do contrário do que me dizem os atos. As ditas só para ferir. Alguém, "letrado", já disse que são facas afiadas. Ou carinho a acalentar. Mas não temo mais as palavras, porque as penso antes de libertar. Sou mais, sempre, as que me fazem pensar. Ou sonhar. Com elas, cresço. Devem, morar nestes livros que me chamam. Acho neles, enfim, o meu lugar.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Conspiração


Como já cansei de falar aqui ( que bom, indica a veracidade do que falo...), viajar é tudo de bom. Por "pior" que essa viagem seja. Por mais perto que seja. Por mais sem graça que pareça.
Ainda no táxi, descobri como tem mulheres guerreiras por aí ( a mulher do taxista tem filha pequena e mesmo assim dá aula o dia todo, inclusive viajando a noite para trabalhar). Já no ônibus, típico pinga-pinga, passando em "asfalto", estrada de terra e beira-mar, a conversa entre duas mulheres traídas pelos maridos me fez rever os porquês que os casamentos não dão certo e como os levamos adiante sem nem saber os porquês. Depois a aventura de descer numa "rodoviária" que mais parecia de filme mexicano, onde o rapaz que tira a mala do ônibus é o mesmo que atende na agência de passagens - e ele mesmo o único taxista. E olhem que não estava no fim do mundo: a cidade tem um dos aeroportos mais movimentados de Santa Catarina.
Enfim, chegada ao local desejado, a surpresa: a empresa aérea adiantou meu vôo para aquela hora mesmo, e sem qualquer acréscimo de valores. Uma cortesia que mais me pareceu um presente adiantado de Natal, tamanha a felicidade ( não contei, e nem me perguntem o porque, mas ia passar algumas tantas horas esperando meu vôo noturno). Entrada no avião, empresa não conhecida, e uma turbulânica que nos fez rir até, pensando estarmos numa montanha russa digna de Beto Carrero. Até o fato de descobrir que no aeroporto de Porto Alegre tem cinema, e que o vento de Outono do sul é mais frio, as surpresas foram muitas.
Boas ou nem tanto, penso que surpresas - aqui no sentido de toda coisa nova que conhecemos - sempre nos servem de algo. Por comparação ou reconhecimento, ou melhor ainda quando jamais imaginadas, sempre nos levam a pensar , talvez de forma egoísta, que somos melhores ou piores que o outro. Ou que estamos acima deles. Ou que coisas que nos parecem absurdo são o dia-a-dia de outras. Ou que podemos ser surpreendidos, ainda, com um bom serviço, um bom atendimento: o gerente da empresa aérea nem sabe o quanto resolveu em um segundo um problema que eu mesma tinha criado e que me remoia a dias...
E eu aqui, agora, sob o vento outonal da capital gaúcha, resolvendo meu futuro , pensando numa nova vida e vendo como o mundo conspira. Mesmo ou até mais para pessoas teimosas feito eu. E mesmo que não se acredite muito nisso. Conspira. Basta estarmos atentos. E eu juro que estou. Deixo o relógio do dias me levar, seja da forma que for.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Partida


Hoje viajo novamente. Só pelo fato de ficar umas horas comigo mesma, já me sinto renovada. Einstein já dizia que um cérebro que aprende algo nunca volta ao seu tamanho normal. Bem é verdade: o meu fica enorme a cada viagem que faço, seja para onde for. E nada melhor que sair de casa, do mundinho do dia-a-dia para se aprender muito. Das pessoas, das coisas, dos novos lugares, novos sotaques, novos jeitos. Novos sabores, ou os mesmos, que gostamos, renovados. Olho tudo com outros olhos, escuto tudo com mais atenção, como se em cada detalhe tivesse um tesouro - ou um bom texto, bem é verdade!
Melhor ainda se vamos para lugares em que somos bem recebidos - tão bom receber aquele gostoso abraço! Vou estar com pessoas que me gostam e me respeitam, o que já é suficiente para me deixar feliz, muito feliz. E mais ainda: com novas perspectivas, que é meu caso. Vou em busca de novos horizontes, novas frentes a serem enfrentadas. Se o cérebro aumenta com novas ideias, imagine muitas! Um tudo novo a me renovar. Um recomeçar a essa altura do campeonato, 46 min do primeiro tempo. Ah, tenho muito jogo ainda pela frente, espero. E sonho. Quero uma decisão do campeonato de me ser. Dar um olé nos opositores, senhores de tantos senãos da vida, de tantos talvez, de tantos quem sabe. De tantos nãos. Quero trabalhar em conjunto com quem é de meu time - ou que pelo menos torce por mim. Quero ao meu lado quem me acompanhe até o fim. Que me espere para comemorar meus tantos gols.
E serão muitos, eu sei. E de salto.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Saída


Sabe aquele dia que a gente chega a conclusão que viver vale a pena? Pois é, em épocas que a auto-estima não está lá essas coisas, qualquer agrado vale ouro (Risos. Deve ser assim que pensa o vira-lata da rua...).
Pois bem, estava eu num desses dias " de cão" - sabe, desses que parecem decisivos? E que por isso mesmo tem muita gente querendo nos deixar para baixo? Acham que essa é uma boa forma de nos fazer desistir de nossos sonhos, do que somos, do que queremos ser.
Não deu certo, já aviso!
Por isso é bom ser bom. Dar o seu melhor. Amar da melhor forma, dar seu melhor sorriso (mesmo chorando por dentro), sua melhor palavra. Dar carinho ao outro quando é a gente que está precisando. Senão, melhor seria ficar de boca fechada e usar uma burka
(lembrei do que disse um amigo -risos - depois eu conto!).
E por sermos assim, sempre tentando passar o "tudo de bom" que somos e temos, parece que os outros desconfiam que a gente está precisando de um afago. Elogios que vêm sem nem se pensar, palavras de conforto e de carinho de onde menos se espera, promessas de dias melhores virão. Amor em forma de palavras. O som da voz do outro que nos acalma. Alguém que nos faça pensar de outra forma - ou que nos diga que estamos certos. Alguém que nos incentive a continuar. Alguém que nos diga para ter calma, sim, mas nunca para desistir.
Meu gás. Esperançosa que sou, mesmo abatida (que palavra feia, não sou bicho!), levanto, tomo meu Rescue e sacudo a teia para me soltar. Se a peçonha quer me pegar, já aviso:
vou dar trabalho!
Ainda pensando sobre a burka? Pois bem, esse amigo disse que nem ela me adianta, já que meus olhos mostram tudo...E para quem ainda não conhece o Rescue, vale experimentar. Um floral maravilhoso para estas épocas de decisões, como no meu caso, ou de tristezas, que quero longe!

terça-feira, 13 de abril de 2010

Estratégia


Ando me sentindo como dividida em duas. De um lado a mãe zelosa - mesmo que não demonstre para não estragar mais ainda o filho (sim, estragar, é o que fazemos nos dias de hoje, entupindo-os de mimos, nem sempre com bom resultado...). A certinha, a que não admite erros, a que não arrisca nada. A que pensa várias vezes antes de atingir alguém. A que se cala diante de coisas que sabe onde vão parar, de lutas que já se sente perdidas. A que era chamada de "calmante" pela mãe, pela capacidade de levar o pai na conversa, convencendo-o de coisas quase impossíveis, como desistir de ir para a praia numa manhã chuvosa de sábado. Disso me lembraram ontem, do meu alto poder de convencimento, um pouco deteriorado pelo tempo, eu sinto, mas longe de estar morto. A que procura a melhor hora para falar, mesmo que isso lhe custe uma tensão de ferrar. Depois reclamo de tantas dores musculares...
De outro lado, a mulher que fui um dia. Ou melhor dizendo, que sou, camuflada pela pessoa que queriam que eu fosse , que querem que eu seja. A batalhadora, mesmo que medrosa. A impulsiva, que nem sempre se deu bem por causa disso. A que sempre tomou as rédeas da situação e a resolveu da melhor forma. Lembro, então, de um amigo que mexe com mapa astral quando me disse que eu só voltaria a ser eu quando me libertasse das amarras impostas pela vida, quando deixasse de lado os medos passados. Revejo minha vida e vejo o quanto os medos são "culpados". Revejo como paralisei ao invés de lutar. Mas bem o sei porque -
quem é mãe o sabe.
Medo. Sinto como se fizesse parte de mim. Uma surpresa para quem assumia apenas o medo óbvio de perder o filho. Tenho tantos que nem sei. De reassumir as rédeas e não conseguir segurar as feras. De não colocar para fora , de novo, todo o meu potencial. Medo de não saber amar e ser amada por inteiro. Medo de perder o amor de quem amo. E de morrer sem ter um ao lado. Medos que me vêm e assumo, belo passo. Como o fiz para perder muito do tanto medo de altura que tinha - e tenho. Como o faço para perder o medo de ter medo. Pois só se vence uma batalha se a enfrentamos de frente, mesmo que a olhando de lado, cabeça baixa. Mesmo que não com a pose imposta de vencedor. Mesmo que timidamente, passo-a-passo, pé-ante-pé. Mesmo que engatinhando. Vencer da melhor forma que for. Da melhor forma que o sei.
Minha estratégia.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Lar


Bem-te-vi. Esse era o canto do final de tarde de ontem. Levava meu cão para um passeio relaxante e me deparei com eles, os pássaros. É tão boa essa hora nos finais de semana, quando as pessoas estão encerradas dentro de casa a ver televisão, deixando o silêncio do anúncio da noite apenas para os mais atentos.
Aproveitei o mundo do nada e sonhei. Fui longe. Uma casinha antiga ,quem sabe pintada de branco. Ou um apartamentinho térreo, com direito a jardim. Nele, um espaço reservado para pegar um sol - ou lagartear, como diz o gaúcho. Outro com sombra, bem para fugir dele, onde eu sentaria a ver meus pets a se divertir com a vida. Quem sabe uma gaiola com pássaro? E uma mesinha para um café? Ou uma farta mesa para reunir os bem vindos. E ali, vendo a vida passar, uma boa conversa ou um nada dizer ao lado de meu tão procurado amor. Um trocar de olhares, um debater de ideias, um rir de nada ou de tudo. Uma leitura para viajar. Melhor ainda se estiver soprando um ventinho sincero. A rua? Sossegada. De movimento, já chega o da cidade. Feito um oásis em meu ao tudo. Meu oásis lá , nesse conjunto de coisas, de pessoas, de vidas.
Minha casa. Meu lar. Um canto cheio de livros - porque amo seus cheiros e seus saberes, e quem os sabe - com uma poltrona convidativa ao longo ler. Uma cozinha pequena, lugar para dois; honesta, onde possa me divertir brincando de inventar. Uma sala de muito estar, um gostoso sofá, daqueles sem frescura, para se jogar. Nada de muitos móveis, a não ser os queridos. Quinquilharias, muitas, lembranças queridas, como se meu mundo todo coubesse ali. Ah, e um quarto que me receba do jeito que eu estiver; que vire cama, sala, mesa de jantar,
espaço de pic-nic e tudo o mais.
Ah, como é bom sonhar. Sonho, muito. E não sonho sozinha. Tenho em mim que se sonhar bastante, com muita convicção, engano o passar dos dias e o sonho vira realidade.

domingo, 11 de abril de 2010

Paralelo

Domingo típico, quando até o sol estava com preguiça de levantar. E como tal, sai para caminhar logo cedo, e muito. Minha melhor forma de gastar a culpa da gula do dia anterior. E de passar a limpo as ideias mal contidas, mal pensadas, atravancadas pela chatice de se deixar levar.
Acho até graça das coisas que me passam pela cabeça enquanto ando. Desta vez, como num surto de leveza em mim, comparei as pessoas com os cães que encontro pelo caminho. Parei para pensar na forma como me recebem, mera passante por suas vidas.
Existem uns que, ao me verem, abanam o rabo, satisfeitos. Todo seu corpo sorri enquanto se achega , numa dancinha de pura satisfação, até colocar a cabeça entre a grade a fim de receber um carinho. Retribuo sem medo de ser feliz. Gosto, me acalma. Como se ele passasse para mim um pouco de sua leveza. Uma leveza contagiante, que me domina por quadras. Ou horas.
Outros são desconfiados. Até chegam perto do portão, não antes de muito pensar, fitando-nos com certa desconfiança. Conforme me apresento, uns acabam se comportando como o cão feliz, mas não sem mostrar sua timidez. Como se a felicidade fosse, então, duvidosa. Como se meu carinho fosse traiçoeiro. Ou pudesse ser.
Há, ainda, os que se comportam como animais, sem nenhuma sombra de pacividade. Ou muito de humanidade. Já vem derrapando, chegando a estampar as fuças nas grades. Como se fossemos nós agressores, invasores de seu território. Latem tanto, e tão alto e tão furiosamente, que nem escutam meus carinhos verbais. Mostram os dentes, mas não num sorriso. Afastam a possibilidade de qualquer chegada, de qualquer aconchego, de qualquer tentativa de entendimento. Vivem de monólogos, pois só ouvem sua própria voz, poderia eu dizer. Como se ela o bastasse. Como se ele se bastasse.
Ah, e tem os com cara de tristonhos, olhar sem brilho. Apáticos, nem parecem cães. São os mal amados, penso. Amarrados às pessoas feito propriedade. Prisioneiros de um mundo que não os merece. Deixam-me triste, com vontade de os levar comigo. De dizer - e demonstrar - como os amo.
Choro e rio sozinha pelas ruas. Imagino que devem ter a "cara" do dono, que devem passar para nós, estranhos, o que aprendem - ou recebem - em casa. Imagino os carinhosos recebendo atenção de criança, barriguinha para cima para receber carinho, amassos em frente ao sofá, afagos ao chegar em casa, com seus rabos sempre abanando. A linguagem que recebem é de pais adulando suas crias. Os desconfiados, penso, devem receber a atenção de uns e os pontapés de outros. Por isso, sempre se reservam ao direito de nos estudar. Como se tivessem que sentir o terreno antes de atravessar. Bem, e os furiosos sendo tratados não como "filhos", mas como guardadores de um patrimônio, meros funcionários da convivência violento com o mundo. E os de olhos tristonhos, bem, nem sei o que dizer. Perdem ai, cães e donos. Perdemos nós que passamos por passar. Ou não, quem sabe cães tem lá seus gênios.
Quem sabe vem da genética seu mal amar.
Volto para casa e me vejo na minha própria teoria. Meu cachorro recebe a mim como recebe a todos que atravessam o meu jardim: pulando , como se não me visse a séculos; deitando de barriga para cima para receber meu carinho, olhos fechados de satisfação . E por fim, me lambendo, como se me beijasse. Tem olhos de pedinte, sempre pedindo amor. É feliz, penso.
Minha cara.

sábado, 10 de abril de 2010

Borrões


"Penso noventa e nove vezes e nada descubro; deixo de pensar, mergulho em um fundo silêncio - e eis que a verdade se me revela." (Albert Einstein)
Sosseguei lendo essa frase. De novo o grande gênio me ajudando a me entender. O silêncio me é primordial. Uso dele para escrever, para resolver um projeto, seja de cliente ou de vida. É mais que necessário em mim. Acho que por isso ando tão às avessas, deixando-me levar pela enxurrada da maré, por vezes destruidora. Uso dele, do silêncio, até para sonhar. Como o ar que respiro. Por isso ando me sentindo tão sufocada.
Hoje é sábado. Fiquei na cama, quietinha, de olhos fechados, esperando que o dia não me descobrisse ali. Minha ideia era levantar cedo e sair para caminhar, mas eis que uma garoa me impedia de me ser. Estou eu, aqui, paramentada para tal, e olhando , esperançosa, para o céu nada positivo. Sei o que me espera neste final de semana, por isso a necessidade da caminhada, momento em que estou eu e eu. Conversamos, eu e eu, sobre muitas coisas. E na falta de respostas prontas, silenciamos, como que esperando que o vento traga as respostas.
Estou numa fase de definições, o que requer muito ensaio antes das poucas palavras. Não posso atirar com metralhadora. Preciso ganhar as batalhas usando de poucas e certeiras armas. Isso só se descobre com a maturidade, que as palavras , depois de pronunciadas de forma errônea, não aceitam borrachas, não se apagam nem com o mais longo dos tempos. Como nos tempos do colégio - das não ainda existentes fitas de correção, nem corretivos melequentos. O erro na palavra deixa marcas, seja ele de lápis - deixando rastros no papel - ou borrões de branco sobre a tinta. Fica, ali, sempre , a marca do erro. Só esquecido se recomeçamos do zero, se passamos a limpo, o que na vida é muito mais difícil de fazê-lo. Por isso amamos escrever no computador...
Penso noventa e nove vezes e nada descubro. Quem sabe o silêncio imposto me traz as respostas. Quem sabe Eisntein estava certo. Quem sabe...

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Colherada


Ontem me peguei engolindo a comida sem sentir e sem fome. Ali mesmo, de pé, ao lado da bancada da pia. Nem sei dizer o quanto comi de cada coisa. Nem bem o que comi. Lembrei - depois do fato, é claro - de quando falei para uma amiga que também brigava com a balança que comíamos por qualquer motivo, menos fome. Comemos quando alegres (vide as confraternizações e boas conversas, sempre regadas a boa comida e boa bebida), quando reunidos ( café com umas amigas, saídas com outras), quando em família. Só nos reunimos enquanto comedores e bebedores. Desde as refeições familiares, na cozinha mesmo, ou em volta da mesa de jantar - a outras nem tão amenas, quando engolimos alimentando o silêncio. Se estamos reunidos e não há comida, então o assunto não deve ser bom, pode-se pensar. Pelo menos uma bebidinha aparece. É de bom tom, dizem. E faz a diferença entre a visita desejada e a nem tanto. Se a pia ficou cheia de louça, ah, sinal de festa boa. Se vazia, sinal de casa vazia,
de conversa vazia. Ou nenhuma.
Ou comemos por tristeza. Por falta, carência de nós mesmos. Como se a comida nos suprisse de nossas faltas, todas. E não me venham com frutinhas ou gelatinas diet:
quero, mesmo, é muito pão!
Voltando ao meu pensamento inicial - senão já parto para falar de receitas e gostos, ou levanto para pegar mais uma fatia - comi para apagar os maus momentos do dia. E pelas coisas que estão se demorando a resolver. E pelas coisas que não deram certo, pelas apostas certas com resultados errados. Comi pelo passado que não se realizou, pelo presente insatisfeito, pelo futuro que nada sei. Pobre de meu estômago, lixo de minhas desilusões e inquietações. Bom se os problemas saíssem de meu caminho como essa comida toda será despejada amanhã. Ou até hoje. Falo das fomes em geral.
Tenho-as, muitas. De saberes. De certezas. De caminhos certos. De ser mais eu mesma. De ser amada. De me amar. Fomes que não passam nem que me entupa de doces. Porque essas fomes são implacáveis, bem difíceis de matar.
...

Bom mesmo é devorar um pote de sorvete à colheradas quando se está feliz. Ali mesmo, assistindo um bom filme. Não pesa nem na consciência. Com o perdão do trocadilho, colher meu me amar com a colher.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Mochila


Ontem fui a uma reunião sobre detalhes de um intercâmbio que meu filho deve fazer no final deste ano. São cinco semanas , entre estudo de espanhol e viagens de conhecimento, entre Espanha, Portugal, Inglaterra e França (passa em Paris a virada de ano...). Enquanto a falante professora - e acompanhante, divertidíssima - fazia-nos sonhar mostrando as imagens de anos passados da "criançada", sonhava também eu. Como se visse ali meus sonhos meio que realizados. Meu sonho de conhecer o mundo - um sonho que ficou para trás, meu sonho de saber muitas línguas - e esse eu mesma deixei pelo caminho, enquanto cansei de tentar saber o inglês e desisti do espanhol enquanto aprendia o básico de italiano.
Vejo isso ao olhar para o meu filho, um "carinha" que veio apressado, sem planos, bem como foi - e é - a minha vida. Um realizar nele coisas minhas. Estuda num ótimo colégio, já fala quase que fluentemente o inglês ( eu ainda no "the book is on the table"...), estudando espanhol com afinco e no caminho de se tornar um cidadão espanhol (graças à família do pai). De vivenciar o intercâmbio na Espanha, e - batalho por isso como nunca batalhei por coisas minhas - imendar com um intercâmbio de uns meses em algum lugar da Europa. Sonhei alto: vai morar fora do país (quantas vezes me peguei imaginando isso para mim!) , aprender, quem sabe, mais uma língua ( e ai já seriam quatro...um poliglota!), ser um cidadão espanhol - e do mundo. Já o vi morando lá fora, ou voltando lá como se fosse a sua casa. Não que não me agrade a ideia dele morar no Brasil, mas sempre vi nas pessoas que moram fora daqui - ou pelo menos longe de casa ( não troco essa experiência por nada!) - um diferencial. Como se fossem mais sabidas, mais "safas". Como se o mundo delas fosse bem maior do que o meu. Enfim: nele, eu, como queria ser.
Volto para casa pensando em mim. No que me aguarda. Sim porque, perdido o posto "presente" de mãe, sobro eu mesma. Sobra a Joyce para se viver, depois de 15 anos de dedicação de mãe quase que exclusiva. Sobra a Joyce que tem tanto a aprender. Sobra a Joyce que tem tanto a correr atrás. Como um semestre sabático que, espero, aproveitarei para crescer como profissional e como mulher. Assim, quando meu filho voltar, então mudado como espero, aqui estarei, mais madura e mais vivida, vendo em mim não só a mãe, mas a amiga que tanto sonhei ser. E que, imagino, ele sempre sonhou encontrar.
Quem sabe vejo nele um pouco mais de mim, por trás da "cara do pai"...

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Amizade


Minha mãe - como deve ser toda mãe - fala umas coisas que tocam profundamente (além de sua língua sempre certeira de uma típica nascida sob o signo de escorpião...). Ouvi um diálogo dela com meu filho. Não me lembro do contexto, mas chamou-me a atenção quando ela disse: "eu não tenho mais filhos. Tenho amigos". Bem pode ela dizer isso, em seus mais de 75 anos, sendo a sua caçula, eu, 30 anos mais nova.
Amigos. Isso nos tornamos dos filhos. Ou no meu caso, do filho. Quem não o faz perde muita coisa pelo caminho. Sente-se dono, um proprietário nem sempre apreciado. E deixam seus filhos com jeito de inquilinos nem sempre desejáveis. Paro e penso que sou amiga de meu filho até antes de ser sua mãe. Até muito mais do que sou mãe. Quem vê - e aceita - nossos diálogos e nossas brincadeiras , sabe bem do que falo. Só não deixei para sê-lo no fim, e sim, desde o começo.
A linguagem da amizade soa mais leve, sem cobranças. Amigo é aquele que nos fala coisas que só ele pode dizer. Usa de uma sinceridade que só a ele permitimos. Uma sinceridade que não vem embalada de autoridade. Que deixa de lado as obrigações, as imposições. Uma sinceridade que vem do coração e por isso é bem acolhida. Pode até doer, mas dói soprando.
Tive essa relação verdadeira com poucas pessoas em minha vida. E sempre mulheres. Pessoas que me escutaram e escutam sem me reprimir. Que derão e dão sugestões sem ares de ter que. Amigos tem a mente aberta, pelo menos para nós. Têm ouvido bom que parece ser ligado direto ao coração. Como uma consciência, lembrando-nos, sempre, que sabemos o que é certo, seguindo-o ou não. E basta um olhar, uma palavra , um lembrete e ali está a resposta em nossa frente. Ali o caminho melhor para nós. Seguindo ou não. Aceitando ou não. É. Dificilmente erra. Como se fosse nosso outro eu. Nós no espelho. Como se fossemos nós mesmos conversando, nós e nós.
É, amigos são raros. E podem durar uma vida toda ou apenas um bom momento. Não são perfeitos - já que a perfeição não existe, muito menos em pessoas. E se fossem, não nos perdoariam. Nem saberiam o que nos dizer. Não pegariam da nossa mão nas horas de crise. Nem nos fariam rir nos momentos de tristeza. Porque amigo é aquele que nos faz melhor. Melhor ainda do que sonhamos ser.

terça-feira, 6 de abril de 2010

(A)Corda


Recebi uma ligação de uma pessoa que prezo muito. Grata surpresa. A mesma voz suave que me faz voltar no tempo. Sempre foi meu guia na vida, apesar do pouco contato que tivemos. E como todo mestre, guia - sei lá o nome que dou - é uma pessoa fora desse mundo, mesmo nele tentando (s0bre)viver. Tem seus próprios caminhos, um jeito incomum de pensar a vida, o que sempre me fascinou. Uma tranquilidade que por vezes me irrita, como se inatingível fosse. Como se fizesse - mesmo - dessa vida na terra apenas passagem. Sua compreensão das coisas me fascina, feito livro de contos bem ilustrado.
Tenta me guiar até hoje, mesmo com essa distância - de espaço e pensamento - que nos distancia. Aceito, gosto, mas acho que não me cabe. Pelo menos não nestes momentos que me debato para que a vida não me engula. Preciso, certo ou não, de um viver mais palpável, menos platônico, mais combinando com esse ser vibrante e intenso que sou. Com esse meu jeito de me jogar no abismo de meu ser. Não sei viver de futuro, nem só de esperas, nem só de sonhos, mesmo aqueles que, imagino, realizáveis. Sonhadora, sim, mas de pés bem cravados no chão, como sempre me descrevo.
A conversa, curta e engraçada - pelo menos para mim - dava um bom livro de auto-ajuda. Pediu-me para que comprasse, literalmente, dez metros de corda e esticasse entre duas árvores, a menos de um metro do chão. E que ali sentisse, tentando caminhar sobre ela, como é a vida - dele, minha, nossa em geral. A lição era um andar olhando para frente, tendo como guia um foco. Nunca olhando para baixo, o que desestabiliza. E muito menos para trás, o que derruba. E treinar a travessia, incassavelmente. Pensei que um dia haveria de me sentir segura o bastante para atravessar de olhos fechados.
A princípio ri, já acostumada às suas atravessadas maneiras de me dizer as coisas. Seus tantos labirintos, suas inteligentes charadas que me deram essa maneira sobremaneira do meu pensar. Gosto disso, dessa não mesmice. Procuro isso nas pessoas que me cercam. Talvez venha daí minha paixão por saberes. De não ter a resposta no final do livro. De não ter a história um fim cabível. Mas no momento em que estou, parece-me mais palpável respostas mais diretas. Quero-as na palma da mão, na ponta da língua. Não estou com cabeça nem para os divertidos desenhos de Escher (*), que povoaram minha mente por anos, com suas mirabolantes escadas que levam a todos lugares ao mesmo tempo que a lugar nenhum, seus desenhos encaixados de forma nada inteligível. Olhava - olho - e penso de onde saiu aquilo tudo.
Talvez minha praticidade tenha me cegado. Ou minha pressa em ser feliz, depois de tantos anos me deixando levar. Talvez me falte o silêncio da vida a me dar a oportunidade de parar para simplesmente pensar. Talvez me faltem noites em claro conversando comigo mesma. Melhor ainda com este nós que se instalou em mim, meu novo porto. Talvez não precise mais de um mestre e sim de alguém ao lado. Um não talvez e sim minha nova verdade. Minha nova realidade, meu novo foco - ou o mesmo, mas agora em formato real. A árvore que me faltava no final da corda bamba. Preciso de alguém não que me puxe, nem das pegadinhas de filme de ficção. Muito menos que me venha com lições saídas de livros com títulos animadores. Mas que me anime , realmente, a continuar. Já que sei bem onde quero chegar. Só não sei como.
(*) Artista gráfico holandês, Mauritus Cornelis Escher (1898/1970), conhecido pelas suas "charadas" em forma de desenhos.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Novas passadas


Tenho como livro de cabeceira o "Linguagem do Corpo" de Cristina Cairo. Estou sempre ali consultando para me reconhecer. Para reconhecer em mim minhas fraquezas.
Cristina fala com maestria do que representa cada dor ou problema em cada parte de nosso corpo. E como minhas dores são repetitivas, releio mais uma vez para entender-me.
Por exemplo, dor ou problemas nos pés, e seus dedos , como calosidades, inflamações, e até unhas encravadas ou mesmo topadas e viradas - destas que a gente nem sente - são problemas relacionados com o resolver, assumir. Como se as atitudes não fossem suficientemente fortes para romper o ciclo vicioso. Como uma falta de esclarecimento ou resoluções em relação ao futuro.
Esclarecimentos, tenho. Sei bem o que quero. Mas está difícil seguir em frente. Então leio sobre cãibras, que tenho tido de forma incessante. Alongo-me toda, antes e depois de qualquer situação, e lá vem elas a me atormentar. Abro minha "bíblia corporal" e lá está: " tensões . Traduzem a necessidade de querer manter os próprios direitos, nem que seja através de atritos". Voilà! Como se alguém ou alguma coisa estivesse tentando controlar minha vida, o que me faz ficar na defensiva. Revela insegurança. Medo. Tenho tido. Do amanhã, se assumir meus novos caminhos. De romper as amarras que me prendem. Mas quem não tem?
Paro para pensar, e é verdade. Tanta coisa a fazer por mim mesma, e estou atrelada ao meu dia-a-dia, minha tarefas de "governanta do lar". Ou de cumpridora de tarefas que viraram rotinas em minha vida de mãe e de profissional. Não consigo sair do lugar. Não consigo ir atrás do que realmente quero. Tenho tentado de forma insistente, e como não me vêm, paraliso-me. Engessada, assim me sinto. Apesar de cheia de sonhos. Procuro no livro e lá está: soltar-me. Ir adiante. Correr atrás dos meus sonhos, sejam eles quais forem. E assumir as consequências. Dói, como uma fisioterapia após uma cirurgia, imagino. Mas sem passar por isso não se chega a lugar nenhum. Nem ao paraíso de me ser.
Então vou adiante no texto e fico feliz: tenho panturrilha grossa. Sinal de coragem. E isso me basta!

domingo, 4 de abril de 2010

Páscoa


Domingo de Páscoa. Dia de ser gentil. Aqui chove fininho, com cara de choro. Mas gosto. Gosto de chuva fina, principalmente aos domingos. Parece um convite a preguiça na cama, café com bolinho e tudo o mais.

Ser gentil, até quando nos sobra algo que não sabemos mais se é amor. Vejo meus pais, separados depois de mais de 50 anos de casados. São muito mais gentis hoje um com o outro do que nos longos anos de mágoa e desprezo diários. Hoje, depois de uma separação-surpresa, tratam-se bem melhor do que quando dividiam a mesma casa, não sei se a mesma cama. É disso que fujo. Da mesmice do dia-a-dia que nos permite coisas, atos, que jamais nos permitiríamos se a vida fosse curta, se o amor fosse breve. É como se o outro perdesse seu valor. Como se nós mesmos perdêssemos o nosso. E a vida perdesse a dela. Uma sucessão de perdas.

Hoje é dia de Páscoa, renascimento para muitos. Dia de festa, de final de uma revisão interna do que somos. Dia final do jejum ou, pelo menos, de deixar de lado coisas que, teoricamente , amamos.

Mas nunca vi jejuarem de amor, ou de carinho. Parece-me tão fácil jejuar de coisas materiais, terrenas, doces ou carnes. Mas tão difícil jejuar de sentimentos. Talvez , sem eles, a Páscoa seria outra. Imagino que não o fazem porque já jejuam , mesmo sem saber. Mesmo sem notar. Não cultuam o amor maior dentro de si. Nem o carinho verdadeiro. Nem mesmo a gentileza. Talvez um jejum de sentimentos nos fizesse bem. Mas talvez já o façamos nesse simples levar a vida. Talvez seja normal nesse deixar a vida passar. Eu que passei/passo por um jejum desses, sei bem a falta que me faz.

Quarenta dias sem amar. Ou carinhar. Ou beijar. Ou olhar o outro bem nos olhos. Quarenta dias sem sequer abraçar. Sem ser gentil. Sem vivenciar o outro. Muitos o fazem. Eu também, mas não o sei. Minha mortificação interna. Meu jejum. Meu pecado. Penitência que me persegue, mas que estou a caminho de abandonar.

Hoje é Páscoa, o dia chora. Eu não, pois a minha já vem. É só esperar.

sábado, 3 de abril de 2010

Tempero


Paixão. Isso é o que nos move. E vi neste final de semana da melhor e da pior forma. Da melhor, um senhor de 83 anos em plena atividade física e cerebral. Faz ginástica todo dia feito um jovem, e vive a vida feito um menino. O sorriso estampado dava a receita que ele mesmo definia: paixão. Paixão pela vida, paixão pela música, paixão por ele mesmo.
Da pior forma, meus pais - e tantos outros idosos por aí. Falta -lhes algo. Falta-lhes um fogo interno, algo que os impulsione a viver de outra forma que não desta, engessada. Um levantar e deitar com hora marcada. Um nada fazer a não ser ver o passar do tempo. Viver tendo como grande companhia a tela da televisão e sua visão nada criativa da vida.
Ah, que medo tenho de ficar engessada. Medo de perder o interesse, o fogo que tenho pelas coisas que me encantam. Pelas pessoas que amo. Pelas palavras que me fascinam. Pelo saber que me encanta. Pelas coisas simples da vida que vem me escapando pelas mãos. E outras tantas que venho redescobrindo. Medo de perder essa paixão louca de viver,
meu lado sapeca de ver as coisas, meu lado mulher de vivê-las.
Paixão. Ela que me move. Ela que me tempera. Ela que dá gosto à minha vida. Apimenta. Arde. Não me deixa ser mais uma, não me deixa incapaz. Põe para fora o todo que sou e
o todo de que sou capaz.
A noite passa lá fora e eu aqui pensando em pegar meu amor pela mão e contar as estrelas, namorando à luz da lua...

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Orquídeas


Retirantes. Era o que parecíamos ao viajar para passar a Páscoa com meu pais. Cada um, eu e meu filho, fiel escudeiro, com sua mala, mais uma só de doces para agradar avós e tias. E, pasme, duas orquídeas, as mais belas da coleção dele, para presentear a avó e a "madrinha emprestada" (uma longa história, mas que vale a pena contar outro dia...), no caso, minha irmã.
Uma grata lição, essa. A de se fazer o que se quer - ou o que sabemos que vai agradar aos que amamos - sem nos preocuparmos com os incômodos. Com a chateação de se viajar cheio de malas e pacotes. Melhor ainda, sem ligar para o que pensam os outros que nos olhavam com cara de pasmos. Talvez nos achando ridículos. Ríamos, eu e meu filho, de nossa aventura nada prática. De nossa picardia. Ríamos de nós mesmos, no que sempre ríamos dos outros.
Troca de papéis.
Mas não posso deixar de me emocionar ao rever a cena. Ele escolheu suas melhores plantas, embalou e as carregou com todo cuidado possível nas quase sete horas de viagem. Trouxe-as praticamente no colo, feito bebês. Quantos adolescentes o fariam? Quantos teriam tamanho desprendimento - o de dar - e tamanha paciência e cuidado - ao carregar? Talvez o fizessem pelo seu vídeo game ou laptop. Nunca flores. Nem sequer presentes.
Cá estou eu, sã , salva e feliz, esperando o almoço de sexta-feira santa. Já acarinhei meu filho pela manhã, já caminhei com meu pai, já fiz compras para minha mãe. Já deixei a sobremesa de aviso, já ajeitei a salada. Dia bom de se viver. Quanta coisa poderíamos ainda fazer se deixássemos de lado tantas manias, tantas vergonhas, desconfortos e hipocrisias. Quanta coisa poderíamos viver de verdade se fossemos nós mesmos.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Quinta Santa


Hoje estou indo para a casa de meus pais. Vou com meu filho, meu grande companheiro, numa longa viagem de ônibus. Serão horas de boa conversa, risinhos fechados, sonecas perdidas, tudo isso tendo como pano de fundo a paisagem já conhecida que passa.
Penso que é Páscoa. Ou quase. Relembro os passeios à procura de ovos pelos campos em terras de minha avó. Revejo em minha frente os ninhos escondidos, as patas desenhadas a farinha. Revejo como dou pouca atenção a isso em minha vida hoje. Meu filho cresceu, lembro, como me eximindo de culpas, enquanto relembro as coisas que fiz, repetindo os passos de minha mãe. Os ovos escondidos, as charadas para encontrá-los, o lanche para o "Seu Coelho". Rio sozinha, enquanto vejo seu cochilar adolescente ao meu lado.
Hoje estou indo para a casa de meus pais e isso para mim já é Páscoa. Meu presente sou eu mesma, desprovida de qualquer tristeza. Deixo-as, todas, para trás. Relembro que a Páscoa é renascimento, relembro meu Outono que veio lotado de amor, revejo meu acordar para mim mesma. É Páscoa, penso, hora de me recomeçar. A minha veio e vem doce feito chocolate.
Vem cheia de novidades para contar. Feito ovo com surpresa.