terça-feira, 6 de abril de 2010

(A)Corda


Recebi uma ligação de uma pessoa que prezo muito. Grata surpresa. A mesma voz suave que me faz voltar no tempo. Sempre foi meu guia na vida, apesar do pouco contato que tivemos. E como todo mestre, guia - sei lá o nome que dou - é uma pessoa fora desse mundo, mesmo nele tentando (s0bre)viver. Tem seus próprios caminhos, um jeito incomum de pensar a vida, o que sempre me fascinou. Uma tranquilidade que por vezes me irrita, como se inatingível fosse. Como se fizesse - mesmo - dessa vida na terra apenas passagem. Sua compreensão das coisas me fascina, feito livro de contos bem ilustrado.
Tenta me guiar até hoje, mesmo com essa distância - de espaço e pensamento - que nos distancia. Aceito, gosto, mas acho que não me cabe. Pelo menos não nestes momentos que me debato para que a vida não me engula. Preciso, certo ou não, de um viver mais palpável, menos platônico, mais combinando com esse ser vibrante e intenso que sou. Com esse meu jeito de me jogar no abismo de meu ser. Não sei viver de futuro, nem só de esperas, nem só de sonhos, mesmo aqueles que, imagino, realizáveis. Sonhadora, sim, mas de pés bem cravados no chão, como sempre me descrevo.
A conversa, curta e engraçada - pelo menos para mim - dava um bom livro de auto-ajuda. Pediu-me para que comprasse, literalmente, dez metros de corda e esticasse entre duas árvores, a menos de um metro do chão. E que ali sentisse, tentando caminhar sobre ela, como é a vida - dele, minha, nossa em geral. A lição era um andar olhando para frente, tendo como guia um foco. Nunca olhando para baixo, o que desestabiliza. E muito menos para trás, o que derruba. E treinar a travessia, incassavelmente. Pensei que um dia haveria de me sentir segura o bastante para atravessar de olhos fechados.
A princípio ri, já acostumada às suas atravessadas maneiras de me dizer as coisas. Seus tantos labirintos, suas inteligentes charadas que me deram essa maneira sobremaneira do meu pensar. Gosto disso, dessa não mesmice. Procuro isso nas pessoas que me cercam. Talvez venha daí minha paixão por saberes. De não ter a resposta no final do livro. De não ter a história um fim cabível. Mas no momento em que estou, parece-me mais palpável respostas mais diretas. Quero-as na palma da mão, na ponta da língua. Não estou com cabeça nem para os divertidos desenhos de Escher (*), que povoaram minha mente por anos, com suas mirabolantes escadas que levam a todos lugares ao mesmo tempo que a lugar nenhum, seus desenhos encaixados de forma nada inteligível. Olhava - olho - e penso de onde saiu aquilo tudo.
Talvez minha praticidade tenha me cegado. Ou minha pressa em ser feliz, depois de tantos anos me deixando levar. Talvez me falte o silêncio da vida a me dar a oportunidade de parar para simplesmente pensar. Talvez me faltem noites em claro conversando comigo mesma. Melhor ainda com este nós que se instalou em mim, meu novo porto. Talvez não precise mais de um mestre e sim de alguém ao lado. Um não talvez e sim minha nova verdade. Minha nova realidade, meu novo foco - ou o mesmo, mas agora em formato real. A árvore que me faltava no final da corda bamba. Preciso de alguém não que me puxe, nem das pegadinhas de filme de ficção. Muito menos que me venha com lições saídas de livros com títulos animadores. Mas que me anime , realmente, a continuar. Já que sei bem onde quero chegar. Só não sei como.
(*) Artista gráfico holandês, Mauritus Cornelis Escher (1898/1970), conhecido pelas suas "charadas" em forma de desenhos.

2 comentários:

  1. Orra meu!!!
    Velho ditado:
    "Sai da frente que atrás vem gente"
    É isso aí.."Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.."
    Bravo!Bravíssimo!!!
    Meg

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  2. Orra meu!!!
    Velho ditado:
    "Sai da frente que atrás vem gente"
    É isso aí.."Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.."
    Bravo!Bravíssimo!!!
    Meg

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