sexta-feira, 9 de abril de 2010

Colherada


Ontem me peguei engolindo a comida sem sentir e sem fome. Ali mesmo, de pé, ao lado da bancada da pia. Nem sei dizer o quanto comi de cada coisa. Nem bem o que comi. Lembrei - depois do fato, é claro - de quando falei para uma amiga que também brigava com a balança que comíamos por qualquer motivo, menos fome. Comemos quando alegres (vide as confraternizações e boas conversas, sempre regadas a boa comida e boa bebida), quando reunidos ( café com umas amigas, saídas com outras), quando em família. Só nos reunimos enquanto comedores e bebedores. Desde as refeições familiares, na cozinha mesmo, ou em volta da mesa de jantar - a outras nem tão amenas, quando engolimos alimentando o silêncio. Se estamos reunidos e não há comida, então o assunto não deve ser bom, pode-se pensar. Pelo menos uma bebidinha aparece. É de bom tom, dizem. E faz a diferença entre a visita desejada e a nem tanto. Se a pia ficou cheia de louça, ah, sinal de festa boa. Se vazia, sinal de casa vazia,
de conversa vazia. Ou nenhuma.
Ou comemos por tristeza. Por falta, carência de nós mesmos. Como se a comida nos suprisse de nossas faltas, todas. E não me venham com frutinhas ou gelatinas diet:
quero, mesmo, é muito pão!
Voltando ao meu pensamento inicial - senão já parto para falar de receitas e gostos, ou levanto para pegar mais uma fatia - comi para apagar os maus momentos do dia. E pelas coisas que estão se demorando a resolver. E pelas coisas que não deram certo, pelas apostas certas com resultados errados. Comi pelo passado que não se realizou, pelo presente insatisfeito, pelo futuro que nada sei. Pobre de meu estômago, lixo de minhas desilusões e inquietações. Bom se os problemas saíssem de meu caminho como essa comida toda será despejada amanhã. Ou até hoje. Falo das fomes em geral.
Tenho-as, muitas. De saberes. De certezas. De caminhos certos. De ser mais eu mesma. De ser amada. De me amar. Fomes que não passam nem que me entupa de doces. Porque essas fomes são implacáveis, bem difíceis de matar.
...

Bom mesmo é devorar um pote de sorvete à colheradas quando se está feliz. Ali mesmo, assistindo um bom filme. Não pesa nem na consciência. Com o perdão do trocadilho, colher meu me amar com a colher.

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