sexta-feira, 23 de abril de 2010

Fora, Alice!


Hoje estreia Alice, o filme mais esperado do ano (por enquanto, já que essas coisas tem um que de ligeireza). E fazendo uma matéria sobre o que muitos chamam de "alicismo" - hoje entre aspas, amanhã, quem sabe, nas páginas do Aurélio - , ou seja, um mergulho frenético no mundo de Alice, dei-me conta de como somos fúteis ao contrário.
E de como pequenas loucuras nos fazem bem.
Junte-se a isso um texto que recebi sobre o não se levar a vida muito a sério, muito regrada, e que estariam nos nossos "defeitos" toda a graça. Ri sozinha. Pensei: ai dá um bom texto.
Quando crianças, a época que nos dizem mais livres, vivemos de regras para que tenhamos um bom crescimento, sem grandes desvios de caráter, dizem. Impomo-nos - e repetimos isso com nossos filhos - uma retidão que nos isola da criatividade. Quem de sã consciência arrumaria seu filho com a melhor roupa para ir a uma festinha de aniversário? Brigadeiros e terra farão a festa, as mãos limpas em cada centímetro de nos mesmos, enquanto nós , pais, descabelaremo-nos com a roupa ex-nova arreganhada. Literalmente, sem a mão na "massa" - leia-se ai massa de modelar ou próprio barro do jardim - não se cria nada. E nem se é feliz. Saberemos isso quando tivermos o maior índice de depressão em filhos criados limpos frente ao vídeogame. E faremos tudo ao contrário com nosso netos...
Quando adultos, além de termos que ser "retos" (reto, retidão, palavras tão duras!) para sermos "levados a sério", temos que dar o exemplo aos ditos menores. Vejo os jovens sendo certíssimos de segunda a sexta e aprontando tudo, como bando de loucos, nos finais de semana. Vivemos nós, adultos e jovens, na prisão do dia-a-dia, sem nos dar ao "luxo" de cometermos pequenas loucuras. Como devorar potes de sorvete frente a televisão , deitados na cama, sem nos preocuparmos em não sujar a roupa. Ou andarmos pela rua a passear de mãos dadas - coisa que já não se faz - e se dar ao luxo de uma sonora gargalhada. Assim, mesmo, sem grandes motivos, a não ser o de ser feliz. Somos, todos e sempre, contidos. O guardanapo que limpa a boca é o mesmo que tampa o sorriso, que segura a risada. Nem usamos branco para não sujar. Eles ficam melhores alvos e perfumados se pendurados em nossos gabides do armário.
Hoje estréia Alice. Sei que vou gostar mais do Chapeleiro Maluco do que da menina certinha (não seria por isso terem escolhido uma atriz desconhecida?) . Sei que vou me encantar com a Rainha Vermelha. Talvez esses personagens tenham mais a ver comigo.
E, quem sabe, no escuro do cinema, possa eu ser eu mesma?

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