domingo, 11 de abril de 2010

Paralelo

Domingo típico, quando até o sol estava com preguiça de levantar. E como tal, sai para caminhar logo cedo, e muito. Minha melhor forma de gastar a culpa da gula do dia anterior. E de passar a limpo as ideias mal contidas, mal pensadas, atravancadas pela chatice de se deixar levar.
Acho até graça das coisas que me passam pela cabeça enquanto ando. Desta vez, como num surto de leveza em mim, comparei as pessoas com os cães que encontro pelo caminho. Parei para pensar na forma como me recebem, mera passante por suas vidas.
Existem uns que, ao me verem, abanam o rabo, satisfeitos. Todo seu corpo sorri enquanto se achega , numa dancinha de pura satisfação, até colocar a cabeça entre a grade a fim de receber um carinho. Retribuo sem medo de ser feliz. Gosto, me acalma. Como se ele passasse para mim um pouco de sua leveza. Uma leveza contagiante, que me domina por quadras. Ou horas.
Outros são desconfiados. Até chegam perto do portão, não antes de muito pensar, fitando-nos com certa desconfiança. Conforme me apresento, uns acabam se comportando como o cão feliz, mas não sem mostrar sua timidez. Como se a felicidade fosse, então, duvidosa. Como se meu carinho fosse traiçoeiro. Ou pudesse ser.
Há, ainda, os que se comportam como animais, sem nenhuma sombra de pacividade. Ou muito de humanidade. Já vem derrapando, chegando a estampar as fuças nas grades. Como se fossemos nós agressores, invasores de seu território. Latem tanto, e tão alto e tão furiosamente, que nem escutam meus carinhos verbais. Mostram os dentes, mas não num sorriso. Afastam a possibilidade de qualquer chegada, de qualquer aconchego, de qualquer tentativa de entendimento. Vivem de monólogos, pois só ouvem sua própria voz, poderia eu dizer. Como se ela o bastasse. Como se ele se bastasse.
Ah, e tem os com cara de tristonhos, olhar sem brilho. Apáticos, nem parecem cães. São os mal amados, penso. Amarrados às pessoas feito propriedade. Prisioneiros de um mundo que não os merece. Deixam-me triste, com vontade de os levar comigo. De dizer - e demonstrar - como os amo.
Choro e rio sozinha pelas ruas. Imagino que devem ter a "cara" do dono, que devem passar para nós, estranhos, o que aprendem - ou recebem - em casa. Imagino os carinhosos recebendo atenção de criança, barriguinha para cima para receber carinho, amassos em frente ao sofá, afagos ao chegar em casa, com seus rabos sempre abanando. A linguagem que recebem é de pais adulando suas crias. Os desconfiados, penso, devem receber a atenção de uns e os pontapés de outros. Por isso, sempre se reservam ao direito de nos estudar. Como se tivessem que sentir o terreno antes de atravessar. Bem, e os furiosos sendo tratados não como "filhos", mas como guardadores de um patrimônio, meros funcionários da convivência violento com o mundo. E os de olhos tristonhos, bem, nem sei o que dizer. Perdem ai, cães e donos. Perdemos nós que passamos por passar. Ou não, quem sabe cães tem lá seus gênios.
Quem sabe vem da genética seu mal amar.
Volto para casa e me vejo na minha própria teoria. Meu cachorro recebe a mim como recebe a todos que atravessam o meu jardim: pulando , como se não me visse a séculos; deitando de barriga para cima para receber meu carinho, olhos fechados de satisfação . E por fim, me lambendo, como se me beijasse. Tem olhos de pedinte, sempre pedindo amor. É feliz, penso.
Minha cara.

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