domingo, 4 de abril de 2010

Páscoa


Domingo de Páscoa. Dia de ser gentil. Aqui chove fininho, com cara de choro. Mas gosto. Gosto de chuva fina, principalmente aos domingos. Parece um convite a preguiça na cama, café com bolinho e tudo o mais.

Ser gentil, até quando nos sobra algo que não sabemos mais se é amor. Vejo meus pais, separados depois de mais de 50 anos de casados. São muito mais gentis hoje um com o outro do que nos longos anos de mágoa e desprezo diários. Hoje, depois de uma separação-surpresa, tratam-se bem melhor do que quando dividiam a mesma casa, não sei se a mesma cama. É disso que fujo. Da mesmice do dia-a-dia que nos permite coisas, atos, que jamais nos permitiríamos se a vida fosse curta, se o amor fosse breve. É como se o outro perdesse seu valor. Como se nós mesmos perdêssemos o nosso. E a vida perdesse a dela. Uma sucessão de perdas.

Hoje é dia de Páscoa, renascimento para muitos. Dia de festa, de final de uma revisão interna do que somos. Dia final do jejum ou, pelo menos, de deixar de lado coisas que, teoricamente , amamos.

Mas nunca vi jejuarem de amor, ou de carinho. Parece-me tão fácil jejuar de coisas materiais, terrenas, doces ou carnes. Mas tão difícil jejuar de sentimentos. Talvez , sem eles, a Páscoa seria outra. Imagino que não o fazem porque já jejuam , mesmo sem saber. Mesmo sem notar. Não cultuam o amor maior dentro de si. Nem o carinho verdadeiro. Nem mesmo a gentileza. Talvez um jejum de sentimentos nos fizesse bem. Mas talvez já o façamos nesse simples levar a vida. Talvez seja normal nesse deixar a vida passar. Eu que passei/passo por um jejum desses, sei bem a falta que me faz.

Quarenta dias sem amar. Ou carinhar. Ou beijar. Ou olhar o outro bem nos olhos. Quarenta dias sem sequer abraçar. Sem ser gentil. Sem vivenciar o outro. Muitos o fazem. Eu também, mas não o sei. Minha mortificação interna. Meu jejum. Meu pecado. Penitência que me persegue, mas que estou a caminho de abandonar.

Hoje é Páscoa, o dia chora. Eu não, pois a minha já vem. É só esperar.

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