segunda-feira, 31 de maio de 2010

Segunda


Segunda-feira, dia de revisão. Faço desse dia uma agenda, jogando fora o que não quero, adicionando o que quero, tecendo prioridades, deletando coisas, pessoas e pensamentos inválidos. Refaço meus passos da semana anterior e traço metas, muitas delas não cumpridas, mas pelo menos pensadas.
Acabo de chegar de viagem, rápidas nove horas para quem desmaiou no ônibus. Cheguei a mil, corpo e mente. Fiz café do filho antes da escola, agradei cachorro, limpei minha mala e minha caixa de e-mails (sempre abarrotada no inicio da semana). Sinto que está difícil administrar tudo. Não por mim que sempre tenho energia de sobra quando quero algo. Mas para os outros que não aceitam minha condição de viver, por cegueira, simples posse ou teimosia, sabe lá.
Vejo que a vida vem me cobrando respostas e atitudes que eu, como boa menina, estou protelando, achando no caminho a melhor condição. Talvez para não magoar os que amo (e será que não estou?). Talvez para não incomodar os outros, condição assumida desde sempre. Talvez por puro comodismo, talvez assuma. Coisas que fazem parte de mim, como me deixar de lado para que o outro esteja bem. Louca ideia se o outro quer tudo, até o que não tenho para dar. Louca ideia, sabendo que se não estou feliz, não o farei.
É segunda, mais uma de tantas. Ou será o prenúncio de um forte temporal? Eles assustam, bem sei. Mas limpam tudo, de forma rápida, talvez arrasando quarteirões. E não há como se ver os estragos, a não ser depois de o enfrentar. E belo dia virá, como todos depois que a grande chuva cai.

sábado, 29 de maio de 2010

Aceitação


Acho graça da forma que invado os diferentes campos do saber e os trago para mim, para as coisas mais simples do dia-a-dia. Estou lendo um livro chamado Observatório de Sinais, teoria e prática da pesquisa de tendências, de Dario Caldas. Mal comecei , e tenho meus parâmetros para pensar, meus "pré-conceitos". A palavra, tão comumente falada por nós, seja de roupa ou a de engordar. Vem do latim tendentia, "particípio presente e nome plural substantivo do verbo tendere, ou seja "tender para", "inclinar-se para", "atraido por". Desde o berço vem carregada de alteridade - que vem de nossa necessidade de interagir e interdepender de outros -, de movimento, constante, e abrangência ( no sentido de estender, desdobrar). Complexo. Bem mais ou tanto mais que desenvolver uma.
Bem, mas vamos ao caso. Assusto-me com algumas tendências, principalmente de moda. A magreza exagerada das meninas me assusta, ( ok, não estou defendendo meus quilos a mais...). Comentava isso com meu filho outro dia no shopping. Com suas calças skinny, tais figuras mais parecem garças. Mal conseguem andar direito - não sei se pelas calças super justas, pela fraqueza das pernas ou pelos saltos exagerados. E estou falando de meninas, de 12, 13, 14, 15 anos, quando eu ainda brincava de bonecas (ok, sou - ou fui - atrasada...). Esse tipo de mania, diria, que prejudica, assusta. Mas também não sou a favor de usar a moda desacabida - no sentido de não caber, literalmente - como mulheres de perna grossa de leggings de tigresa ou berrantemente brilhantes. Nem piercing em umbigo de quem tem "barriga" (ok, todas temos, mas eu não usaria!! - risos). Vemos - e muitas vezes compramos - coisas e ideias que não nos cabem, talvez pelo simples medo de nos sentirmos excluidas. Fora de moda, diziam os antigos. Out, dizem os atuais.
Gosto das propagandas que me fazem gostar mais de mim mesma. De que temos todas alguma beleza, a nossa beleza, única. Com a idade que temos e suas tantas dobras e vincos. Com o rosto que temos, marcado pelas rugas da vida. Com o corpo que temos porque decidimos pelo pudim após o almoço - ou o pote de sorvete quando necessitadas (por excesso ou falta). Não uma tendência, nem uma moda (a tal tendência, que deu certo). Não o cabelo da atriz quando em cena, mas quando ela acorda. Bom senso e cuidar-se nunca são demais. E uma boa olhada no todo antes de sair...
Hoje desisti de ter cabelo liso. Assumi meus ondulados, quase selvagens - às vezes meio caninos até - e me sinto bem. E faço umas leves mechas para disfarçar a idade que chega. Só não quero me olhar no espelho e ser mais uma (ligue a tv, só da cabelo escuro na raiz e claro nas pontas...). Hoje desisti de ter o peso de solteira. Descobri que me envelhece, não sei se pelo rosto que encolhe ou pela tristeza de não saciar a gula. Acho que fica mais saudável me cuidar quando quero e comer sobremesa quando em companhia feliz. Caminhar para deixar as partes duras - e o ânimo em dia - e não ter que fechar tanto a boca. Pintar bem para realçar meus olhos "da cor do mar" como dizia minha mãe. E , ah, sorrir, muito e sempre, o que me deixa mais bonita (sorria com vontade e veja como atrai olhares, feito mini saia!). E rir muito, de mim e da vida, porque só assim me reconheço. E me abro para amar.
Olho-me no espelho e tento me gostar mais. Aceito a idade e fujo da tendência, se ela não me satisfaz. Até porque ela passa, e eu quero mais é ficar!

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Sexta


Sexta. Dia de estar comigo mesma, longe de tantas coisas das quais quero fugir - ou me isolar. E perto de tantas outras que amo. Muito. Poderia escrever "cesta". Cheia. Cesta cheia de coisas boas. De horas para me amar e ser.
Cá estou eu sob o céu de Porto Alegre, longe da minha casa, dentro da outra. Mas, bah, tchê, como ela me recebe bem! Fico aqui lendo, estudando, preparando-me para mais um dia - seria melhor dizer um bloco - de aula. De aprender, apreender, saber. Dia de ser bem recebida. Inclusive pela vida.
Tenho fome, a vida bem sabe. Fome de tudo. Uma fome que não passa, só aumenta. Um apetite voraz. De cheiros, gostos, gozos. Fome da palavra bem dita e bem recebida. Fome do que não sei, mas aprendo. Fome de mim. Fome de me ser por inteira. De ser, sem ser reprimida. De me saber feliz, vivendo, simplesmente. Fome de vida bem vivida. Degusto o que me vem, mas não sem antes saborear cada gesto, cada gole, cada mastigar. Engulo a coisa já sabida, deglutida, amada. Que amo amar.
Hoje é sexta, minha cesta cheia. Cheia de esperança, cheia de curiosidade, cheia de ansiedade de viver. E para brincar com meu velho e bom português, talvez eu faça minha sesta depois de almoçar...Merecida!

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Segredo


Ah, como seria bom se a gente simplificasse as coisas. Pelo menos algumas.Tenho conseguido algumas façanhas aqui em casa, como na alimentação (pouca em quantidade e opções). E na minha vida, como dividir tarefas. Ou priorizar algumas coisas, deixando outras para depois. E simplesmente deixando outras de lado, tamanha inutilidade. E não me sentindo tão culpada por estar tomando um café ou um sorvete no meio da tarde. Quem sabe um cinema.
Pensei nisso arrumando a mala para mais uma de minhas viagens quinzenais. Difícil. Vai que o tempo muda, vai que aparece algum compromisso, vai que aparece um imprevisto. Será que vai estar quente? Ou vai esfriar? Será que chove? E se eu me sujar?
E, pior ainda: que sapatos eu levo? Minha tara por eles, tanto pelo conforto quanto pela aparência, o delírio pela perfeita combinação, já me trouxe boas dores de cabeça. E muitos fechos de mala difíceis de fechar. Paro para pensar em quanto tempo perco com futilidades. Ou seria uma forma de me cuidar? Deve ser porque aproveito qualquer saída de casa para me amar. Sozinha, ainda, tanto melhor. Terei tempo de me estudar, olhar no espelho sem ter que dividir a atenção com ninguém, sem responder ao filho onde o casaco dele está. Sem lembrá-lo de levar o casaco. Ver minha pele, cuidar de meu cabelo, ou simplesmente sair como quero.
Viajar me faz bem. Administrar meu tempo comigo mesma. Fazer dele o que quero, meu presente. Deitar em algum canto qualquer e ler. Comer na hora que quiser. E o que quiser. E se quiser. Tomar banho demorado. Tomar sorvete sem me culpar. Sair a caminhar. Ou simplesmente ficar. Sentar para conversar. Namorar a vida, me enamorar.
Viver, vivenciar. Me ser. Meu ser. Ser eu, para variar.
É, mas da necessaire, cheia, não me livro. Vício. Nada melhor do que um spa para começar...

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Maratona


Tive um dia super corrido (é, estou eu aqui, as oito horas da noite, tentando desabafar...) em semana já curta (Porto Alegre me espera!). Maratona, aqui e lá.
Fui chamada para uns projetos novos, que me trazem a esperança perdida junto a outros tantos que me deixaram para trás. Junte-se a isso a teimosia de querer andar - quase correr - logo cedo. E as tarefas, por vezes intermináveis, de ser mãe. Tenho essa mania, triste, mas minha, de deixar tudo para fazer num dia só. Um dia de uma lista interminável: acordar, dar café, correr, reunião, costureira, sapateiro, compras, buscar filho, almoçar, trabalhar, cabelo do filho, roupa da festa, livraria, presente, aula de inglês (Dele. Eu já desisti de aprender). Aproveito o raro momento de silêncio enquanto ele toma banho e escrevo. Melhor: passo meu dia - e eu - a limpo. Vejo que ficaram rascunhos para resolver amanhã.
Ele ri, mas sempre falo que Deus errou no projeto. Mãe deveria ser como o polvo: oito braços. Com tentáculos para segurar as coisas, longos para alcançar outras. E de quebra aquele líquido preto e viscoso para afastar os possíveis "predadores", sejam eles atos do outro ou pensamentos meus. Só não queria aquela cara feia. Nem a cabeça tão grande (quanto maior, mais coisa inútil cabe, feito armário...).
E a cabeça não pára: semana que vem tem mais - médico, veterinária, compras, trabalho, estudo. E amanhã viajo. Mas antes disso, casa ajeitada, comida comprada, geladeira cheia, agenda acertada. Conversa com filho (é , já está na era das festinhas...). Não bebe. Nem aceita. Foge da confusão, da muita gente. E assim vai...Daqui a pouco ele desce e me pede janta. Sentamos, conversamos. Como damos conta, nós, mulheres?
Amanhã vai ser difícil. Amanhã tenho que lembrar também de mim. Fica por último a mala a arrumar, sei lá quando. Ainda bem que já adiantei a unha.
Tem dias que não vejo a hora de sentar no ônibus. E ter, desde ali, por longas nove horas, só, eu e eu. Um desligar dos outros, um pensar mais em mim (mãe não desliga...). Um lembrar que, além de governanta do lar e mãe, sou alguém. Sou mulher. Alguém que espera muito mais da vida do que ela pode querer me dar. E vai, pois estou a conquistar.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Pedido


Dentro de toda ingenuidade que me cabe, tenho muitas superstições em mim. Isso me faz voltar ao tempo que soprava essa plantinha a esperar que me realizasse pedidos a cada mini paraquedas. Ou quebrando osso de galinha, coisa que fazia, invariavelmente, com meu pai, que me enganava pegando a parte mais firme. E eram tão poucos pedidos, e tão simples...
Hoje me pego fazendo o mesmo, de outras formas. Conversando com meu anjo protetor, com meu "São Chico", real e imaginário, por exemplo. E ai vem a culpa, ou a dúvida de ser merecedora. Sei que sou e tento assumir aos poucos, para conseguir enganar a mim mesma.
Fugir do padrão enraizado em mim.
Ao contrário dos que pedem farturas e fortunas, peço sossego. Um sossego feito de uma auto suficiência que preciso. Um sossego da paz interior que procuro. Um sossego de me saber dona de mim. De não depender do outro para ser feliz - tirando dele o peso de me ser - e sim de fazer do outro parte de minha felicidade, eu completa. De poder fazer escolhas e poder segui-las. O sossego, enfim, de me saber correta, comigo mesma e com meu mundo.
Rôo as unhas, mal sinal. Aceito minha insegurança, já que vivo um momento ímpar, jamais vivido. Penso nisso como uma fraqueza passageira, culpo hormônios, escravizo o passar dos dias. Culpo o dia chuvoso, a estação indefinida. Estou como o Outono, penso, divertindo-me com minha ousadia: viradas de tempo, chuvas não esperadas, manhas frias e tardes quentes. Noites geladas, se não debaixo do cobertor do amor.
É , fora de mim faz frio. Tempo de levar casaquinho...

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Bagagem


Segunda - feira, das muitas que ainda terei. Acabo de chegar de viagem de Porto Alegre, após uma noite dormida aos picados no para e anda de um ônibus. Chego em casa e vejo a revirada do final de semana na pia e no chão dos quartos. Mas não ligo, estou bem.
Sei o que quero e sei que vou conseguir.
Acima de estar estudando o que quero e onde quero, e acima de estar simplesmente estudando, o que por si só já seria uma benção, vejo-me outra. Tive um final de semana abençoado pelo tempo e pela vida. O sol de outono, acompanhado de seu delicioso vento. A noite fresca anunciando o inverno. Um bem viver entre a correria do curso e a calmaria da vida. Vejo estes dias longe de casa como férias. Inegável isso. E sem culpas. E fico aqui pensando se não poderia ser sempre assim. Ou quanto tempo ainda vou esperar por isso.Viver bem ao lado de quem se ama. Viver, na verdade, coisa que não tenho feito por aqui.
Longe de estar me desfazendo das coisas boas que aqui tenho, resumidas a um filho e um cachorro, quero mais. Somar a eles a mulher que sou. Viver-me intensamente, longe de cobranças e desilusões. Sentir-me, coisa que abandonei. Ser o que sempre fui, embora guardada em algum vazio do caminho.
E nessa nova vida, vitórias. A do ser reconhecida, a do ser respeitada. A de ser algo, ser alguém. A de ter voz ativa. A que perde o medo das pequenas e das grandes batalhas. A corajosa que enfrenta o desconhecido, feliz em conhecer novas coisas, feliz em se reconhecer nelas. A que ri quando quer e onde quer. A que ri como gosta, o que já é um prêmio. A que fala o que pensa. A que é ouvida. A que entende e é entendida. E acima de tudo, a que assume suas rédeas, mesmo que aos poucos, suas rédeas de ser mulher.
É segunda-feira e chove. O dia combina comigo. Olho a agenda e leio as anotações, ajeito o pensamento. Mas já de olho na próxima corrida.

domingo, 23 de maio de 2010

Doçuras


Eu, como boa gulosa que sou, acho que comida também é poema. Deliciam-me pela visão, tato, olfato e , claro, gosto. Ficam em minha memória gustativa por um bom tempo, senão eternamente. Passeiam em minha mente como quadros a serem lembrados. E amo pintá-los. Ontem, experimentei uma costelinha de porco com molho agridoce. Para acompanhar, batatinhas fritas - ou assadas, sei lá - com um tempero meio apimentado, tipo farofa, sei lá. Para finalizar a festa, uma sobremesa com a combinação louca de quente e gelado: uma mini torta de amêndoas, servida quente - melhor dizer tinindo - pois vinha numa espécie de chapa quente, que recebia uma bola generosa de sorvete de creme. Uma calda quente servida na hora , sobre o sorvete, dava ares de lava de vulcão, escorrendo sobre o gelado, fervendo ao encontrar a chapa. Ares de fantasia, senão mágica.
Hoje um almoço despretensioso, achado ao acaso nos arredores de um passeio mais desprentensioso ainda. Nele, surpresas com mandioca e bacon, batatas suíças , beringelas recheadas e uma deliciosa carne de panela. E para fechar a orgia do dia, uma mesa farta de doce e de delícias: pudim de clara, merengues com creme, manjar de côco com ameixas pretas.
Não estou eu aqui para deixar ninguém com água na boca, mas achar esses presentes pelo caminho, quanto menos esperados. Achá-los por indicação ou na beirada do caminho, e curtir lugares e sabores, bela festa. E se em ótima companhia, perfeição dos fatos. Boa conversa, boa comida e muito riso. Nada mais perfeito para um domingo "qualquer".
Doces momentos, sejam eles doces ou salgados. Melhor ainda se inesperados. Guardo-os me meu caderninho diário de bem viver.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Saldo


Eu trouxe o sol para Porto Alegre (risos). Ou seria o contrário? Engraçado como me sinto bem aqui. Mesmo as coisas mais diferentes já me parecem velhas conhecidas. Vago pela cidade dita grande com a destreza de quem passeia numa vila. Apesar da velha e nada aconchegante rodoviária ( igualzinha desde minha infância...voltei no tempo!).
Mas, enfim, aqui estou. Outra etapa de meu curso, mais uma que vencerei com toda essa boa vontade que me vem. Outra etapa de me ser, apesar dos contras. Mas os a favor são bem maiores, penso eu. O que quero disso tudo? Bem o sei: me ser. Voltar a ser a Joyce de sempre, esquecida na gaveta lacrada pelo se deixar levar. O mesmo deixar levar que hoje me pega pela mão e me diz: vai! Paro para pensar como é a vida, quais caminhos peguei, porque os peguei. Mas antes de ficar pensativa ou magoada, penso que foi o meu melhor. Esse é o meu caminho a trilhar. Um caminho de me ser, de batalhar por mim mesma, deixado de lado frescuras e regras que não me deram muitas chances de ser feliz - a não ser a maravilhosa experiência de ser mãe.
Mas não pense que é fácil. Não é. Nunca foi e nunca será. Porque a vida é uma guerra feita de muitas batalhas, muitos minutos, dias, meses e anos. E nunca saberemos se pegamos, enfim, o caminho certo. E nem sei se valerá a pena rever tudo quando chegar a minha hora. Só quero sorrir e dizer a mim mesma: vivi!
Cá estou eu em Porto Alegre. Uma Porto Alegre que me recebeu logo cedo com chuva fina e fria. Terra de Quintana e tantos outros, um imã. E que agora me aquece. Vou tomar um café. Rever minhas coisas e me preparar para mais um dia. Mais uma batalha. Mais uma etapa nessa minha busca de ser feliz. E estou!

Mas sigo. Fiz minha escolha em ser feliz.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Assumindo


Pelo que vi no Google, já é mania nacional. Falo dos adesivos para carros, aqueles, onde aparecem o pai, a mãe, os filhos, os pets e sabe mais aonde chegará com essa criatividade brasileira. E virou a mais nova diversão minha e de meu filho: olhar os carros e rir do que o pessoal está colocando. A maioria põe o trivial: mãe, pai, filhos. Os mais amplos de sentimentos pões os pets. Já vimos pai, mãe e uns 6 filhos, além de cães, gatos e até aquários com peixes. E hoje pela manhã, pasmem, uma camionete trazia o que achamos o máximo: pai, filha e seis mulheres (é, você não leu mal: seis mulheres). Nossa brincadeira matinal, mal abrindo o sol a caminho do colégio era pensar nas tantas e tantas possibilidades: dois pais, duas mães, casal e cada um com sua família. As variações são tantas, de normais a polêmicas,
que rimos em alto e bom som. Tem jeito melhor de começar o dia?
No caminho de volta, já sozinha no carro, vinha pensando nas minhas possibilidades. Se o carro fosse meu, gostaria de colocar meu filho, meu cachorro e o aquário com dois peixes, nova atração da casa. Se tivesse mais liberdade, ah, caberia muito mais gente. Um amor e suas preciosidades de estimação, muitos, de preferência, tantos coubessem na casa e em nós. Mais uma filha , quem sabe, mesmo "emprestada", meu sonho de consumo. Quem sabe um passarinho, meu desejo antigo. E poderia ampliar para meus pais, minha querida irmã, quem sabe irmãos em uma nova fase. E sobrinhos, legítimos ou conquistados. Se pudesse acrescentar novas modas, colocaria um coração entre cada personagem colada em mim. Quem sabe livros, minha grande paixão. Talvez copiasse os itens do chaveiro que trago na bolsa: cão, filho, um amor e um lar.
Eu, enfim , completa. E cheia de amor para dar.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Alerta


"Diga-me e vou esquecer; mostre-me e vou me lembrar; envolva-me e eu vou compreender".
Essa frase acompanhou toda a minha caminhada matinal, aproveitando a companhia do sol. Nem sei onde li, mas acho que em um dos tantos textos que ando passando os olhos. Sei de sua veracidade e a aplico em minha vida sempre que dá. A gente que é mãe sabe a diferença entre falar algo - mesmo que sejam tantas e tantas vezes - , mostrar ou enfim, fazer-se entender. Tenho usado muito dessa técnica para envolver meu filho ainda mais na vida, já que me restam poucos anos de mãe em tempo integral. Procuro fazê-lo ver a realidade das coisas, o quanto não nos importamos com coisas que farão falta um dia. Eu que luto para que ele faça um belo intercâmbio e se descole dos pais por uns meses, sei bem onde pretendo chegar. Sei bem onde pretendo que ele chegue.
A mordomia nos deixa acostumados. Mal acostumados. Há sempre a certeza de que alguém vai completar a nossa ação, resolver nosso problema, fazer o que nós deveríamos ter feito. Então é chegado o dia que as coisas não acontecem. Descobre-se que as roupas sujas não são auto laváveis - nem auto secáveis ou auto passáveis - , nem ao menos têm pernas para irem sozinhas para o cesto de roupas sujas. Que as comidas e louças deixadas na mesa ficarão lá até criarem musgos. E bichos. Até virarem mini planetas habitados por seres nada sadios. Que o papel jogado no chão ali estará quando voltarmos, assim como a cama desarrumada quando chegarmos cansados. Nem o café estará pronto quando levantarmos, como sempre atrasados - se levantarmos, já que ninguém nos acordará com um bom dia.
Pior que isso: não teremos, infinitamente, mães para resolver o que devemos vestir. Lembrar do agasalho, nem do guarda-chuva. Nem cobrar se estudamos o suficiente para a prova de amanhã. Nem ao menos o que devemos fazer, frente ao desconhecido. Nem chorar por nós na hora da indecisão ou dor. Talvez estejam do outro lado da linha telefônica a nos acalmar, orientar, sugerir, xingar, mas nada além disso. Talvez chorem baixinho e sozinhas, mas bem longe de nossas vistas. A última escolha, a última palavra será, feliz ou infelizmente, nossa.
Nosso jogo, enfim, começado.
Ah, mães, quanta falta fazem. Pais também, quando o são de verdade. Mas estaremos ali, a postos, sempre que precisarem. E estaremos vigilantes, alertas, sem que saibam. Só estaremos cuidando um pouco mais de nós também...quem sabe arrumamos alguém que nos cuide?

terça-feira, 18 de maio de 2010

Acordo


Parece chavão, ou frase de político, mas a frase "o que se leva dessa vida é a vida que se leva" tem martelado a minha cabeça. Nas boas e não tão boas horas. Reconheço a lei de ação -reação. Por isso tento fazer o que acho melhor pelas coisas, apesar de nem sempre meu melhor seja o melhor para o outro. Reconheço a lei da atração. E sei bem como a minha cabecinha trabalha em cima disso, a favor ou contra. E reconheço mais ainda, com firma autenticada, que as coisas que nos são boas levam um tempo para chegar. Não vêm de graça. Revejo meus últimos meses e vejo o quanto me custaram - e custam - , o quanto me pesam. Sei bem o que quero - e não é muita coisa além de ser e me respeitar, ser e me amar. Parece mais piegas ainda mas, tendo saúde e sendo respeitada - e se respeitar - , acho que o resto todo vem.
Tento limpar minha mente, apesar dos pesares. Tento aceitar a coisas na vagarosidade do tempo, apesar de minha pressa de me ser de novo. Tento ter calma, mas me bate a ânsia conhecida. Parece que temos relógios diferentes, eu e minha vida. Relógios que hão, um dia, sincronizar-se. A vida e eu num mesmo bater, num mesmo "tic-tac-ar".
Os dias que quero rápidos, demoram. Os dias que quero vagarosos, correm. Paro para pensar que é assim mesmo, para ver se aumento minha taxa de aceitação. Coisas chatas, desinteressadas, custam a passar - como uma aula mal dada. Coisas mágicas, que me fazer brilhar, passam a galope. Ou na velocidade da luz. Injusto, penso, mas o que se há de fazer?
Paro a pensar numa forma de driblar a vida. Fazer cara de descontente com as coisas boas, cara de feliz com as coisas chatas.
Quem sabe assim eu a engano e ela me faz parar o tempo no dia de sol.
Ou seria melhor fazer amizade com o tempo?
Quem sabe ele mesmo se encarrega de driblar a vida...



És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo tempo tempo tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo tempo tempo tempo...
Compositor de destinos
Tambor de todos os ritmos
Tempo tempo tempo tempo
Entro num acordo contigo
Tempo tempo tempo tempo...
Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo tempo tempo tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo tempo tempo tempo...
Que sejas ainda mais vivo
No som do meu estribilho
Tempo tempo tempo tempo
Ouve bem o que te digo
Tempo tempo tempo tempo...
Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo tempo tempo tempo
Quando o tempo for propício
Tempo tempo tempo tempo...
De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definido
Tempo tempo tempo tempo
E eu espalhe benefícios
Tempo tempo tempo tempo...
O que usaremos prá isso
Fica guardado em sigilo
Tempo tempo tempo tempo
Apenas contigo e comigo
Tempo tempo tempo tempo...
E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo tempo tempo tempo
Não serei nem terás sido
Tempo tempo tempo tempo...
Ainda assim acredito
Ser possível reunirmo-nos
Tempo tempo tempo tempo
Num outro nível de vínculo
Tempo tempo tempo tempo...
Portanto peço-te aquilo
E te ofereço elogios
Tempo tempo tempo tempo
Nas rimas do meu estilo
Tempo tempo tempo tempo...

(Oração ao tempo, Caetano Veloso)

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Possibility


Sempre achei que, se estamos chateados, achando nossa vida uma grande armadilha, basta olhar para o lado: sempre há alguém em pior situação.
Uma das coisas que mais chamou a minha atenção na última novela de Manoel Carlos (adoro os diálogos dele...mas, enfim, acabou, e isso me deixa aliviada: mais tempo para ser) era o fechamento do capítulo do dia com um depoimento de quem teria sofrido na vida, ou por problemas de saúde ou por puro preconceito. Culminou com o relato de vida do hoje maestro João Carlos Martins. Um lutador. Pianista, perdeu o movimento das mão por acidente, assalto e , para finalizar, tumor. A vida dizendo não e ele teimando que sim. Ver em seu rosto a emoção da vitória, ah, foi impagável.
E sempre pensei assim. Deve ser por isso que nada me abala muito. Sempre tem gente em pior situação. Basta olhar para o lado. Reforcei a ideia assistindo uma reprise de "Troca de Família", um programa da televisão aberta onde as mães são trocadas por um certo período. Mostrou a troca de uma mulher que tinha tudo na vida - por ter batalhado muito - por uma que não tinha "nada". Vi pouco, mas o pouco que vi deu a nítida sensação de que podemos melhorar. Pelo menos em tudo aquilo que nos achamos aquém de nossas expectativas, sejam elas materiais ou espirituais. E volto a dizer: se temos saúde - do corpo e da mente - o resto se corre trás. Basta perder o medo. Basta levar um susto, como sempre digo e como falou uma das mulheres envolvidas na trama. Ser tirada da zona de conforto, passar por um confronto com a vida ou consigo mesmo. Tudo é válido, tudo nos acorda, tudo nos faz ver a vida de outro ângulo, de outra forma. Um belo balde dágua,
disso precisamos, vez por outra.
Falo isso de carteirinha. Em minhas conversas com meu filho - e são tantas e cada vez mais complexas - tento incutir nele tais valores, do que realmente importa na vida. Se ter ou ser. E de como esses dois lados deveriam estar equilibrados. Em tempos que pais pagam para se sentir melhores, sei bem do que estou falando.
Equilíbrio. Essa é a palavra que tenho procurado. Vejo no ter exagerado, escravidão. Viramos meros administradores, quando não escravos, quando não viciados, cada dia querendo mais. Prefiro, de longe, o ser : ser compreendida, ser notada, ser respeitada. Ser eu mesma e mesmo assim ser amada. Só isso já me dá um gás longe de se acabar. Um gás que me impulsiona a correr atrás do que acredito, do que quero para mim. Ser me faz buscar ainda mais o que sou. Um ter em mim a consciência de até onde posso chegar.
Ou não, sem limites.

domingo, 16 de maio de 2010

Lição


Tomo meu café assistindo aquele que é para mim o melhor programa da televisão brasileira: Globo Rural. Como telespectadora de poucos e como crítica de tudo, acho o programa instrutivo para tudo o que há na vida. Falam de cultivos diferenciados a como fazer um bom bolo de fubá. Mostram o viver a vida de forma simples, e nisso, muito a aprender. Tiram do tema o que tem de melhor: a natureza como maior mestra, para tudo.
Enfim. O tema central de hoje foi sobre a doma de cavalos e o uso deles para terapias. Como entrevistado, Monty Roberts, um homem da qual eu nunca havia ouvido falar, mas já admirei. Tinha a simplicidade tão necessária a um domador de cavalos e um dom, só dele, de domar sem violência. E sem mimos, como cenouras (viciam, aprendi), coisas que usamos tanto em nosso mundo "moderno", compensaçõess do que não somos ou não sabemos ou podemos ser.
Roberts falou de sua infância sofrida - apanhava do pai, também domador, com correntes. E se tratava cavalgando, uma prova viva de como a equoterapia funciona. Aprendeu ele a tratar dos animais com carinho, ao invés de seguir o exemplo do pai. Demonstrou como fazê-lo, ali, em frente a grande platéia, inclusive com um animal traumatizado por maus tratos. Não se cansou de falar que violência só gera violência. E que o contrário é ainda mais verdadeiro: amor gera amor. Vimos, ali, como até os animais respondem bem a carinho. Foi incrível ver a emoção do domador à resposta positiva no outro. E da platéia.
Emocionou-me sua simples lição. E as explicações do porque o cavalo - e outros tantos animais - é usado com tanto sucesso na terapia de crianças e adultos com deficiências. De como a natureza é sábia: o animal passa seus tantos estímulos - mais de 2 mil - para seu parceiro enquanto anda. E dá, além disso, lições de confiança, amizade, uma troca sem fim. Dá ao homem o que recebe. Eu sei bem o quanto melhoro ao abraçar um cão...
Quanta coisa a aprender disso. Ação e reação, falam os professores de química e física. Reações ruins trazendo outras tantas. Feito avalanche. Um probleminha aqui pode virar uma tragédia romana lá. Uma palavra mal dita, virar um maldito texto, um discurso sem fim. Eu, otimista até a porta do inferno, prefiro pensar o contrário: coisas boas trazem coisas melhores ainda. Não há como ser imune a um ato positivo qualquer - mesmo que não se perceba fazendo, mesmo que o outro não perceba. Não há como reclamar de um bom sorriso, de um carinho com a mão. Não há como recusar um bom abraço. Se não correspondido, pelo menos passado. Quem sabe vira uma bola de neve de bem querer?
Por isso sigo dando meu melhor. Se não tenho, ainda, as melhores palavras, dou meu silêncio. Uso minha reclusão para repensar, para não cuspir fogo pela boca. Porque lembro que fogo traz fogo, e que uma simples fagulha pode incendiar todo um quarteirão.
Senão uma vida.

Possibilidades


Sempre achei que, se estamos chateados, achando nossa vida uma grande armadilha, basta olhar para o lado: sempre há alguém em pior situação.
Uma das coisas que mais chamou a minha atenção na última novela de Manoel Carlos (adoro os diálogos dele...mas, enfim, acabou, e isso me deixa aliviada: mais tempo para ser) era o fechamento do capítulo do dia com um depoimento de quem teria sofrido na vida, ou por problemas de saúde ou por puro preconceito. Culminou com o relato de vida do hoje maestro João Carlos Martins. Um lutador. Pianista, perdeu o movimento das mão por acidente, assalto e , para finalizar, tumor. A vida dizendo não e ele teimando que sim. Ver em seu rosto a emoção da vitória, ah, foi impagável.
E sempre pensei assim. Deve ser por isso que nada me abala muito. Sempre tem gente em pior situação. Basta olhar para o lado. Reforcei a ideia assistindo uma reprise de "Troca de Família", um programa da televisão aberta onde as mães são trocadas por um certo período. Mostrou a troca de uma mulher que tinha tudo na vida - por ter batalhado muito - por uma que não tinha "nada". Vi pouco, mas o pouco que vi deu a nítida sensação de que podemos melhorar. Pelo menos em tudo aquilo que nos achamos aquém de nossas expectativas, sejam elas materiais ou espirituais. E volto a dizer: se temos saúde - do corpo e da mente - o resto se corre trás. Basta perder o medo. Basta levar um susto, como sempre digo e como falou uma das mulheres envolvidas na trama. Ser tirada da zona de conforto, passar por um confronto com a vida ou consigo mesmo. Tudo é válido, tudo nos acorda, tudo nos faz ver a vida de outro ângulo, de outra forma. Um belo balde dágua, disso precisamos, vez por outra.
Falo isso de carteirinha. Em minhas conversas com meu filho - e são tantas e cada vez mais complexas - tento incutir nele tais valores, do que realmente importa na vida. Se ter ou ser. E de como esses dois lados deveriam estar equilibrados. Em tempos que pais pagam para se sentir melhores, sei bem do que estou falando.
Equilíbrio. Essa é a palavra que tenho procurado. Vejo no ter exagerado, escravidão. Viramos meros administradores, quando não escravos, quando não viciados, cada dia querendo mais. Prefiro, de longe, o ser : ser compreendida, ser notada, ser respeitada. Ser eu mesma e mesmo assim ser amada. Só isso já me dá um gás longe de se acabar. Um gás que me impulsiona a correr atrás do que acredito, do que quero para mim. Ser me faz buscar ainda mais o que sou. Um ter em mim a consciência de até onde posso chegar. Ou não, sem limites.

sábado, 15 de maio de 2010

Jejum



Hoje estou em jejum, de comida e palavras. Talvez um ato impensado, diriam. Mas não. Não como porque não me entra nada, não falo porque iria falar o que não devo. Não como porque nada me apetece (é, já tentei falar isso para meu estômago, que ronca...). Não falo porque nada do que me apetece pode, neste momento, ser falado. E porque nem sempre os ouvidos que devem nos escutar estão atentos. Aliás, quase nunca. Ouvidos que nos são atentos
são ouvidos que nos amam...
Hoje estou em jejum de coisas boas , e com ele, de boas ideias. Acho, pelo menos em mim, que elas vem se estou bem. Não há como se ter boas ideias se se está em jejum de coisas felizes. Meu estomago ronca, minha cabeça dói, meu ombro está pesando, e eu aqui teclando para ver se exorcizo o problema. Ou a tristeza. Engraçado isso - ou deveria dizer triste? As pessoas nos magoam e nós ficamos tristes. Elas ficam bem, e nós, bem mal. Elas dormem, nós apenas ensaiamos tão ato. Injusto, penso. Burrice, melhor dizer. Estou.
Pigarreio. Tem algo na minha garganta. Penso no livro que tanto leio, sobre a forma como o corpo se defende das coisas da vida. E tudo que está relacionado a garganta, ao falar, vem exatamente porque não falamos. Porque não dizemos o que pensamos, não deixamos livre o que está em nosso coração. Aprisionando nossa alma. E prendemos, palavras e sentimentos na garganta, fazendo dela, gaiola.
Mas relembro Vinícius em seu "O dia da criação" e relaxo:
"Hoje é sábado, amanhã é domingo . Não há nada como o tempo para passar".
Tomara passe rápido. Minha boca - e o que sai de dentro dela - são muito lindos para ficarem trancafiados.


sexta-feira, 14 de maio de 2010

São Chico


Em matéria de espiritualidade, sou um bicho estranho. Sou Metodista de batismo - em agradecimento a uma pessoa que ajudou muito à minha mãe (só eu e ela não somos católicas em minha casa). Já frequentei a Igreja Católica, a Luterana, a Metodista, Centros Espíritas , e até já participei da Mahikari (imposição de mãos). Gosto do silêncio das capelas, do cheiro de incenso, da luz das velas. Gosto do ar de mistério, da paz que encontro lá.
Não sou contra nada, nem ninguém. Respeito e admiro quem o faz. Respeito e admiro os protetores de todos (com uma pontinha de inveja, até). Acredito numa força maior, acho que faz diferença para quem acredita, e que , pensando em causas mais nobres, é melhor as pessoas estarem frequentando cultos do que bares, por exemplo (e desde que sejam melhores em outros setores da vida também...).
E, puxando meu lado criança, de menina bem educada e crédula, acredito em anjo da guarda, para quem peço e agradeço em minhas orações (acho que seria melhor chamar de conversa...). Vejo esse momento como uma parada no dia, uma pequena reflexão, uma dose de fé em mim mesma, ou em alguém que está precisando. Acredito em destinos traçados e nas surpresas da vida - e tenho tido cada vez mais certeza disso, de como os caminhos se abrem, se complementam, e de como as respostas vêm, se estamos atentos e nos deixamos levar. Ou não, se minha cabeça aposta contra. Do como me protejo dos pensamentos ruins dos outros, das tantas portas fechadas, dos porquês sem resposta. E, confesso, tenho medo de minha força de pensamento: nem sempre a uso em meu favor ( e olha que ela é forte...).
Enfim, essa ladainha serve como introdução para dizer que, apesar disso tudo, gosto das chamadas "vela de sete dias", hábito que peguei com uma das sogras (muitas me serviram mais que os próprios namorados!). Parecem iluminar minhas ideias, fortalecer minhas vontades.
E amo São Francisco de Assis. Já amava a figura alegre, sempre rodeada de animais. E ao saber de sua vida, de sua renúncia e da força da simplicidade nele, apeguei-me. Pelo menos do meu jeito. Não como santo, mas como amigo a quem beijo a testa e faço um carinho.
E pela figura que se apresenta das mais variadas formas. Aliás, já passam de 30. Dá um prazer incrível achá-lo de várias formas. Tenho ele gordo e magérrimo. Dormindo, rezando, abençoando. Triste ou risonho. Até acocorado e deitado de lado. Feito de cerâmica, de madeira e até de pinhão e palito de fósforo (belos presentes! Grata, amigas!). Tenho São Francisco em vários pontos da casa, apesar de concentrado em meu escritório, lugar que, penso, ser mais meu dentro da casa já não tão minha. Tenho minúsculo e enorme. Vejo nele um amigo, uma presença que me traz confiança. Traz alegria onde está. Coisa de quem ama os animais e as crianças.
Como eu.
E nada mais Joyce do que a frase de sua oração quando diz:
"Onde houver tristeza, que eu leve a alegria".
Ah, isso eu sei bem como fazer....

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Paixão


Ainda falando em saberes, sou doida por eles. Outro dia falava de meu sonho de ter tempo só para ler, para estudar. Um período sabático ou ano a fio. Adoro um folhear de livros, saber do que se trata, conhecer o autor. Tirar do livro minhas lições, a forma como o autor escreve, como se expressa diante da vida.
E leio tão pouco perto do que quero saber. Mal de brasileiro, dizem. Serei mais uma? Sem cair na análise dos porquês, abro aqui meu coração. Sou atraída pelo título. Nele, muito do conteúdo, penso, mesmo as traduções e suas transgressões. Depois analiso o resumo, comendo pelas beiradas, enquanto sinto seu cheiro. ( Ah, nada mais perturbador que o cheiro de um livro, antigo ou novo...). Toco suas folhas, sinto meu contato com ele. Deleito-me.
O primeiro namoro é com a capa - tão óbvio, eu, uma ligada no visual, no imediatismo da vida moderna. Depois a rápida leitura das orelhas ( ali, meu primeiro impulso, negação ou interesse). Então, a maciez das folhas, seu toque em meus dedos, sua coloração. Presto atenção até na fonte usada: mostra , para mim, muito do que se quer passar (detesto letras miúdas, embaralham minha mente), timidez ou arrebatamento. Parto, então, ao encontro do autor. Se usa da pedância das difíceis colocações ou se expressa seus pensamentos de forma leve e inteligível. Não gosto de sofrer para ler um livro. Gosto que ele me prenda pela gostosura de o ler, não pela dificuldade de entender. Devoro-o, de me entra bem. Perco a noção do tempo e do espaço. Medito, hiberno, entrego-me sem mediações.
Ah, bons tempos de férias, quando me deixo levar por essa paixão, perdendo a noção das horas!
Só assim, a me ver absolutamente entregue, entendo a colocação de Clarice Lispector:

"Deitada em minha rede com o livro sobre meu colo em extâse purissímo...não sou mais aquela menina com seu livro,mas uma mulher com seu amante..!!"

terça-feira, 11 de maio de 2010

Desabafo


Outro dia assisti uma entrevista com Cristiane Torloni (nem vou aqui desfilar meu entusiasmo pela pessoa e pela atriz. Dava um texto.) , já conhecida por suas frases de efeito "moral". Falava da diferença em ser ignorante e ser burro. Ignorante, falava ela, é a pessoa que não sabe, que ignora o assunto - o que não quer dizer que não possa aprender, que não tenha interesse. E que burra é a pessoa que tem o saber, ou o tem ao alcance das mãos e não faz nada de útil com ele. A que sabe ler, mas não lê, por exemplo.
Achei interessante e atual o tema. Recebo inúmeros e-mails de amigos - muitos até empresários, colunistas, gerentes de alto escalão - e sinto, em todos , a dificuldade com as palavras, tanto em escrever bem quanto em escrever correto. Ou até outros tantos com foto de placas onde o escrever se torna cômico, tamanha chacina do português. Lemos e rimos. Mas até onde vai essa graça?
Fico estarrecida com alguns casos. Por isso me encanto tanto com história de pessoas simples que cresceram na vida ( não usaria aqui a expressão subir na vida porque acho que não cabe). História de pessoas que tinham tudo para não dar em nada , e deram em tudo. Pessoas que lidam com a enxada durante o dia e que lêem seus livros na luz opaca do quarto mal iluminado à noite; livros esses que catam no lixo de alguém, ou pegam na biblioteca da cidade. Ou meninos e meninas que se esforçam e até ganham prêmios de soletração em programas de grande audiência. Ao ver onde e como moram, fico assustada. Fica difícil esconder a admiração e as lágrimas. Ao passo que vejo tantos ditos "letrados" se embaralhando com palavras corriqueiras, que se vê até em cartazes de supermercado. Bastaria que lessem com olhos atentos os inúmeros papéis do dia. E se permanece a dúvida, tão fácil resolver: basta teclar e ver o resultado na busca do computador. Perco a conta de quantas vezes já fiz esse trajeto pelo bem saber. Errar é humano, já diz o ditado, mas...
É , certa está "la Torloni". Ignorância é bem mais fácil de curar do que burrice. Burrice vem da pedância de se achar culto. Aprender, da humildade. Quem se põe humilde diante da vida, aprende. E eu, uma apaixonada - se não tarada - pelo conhecimento do outro, pela palavra bem escrita e bem dita, sei bem onde aperta o meu calo. Sei bem qual é meu imã...

Mais um


Aproveitando a cara de inverno deste Outono, ontem providenciei um sopão de carne, verduras em pedaços e "cabelo de anjo", aquele macarrãozinho finíssimo. Ver meu filho limpando o prato sem deixar de lado "nadica de nada", deu uma satisfação sem fim. Ou várias. Uma pela não negação de verduras, tão própria da idade - uma "aborrescência" que tem vindo de forma engraçada e ajuizada. Outra pelo aceitar o que tem, coisa que admiro. Pratões limpos, sentamos - nós dois e o cachorro - cobertos, todos, pelo velho e macio edredom, a ver (ou tentar) o jornal e a novela (assumo: adoro Manoel Carlos e suas "tiradas"), entre conversar, assistir a programação ( onde aproveito para puxar assuntos de relevância) e rir.
Isso mesmo, rir. Não há um só momento juntos que meu filho não tente formas de me fazer rir. Diz que adora o som de minha risada - melhor ainda se for de minha gargalhada. Vejo o quanto isso o faz feliz. E finalizamos com um gostos abraço - quando não um colo improvisado - dado ao tamanho da "criança".
Disso que realmente gosto. Destes momentos simples, não esperados e tão esperados, do abraço bem dado, da gargalhada espontânea - seja lá qual motivo. Pode vir de uma observação, pode vir de um ato inesperado. De umas cócegas arrancadas. Da frase repetitiva, mas que a cada vez que pronunciada, faz vir à tona tanta coisa. Por sintonia, quando basta um olhar para o outro e ela vir, alegremente tomando o espaço do falar. Fazemos um jogo de caretas - mais ele do que eu - pelo simples prazer de ver o outro feliz. E o cachorro ali, entre participar ( morre de ciúmes de nós!) ou "reclamar" porque só quer deitar em meu colo. Isso, sim, poderia ser chamada de terapia em grupo! Espontânea terapia que "passa a limpo" o dia, como se deixássemos ali toda e qualquer chatice do dia. E se é mesmo que riso produz serotonina e sei lá mais o que,
fazemos nossa parte.
Estar com alguém que eu goste e que me goste. Conviver. Conversar - mesmo assuntos sérios, aos quais escuto com gosto, se me são colocados como tal. E finalizar com um riso, um abraço, um beijo bem dado, de puro carinho ou apaixonado, indicando que o saldo foi positivo. Alegra meu dia, faz esquecer o que não é tão colorido na vida.
Subo para dormir , olho-me no espelho, e atrás da cara cansada e de tantos problemas a resolver, vejo um saldo positivo por mais um dia. Feliz. Mais uma moeda de crédito em meu cofrinho da vida...

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Positivo


Hoje foi um dia daqueles nada rotineiros - até virar ( e ai será bem mais confortável). Carona até o aeroporto, vôo logo cedo, táxi, ônibus, táxi, casa. Fora uma brevíssima cochilada no balançar da estrada, estou inteira. E viva. Nisso vinha pensando no caminho. Estou feliz, quando muitos interpelam se não vou cansar dessa maratona de, quinzenalmente , viajar tantas horas para estudar - e em plenos finais de semana. Aposto em mim, e não no cansaço.
Fiz um raciocínio rápido, enquanto chacoalhava na estrada: se, como dizem, não existe felicidade, e sim momentos felizes, assumo-me feliz. Se quebrar a monotonia dos dias e se lançar no novo me torna nova - ou seja, me renova - ponto para mim. Toda renovação, ou toda "re - nova-ação", ou seja, todo refazer de algo novo, renova-me. E me faz feliz. Se deixar de lado as imposições do dia, as chatices do nada e correr atrás do que quero e acredito ser o melhor para mim - bingo! - sou outra. Ou a mesma, melhorada. Se , conforme Einstein, meu cérebro cresce a cada descoberta e , melhor ainda, não volta ao formato normal, vou amar: tomara saia do formato kitnet para, quem sabe, um triplex de frente para o mar.
Enfrentar as oposições, a não possibilidade, os medos me fez - e faz - melhor. Dar o primeiro passo sempre é difícil - sabemos disso desde a prima infância. ( quem não lembra da louca sensação de ser dono do mundo depois de dominar o caminhar? Ou o dirigir?) Medos enfrentados, seja de nova vida ou de montanha-russa, tem sempre um sabor especial. A adrenalina que nos domina continua povoando por horas, a boa sensação do enfrentar.
Volto a pensar de forma quase matemática: se estou bem comigo mesma, tudo fica mais fácil. Se tudo fica mais fácil, pouco me abala. Se pouco me abala, quer dizer que meu saldo ao final do dia será positivo. Se meu saldo for positivo, provo que estou feliz. Ou sou. Fácil assim.
Sendo assim, tudo provado, refaço a frase de Guimarães Rosa (*): felicidade é uma questão de enfrentamentos e escolhas. Escolho me ser. Corro para meu porquinho rosa
e deposito lá mais esse crédito.
(*)"Infelicidade é uma questão de prefixo".

domingo, 9 de maio de 2010

Iguais


Dia das Mães. Já liguei para meu filho, que foi reticente - ressentido, talvez, por eu não estar em casa. Já liguei para a minha mãe, feliz que estava à espera do filho
com quem não tem falado muito.
Hoje é dia de restaurantes cheios e flores vendidas nas esquinas, para os mais desantenados. Dia de tortas encomendadas, churrascos feitos por filhos ou maridos. De presentes escolhidos a dedo ou de última hora. De atenções a quem nem sempre lembramos. Alguém que esteve ao nosso lado por anos a fio, dia-a-dia, hora a hora. Dia da motorista-médica-enfermeira-amiga-companheira. Dia da governanta, da professora e faxineira. Dia da amiga e conselheira. Dia da psicóloga. Da que espera o filho crescer para ser. Da que espera o filho chegar para sossegar. Dia de nos vermos exatamente como mães. Dia de sorrir pelo sorriso do filho, de chorar porque o vemos, enfim, feliz outra vez. Dia de valer a pena. Dia sem sermão.
Hoje é Dia das Mães. Dia de serem para nós um pouco - muito pouco - do tudo que somos ou fomos. De nos cuidarem. De nos amarem. De sermos, enfim, o centro das atenções. De uma rápida que seja troca de papéis - se é que isso é possível, dada a complexidade de nos ser.
Dada a nossa capacidade de amar.
Hoje almocei com quatro gerações de mães e vi em cada uma delas o mesmo olhar atento que só a nós cabe bem. Uma mesa onde couberam mães, avós e bisas. Independente da idade dos filhos - e na mesa encaixava-se de tudo - o mesmo olhar de amor. Como se o tempo não passasse. Como se filhos não crescessem. Como se só nós soubéssemos amar. E só nós sabemos o que isso quer dizer. Nem adianta explicar.
Mas continuo achando que Dia das Mães é sempre. É todo dia.
Ou assim deveria ser.
Amanhã, quero mais!

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Tecer


Cá estou eu em meu oásis. Estar em outra cidade, longe das mesmices de mais um dia, e começando um curso tão desejado, faz de mim a pessoa mais feliz do dia - não do mundo, o que seria muita pretensão de minha parte.
Hoje começo uma nova etapa de minha vida, apesar de alguma torcida contra. Mas a vida é justa, há quem torça a favor. E poder contar com a força de quem realmente me ama, faz toda a diferença. Deixei em casa um filho amado, que me entende e apóia - me quer feliz. Conto com o apoio incondicional de meus pais, o que me vale muito. E a carinhosa - e porque não dizer calorosa - ajuda dos amigos, imprescindível nessa hora. É...é nas difíceis escolhas que vemos quem realmente nos vale. E o quanto valemos.
Mas cá estou eu sob o céu chuvoso da capital gaúcha, sentindo um misto de satisfação pela conquista e medo do desconhecido. Uma satisfação que vai durar, ainda, bons meses. Um medo que, pelo que me conheço, passa tão logo adentre à sala - sei bem como é. Pelo que vemos na matemática simples da vida, o saldo será positivo.
Começar algo, seja lá o que for, sempre nos faz bem. Já dizia Einstein que "a mente que se abre a uma nova idéia, jamais voltará ao seu tamanho original". Bem o sei. Notei isso ontem ao devorar um livro em plena espera de vôo. Uma coisa traz a outra, e vai aumentando feito uma trama, bela colcha. Pode ser um texto, uma ideia concretizada, um aprender. Um conhecer o outro, um conhecer alguém. Uma frase que se escuta, uma página que se lê, coisas corriqueiras que se vê com outros olhos. Semente plantada, ponto da trama, esperando nosso belo tecer. Está lá, amarrado, e esperando continuidade. Esperando, posso dizer, uma oportunidade dentro de nós para virar palavra viva, palavra dita, vivida, ato, lição.
E já que se fala que " desgraça não vem sozinha", eu brinco com o contrário: conquista não vem sozinha. Cada uma delas traz outra, e outra, e mais outra. E isso, está dando para notar. Aprendo o novo ponto e teço, bela colcha de me achar.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Fui!


Dizem que nos pequenos frascos estão os melhores perfumes, do que discordo: sou um terror para cheiros - quanto mais suaves, tanto melhor. Não gosto que me modifiquem o cheiro próprio, da pele recém banhada. Sem invólucros, nem falsas promessas. O ser como é.
Mas ao contrário dos perfumes e seus maravilhosos frascos, acho que , na vida, os grandes atos estão nos pequenos gestos. Ou, no sentido negativo, é no menor ato que está a mais pesada resposta. Nele, ou outro, sem máscaras.
Hoje vôo para Porto Alegre, levando na mala casacos e esperanças. Amanhã começo meu tão desejado curso, para mim o marco de uma vida nova. Da turma de lá, muito apoio, um apoio risonho de braços abertos. Aqui, uma desnecessária trivialidade do acabado - diga-se de passagem, mal acabado. As repetitivas perguntas para respostas não escutadas. Perguntas cujas respostas óbvias eu tenho; para outras, melhor nem falar. E é nessa falta de apoio constante, nesse desdenho diário que se acaba uma relação, seja ela qual for.
Uma relação entre duas pessoas, seja ela de qual grau de intimidade, pede respeito. Pede interesse. Pede um escutar tão pouco treinado. Relacionamentos cravados a faca, ou desenvolvidos unilateralmente, onde um só cresce, é deficiente. Manca. Não se apoia bem, não tem base que o sustente. Não há como sobreviver se usamos o outro como muleta: um dia ela cai - por estar gasta ou por um simples largar.
E nada como do dia-a-dia para que mostremos nossa verdadeira face. Pega-se a fragilidade do outro nos pequenos detalhes. Nos ínfimos gestos. No olhar ou, pior, no não olhar. No falso diálogo, pautado em monossilábicos verbos, que mais parecem resmungos cavernosos de Mutley , o cãozinho mal humorado da Corrida Maluca (perdão, Mutley, você tinha graça!). No silêncio aceito - e por que não dizer, tão sonhado.
Eu, como sempre, desde pequena, me calo. Não por respeito ou medo, nem por falta de palavras, mas pela sapiência da inutilidade. Porque onde há cegueira, não há diálogo. E onde não há diálogo, melhor jogar a toalha. Ou a muleta.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Encaixe


Hoje comecei dois textos e nenhum me agradou. Um sobre o mal gosto musical em que vivemos - os meteoros reluzentes de pouco conteúdo - , outro sobre como os cães sabem bem viver (prestando mais uma vez nas dicas de saúde de meu cão rssss).
Paro aqui na frente da tela para tentar entender o porque do freio, o que me segura, do que queria realmente falar. E o sei. talvez assuma, como o fiz ontem numa tentativa nada vã de me entender melhor, de entender os sentimentos que afloram em mim sem que eu aceite. valeu o esforço, botei para fora. E nada como alguém que nos ama para entender.
E , melhor ainda, ir bem além disso: amar.
Enfim. Passa muita coisa em minha cabeça. Muita. Nem me cabe. Mas numa semana que para mim é decisiva, difícil até escrever. Precisava de um tempo para mim. Um sentar na praia olhando meu mestre mar - ou para qualquer infinito, como falo ( lagoa, verde sem fim, olho silencioso do amor). Repousar e esquecer ali o meu corpo. E, olhando o "nada", deixar minha mente conversar livremente com meu cérebro, com meu espírito, com minh'alma. Deixar-me levar, mesmo sem sair do lugar. Viagens solitárias fazem isso comigo também, por isso gosto das longas. Aquele olhar na janela, vendo o nada e deixando a mente faxinar as ideias. O silêncio é, sempre, um ótimo companheiro. Ele sabe como dizer as coisas...
Ando numa briga danada com minha mente. Suja, ela me cobra coisas tão antigas, anseios velhos e sonhos que já ficaram para trás. E eu a reconforto - ou tento - mostrando quantos caminhos estão se abrindo, quantas oportunidade de ser feliz. Quanta coisa nova em mim. Fico imaginando a correria de meus neurônios para dar conta. A cada etapa, mil novidades. Como peças de um quebra-cabeça que se encaixam, cada dia um, cada dia mais. E a paisagem que se forma, aos poucos, encanta, quero mais.
Era nisso que pensava, lá em meu íntimo, enquanto achava as palavras. A vida é um quebra-cabeças - ou muitos - que não vem com instruções, nem desenhos prévios. As peças estão ali e temos que ir ajustando o desenho. Encaixando, ajeitando, pensando muito antes de ali a deixar. Tentando muito, sempre. E nos alegrando a cada espaço que fecha, a cada paisagem que chega. A cada desenho que entendemos e completamos.
Vejo meu novo quebra-cabeça e gosto. Diferente, muito diferente, do que estou a finalizar. É mais doce, mais terno, mais meu, bem mais fácil de me deixar levar.
E me deixo encaixar.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Joy


"A gente sempre deve sair à rua, como quem foge de casa. Como se estivessem abertos, diante de nós todos os caminhos do mundo."

Adorei esse pedaço de poema que recebi. Dizem ser de Mário Quintana. Tem a ver com minha ânsia de vida, essa ânsia que havia guardado em mim, esperando o melhor dia, o Dia J. Ou melhor, Dia Joy- esse apelido dado por um pastor bem vem a calhar. Acho que ele, sim,
já via a minha essência, eu como sou.
Joy. A curiosidade, minha alegre companheira, chama. Ponho na busca da Internet e lá está:
Joy, que é alegria, gozo pela vida, em inglês, dizem, vem do francês, Joly. Vem de belo. E leio mais: "gosta de manter-se de igual para igual com qualquer pessoa numa disputa;não se sente nem busca ser melhor nem pior que ninguém, uma pessoa de mente aberta. Não gosta de ficar parado, pois tem grande agilidade mental e física. Gosta de passar seu tempo lendo e adora estudar, não deixa passar uma oportunidade de viajar. É daqueles que possui uma paixão invejável pela vida. Não tem muita diplomacia na hora de dizer certas verdades, julgar ou criticar, costuma fazer isso à queima roupa".
É, meu apelido me cabe, no bom e no "mal" sentido. Foi dado há anos atrás. E ficou. Apoderei-me dele, depois de tantos: Dáda quando nem sabia falar; Jacque, que vem de meu segundo nome, homenagem a "la Kennedy", paixão de muitos; Joca, que ficou perdurando em minha vida por muito tempo. E poucos outros dados por amigas ou guardados a sete chaves, se ruins (coisa de irmão...tsi, tsi). E, enfim, Joy. Eu como sou hoje. Ou como sempre fui e estou redescobrindo sob as cascas da vida. Meio nômade, meio cigana. Viajante do mundo sem sair do lugar. Fugindo de casa - e às vezes de mim mesma - a cada dia que passa, ou melhor, que vivo.
Intensamente, nem que seja em meu coração e em minha mente.
Ps.: descubro que Joyce vem do Latim e significa "mulher cheia de alegria".
Alguma dúvida?

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Peso


Em tempos de tomada de decisões, preciso manter o foco. Aliás, todos nós deveríamos ter em mente, em primeiro lugar, as coisas que realmente queremos. Não um simples não se importar com o "restante "- e aqui não me refiro a "resto", palavra que me soa pesada demais para as outras coisas que tenho a viver. Mas é diferente se estamos no pique do dia-a-dia, tomando decisões rápidas, quase automáticas, de digamos, baixa relevância.
Mas quando se trata de escolher novos caminhos, um novo futuro, ah, preciso dar uma parada. Que nem sempre consigo. Essa semana começo, enfim, minha pós-graduação tão pensada. Melhor dizer: tão sonhada. E foi "engraçado" , uma real surpresa, ver como a vida me levou para caminhos nunca antes , sequer, cogitados. Uma mudança de planos - e de rumos - presenteada pela vida, um achar novos motivos que vieram de onde não esperava e , voilá, cá estou eu, trocando não meus caminhos e , sim, os "como", acertando meus próximos passos da trilha sonora de minha vida. Calculando as impossíveis de calcular, dado o meu romantismo frente à vida, probabilidades. Tentando prever o imprevisto. E sim, claro, aquele frio na barriga que me é original de fábrica. E nesse crochet de medos, feliz, muito feliz por isso!
E como não poderia deixar de ser - outro grande defeito de fábrica, não por ser eu, mas por ser mulher - preocupada em deixar meu mundinho ao redor bem. Melhor assumir: perfeito. Casa abastecida, ordens dadas, filho encaminhado. Tudo planejado para que nada falte, a não ser eu. Tudo previamente pensado para que não desencadeie o caos que imaginamos, nós, super - poderosas, acontecerá em nosso ausência. Esquecemos que importância tem um peso que ,
no fundo, não queremos.
Ledo engano. Acho que o caos se estabelece, na real, exatamente por tentarmos fugir dele. Por deixar tudo mastigado, exato, acertado milimetricamente. Sem prever os desvios de conduta, ou do próprio cotidiano. Senhoras do tempo e das culpas, largai seus lares! Deixai aos pais e aos filhos a tarefa de se virarem! Deixai crescer neles o espírito de sobrevivência. Assim, quando o caos, enfim, se estabelecer, ou quando tu, enfim, resolveres te viver, de nada poderão te culpar. Foram muito bem e previamente avisados
(Mas que não deixem de comer verduras (risos)).

domingo, 2 de maio de 2010

Amor


Bastou o Ministro da Saúde falar e aprovar em cadeia nacional o efeito do sexo para amenizar a pressão alta - e tantas outras doenças - e o assunto virou polêmica. Ou não, porque, imagino, só as falsas beatas não saibam - ou não assumem por serem mal amadas ou não se amar como deviam - de seu poder sobre nós. Mas não é o ato em sí, mas o que ele traz junto dele. Sexo pede relacionamento, entrosamento, despojamento.
E ninguém, em sã consciência, não gostaria de ter isso. Espero.
Sexo pede carinho, que tem que começar logo cedo. Melhor ainda, estar presente sempre. Demonstra importância pela pessoa, não só pelo ato em sí. Sexo pede entrosamento, que vem da vontade de estar com o outro a qualquer hora do dia, roubando um beijo com um simples olhar. Pede interesse pelo que ele pensa ou faz. Sexo pede uma vida plenamente vivida a dois, pois só assim ele será pleno. É preciso conhecer o outro o suficiente para saber como agradá-lo para que ele dê o seu melhor. É preciso ter intimidade a ponto de tudo ser aceito, mas nada que constranja. Sexo pede liberdade de falar o que se sente no corpo e n'alma. De pedir o que se quer, de negar o que não se quer, sem que o outro se sinta preterido. Sexo é, para mim, a melhor forma de realização pessoal, mais que cargos ou honrarias. Aumenta a autoestima - dizem tantos especialistas, como se já não soubessemos - que muitos de nós escamoteamos tendo coisas. Sexo é muito mais que simples prazer - que tenho, na bocada do sorvete, na frase do livro, na cena do filme. Mostra ao outro tudo o que ele é para nós. Mostra ao outro tudo o que somos para ele. Mostra, enfim, quem somos, ali, nus, frente ao outro e a nós mesmos.
Sexo nos completa, apimenta, complementa, deixa-nos mais atentos à vida. Deixa a vida mais saborosa. O dia fica mais suave, o céu mais bonito, o olhar mais brilhante, o sorriso mais fácil, o carinho mais sincero. Dizem que faz bem para a pele; o Ministro, para a saúde. Eu digo que faz bem para a alma. Por isso chamo de amor.

sábado, 1 de maio de 2010

PF


Linda manhã de sábado com cara de domingo, já que é feriado. E, é óbvio, pus-me, cedo, a caminhar, um caminhar sem rumo e sem pressa, como gosto. Um olhar o nada e o tudo. Um notar a vida. E claro, se caminhei, pensei. Primeiro pensei nisso, em como não temos mais folgas. Os shoppings vieram ai para bagunçar. Não se tem mais horário comercial, nem pressa para comprar nada, já que temos escravos a nosso favor por ai, sempre alguém disposto - ou imposto - a trabalhar até a meia noite, ou quem sabe virá-la do avesso. Pela trânsito " a la São Paulo" de ontem, imaginei o "pânico" das pessoas pelo simples se imaginar não comprando nada hoje. Louco isso. E triste.

A cada passada, minha cabeça voa (ops, meus pensamentos, cabeça só tenho uma, ainda bem!) Quem me sabe, bem sabe disso. Meus temas surgem - ou um só, em destaque - ao passo de meus passos apressados. Veio a palavra - e tudo que há incutido nela - desperdício. Suas várias versões. Desperdiçamos comida nos pratos servidos de forma desinteressada. Desperdiçamos água varrendo calçadas como se ela fosse vassoura. Desperdiçamos nosso corpo " andando" o dia todo de carro, sem nem mais lembrar a satisfação que dá quando as pernas são requeridas (ou você já viu alguém triste ao se esforçar?). Desperdiçamos o dia aninhados na cama macia por mais uns minutinhos. Esses e tantos outros desperdícios ditos materiais bem os sabemos, mas, ah, para que se importar? Meu pensamento seguiu a passos rápidos, como minha pressa em cansar. E foi longe...caminhar e pensar.
Desperdiçamos nosso tempo deixando a vida passar sem vivê-la. Desperdiçamos a rara vontade de dizer que amamos pelo deixar para depois, a espera de uma hora mais "propícia" - como se amar tivesse isso. Assim como deixamos para depois a conversa devida. Ou o difícil verdadeiro pedido de desculpas. Desperdiçamos as oportunidades por simples desconfiança. Ou o bom dia bem dado pela timidez. Desperdiçamos a rica oportunidade das boas palavras, aquelas que enriquecem e animam, assim como desperdiçamos a bela oportunidade de ficarmos calados. Desperdiçamos o beijo não dado, às vezes por achar que sempre há tempo. Ah...desperdiçamos tantos verbos...amar, beijar, fazer, sorrir, dizer, compreender, seguir, escutar, viver!
Hoje tenho pressa. Mas não aquela pressa desmedida e estúpida, do fazer por fazer. Tenho pressa da não pressa. Do viver cada passo da melhor forma. Do dar de mim meu melhor. Do me ser por inteira. Mas sem atropelos nem desperdícios. Nem correrias ou trapalhadas. Um limpar o prato do dia, do que a vida tem para me dar. Meu não desperdício.