quinta-feira, 6 de maio de 2010

Fui!


Dizem que nos pequenos frascos estão os melhores perfumes, do que discordo: sou um terror para cheiros - quanto mais suaves, tanto melhor. Não gosto que me modifiquem o cheiro próprio, da pele recém banhada. Sem invólucros, nem falsas promessas. O ser como é.
Mas ao contrário dos perfumes e seus maravilhosos frascos, acho que , na vida, os grandes atos estão nos pequenos gestos. Ou, no sentido negativo, é no menor ato que está a mais pesada resposta. Nele, ou outro, sem máscaras.
Hoje vôo para Porto Alegre, levando na mala casacos e esperanças. Amanhã começo meu tão desejado curso, para mim o marco de uma vida nova. Da turma de lá, muito apoio, um apoio risonho de braços abertos. Aqui, uma desnecessária trivialidade do acabado - diga-se de passagem, mal acabado. As repetitivas perguntas para respostas não escutadas. Perguntas cujas respostas óbvias eu tenho; para outras, melhor nem falar. E é nessa falta de apoio constante, nesse desdenho diário que se acaba uma relação, seja ela qual for.
Uma relação entre duas pessoas, seja ela de qual grau de intimidade, pede respeito. Pede interesse. Pede um escutar tão pouco treinado. Relacionamentos cravados a faca, ou desenvolvidos unilateralmente, onde um só cresce, é deficiente. Manca. Não se apoia bem, não tem base que o sustente. Não há como sobreviver se usamos o outro como muleta: um dia ela cai - por estar gasta ou por um simples largar.
E nada como do dia-a-dia para que mostremos nossa verdadeira face. Pega-se a fragilidade do outro nos pequenos detalhes. Nos ínfimos gestos. No olhar ou, pior, no não olhar. No falso diálogo, pautado em monossilábicos verbos, que mais parecem resmungos cavernosos de Mutley , o cãozinho mal humorado da Corrida Maluca (perdão, Mutley, você tinha graça!). No silêncio aceito - e por que não dizer, tão sonhado.
Eu, como sempre, desde pequena, me calo. Não por respeito ou medo, nem por falta de palavras, mas pela sapiência da inutilidade. Porque onde há cegueira, não há diálogo. E onde não há diálogo, melhor jogar a toalha. Ou a muleta.

Nenhum comentário:

Postar um comentário