terça-feira, 29 de junho de 2010

Selo


Recebi um texto sobre a "nova mulher", mais uma reclamação masculina sobre em que nós, mulheres, estamos nos transformando hoje em dia. Que os bilhetes de "eu te amo" viraram mensagens pelo MSN. Que achamos que as flores digitais duram mais. Que preferimos as cartas de amor que nos vêm via e-mail e não mais em papéis escolhidos a dedo. Pensando bem, nem caprichar na letra precisamos mais, enquanto o corretor ortográfico faz de nós, todos, bons alunos. Sei bem das vantagens e desvantagens desse velho e bom amigo na qual teclo agora. Tenho nele um bom e fiel aliado, bem o sei. Resolve desde a comodidade da resposta rápida até o bem achar amigos pelo mundo todo. Longe de mim negar sua versatilidade, sua praticidade e tudo o mais de vantagens que tem. Longe de mim negar seus presentes. Receber, mesmo que de forma virtual, uma mensagem que me faça rir ou chorar, não tem preço. Receber o recado, esperado ou não. O sorriso desejado. Ver na mensagem recebida muito mais do que palavras. Ver nela incutida muito mais que carinho. Ver amor.
Recordei um texto que fiz sobre cartas escritas à mão e o significado que elas tiveram em minha vida. Tive a sorte de merecê-las, penso. Vinham nelas o perfume do amor. Mas não recrimino as novas formas de amar. Como diz a música , "qualquer maneira de amor vale a pena ". Desde que venha de dentro. Desde que seja para mim. Desde que seja sincera. Escrita de qualquer jeito, enviada de qualquer meio, mas que me veja nela. Não a mensagem enviada por enviar. Não a mensagem replicadas a muitos "amores". Não as usados como iscas de mal amar.
Palavras, já disse, são meu ponto fraco.
Palavras, penso, são sempre bem vindas, se enviadas de boa vontade. Se virtuais ou reais, pouco importa, desde que atinjam meu coração. Pode ser uma inédita ou uma apropriação. Uma pergunta ou uma resposta. Uma frase ou poesia. Uma alegoria. Uma sopreposição. Uma confrontação. Uma composição a quatro mãos. Um namoro. Uma paixão. Que me venha duradoura. Quem sabe sou Paula e ele, Bebeto?

Paula e Bebeto
(Caetano Veloso e Milton Nascimento)

E vida vida que amor brincadeira, a vera
Eles amaram de qualquer maneira, a vera
Qualquer maneira de amor vale a pena
Qualquer maneira de amor vale amar
Pena que pena que coisa bonita, diga
Qual a palavra que nunca foi dita, diga
Qualquer maneira de amor vale aquela
Qualquer maneira de amor vale amar
Qualquer maneira de amor vale a pena
Qualquer maneira de amor valerá

Eles partiram por outros assuntos, muitos
Mas no meu canto estarão sempre juntos, muito
Qualquer maneira que eu cante esse canto
Qualquer maneira me vale cantar

Pena que pena que coisa bonita, diga
Qual a palavra que nunca foi dita, diga
Qualquer maneira de amor vale o canto
Qualquer maneira me vale cantar
Qualquer maneira de amor vale aquela
Qualquer maneira de amor valerá

Cochilo


Três a zero. Nada como um jogo ganho para deixar um país mais feliz. Copa é isso, deixa a gente meio anestesiado. Nem ligamos mais para as outras notícias dos jornais. Ópio, já disseram alguns. É a nossa nova forma de viver. Entreter e levar. Não importa a crise. Até a Grécia estava lá. O Chile estava lá, com a promessa de levantar a moral de um país. Nós estamos lá porque temos que estar. Afinal, esse é o país do futebol.
Mas um dia isso acaba, vencedores ou não. E ai teremos que voltar nossas mentes para outras coisas, mais "reais". Acho até graça. O país pára. Um clima quase de desespero pela hora chegar. Um clima de pura euforia enquanto a bola rola. Torcemos, todos, cada um a seu modo. Uns pelo país, outros pela glória, outros pelo simples vencer, como se o país fossemos nós. Como se o vencer deles fosse o nosso. Um orgulho emprestado. Anestésico. Ou não. Muitas vezes nem sabemos, ao certo, o motivo. Matar o trabalho, pode ser. Sábado em plena segunda. Meu filho e sua vuvuzela, ontem, torciam pelo Brasil e pela não aula na próxima sexta. Vai saber...
Eu torcia para o jogo não acabar. Queria que durasse uns dias, mais de dez. Minha desculpa para nada fazer. Que não me ouça Dunga, mas dormi no jogo. Fui acordada pela corneta da vez que anunciava o terceiro gol. Gritei, misto de susto e surpresa. Achei graça. Nem lembrava onde estava. Estou usando a Copa como fuga. Ópio. Tenho, ali, meus 120 minutos de paz. 120 minutos de desligamento, já que o mundo ao redor pára e esquece de mim. Nada me cobra, nada me pede. Nem me vê. Sou só mais uma a vibrar. Ou cochilar.
Brincadeiras à parte, e deixando de lado por uns momentos a minha letargia temporal, gosto de futebol. De um bom futebol. Fuga ou não, torço, vibro, grito pelo gol, vai! Quem sabe assim desligo e me deixo levar?

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Vai!


Dia complicado, curto. Dia de torcer pelo Brasil e isso já dá a ele uma conotação entre ansiosa e nervosa, assim como estava - está - ansioso e nervoso o povo nas ruas. O meu começou difícil, com uma viagem que deveria durar nove horas e durou 13. Some-se a isso um filho que, enfim, comprou sua "vuvuzela "- um som que , para mim, passou de interessante a irritante graças à insistência e redundância.
Mas não culpo o dia, nem o ônibus quebrado, nem a fila da BR 101 por causa de um caminhoneiro descuidado. Não culpo nem meu filho que tenta, insistentemente, aprender a tocar a tal corneta da vez. Não culpo lá fora, nada me vem do exterior. Minha ausência de tudo vem de mim mesma. Vem deste contraste louco que vivo, entre euforia e melancolia. Entre o laranja e o cinza. Entre o muito que se tem a falar e o silêncio imposto. As segundas ficam mornas depois de finais de semana cheios de calor, apesar de tanta chuva e até trovões. As segundas ficam tristes se não se tem o que dizer. Se não se tem vontade de começar. Não devia ligar. Afinal, segundas são sempre começos, e começos são sempre chatos. Ou pelo menos pensar que é só mais uma semana a enfrentar.
Vamos lá, penso eu. Mais um jogo vai começar. Não o meu, mas o do mundo. Melhor me desligar da vida já que ela, aqui, não tem muito para me dar.
Vai lá, Brasil! Tenta me alegrar!

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Meninos


Gostei da piadinha e replico: " Copa na África, só podia dar em zebras". E isso tem atiçado dois lados meus: da que gosta de um bom futebol. E da " Madre Teresa", como me apelidaram outro dia. Ver uma novata como a Eslováquia entrar em campo e tirar uma gigante como a Itália - e parodiando uma campanha publicitária - " não tem preço". Comemoraram como se tivessem ganho a taça. Nesta Copa, pelo que temos visto, favoritismos não existem. E, por isso mesmo, encanta-me em saber e ver.
Sou daquelas que torce pelo mais fraco, pelo menor. Vibro pelo lado B. O preterido ao invés do preferido. Acho que tem muito pedantismo barato por aí, e não só no futebol. Que o mundo tem vivido de marketings. É quem aparenta ser, não quem batalha para ser, não quem é. Tantas apostas "ruins"que tem nos alimentado de tão maus exemplos. De famas baratas. De famas rápidas de efeito flash. De fazer a fama e achar que é isso e tudo bem. Usando na peneira fina da consciência, não passa nada. Ou niguém.
Ao contrário do que devia para seguir a santa cartilha, torci para a África do Sul. Torço para Gana ( assim como adoro ver os quenianos vencendo corridas ou o brasileiro que treinava em estradas de barro!). Fico imaginando quanta pendenga ( não no sentido clássico de pendência e sim, pejorativo, de trabalho, problemas, enfrentamentos de toda ordem) seus jogadores passaram - e passam - para estar ali. Não têm, com certeza, o valor mítico dos nosso jogadores, nem muito menos seu valor de passe, aqueles a quem erguemos estátuas e pagamos promessas, como se santos fossem. Gosto da Copa assim, mais igualitária. Mais humana, menos mercado (já tem o bastante por lá...). Entram os pés descalços, saem as chuteiras de cristal.
E que vença o melhor.
Longe de mim não estar torcendo pelo nosso time. Acima de tudo, sou brasileira e não desisto nunca ( eita, de novo ai a influência da propaganda em mim!)! Ali uma boa mostra de bons meninos - não pela idade, mas pelo coração. Meninos que tem sonhos como todo brasileiro. Sonhadores que vieram do subúrbio, do lado avesso. Nosso técnico foi e é criticado mas, pelo meu ponto de vista, soube escolher. Escolheu pela garra e pela vontade. Escolheu pela simplicidade e espírito de equipe, não pelas capas de revistas, nem pelas festas badaladas. Muito menos pelo estrelismo, que tanto atrapalha. Nem pela experiência que isola. Simples meninos. E jogam como tal. Como se no campinho de terra ainda estivessem.
Bom, agora chega de divagações. A televisão já está ligada, a euforia já está nas casas,
o coração já está na mão.
Que venha Portugal, então!

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Vencida


Assistia o jornal pela manhã. Falava de saúde. Ou seria de doença?
Numa pesquisa feita com famílias brasileiras por dois anos, fizeram um levantamento dos gastos básicos, ou seja, alimentação, educação, saúde. O único valor que subiu foi o de gastos com saúde. Ou porque os remédios ficaram mais caros (cadê os genéricos prometidos?). Ou porque os consumimos mais, coisas da vida dita moderna. Ou porque os planos de saúde ficaram mais caros. Ou todas as opções anteriores. Os de renda mais baixa gastam mais com remédios. Os mais "sortudos", com planos de saúde privada e tratamentos de prevenção.
Na verdade temos medo de ficarmos doentes. Qualquer gripinha nos abala. Uma dor de cabeça qualquer e lá se vai mais um analgésico sem nem saber a causa. Apostamos na doença e não na saúde. Gastamos até o que não temos já pensando que podemos ficar doentes. Antecipamos problemas, enchemos as gavetas, esperamos a hora de estar mal. Pagamos mensalmente para nos livrar de todo mal. Venderam a ideia e nós compramos. Ela está nas propagandas bem feitas, nas revista de saúde, nas páginas do jornal.
Hoje levantei com dor de cabeça. Primeiro veio a vontade de levantar e já tomar algo para mandá-la embora. Mas, ainda na cama, pensei de onde veio. Veio do dia de ontem, cheio de novidades. Veio da noite mal dormida pela falta de respeito alheio. Veio da semana corrida que nem me deu tempo de respirar. Veio da cabeça que não pára de pensar nas coisas que tem a decidir. Veio das decepções e das esperas. Veio da tristeza da imobilidade. Veio de mim. E de mim vai ter que se mandar.
Desci e fiz um chá. Adocei com meu carinho. Pensei no dia de amanhã. Sentei e sorvi a cidreira pensando na vida, em goles sem pressa. E assim fiz, conversando comigo mesma, sentindo meu corpo, o calor do momento levando a dor para outro lugar. Na televisão em baixo som, a notícia. Estamos mais doentes. Deu saudade dos chás da vovó. Da vida mais mansa. Da parada para se cuidar. Do se repensar. Talvez estejamos mesmo apostando da doença, deixando ela nos ganhar. Eu, hoje, apostei na vida. E amanhã é sexta! Que ela venha , então, para ficar!

quarta-feira, 23 de junho de 2010

XY


Enfim o sol deu o ar de sua graça, como dizemos nós, os "X". Falo isso porque estou e estudando as tais "geração X e geração Y" ( é...dava um bom texto, quando eu, enfim, defini-las em mim...acho que sou geração XY ). (risos)
Então, estou eu aqui entre a vida Y lá fora que chama a uma caminhada - e meu corpo que pede para tirar o mofo de músculos e alma - e as "tarefas" da vida X aqui de dentro. Vivo dois mundos, literalmente, por isso não acho nada difícil que seja de uma geração mesclada, entre os comedidos X e os atirados Y. Dava até uma boa dissertação para a minha pós. Ou um livro (está ai um pensamento Y...) .
Pense comigo: não gosto de coisas repetitivas, da mesmice imposta. Nunca gostei. Não gosto de horários "pro - postos", nem tarefas alinhadas em fila. Tenho agendas, mas não uso. Tenho relógio, mas ele tem para mim um outro significado, lembrando meu lado Y. Mas preciso disso para me alinhar. Preciso de listas, de horários, de agendas marcadas, de ver as horas para me orientar. Para não perder o fio. Para não esquecer meus papéis "secundários", ou seja, os de ser as outras - mãe, profissional, escambau - e não eu mesma. Ser meu lado X.
A Joyce que conheço - e quero ser - é geração Y, empolgada, correndo atrás. A Joyce Y muda as regras no meio do jogo, pede mais. Muda de rumo sem medo de errar. Enfrenta o mundo Y com as armas que sabe usar. Anda - e fala - em disparada, difícil de alcançar. A Joyce Y vai, extrapola, pega, devora, gargalha, se tira. Vive.
A Joyce X, chamarei assim, fica ali, lembrando das coisas que tem que ser feitas. Pede. Espera. Mede. Segue a vida, não a leva. Segue a agenda e o relógio. Segue a regra. A Joyce X segue quieta, economiza palavras, retém. Não vive.
Enfim, dava uma boa tese. Fui criada para ser X, mas quero ser Y. Ou pelo menos os dois para começar a me adaptar, cada um a seu tempo. Enquanto as duas partes não se resolvem, feito cão e gato, anjo e demônio - fica a seu critério julgar - vou colocar meu tênis e sair para passear...

terça-feira, 22 de junho de 2010

Cachecol


Continua frio. Mal começou o inverno e estou eu aqui a lamentar. Aqueço-me com chá enquanto leio tudo o que me vem sobre uma de minhas novas paixões, a cibercultura. Vejo-me como queria, obstinada em saber. Vejo-me como sonhava, uma leitora atenta e crítica, devoradora só do que me convém. Leio no meio de tantas ideias uma frase que veio ao mundo ainda em tempos de a.C: "a memória é como uma habitação onde depositaríamos informações em casa peça", de um "tal" Simone sei-lá-das-quantas que nem tem no Google.
Acho o termo "peça" muito grande, fujo dele. Falo em gavetas, já fiz até um belo texto sobre isso. Tenho, muitas, mas não andam abarrotadas, não. Faço faxinas de tempos em tempos, retirando uma ou outra peça que não me cabe mais, feito meu guarda-roupas. Ou porque perderam a importância ou porque não me alegram. Penso que o que tinha que aprender e apreender com elas, já fiz. Se não fiz é porque nem tinham que estar na gaveta...enfim...
Tenho centrado meu pensamento no futuro ( e num presente paralelo, que vai aos poucos ficando perpendicular a ele). Acho até que vou deixar uma gaveta livre, bem grande, perfumada, para que ele se instale. Parece não só prudente, mas mais interessante que muita coisa de meu presente que, apesar do nome, não tem vindo embalado como tal. Meu futuro, que antes me assustava e se manifestava em meu pé (ah, isso é outra história...), já não me dá medo. Deve ser porque o estou pintando com cores mais vivas, longe das cinzentas como me fizeram enxergá-lo. Deve ser porque, aos poucos e por imposição de um presente por vezes mal embalado em velho e amassado papel, estou sendo mais otimista, mais confiante do que sou, do que posso, do que quero para mim. Deve ser porque, sendo eu mesma, posso me reconstruir a cada dia, frio ou quente. Posso ser minha manta ou meu ventilador. Posso.
Poder. Esse é o verbo que me empurra para meu futuro. Tomara se junte ao verbo ser. Um poder ser que me deixa bem entusiasmada. Faz até o frio do dia ficar morno...Meu cachecol.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Frio


Fiz voto de silêncio neste final de semana, e não foi só aqui. Tinha muita coisa a dizer, mas não sabia como. Não gosto de meus maus momentos. Ou, melhor definir, de não poder ser que eu realmente sou. Minha mãe, sábia, já sabe: meu silêncio diz muito.
Então, recebi uma frase sobre a perda de Salamago - "há coisas que se diz calando". Ele, sempre tão triste, com seu jeito realista de falar. E entendi o que fiz. Nem as risadas pela escolha do filme errado no cinema aliviaram a coisa. Nem dormir no mesmo quarto de meu filho, para esquecer um pouco os desígnios de ser mãe - o que, por vezes, cansa. Ser guerreira sempre, cansa. Ser batalhadora sempre, cansa. Ser forte sempre, cansa. Estar sozinha sem ser, cansa. Ficar calada com tanta coisa para falar me deixa exausta.
O Inverno chegou com toda força em mim. Pegou-me de jeito, mal agasalhada. Seria fácil se fosse esse o problema, bastava uma manta, ou um casaco sobre a blusa. Quem sabe um chá bem quente! Ou uma bela caminhada ao sol (nem ele veio hoje para me consolar!). Mas o frio está dentro, em minha'lma. O frio vem das coisas mal resolvidas. Das não resolvidas. Das esperadas e não acontecidas. Vem da longa espera pela primavera que teima em demorar. Uma primavera de soluções, de amadurecimento. Um renascimento. Um futuro presente.
Aqueço-me da esperança que a Primavera logo chegue. E que venha para ficar. Eu, sempre positiva, ponho a culpa no tempo. Deve ser o dia cinzento. Ou porque é segunda-feira. Quem sabe os hormônios, a noite mal dormida. Talvez sejam meras desculpas. Ou fugas.
Adoço meu chá. Pego a caneca quente entre as mãos. Olho para meu São Francisco de Assis e peço alento. Que ele aqueça meu coração. E que ele me proteja de todo mal.

sábado, 19 de junho de 2010

Imprevisto


Ontem poderia ter sido uma tarde comum, dessas quaisquer. Mas não. Marquei um encontro com uma amiga de tempos, que há tempos não via . Incrível isso. Moramos na mesma cidade, onde poucas quadras nos separam, e "falamos" mais por e-mail que telefone ou visita. Essa última, coisa rara. São os resquícios da vida dita moderna. Ou a preguiça da pós-moderna.
Primeiro uma conversa ao pé de ouvido para colocar a vida em dia. Falar de filhos, casa, carreira, presente e futuro. Novos problemas e velhos problemas revisitados. Uma forma de entendermos e talvez aceitarmos que todos tem os seus. Um momento de falar e de ouvir. Como se passássemos nossas próprias vidas à limpo. Como se recontar nossa história fosse uma espécie de revisão. Confortável sensação, como se o outro fortalecesse nossas forças. Depois nossa velha e deliciosa saída para ver vitrines, novidades. Um parada aqui, outra ali, comentários e risadas. Terapia.
E, enfim, um café. Momento máximo onde a satisfação do falar mistura-se à satisfação do comer. Primeiro a maravilhosa sensação de isolamento de nosso mundinho. Nós duas, ali, com um tempo só para nós. Entre uma palavra e outra, entre uma emoção lavada e a próxima, o gole de café, quente e doce carinho. Os pasteizinhos assados, a cuca de fubá com côco, delicadezas com gosto de quero mais. A tarde passou, veio a noite e ainda estávamos lá. Na despedida, promessas de novos momentos para relaxar. A tarde foi perfeita, eu diria. Até porque encontrar Juarez Machado em plena luz da tarde me deu uma nova luz. Aquela que me faz continuar.
Disso esquecemos, de que a felicidade se constrói de momentos. Uma conversa boa não esperada, uma gargalhada sem hora marcada, o comentário que nos faz rir , o olho no olho que nos faz chorar.
É, alguém já disse que "a felicidade pode vir de um imprevisto"... Um momento perfeito, também!

sexta-feira, 18 de junho de 2010

De pantufas


Hábitos, acho que já falei deles. De como pode ser assustador, tê-los ou perdê-los. Volta e meia falo sobre isso com meu filho. Como se uma coisa que virasse hábito fizesse parte de nós. Como se fizéssemos mesmo sem pensar. Dar bom dia, ser gentil, olhar nos olhos de quem se conversa. Lavar ao rosto, mesmo que a água esteja gelada. Lavar as mãos antes e depois de comer, ou de acariciar o cachorro. Hábito de limpar os pés antes de entrar em qualquer lugar, mesmo que supostamente sujo. De comer com a boca fechada. E as tantas e tantas ladainhas que aprendemos em nossa vida e nos seguem a todo lugar. Felizmente. É como se formasse uma espécie de corrente, um salva-vida, um fio que nos ligasse à infância, ao que aprendemos, ao que fomos, ao que somos. Cinto de segurança. Mão. Abraço.
Hábitos, bons ou nem tanto, todos temos. Temos os bons, mesmo que não gostemos. Escovo os dentes e a língua logo que levanto. Detesto, mas o hábito fez disso uma coisa um pouco mais normal, um ter que. Também tenho o hábito de me benzer antes de viajar, mesmo que mentalmente, seja por qual meio for. E olha que nem sou disso. E de pedir proteção para meu filho quando ele sai. E de revisar o dia ao me deitar. Feito rituais. São tantos...
Tenho experimentado me livrar de alguns. Muitos, na verdade. Longe dos olhos do filho, é claro. Dormir na hora de acordar, acordar na hora de dormir. Tomar café antes de escovar os dentes e até de me olhar no espelho ( se me olhar, lembro de quem sou e volto à rotina...). Comer deitada na cama, assistindo TV. Dormir com a televisão ligada, a luz acesa, assim mesmo, sem rituais. Sem tomar banho, a não ser o do prazer. Levantar de pijama e assim ficar até decidir onde ir e se. Almoçar bem depois da hora de sempre. Ou nem. Comer pizza as dez da manhã ou antes. Quem sabe com uma coca-cola. Amarrar o cabelo sem nem escovar, por um chinelo para sair para caminhar. Tomar café antes de dormir.
E tenho feito boas descobertas. Que o sono vem quando ele quiser. Que a soneca é bem vinda no meio da manhã. E que se fica bem mesmo sem dormir as recomendadas tantas horas. Que sobrevivo sem mamão no café da manhã. Que pizza é boa qualquer hora do dia, mesmo fria. Que almoçar no final da tarde economiza tempo, um tempo que aproveitamos para bem viver. Que maus modos podem ser divertidos. Que regras são boas e culpas também, para nos manter no prumo, mas que deixá-las num canto quando se quer é melhor ainda. Que é bom desfrutar a vida ao invés de só levar.
Descubro que quando se está de bem, mal não tem. Ainda mais de pantufas...

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Assumindo


Às vezes sinto-me atropelada pelo tempo, como hoje. Já é quinta, penso e eu "nada" fiz. Seria melhor culpar os hormônios por isso. Afinal, os altos e baixos do mês devem ter alguma serventia além das piadinhas sem graça de sempre.
Pior é saber o porquê e nada poder fazer. Ando fazendo muitas coisas que não quero ou não gosto, imposições da vida. Becos sem saída, pelo menos por enquanto. Meu sonho era sentar e escrever, dia e noite. Postar em blogs, twittar o que penso, reunir pensamentos e pessoas em redes sociais. Escrever sobre a vida e os sonhos. Escrever sobre o que penso e sobre o que pensam os outros. Escrever, escrever, escrever. Ou melhor seria dizer teclar?
O som cada vez mais rápido dos dedos pulando no teclado denuncia a rapidez do pensamento. Teclo tudo trocado, já bem me disseram e sei. Dou graças a minha "ex-terapeuta" (único ex de que me interesso) que me avisou que é assim mesmo quando a agilidade mental é mais rápida que a agilidade física, ou "dedal", diria eu. Como se as ideias atropelassem os dedos. Que bom que existe a verificação ortográfica, penso. Só preciso lembrar de usá-la.
Enfim, cá estou eu, fugindo de certas "obrigações" de mãe, de dona de casa e de profissional, principalmente da última. Adoro ser arquiteta, mas meu perfil está mais para dar dicas , virtuais ou reais, e escrever matérias, do que o fazer. Ter que medir uma obra, desenhá-la e enfim entregá-la tem me dado calafrios. Protelo, deixo a ver, ponho defeitos, fujo. Mas puxe-me para dar ideias, para persuadir, para convencer e lá estou, com sorriso na cara. Atendo como se conversasse. Bate papo com fins lucrativos, diria. Deve ser saudade dos meus tempos de palestras...
Mas, enfim,cá estou diante do papel. Basta dar um start, desenhar a primeira linha e esperar vir todo o tesão de sempre. Basta quebrar o gelo. Basta acreditar. Basta por no papel a certeza do que sei, do todo colorido e bem resolvido que está na minha cabeça. Meu mundo criativo resumido no desenhar.
Descubro-me, aos 46 minutos do primeiro tempo, boa de palavras - escritas ou faladas. Já é alguma coisa! Pior se não descobrisse nada. (risos!)

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Mau ou mal?


Está lá no Google, para minha sorte. Uma benção para os desprovidos de boa memória, como eu. Mau é o contrário de bom, mal é o contrário de bem. Então, entendo que o lobo é mau, para que eu não fique mal na fita. E é do mal. (bom, depende do lobo -risos). Eu, graduada e pós-graduanda, caio nessas - e não nestas - pegadinhas. Antes, incomodava-me errar, hoje até acho graça, uma forma que achei para não esquecer. Ou não me sentir tão envergonhada (é assim que se escreve?). Entendi de onde vem. Vem de um povo que não lê. Ou se le, não vê. Como eu, que muitas vezes passeio por páginas sem confrontá-las a contento.
Recebo e-mails, muitos, todos os dias, e tantas outras mensagens pelas redes sociais. Além das abreviações previstas da geração Y, erros fatais. Poderes que viram poços, tamanho problema ( ou poblema, ou plobrema, ou seja mais o que) que temos com eles ( não eles, os masculinos, e sim, a letra), erres e cedilhas (deveria ser çedilha...). Tantos esses, ces com ou sem cedilha que saem fácil da boca, mas travam papéis. E ideias. Línguas enrroladas por tantas letras que não se dão bem, como bes e eles (de novo, as letras, não os machos). Fora as cacofonias e os duplos sentidos. Tortura, por vezes. Ou piada com o trocadilho da hora.
Ponho a culpa na minha mãe (claro, de quem mais seria?) que deixou que eu aprendesse com meus irmãos. Éramos cinco - quase seis para lembrar o livro - a sentar à mesa ( não na mesa) da sala de jantar. Eles a estudar, eu a copiar. Ou tentar. Ponho a culpa na professora que eu achava burra porque ela não sabia que be mais a dava ba. E mesmo assim dava aula! Por fim, culpo o português e suas mil letras e palavras com o mesmo som ( volta e meia me pego pensando como seria bom se a colonização tivesse sido inglesa. Ou francesa, que charme!). Ou mil formas de dizer uma mesma coisa. Ou na diferença entre estar certo e ser inteligível.
Cabe aqui o ditado: falar é fácil. Ou não? Penso na dificuldade de estrangeiros perdidos em nossa língua, fichinha perto da minha dificuldade em aprender e apreender o fácil inglês. Minha diversão era na adorável ( adorável mesmo, não estou mentindo, mestre!) oficina de português que fiz, assumindo o "nada saber", tão muito frente a outros. Dava nó na cabeça do gênio -professor com minhas dúvidas, muitas e difíceis de explicar.
É, nossa língua e suas pegadinhas... Poços não me pegam. Nem as exceções (e não excessões, escessões, esceções ou exceções...um excesso de possibilidades verbais). Mas a dificuldade de falar bi-bli-o-te-ca me faz rir de mim mesma. Faço piada, "inglesando" o som, enrolando ( que se lê enrrolando...) a língua, falando pausadamente, assim como escrevi, como que soletrando. Assumo minha analfabetização (outra complicada...) linguística. Ou funcional, diria a intelectual elite de plantão, à espera do menor erro. Vejo nisso minha melhor forma de não errar. Ou pelo menos nem tanto. Quem sabe assim consigo me livrar de todo mal. E de ter tido que revisar esse texto mais uma vez por ter esquecido que língua não senta no assento mas leva acento.
Ufa...será que tirei dez?

terça-feira, 15 de junho de 2010

Vai, Brasil!


Hoje começa, enfim, a Copa do Mundo para nós. Dia de espera e de dedos cruzados. Dia de unhas roídas , de nervos a flor da pele. Uma festa sem saber como vai terminar. Um dia que o país pára, literalmente, e se senta à frente de uma televisão e sofre, calado ou gritante, sendo mais um dos milhões de treinadores que temos em nós. Dia em que não temos vergonha de carregar nossa bandeira, nas casas ou em carros. Dia em que nos vestimos ou pintamos de verde-amarelo. Dia de ser brasileiro.
Revejo a história do Brasil e lembro dos "cara pintadas" de 1992. O movimento conhecido nos livros como Fora Collor , onde milhares de brasileiros , por indignação ou simples farra, saíram às ruas em passeata pedindo a saída do presidente da República, Fernando Collor de Mello. Ou simplesmente Collor para nós, todos, que nos achávamos íntimos, um belo caso de bom marketing pessoal. Fora a corrupção, dizíamos. Abaixo a inflação, gritaram outros. Mas o que pegou mesmo foi o congelamento de nossas contas bancárias.
E lá estávamos - ou estavam, porque eu fiquei na platéia, só admirando - usando nossas cores até nos rostos. E lá estavam todos em marcha. Famílias inteiras em caminhada. A juventude a postos. Todos brigando pacificamente por uma causa.
O que faz de nós brasileiros? Berrar como se cada jogador nos ouvisse? Carregar a bandeira em nossos carros? Pintar nossas caras? Onde estamos quando deveríamos realmente ser brasileiros? Chamando de baderneiros os que pedem justiça. Chamando de desocupados os que ocupam sedes. Fazendo piada de dinheiro nas cuecas e meias. Assistindo do camarote de nossos confortáveis sofás o circo pegar fogo.
Bom se pintássemos a cara contra a má administração. Se realmente discutíssemos sobre cotas e bolsas. Se parássemos o país contra tantos impostos. Bom se fossemos cidadões.
Mas hoje não é dia de melindres. Hoje o Brasil joga. Hoje o país pára. Hoje estamos anestesiados pela esperança de um título a mais. Hoje somos, enfim, um povo só, tentando vencer. Amanhã já não sei. Melhor esperar.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Mais perto


Começou a ladainha. Por um mês, só o que ouviremos será Copa. Na televisão, de telejornais a programas de auditório, 24h de Copa. Nas ruas, Copa. Nas revistas, Copa.
Até na minha coluna na minha revista, Copa.
Tem um lado bom. Vamos conhecer mais de perto o país sede. Desde pequena, desde os bons tempos em que assistia aos filmes da tarde, quando se fala em África, logo vem à minha mente a caça aos animais, em Jeeps a toda velocidade, armas em punho, safáris em roupas beges e chapéus lindos. Noites enluaradas, fogueiras românticas, romances a luz da lua. Frio da noite, calor da manhã. Seca. Sede. Já na adolescência, apartheid, Mandela nas aulas de História, uma ideia tão longuínqua - e tão absurda para meus olhos ainda infantis - que mais parecia contos de livros antigos. A realidade é outra, ainda com resquícios do aprendido, ao ouvir a repórter relatando sua emoção ao conhecer o museu sobre o assunto. A calçada separada. A cabeça baixa do absurdo. O real transformado em entretenimento, um passeio para os turistas, um reforço na memória dos sobreviventes. Relembrar para não repetir.
Viajar é viver, relembro. Pode ser ali, em frente à televisão, melhor ainda se ao vivo. Pode estar na próxima página do livro. Na esquina nova reconhecida pelo próximo passo. No novo sabor levado à boca. No novo sorriso retribuído, na nova lição recuperada. Viajante sou, reconheço, consciente ou nem sempre. Nas ruas por onde passo, na cidade que me recebe com um abraço. Nas novas calçadas por onde piso, onde vivo a cada passo. Onde me refaço.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Cartas


Recebi esse poema:
As cartas de amor deveriam ser fechadas com a língua.
Beijadas antes de ser enviadas.
Sopradas, respiradas.
O esforço do pulmão capturado pelo envelope, a letra tremendo como uma pálpebra.
Não a coisa isenta, neutra, mas a espuma, a gentileza, a gripe, o contágio.
Porque a saliva acalma o machucado.
As cartas de amor deveriam ser abertas com os dentes.

(Fabricio Carpinejar)
Dei um passeio no tempo. Relembrei as que recebia de minha madrinha. Mandava mimos sob a forma de palavras em letra linda. Ela, sim, escrevia todo dia em seu diário, pequeno tesouro guardado na gaveta ao lado da cama. Relembrei, também, as cartas de um certo amor. Um amor de longa data. Longas também as cartas, feito um livro. Densas, traziam o ouro das minas , o cheiro das matas. Ficava imaginando a cena da escrita: a mão, firme, marcando papéis; a tinta, molhada, quase rasgando o fundo amarelado. Os contos, as notícias, as chegadas. Os sentimentos, todos, ali, em forma de palavras. E a magia de cada uma recebida. O envelope, meu nome na frente, o dele atrás. Pensava os caminhos da carta, quanto as mãos a me trazer, feito uma corrente de entregar. Revendo a cena, mais parecem saída de algum livro de
Gabriel Garcia Marquez, meu Gabbo.
Hoje resumimos nossos escritos em teclas do computador, muito raramente em tinta da impressora. Pelo correio chegam apenas contas e pedidos, nada de boas notícias ou agradecimentos. Nada mais tem o charme de uma boa escrita (ah, sim, as letras manuscritas nos convites de casamento...). Deve ser por isso que ainda uso caderno e caneta nas aulas. E sempre que posso. Deve ser saudades das ideias a deslizar no papel...

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Deu pra ti


Estou parada aqui em frente à tela faz um bom tempo. Não que não tenha assunto, longe de mim, desse poço sem fundo de textos que me transformei. Muito pelo contrário. A dúvida é exatamente sobre o que escrever. A dúvida pede escolha, e como já disse aqui, elas, as escolhas, são sempre difíceis. Talvez demore mais para pegar no tranco dado ao frio, lá fora e em mim.
Hoje é dia de viajar. Durmo em Joinville, acordo em Porto Alegre. Mais um final de semana com aula. E por estar indo contra a vontade do "dono da casa", nunca é um dia fácil. Primeiro revejo minhas tarefas de "governanta do lar"como uma perfeccionista feminista de sempre. Depois refaço meus passos, como se estivesse indo para um tour na Europa, quem sabe um ano sabático, não um mero já volto. Por fim, jogo na mala o que acho que vou usar. Cada vez menos coisas, dada ao saber que me vem que de que cada dia preciso menos. O que quero de Porto Alegre não precisa de lindas roupas, só quentes e práticas.
Continuo eu em frente ao computador. Já revi minhas tarefas profissionais, está tudo ok. Tarefas da casa , poucas, a concluir. Geralmente faço tudo com tal antecedência que me sobram horas de infinita espera sem ter o que fazer. Melhor assim, detesto atropelos e a nada confortável sensação de " estou esquecendo algo". E espero, ansiosa até, a hora de acomodar-me na já conhecida poltrona do ônibus e ter minhas primeiras nove horas de desligamento.
Estudar para mim tem efeito de meditação. De retiro espiritual, melhor dizer. Desligo-me quase que por completo, não fosse certas obrigações e o interesse materno de saber como vão as coisas. Mas confesso, isso não fica em primeiro plano. Não lá. Não longe. Centro em mim, no que quero, no que estou procurando, o que é muito mais que um simples saber. Muito mais que um simples diploma. Mais que a gostosa sensação de estar realizando um sonho - ou vários. É um mundo a parte, quase perfeito, não fosse a companhia de uma culpa ou outra que topo no caminho. Lá , vivo, não apenas vejo as horas passarem. Lá, sou, não apenas mais uma. Meu encontro comigo mesma. Rio do que me vem à mente já cansada do dia da espera. Relembro a letra da música de uma certa dupla que embalou meus dias de garota: "deu pra ti, baixo astral, vou pra Porto Alegre, tchau!"

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Cheia


Caramba. Acho que vou começar a levar junto ao corpo uma cadernetinha para anotar ideias. São tantas, e de tantas formas, que se atropelam em minha mente. Dá até para escutar o barulho do choque entre elas. Minhas constantes dores de cabeça são a prova cabal disso.
Um livro com dicas básicas - e bem por isso indispensáveis - para quem está construindo, reformando ou comprando uma casa ou apartamento. E como isso me veio? Simples. Ao molhar-me toda para abrir o volante do chuveiro para meu banho matinal (é...que me crucifiquem os eco éticos - tomo dois ao dia - um para bem começar, outro para bem terminar...). Frio, pressa, e lá estava o volante longe do meu alcance. Esticar o braço ao máximo para abri-lo e , fatalmente, molhar-me toda, não combina com dias frios.
Fora o livro com esses textos, feito diário de bordo ou diário da vida; eu, uma amante de papéis bem escritos. Ler significa , para mim, sentar bem acomodada e deslizar meus dedos, olhos e pensamentos sobre uma folha de papel. Ou várias. E tantos outros, tantas ideias, que me cabem no cérebro. E nessa vontade, grande, de bem viver. E de ser alguém.
Ideias e sonhos, que não tem? E sei como é triste deixá-los pelo caminho, por não poder ou por mero esquecimento. Sonhos e ideias, nisso sou mestra. E todos baseados em ser e fazer feliz. Parece piegas, parece simples demais, mas não é. Tenho um mundo na cabeça e estou indo atrás.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Eu?


Minhas preces foram ouvidas e ontem assisti House - aquele mesmo, o médico excêntrico - na TV paga. Fico encantada como meus ouvidos e alma estão atentos a qualquer movimento.
Para quem não conhece o doutor em questão, recomendo. Tem métodos pouco ortodoxos, diria, mas seu resultado - e ai está o bom das séries e filmes, o final feliz, ou melhor possível - é sempre, também, o melhor possível.
Entre os diálogos da série, sempre cortantes, para não dizer pesados, muita coisa sobre a alma humana. Ontem o tema era culpa. Quem não tem? E mais: o protagonista em questão falava que a culpa só acontece em pessoas super- poderosas, que se acham capazes de resolver todos os problemas do mundo. Ri, para não chorar. Seria verdade, pelo menos em parte?
Super-poderosas mães. No meu caso, agravado por tentar, muitas vezes, ser super-poderosa também na vida. Abrimos nossas asas de coruja e abraçamos o mundão ao redor, seja ele qual for. Eu, doutoranda no assunto, sinto-me, por vezes, culpada até pelo cara que dorme na calçada, ou a criança que pede esmola na esquina. Tenho tentado endurecer, mas ver qualquer pessoa de mais idade mendigando qualquer coisa, de pão a atenção, desmancha qualquer tentativa de melhora de minha parte. Basta um deles cruzar meu caminho e volto à estaca zero.
Não estaria o autor do episódio certo? Não seríamos, nós, mulheres, fadadas a tentativas vãs de salvar o mundo? Basta ver como cuidamos de brinquedos e bonecas desde cedo, embalando e até alimentando, enquanto os meninos destroem os seus, como se isso fizesse parte da brincadeira.
Você não sei. Mas eu peguei meu chapeuzinho e me encolhi no canto de me pensar...

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Desligue-me!


Mulher melancia, mulher jaca, mulher filé. Implantes de silicone nos seios , coxas e bundas. Plásticas que deram e que não deram certo. Infelizmente foi só o que vi ontem na televisão. Triste fim de quem só tem TV aberta. Ou burra. Um "record" de asneiras.
As redes reclama da baixa assiduidade de seus programas. Tentam manter uns a ferro e fogo, metem quadros diferentes, uns piores que outros, enquanto outros sucumbem depois de um pequeno tempo no ar. No balanço de acertos e erros, esses ganham bonito. Os que sobrevivem vivem a custas de falsas risadas. Só o humor mantém, devem pensar.
Ou, antes rir do que chorar.
Sentada no sofá a convite do filho, senti-me enojada. Afrontada, até. Até os programas que eu achava que tinham alguma coisa a ver sucumbiram de vez à mesmice. Chego a conclusão que domingo é melhor desligar a TV. Ou seriam todos os dias? Se nem os telejornais dão mais para levar a sério, tamanho descrédito? Que tal sentar para ouvir notícias e ouvir piadinhas entre os apresentadores? Socorro, alguém me dê um canal pago!
Chamam o brasileiro de desinformado, de desinteressado. Que nem adianta tentar um canal público. De quem será a culpa? Pego meu livro, mais um dos tantos que preciso e quero ler, e sinto-me reconfortada. Passar as mãos pelas páginas, os olhos pelas ideias. Penso em que levou o autor para tomar certos caminhos. Ou como teve tão brilhante pensamento. Viajo na estória e na história - ainda passeando na poética gramática antiga onde existiam as duas palavras ( o novo "Aurélio" diz que não, que só a história sobreviveu nessa história). Faço a minha, própria. Três viagens numa só: o que diz o personagem, o que passou pela mente do autor e o caminho que me leva, paralelo se concordante, perpendicular se discordo. Melhor só se pudesse entrar e até trocar de lugar. Até porque os livros sempre tem um final feliz. Deve fazer parte de uma conduta ética, um conchavo. Ou uma forma de nos proteger de todo mal.
Como das mulheres comestíveis de um certo canal.

domingo, 6 de junho de 2010

Jogo


Ontem fui ao cinema para ver Sex in the city 2. Divertido, como sempre. Com boas pitadas de glamour - o que não tenho, mas me diverte. E outras tantas de verdades. O tema do dia era casamento.
No universo de cada personagem, quatro versões diferentes sobre a mesma coisa, passeando de um extremo a outro. Uma, solteirona invicta viciada em sexo, eu diria. Já havia tentado um relacionamento estável, como dizem por ai, no filme anterior. Pelo óbvio , e muitas outras coisas juntas, não deu certo. E está, nesse novo, às voltas com as possíveis modificações hormonais da suposta menopausa. Vimos, com graça, que não passam de teorias também possíveis e supostas frente ao tesão iminente. valho-me do velho e machista ditado: o que vale é uma boa cantada.
A outra, profissional dedicada; mãe, nem tanto. Em crise no trabalho, joga tudo para o alto. E, para nosso alívio - na vida real, nem tanto - dá tudo certo. É a mais centrada do time, a que põe as outras no devido lugar. Tem ainda a esposa e mãe dedicada, a famosa "certinha" que sempre tem que haver no grupo para que dê um certo balanço na coisa. Quem viu alguns episódios na televisão lembra bem de suas caretas frente ao novo, ao inusitado. Mas deixou-me mais tranquila quando assumiu, depois de umas doses de bebida, que se sentia oprimida - e, claro, culpada - pela tarefa de ser mãe no dia-a-dia. Achava, como todas nós, que pelo fato de vez por outra ficar descontente ou precisada de uma certa solidão, não amava as filhas. Coisa de mãe. Coisa de mulher, todas nós, criadas para agradar, servir, ser para os outros, e não para nós.
Mas , como já era de se esperar, o filme centrava nos pensamentos da atriz principal. Largada em frente à igreja no filme anterior, assume nesse seu casamento - ou o que acha que seja um. Se propões feliz sem filhos, o que choca muitos, coisa normal ainda em pleno século XXI. Mas não consegue aceitar o dia-a-dia de casada, o "cair na mesmice". Vai ao extremo de não aceitar pedir comida em casa (cozinha? ah, seria pedir demais frente a uma mulher que levanta de salto dez...), nem que ele, cansado, prefira ficar vendo televisão , jogado no sofá. E com os pés sobre o mesmo? Ah, sinal de guerra. Quer para si um casamento de revista de moda, regado a festas sem chinelão. Descobre, como um bom filme que se preze, que o meio termo pode existir. E que assistir um bom filme agarradinha no sofá - ou encaixadinha na cama - pode ser uma das melhores coisas do mundo. Até das casadas. Desde que se ame e seja amada.
Quem ganha a parada? Todas nós. Por isso gosto de filmes. Ainda mais de comédias românticas. Ensinam-nos - ou pelo menos nos fazem relembrar - que o meio termo é o melhor lugar. Nem só chinelão, nem só salto dez. Que podemos nos reinventar a cada momento. Que não precisamos viver de padrões impostos, e nem do avesso. Que temos, sim, a liberdade de escolher que caminho queremos, entre paredes ou na rua, na cama e na vida. E que o bom senso e o amor são os nosso melhores guias. Hoje e sempre. Até num já predeterminado enfadonho domingo pela manhã.

sábado, 5 de junho de 2010

Sem Chanel


Assistir ao último filme sobre Coco Chanel é parar para pensar. Uma pela persistência sempre inspiradora destas pessoas, tantas, que tinham tudo para dar errado e dão é muito certo. Outra pela forma delicada e vagarosa que se deixou invadir pelo amor.
Ah, quanta irreverência numa só mulher. Fez-me lembrar Frida Kahlo, outra que amo. Cada uma a seu tempo, cada uma em seu lugar, cada uma de seu jeito, mas a mesma teimosia frente à vida. A mesma forma dura de não se deixar levar. O mesmo olhar de quem sabe onde quer chegar. O mesmo olhar de quem não consegue conviver com a hipocrisia. A mesma forma defensiva de não se deixar seduzir de forma barata. Usando da cama como arma, sim, mas sendo sempre elas as vencedoras.
O filme pode decepcionar a quem quer ver a estilista. Ou o poder de sua marca. Mostra, tão somente, a Coco, antes de se tornar Chanel. Mostra tão somente a mulher, antes do mito - ou dentro dele. Sua trajetória sem glamour. Um chiquérrimo tapa de pelica. Fiquei pasma com a atriz , que não conhecia, Audrey Tautou. Captou facilmente o aparecer da paixão, seu crescer. De olhos mortos a brilhantes. De boca amarga a sorriso fácil. De andar masculino a uma delicadeza deslizante. A transformação da lagarta em borboleta. Um amor que se foi rápido, mas deixou nela tanta mudança. E quanta graça na sua ingenuidade frente a isso, quando pergunta a colega como é estar apaixonada, já mulher feita e teimosamente moldada.
Essas mulheres, grandes exemplos. Adoro sabê-las, assim, por inteiro. Sempre vagando em minha mente, sempre me incentivando a não parar. Nem no tempo e nem frente a vida. E nem em relação a mim, que vim ao mundo para ser feliz. Custe o que custar.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Desejo


Feriadão com chuva. Criança em casa. O que fazer? Tirar o dia para ser feliz. Um dia para ser otimista. Sair se for para sair, ficar se for para ficar. sair e comer algo gostoso entre gostosas gargalhadas. Ou ficar e ler, estudar fazer o que se quer da vida.
Hoje dormi no quarto de meu filho , de novo. Tem um não sei que de aventura, de liberdade, de juventude, quiçá de infância. Um muito de amizade, de companheirismo, de cumplicidade. Parece-me melhor, mais aconchegante, eu mais próxima dele. Temos nossas brincadeiras próprias que ninguém entenderia. Como ter a "obrigação" de ficar olhando o aquário a cada intervalo do programa, ele cuidando para que eu não quebre a "regra", eu fazendo de um tudo para burlar. Invariavelmente dormimos com a televisão ligada. E invariavelmente, sou eu que a desligo, num misto de "eu já sabia" com "faz parte". E acordar e ver seu rosto sereno, ainda dormindo, ah, não tem igual.
Assim quero um amor para mim. Um amor que me divirta e me complete. Estar junto com satisfação, quase brincadeira, temperado com muito querer ficar junto. Achar graça no que só tem graça para nós. Achar graça na cumplicidade compartilhada com olhares. Achar graça de acordar todo dia no lado da mesma pessoa, no mesmo lugar, do mesmo jeito. E rir alto, de nós mesmos, sem se preocupar com o que os outros acham ou deixam de. Virar e olhar para ele como se da primeira vez. Ver o mesmo e outro todo dia ao acordar.
Descubro que quero um amor como eu. Um amor suave, um amor de dentro, de alma pura e juvenil. Um amor menino que se encante com as coisas da vida. Que se encante com o tudo e o nada. Que se encante com o que sou. Que se encante com o que somos quando juntos. Como se nascêssemos de novo, um para o outro, a cada dia. Novos enquanto o nós. Doce. Cúmplice. Amor com alma de criança. Como sou. E que venha para ficar.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Coffe, tea or...


Em pleno almoço de trabalho de equipe do curso de especialização que estou fazendo - mesmo contra a vontade dos que não me querem feliz - falávamos sobre escolhas. A difícil tarefa de escolher entre uma coisa e outra - botas, roupas, entre livros e aquela blusa da vitrine. Entre numa livraria - eu , pelo menos, tarada por livros - e veja como é complicada a coisa. Entre um relógio novo para o pulso - ou a coleção - e aquele lindo para a parede do apartamento novo.
Escolhas. O assunto era esse porque queríamos descobrir os porquês que levam a uma boa compra na loja do cliente a ser estudado. Os porquês da dificuldade de uma mulher escolher entre essa e aquela loja, essa e aquela peça. Ainda mais mães, que tem todo um universo na balança - ela, marido, filhos, casa.
Até que uma colega fala com todas as letras: "difícil escolher entre um namorado queridinho ou um bom amante". Gelei. Não com a frase, nem como o sentido, mas com a forma e lugar, uma mesa repleta de colegas recém conhecidos. Intimidade, ali, servida junto à mesa. Não estava preparada. Como uma streaptease a céu aberto. Ri, para mão perder a amiga. Ela é nova, pensei. Quantas e quantas realmente difíceis escolhas ainda terá pela frente...
Escolhas, sempre tão difíceis. Para mim nunca são se estou compenetrada no assunto, hoje em aprender. Para mim, hoje, fácil escolher entre mais uma bota ou o livro pedido em sala de aula. Mas tudo muda quando falamos de pessoas. Eu, que já fiz muitas sob pressão, sei bem do que falo. Passando agora por uma fase de transição, sei bem quanto pesa. Já fiz escolhas deste naipe na vida e foi fácil resolver depois de um tempo pensando sobre. Não sabia bem o que queria, mas era mestra em saber o que não queria. A cada pedido de "tempo" de namorado, a certeza em mim de que não era ele o tal esperado. Mas quando se está na frente de duas "coisas" que se quer, amor e amor, pesa como chumbo.
Quem quebra a banca?
Porque é tão difícil hoje? Porque não sou mais sozinha no mundo, por mais racional que tente ser. Existe alguém que depende de mim, em maior ou menor grau. Não dá para pegar uma mochila e sair pelo mundo sem lembrar de um filho em formação. Não dá para assumir uma vida como quero se ele não estiver incluso ou, melhor ainda, bem resolvido. E levar de arrasto pelo caminho é deixar para trás os sonhos dele, tantos. Eu feliz, ele nem tanto. Lembrei-me disso ontem em pleno filme (chato!) da Alice, sendo arrastada para uma vida que não era a dela. Fugiu, sonhou, escolheu seu caminho sem titubear. Nos filmes, as coisas funcionam; na vida real, nem tanto.
Por isso falei outro dia sobre vida dupla. Referia-me à vida que quero , minha, que vou chamar de "vida laranja", pela vibração, alegria e energia que me dá - e da qual tenho a mais plena certeza de querer para sempre - e esta , um "levar a vida ", que tenho agora, amarrada a conceitos e predeterminações. Revejo, repenso, calculo, e ainda não dá. Como se abandonasse uma obra inacabada, uma casa linda sem pintura. Muralhas prontas com infiltrações imperceptíveis. O minúsculo furo no dique. Como se algo ficasse para trás. Vem junto o medo da ruína. Ou da sempre reforma até o fim de meus dias. Escuto a risada dele e isso me acalma. Escolhas - ou não - de mães. Melhor esperar.

"Você faz suas escolhas e suas escolhas fazem você"
(Shakespeare)

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Luto

Hoje perdi um grande amigo. Mais que isso, só eu sei. Soube de forma moderna, pelas chamadas redes sociais, um recado da irmã.
Nada moderno é o meu sentimento. Um sentimento de perda tão grande que nem eu mesma imaginada. Longe daqueles sentimentos que afloram só depois que a pessoa se vai. Posso dizer que morava em meu coração. Uma daquelas pessoas que mesmo estando longe, estão dentro. Um amigo de longa data - dos deliciosos tempos de faculdade - e que me presenteou com sua presença novamente pouco tempo atrás. Pouco tempo, mas muito. Não tem como falar pouco, viver pouco, com ele não dá. Tudo é muito. Até a perda.
Engraçado. Até agora me faz rir. Seu sobrenome - e como o chamávamos: Pimenta. Nunca vi um sobrenome cair tão bem! Dava gosto viver ao lado dele. Tempero da vida. Chacoalho da vida, melhor dizer. Não deixava pedra sobre pedra. Não se deixava passar. Não passava: grudava na gente feito cola. Ardia feito malagueta. Fazia e acontecia. Mesmo se as coisas não acontecessem, lá esta ele, a nos cutucar.
Vai com Deus, amigo, vá em paz. O céu nunca mais será o mesmo. Nem a Terra, onde temos que ficar, mesmo sem teu tempero...

terça-feira, 1 de junho de 2010

Confissão


Tem dias que o dia rende. Caminhar com cachorro, fazer unha, trabalhar, estudar, dar atenção ao filho. Ler e-mails, ler revistas, ver jornal. Dar atenção aos amigos e a quem se ama - e nos ama - de verdade. Pegar na natação, providenciar janta, dar carinho, terminar de ler o livro. Beijo na testa antes de dormir, apagar a luz, desligar a tv. Cuidar do cachorro, agendar o amanhã, a semana que vem. Como damos conta?
Ontem foi assim, hoje a história se repete. E ainda tem as compras (véspera de feriado, arrepio...porque temos que comer?). Um universo de coisas bem feitas, outras nem tanto, e ainda o tempo sempre disponível de me sentir culpada. Não sei se pelos outros ou por mim. Queria mais para mim. Mas sem deixar de lado os outros. Como fazer?
Hoje repenso tudo isso, enquanto vejo que preciso dar um jeito no quarto de meu filho. Fazer desse momento um momento nosso, revendo as coisas, os valores, limpando e arrumando, sempre um bom momento. Nosso. Quem sabe um cinema ou um sorvete por ai? Se esses momentos são importantes - e cada dia mais, dadas as minhas ausências - penso, melhor fazer deles algo entre útil e também especial.
Feriado chegando e sei bem que um tempo só para mim será ainda menor. Talvez me feche em livros, talvez em filmes escolhidos numa locadora. Talvez em sonecas disfarçadas, ali memso, no sofá, com o cachorro entre as pernas. Ou me distraia em minhas longas caminhadas. Valerá o esforço. Semana que vem é curta, viajo, lembro. Lá ,sim, tempo para mim. E para me amar como mereço. E quero. E sou.
Olho o calendário, falta muito, tomara passe rápido. Chato pensar assim, mas assumo minha realidade nada vã. Aqui administro, lá vivo. Aqui levo, lá estou. Aqui dou, lá recebo.
Aqui outra, lá, eu.

Nas coxias


Ser protagonista de sua própria vida. Batiam nessa tecla no programa de rádio que gosto muito, o AudioBlog, da Mais FM de Joinville. Sempre um bom tema, ou vários, a serem debatidoe de forma bem aberta, informal. Escutei enquanto andava vagando pela cidade ontem a noite, pensando na vida. Serviu o chapéu, diria. Caiu como uma luva. Ou uma pedra. Deixarmos de ser coadjuvantes de nós mesmos, diziam. Um pensamento tão simples, já tão conhecido, latejando incessantemente em minha cabeça cansada. Enxaqueca de não me ser?
Desde pequena vivo a mercê dos outros. Queria medalha de boazinha. "Adulta", entrei na faculdade e me virei como deu até terminar. Fiz juz à medalha. Já profissional, peguei emprego, que agarrei com unhas roídas e muita teimosia. Muito "achismo". Muito nariz empinado, mesmo sabendo da real verdade dentro de mim. Dai para frente foi fácil ver a fragilidade das coisas. Sentir na pele, diria. Foi tudo embora junto: o emprego, a coragem, a dignidade.Voltei para o bastidor e lá fiquei. E lá estou vez por outra; ou muitas, assumo, mesmo até hoje. Sei o que quero, mas falta a coragem de abrir cortinas. Ou força. Vontade, melhor dizer. Talvez pelo fato de ter sido sempre a que conforta, a que segura as pontas. A que dá força, não a que recebe.
A que sempre espera o melhor momento - dos outros - que nem sempre vem.
Difícil sair do escuro das coxias. Talvez porque a zona de conforto, mesmo desconfortável, persiste. Melhor seria sair correndo porta a fora, sem nem olhar para trás, do que encarar a vida e falar a ela umas verdades. Em quem vai doer mais?
Medo. Todos temos, mesmo não assumindo. Medo de enfrentar o mundo real. Medo das consequências de nosso atos. Medo da palavra que sai da boca e não dá mais para engolir. Medo de atuar em prol da gente mesmo. Medo de ser o ator principal. Mesmo sabendo que a plateia será receptiva, que o aplauso , enfim, virá, desde que se faça tudo com o coração...