sexta-feira, 11 de junho de 2010

Cartas


Recebi esse poema:
As cartas de amor deveriam ser fechadas com a língua.
Beijadas antes de ser enviadas.
Sopradas, respiradas.
O esforço do pulmão capturado pelo envelope, a letra tremendo como uma pálpebra.
Não a coisa isenta, neutra, mas a espuma, a gentileza, a gripe, o contágio.
Porque a saliva acalma o machucado.
As cartas de amor deveriam ser abertas com os dentes.

(Fabricio Carpinejar)
Dei um passeio no tempo. Relembrei as que recebia de minha madrinha. Mandava mimos sob a forma de palavras em letra linda. Ela, sim, escrevia todo dia em seu diário, pequeno tesouro guardado na gaveta ao lado da cama. Relembrei, também, as cartas de um certo amor. Um amor de longa data. Longas também as cartas, feito um livro. Densas, traziam o ouro das minas , o cheiro das matas. Ficava imaginando a cena da escrita: a mão, firme, marcando papéis; a tinta, molhada, quase rasgando o fundo amarelado. Os contos, as notícias, as chegadas. Os sentimentos, todos, ali, em forma de palavras. E a magia de cada uma recebida. O envelope, meu nome na frente, o dele atrás. Pensava os caminhos da carta, quanto as mãos a me trazer, feito uma corrente de entregar. Revendo a cena, mais parecem saída de algum livro de
Gabriel Garcia Marquez, meu Gabbo.
Hoje resumimos nossos escritos em teclas do computador, muito raramente em tinta da impressora. Pelo correio chegam apenas contas e pedidos, nada de boas notícias ou agradecimentos. Nada mais tem o charme de uma boa escrita (ah, sim, as letras manuscritas nos convites de casamento...). Deve ser por isso que ainda uso caderno e caneta nas aulas. E sempre que posso. Deve ser saudades das ideias a deslizar no papel...

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