sábado, 31 de julho de 2010

Mudança


Vende-se. Essa foi a placa que mais vi na minha caminhada de hoje - aproveitando bem o sol e a temperatura acima dos 25 graus. Estavam todas em casas novas - muitas acompanhei a obra em meus passeios matinais , muita ainda em acabamento. E grandes, beirando fácil os 400 m2.

Lembrei de uma amiga minha que , enfim, comprou a casa dos sonhos: quatro suítes, duas enormes salas - uma com a churrasqueira integrada - , piscina, lindo jardim com pequena quadra, paraíso para o casal e seus desejados três filhos.

E isso não faz muito tempo. Hoje procura um apartamento não muito grande. Quer livrar-se do jardim ou seria do jardineiro? - , da piscina pouco usada, depósito de folhas, da quadra que serve de base para o limo. E dos tantos quartos. Os filhos cresceram. Por um tempo encheram a casa de amigos. Mas eles se vão, disse um dia a ela. fatal: dois já na faculdade - um morando fora - e outro prestes a sair de casa para o mesmo fim. A garagem ficou pequena para tantos carros, a casa vazia pelo entra e sai. Eu que os acompanhei desde as mamadeiras, por vezes me assusto, não os reconheço mais.

Mas voltando ao assunto, antes que eu caia em lamúrias com cheiro de ontem, fico a pensar no porque tanta energia - e tanto dinheiro - para construir casas. Sonhamos com isso. Nossos pais nos ensinaram. Como se nossa evolução - ou seria status ? - fosse atrelada a isso. Como se voltássemos ao tempo dos castelos. Como se só fossemos reconhecidos se morássemos por detrás dos altos muros. Fora deles, pobreza e esquecimento. Isolamento. Ou seriam os moradores por detrás das muralhas os enclausurados?

Caminho pela cidade vendo as placas e sinto pena. Quanta energia jogada fora. Com as nossas casas vai um pouco de nós mesmos, muito de nossa história. Por isso não corro atrás, nem me apego muito. Não desperdiço meus dias entulhando coisas. Não quero ser esmagada por elas. Deve ser meu espírito de eterna estudante, nômade. Mudei muito nessa caminhada até aqui. E quero ainda mudar muitas vezes, como se isso me renovasse. Mas sem exageros de qualquer natureza. Minha vida cabe em poucas caixas. Fica fácil mudar.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Faxina


Deveria fazer o que dizia a minha vó: " o que não queres fazer, faz primeiro". Parece sem lógica, mas paro para pensar que ela tinha razão - nisso e em tantas outras coisas. Se algo incomoda e não resolvemos, fica batendo na cabeça, feito um pica-pau. O assunto volta à tona a qualquer hora do dia. Lateja, incessante e irritante. Ocupa espaço. Como uma gaveta abarrotada onde queremos colocar mais uma coisa e não cabe. Se não arrumamos e tiramos para fora o que não nos interessa, a novidade nunca vai caber. Fica o impasse da hora. O não feito vira peso. Não se deixa ignorar, por mais que se queira. Como sujeira para debaixo do tapete. Ou louça na pia.
Digo isso de cadeira. Sou mestra diplomada em deixar as coisas "chatas" para amanhã. Um projeto que já está todo na cabeça esperando para ser despejado no papel. Um telefonema (esse é fatal, trauma de adolescência, culpo) a ser dado. Basta levantar o fone, apertar meia dúzia de teclas e falar. Simples. Fácil. Mas nem sempre. Mil ensaios, divagações, e nada. Sei do que tenho que fazer, sei da importância da coisa, e não faço. Não finalizo. Não limpo a tranqueira.
Engraçado que sei bem onde me aperta o calo. E mesmo assim , deixo-me cair em armadilhas. E não pense que falo de algo muito importante, não se iluda. Coisa rala. Pouca. Sem graça. Não é aquela discussão de sim e não que me ronda a vida. Nem a decisão, aquela, já tomada, que mudará meu rumo para sempre. Com essas, sou cautelosa, criteriosa, sei bem o quando vai doer, em mim e , com certeza e mais ainda, no outro, seja lá quem for. Das coisas que colocamos no altar da vida, tomo cuidado. Nas decisões de uma vida toda, vou com calma. Engulo sapos enormes, gosmentos, que parecem saídos das páginas de um Guiness Book. Nisso, sou sábia. Ou medrosa, podem escolher.
Mas, voltando às banalidades do dia-a-dia, reconheço o que é mais engraçado: sinto um alívio, um prazer enorme, uma satisfação inexplicável ao resolver algo - meu ou do outro. Limpo a mente. Uma sensação de dever cumprido. Uma leveza sem tamanho. De banho tomado, destes de sábado. De faxina, daquelas que fazíamos aos sábados. E me pego pensando no porque levei tanto tempo para tal ato de pegar o pano e o balde e mandar ver, com vontade. No porque fugi de tal fazer. Vai saber.
Ou sei. São coisas que não quero mais para mim, mas ainda me cabem, desconfortáveis feito roupa apertada. Estão lá quando abro o armário. E trazem consigo o peso da culpa dos quilos a mais, que por vezes parecem concentrados em meu cérebro. Ou em meu coração. Quem sabe em minh'alma. Prometo começar segunda-feira um bom regime. Quem sabe melhoro.
E faço.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Otimista


Não adianta a vida me dar tropeções e me deixar, por vezes, para trás. Ela tenta, manda dias frios, esconde o sol, tenta me arrasar, deixar-me deprimida, mas não consegue de todo, apenas momentaneamente. Basta fazer o mundo girar a meu favor.
Sou movida a bom humor. Parodiando Renato Russo "sem bom humor , eu nada seria".Ele me guia e sigo meio que hipnotizada. Anestesiada, melhor dizer. Amo o otimismo. Meu gás se multiplica com um sorriso, potencializa numa gargalhada. Aquece num olhar. Não sei viver sem isso. Quando me esqueci e tentei, a vida cobrou caro. Gastei ( ou ganhei?) muito tempo e dinheiro com terapia. Anos a fio. Tudo bem aplicado. Santa Margarete que o diga. Dava um carro popular. Mas valeu, recebi alta no dia que assumi que o problema não era meu. Era excesso de agradecimento, de comprometimento. Excesso revertido em quilos a mais, em enxaquecas brutais. Uma conta cara que , se pudesse, teria pago para me livrar das culpas.
E tudo isso porque? Porque não estava feliz. Não que o seja totalmente hoje, reconheço os perrengues. Mas aprendi a ver mais longe, a sair do espaço comum, ver a famosa luz no final do túnel. Aprendi - e aprendo a cada dia - a ter a paciência que preciso para chegar lá. Um passo de cada vez, sim, firme ou nem tanto, mas dando risadas - da vida e de mim. Olho para trás e vejo quanta coisa já foi feita. Olho para trás e vejo quanta coisa foi necessária. Sem elas, eu não estaria aqui. Sem elas " eu nada seria". Não seria o que sou hoje. Nada é arbitrário, nada por acaso. Não vivemos de " e se". Nem de dúvidas. Só de certezas, reais ou imaginárias. Gostando ou não.
Mas a vida passa. A maturidade, mesmo que rasa como pensam alguns, passa os sonhos a limpo. Deixa só o que se pode alcançar. Um "só" que pode ser muito. O Outono passou , lindo! E deixou em mil novas possibilidades. O Inverno veio com força e tentou me congelar, mas meu calor das horas estava lá. Quando tenho, aproveito, recarrego, armazeno, e me ponho pronta para tudo enfrentar. Gozo a vida tanto quanto dá para gozar. Afinal, a Primavera está ai, depois virá o Verão. E assim, sucessivamente. Muita coisa a passar. Não é a toa que meu aniversário cai no dia do palhaço...

Ainda que eu falasse
A língua dos homens
E falasse a língua dos anjos
Sem "meu bom humor", eu nada seria...

Com essa, ou Renato ri ou me pragueja lá do céu!

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Choquei!


"Choquei", como dizem por ai. Descobri que meu filho, 15 anos, está fazendo a barba. Sei bem que daria para fazer com uma pinça, tamanha "abundância, mas vá lá, a cara e o ego são dele, não meus.
Expliquei a um tempo atrás que barba não tem volta. Uma vez feita, sempre. Descobri isso da pior forma, também com a idade dele, quando desencantei e fui num primeiro baile de 15 anos - o das minhas amigas. Eu não debutei, como se dizia na época, porque meu pai achava besteira. Não queria "entregar" a filha para a sociedade, dizia ele. Hoje acho graça. Muitas das debutantes da data já tinham feito muita coisa com a sociedade, inclusive emprenhado.
Enfim, voltando às barbas magras, depilei minha perna pela primeira vez para ir ao tal baile. Aliás, meu primeiro dia de tudo . Vesti-me pela primeira vez como mulher : vestido, salto alto, maquiagem, cabelo (feito em casa, mas já um grande progresso). Não que não tivesse exemplo em casa: minha mãe já descia as escadas da casa para nos chamar para a escola em belo salto (nosso despertador), saia e blusa , cara pintada. Raramente usava calças - só para viajar e olhe lá.
Voltando a cremes e depilações, descobri ali não tinha mais volta. A perna, agora destituída da penugem dourada, nunca mais seria a mesma. Foi para o ralo uma de minhas marcas registradas (hoje ainda conservada em locais de difícil visualização). E foi com ela minha meninice. Minhas novas pernas não combinavam com meus brinquedos, até então espalhados debaixo da escada. Meu novo salto, mesmo que pouco usado, não combinava com bonecas a alimentar. Tomo consciência, mesmo que tardia, de como uma só noite, à minha lembrança não muito válida, invalidou tantas outras Joyces. Umas foram para o banco dos esquecidos, outras para as gavetas das lembranças bem guardadas.
Descobri que meu filho faz a barba. Ou pensa que faz. Sente-se homem, ou pelo menos quer sentir-se como tal. Melhor assim. Lembro do livro que ganhei de minha irmã quando ele nasceu - daqueles, famosos, que ensinavam desde trocar fraldas a resolver cólicas. Ou ensinar a rezar. A sábia, já bem encaminhada na vida materna, pôs lá uma frase de Gibran bem na primeira página: " nosso filhos são filhos do mundo". É chegada a hora, penso. Ou quase. Não mais preocupações com a cor do cocô ou com o mercúrio subindo no termômetro. Nem com as quedas de bicicleta ou sangue jorrando na testa. Nem com notas de matemática. As noites sem dormir agora serão outras. No lugar de choro e febre, noitadas. O tempo demora quando se está à espera. Que Deus me ajude a superar mais essa etapa...

terça-feira, 27 de julho de 2010

Invernando


Ainda de roupão em pleno meio da manhã, tento me animar com um segundo copo de café. Deve ser por isso que a gente engorda no inverno. Tenta aquecer o corpo e a mente com algo preferencialmente quente e doce. Mas não basta um ralo chá. Precisa ter corpo, pesar feito um edredom. Nem devia ter saído da cama. Deveria ter ficado lá, não fosse a vida me culpando de tudo. Vai, minha filha, levanta, berrava ela enquanto eu ainda tentava abrir os olhos! E eu, tentando convencê-la de que esperava o dia. A vida é surda, penso eu. Feito mãe que nos empurra mesmo que não queiramos, mesmo que não acredite.
Quando desci para fazer o café do filho ainda estava escuro. Viu? Pensei. Nem o sol acordou ainda, porque eu? Fiquei de pé esperando o chiar da chaleira (é, minha cafeteira se foi sem avisar...) , depois vendo líquido escuro que escorria pelo coador, e pensando em quantas pessoas já estavam "na lida". Então por que tanta preguiça? Não, não é preguiça. Antes fosse.
É falta de tesão.
Falta algo. Falta um nada ou um tudo. Se o sol me fizesse companhia, já me alegrava. Talvez eu caminhasse e com isso, animaria. É, deve ser isso, falta um sol (alguém tem que pagar esse pato, antes que eu proclame a depressão). Falta o "meu Sol" - não necessariamente esse que todos esperamos dar as caras pela manhã. Um Sol que me faça acordar pronta para vida todo dia, seja ele ensolarado ou chuvoso. Um Sol que me aqueça o corpo e a mente. Que me aqueça as vontades. Que me faça sentir viva. Se tivesse meu próprio Sol, poderia eu morar no Pólo Norte, seis meses de noite, tanto faz. Eu e ele ficaríamos a ver estrelas, noites e noites contando histórias, fazendo a nossa história. Se eu tivesse meu próprio astro-rei sempre ao meu lado, quem sabe não me faltasse mais nada. Quem sabe trocaria o dia pela noite. Quem sabe fizesse mais. Ou quem sabe não fizesse nada, a não ser ser eu mesma, preguiçosa e lenta, feito urso polar. Assumida como tal. Pelo menos nas manhãs de inverno.
Os bichos é que estão certos...é tempo de hibernar!

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Uno


Acordei no final da viagem com grata surpresa: de um lado da pista, a lua, cheia, grande e linda em todo o seu esplendor. Do outro, o sol nascendo forte, anunciando um belo dia. Não sei se para não esquecer de descer ou para apenas acordar meu cérebro ainda adormecido pelas tantas horas de viagem, fiquei a contemplar tal encontro. Lembrei das raras vezes que presenciei isso.
A lua me atrai, sinto-me fisgada. Pena termos perdido a romântica mania de ficar a vê-la horas fio, acompanhada de suas amigas estrelas. Contando "causos" ou só ouvindo o barulho do mar, do vento ou do nada, acompanhado pelo cri-cri do grilo. Fazíamos muito disso, em tempos bons em que ainda não tínhamos sido "abduzidos" pelo conforto de um sofá e e de uma tela de televisão.
Mas o meu sentimento hoje era outro. De perder a lição ensaiada e repetida dos contrastes, dos opostos. Dos supostamente separados. Do preto e branco, noite e dia, lua e sol. Yin e yang. Macho e fêmea. Tive a gostosa sensação de complô, de parceria. A nítida noção de atração do ditado. E mais que isso, de união. De comprometimento. De um saber que o outro está lá, mesmo sem vê-lo. A confortante sensação de compartilhamento, do uno, de pesos iguais na balança da vida. Um não vê o outro tanto quanto queria, mas nem por isso deixam de ser felizes, se serem um só, cúmplices, completos.
Hoje o universo me fez rever conceitos. Bela forma de começar um dia.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Piquenique


Pode ser prático, mas baniria da face da Terra os tais plásticos. Não este em qual teclo, nem do tampo do bacio ou do pote de shampoo, mas de embalagens. As de indefectíveis salgadinhos, direcionando bem a coisa.
E explico: as pessoas não tem noção da chateação. Não tem noção de seu irritante barulho. Pense comigo: você no escurinho do cinema, um belo filme passando - daqueles em que se tem que prender a atenção para não perder o fio da meada (ou seria melhor dizer fio da história?) e seu "vizinho de poltrona" resolve abrir seu pacotinho. A cada "mãozada", tremem os ouvidos. As vezes por horas a fio. Pior que isso só celular (mas esse merece um texto só dele...) .
Imagine, então, em uma destas tantas viagens que faço - e ainda tenho pela frente, tremeis! São, no mínimo, nove horas que eu uso para tentar descansar - afinal, o estudo me espera. Com certeza não sou só eu que noto - e me impressiono (melhor assumir que me irrito ou até acho graça, tamanha insensatez) - em como as pessoas comem enquanto viajam. Como se a noite fosse dia - e nem assim explicaria tão voraz fome, ou vontade de comer. Talvez substitutos ambulantes dos ataques noturnos à geladeira. Suas mãos passeiam entre salgados e doces, geralmente e por vezes mais barulhentos que o próprio envólucro (palavra chique demais para tal barateza da hora). E, barulhentas, chegam até as bocas que intercalam comer e falar. Não dormem e fazem do passar das horas, piquenique - assim, bem abrasileirado - a bordo.
Fico pensando de onde isso vem. Vejo um lado bom. Lembro da minha infância, das viagens de feriados e férias - uma constante - quando o auge da coisa eram os lanches à beira da estrada. Sim, caro amigo, pode rir quem nunca experimentou tão aprazível experiência: café com sanduíche (o pão incorporando o gosto do recheio) logo ao acordar do sol - ali, nos bancos de algum antigo paradouro (hoje tão raros). E, podem rir, a famigerada galinha com farofa e ovo cozido na hora do almoço, com direito a toalha xadrez e passeios por perto - até onde os olhos maternos alcançassem, é claro. Não tínhamos plásticos. A embalagem era em potes, panos e amor. Quando não pinhão cozido vendido ainda quente. Terminada a pausa e a farra, seguíamos, os sete - ou oito se contarmos com o cachorro da vez - eu geralmente no colo de minha mãe (ah, dos tempos que andávamos seguros sem o cinto de segurança...). Não sei do que mais gostava: se do viajar e ver, do passar e chegar, ou das paradas para comer. Deve ser por isso que amo tanto café com pão e galinha com farofa. Devem ter gosto de ontem. Gosto de festa, de quero mais.
Mas, enfim, voltando ao assunto que está em pauta - e antes que minhas lembranças me levem para muito longe: damas e cavalheiros, esqueçam em casa sua fome e sua vontade de falar. Quando as luzes do dia se apagam, é hora de descansar. Nem que seja no balanço de um ônibus.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Detalhes


"Sou contra a moda que não dure. É o meu lado masculino. Não consigo imaginar que se jogue uma roupa fora, só porque é primavera."
Coco Chanel
Essa frase dita ser de Chanel me faz ver que estou no mesmo caminho. Não que me vista como homem - já sou um tanto sem graça, isso seria demais - mas tenho prezado ao passar dos anos por uma linguagem mais, digamos, simples, em mim. Poucas e boas roupas. Aquele casaco 3/4 que sai inverno entra inverno está lá, atual e intacto. E quem me dera estar com caixa para tal. Rio cada vez que lembro de uma frase de minha mãe - "triste é ter bom gosto e não ter dinheiro" - e me viro como posso. As prioridades, hoje, são outras.
Já tive meus tempos de Chanel, roupa e cabelo. Cabelo curto me caía bem em outros tempos. Precisava da roupa austera para me manter de forma digna como uma das raras representantes comerciais - um mundo, até então- e ainda o é - predominantemente masculino. Viajava por ai e atendia basicamente homens, e não teria voz se não fosse assim. Terninhos me acompanharam anos a fio, mas sem deixar de lado a graça de um broche de flor, um lenço amarrado no pescoço (marca registrada até hoje, herança da avó que esbanjava vaidades ), um echarpe colorido.
Hoje não mais - a não ser pelos detalhes coloridos. Gosto da roupa confortável, mas sem ser tipo masculino ou vulgar. Não quero que amarrem meus movimentos, sempre amplos. Nem que me deixem com cara de saco de batatas. Afinal, cai no abismo dos "enta" (perco minha dignidade, mas não a piada!) faz um bom tempo, mas não deixei lá no barranco minha auto estima. Nem meus já craquelados olhos azuis, sempre bem pintados, meu "salva-caras". A vida em ensinou a gostar de poucas e boas - de roupas a pessoas. E espero não cair em tentação.
Se gostaria de me vestir melhor? Óbvio. E isso já é um passo para fugir do que está nas revistas da moda e vitrines de liquidação. Nelas se põe o que é de rápida passagem, que vende rápido, o que dura pouco , o que precisam desovar ( ou alguém ai já vim alguma peça de belo feitio em promoção?) E espero não cair em tentação. Não ser a boba da corte, nem a escrava da grife, nem o brechó de amanhã. Muito menos a individada por nada. Fico com meus detalhes. E nas compras de ocasião.
"Tô de boa"...

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Aprendendo


Acho a Lya Luft, com o perdão do descaramento e, talvez, pré-julgamento - meio depressiva. Deve ser coisa da geração, descrente do mundo de hoje, sei lá. Vejo nela um pouco de minha mãe - também escritora e também com esse ar de desdém, caras de que nunca está bom. Talvez porque falem verdades que não quero enxergar. Não que discorde na totalidade do que falam e de como pensam, mas da forma que põem para fora, uma forma por vezes amarga até mais do que deveria ser. Enfim...já não é de hoje que sou taxada de sonhadora e infantil.
Mas gostei de um texto, supostamente escrito por ela , Lya ( lembro da infidelidade da internet que tudo aceita...) que recebi de uma amiga via e-mail. Falava resumidamente que " A fonte da juventude chama-se 'mudança' ". De fato, quem é escravo da repetição está condenado a virar cadáver antes da hora. "A única maneira de ser idoso sem envelhecer é não se opor a novos comportamentos, é ter disposição para guinadas", completa ela. Tive que dar a mão a palmatória - e que nisso ela seja bem boazinha - e concordar. Sei bem as melhorias que teimar em estudar fora - e longe - tem feito em termos de benefícios a mim, apesar do frio, das cansativas viagens de ônibus e da oposição em casa. Meus olhos brilham quando consigo coisas, por menores que sejam. E ficam opacos de infelicidade quando não sou compreendida ou quando não tenho com quem compartilhar. Ou quando sou acusada injustamente de não ter tentado, de ser fraca e tudo o mais que ando escutando mesmo sem querer. Mesmo sem falarem. Vejo no olhar, que abate o meu.
Eu tenho tido que reaprender a me amar. Leio minhas marcas. Dispenso as da testa, sinal de preocupação. Aprendo a gostar das de canto de olho e de canto de boca , sinais de que estou feliz. Olho no espelho e tento gostar do que vejo. Como o próprio nome diz, são rugas de expressão. E se expressei ou expresso algo, prefiro que sejam coisas boas. Nisso baseio meu caminhar. Na busca de algo mais, do que acredito, do que quero - não do imposto ou comparado. Dispenso a sala de cirurgia. Mas não dispenso o pote de creme e a massagem na cara. Mas ai já é cuidado. Já é preparo. Uma delicada forma de me amar mais. E de receber o envelhecimento de forma mais otimista.
E faço minhas as palavras dela: " Quem dá brilho ao olhar é a vida que a gente optou por levar. Olhe-se no espelho... ".
Eu, crédula disso, estou indo lá!

terça-feira, 20 de julho de 2010

Sol!


Quem me acordou hoje foi o sol. Acordei ensopada por debaixo do cobertor de inverno. Deu o ar de sua graça. E trouxe de volta a minha. Acordei ensopada por debaixo do cobertor de inverno. Assustada, até. Não sou do tipo "boa de cama", que deita e só acorda pela manhã, mas foi o que aconteceu. Levantei a mil, engoli um café, peguei o rumo da rua para caminhar. Enfim, viva de novo. Não era o final dos tempos ( afinal, se vai mesmo terminar tudo em 2012, ainda falta um pouco. E tenho muito que viver...).
Andando pelas ruas vi o quando o astro rei faz diferença. Tinha sorriso na cara das pessoas. Tinha luz em seus olhos. Um andar lento como que aproveitando raro momento. Roupas de cama nas janelas, lençóis nos varais. Dia de faxina, pensei. Nada como uma roupa seca ao sol: tem cheiro de casa de mãe - destas, antigas, não das moderninhas que secam tudo nas máquinas. Os botecos com suas portas cheias, as atendentes em conversa fiada vendo o dia passar. Até o palhaço (literalmente, vestido a caráter, punho segurando microfone) anunciava o sol como seu parceiro de vendas. Aproveitem o dia, dizia ele. Bom dia para aproveitar as ofertas da loja tal.
Caminhei sem muita estratégia, alternando passos. Vivendo o caminho. Devagar na frente da vitrines de promoção. Pensava do porque se consegue 70% de desconto só depois de já ter comprado o casaco novo. Ou se ganha desconto na bota que não tem mais nosso número. Ou cor. Depressa na frente do que não interessa. Quase uma corrida na frente da calçada confusa e movimentada . Ou na frente do hospital. Dia de sol só combina com maternidade. E visitas com cestas de café da manhã. E ursos de pelúcia.
Acabo de descobrir que sol me deixa superativa. Hiperfalante. Ultrateclante. Frenética, diriam alguns que já me conhecem. Eu, enfim. Feliz. Bom dia para gargalhar.
Erro a tecla, e na busca do Google aparece uma letra de música - antiga...até o vídeo é em preto e branco . Sol de Inverno, cantada por Simone de Oliveira, dos anos em que nasci, que dá até vontade de chorar:

De que serve ter coração
E não ter o amor de ninguém.
Vivo de saudades, amor
A vida perdeu fulgor,
Como o sol de inverno
Não tenho calor.

Fico imaginando minha mãe me embalando a cantarolar. Mas, da letra discordo plenamente: sol de inverno esquenta até demais. Basta querer. Basta amar.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Sopão


Faz uma semana que não vejo o sol. Parece que estou mofando por dentro. Fica em mim uma sensação de impotência, sei lá. Uma preguiça, um deixa para amanhã. Talvez porque precise de minha caminhadas como o próprio ar. Preciso sentir a pele aquecida, e com ela, eu mesma. Preciso sentir meus músculos trabalhando, meu cérebro descansando entre as passadas. Meu sangue circulando e levando boas mensagens. Gosto do inverno, mas o de céu de anil, não de teto de mofo.
Cheguei de viagem e as paredes dos banheiros escorriam feito lágrimas. A casa como um todo parecia triste, fria, como que abandonada. A cama não esquentava nem que eu quisesse. Nem o chá pelando parecia aquecer. Pensei comigo mesma que poderia ser um reflexo de mim. Como se a alma da casa e a minha fossem uma só. E deitei na esperança de ser acordada pelo rei sol. Qual nada! Chuvinha fina e frio, daquelas que se reza antes de levantar.
Mas cá estou eu, pois a vida não pára. Levantei abrindo janelas para ver se o astro se animava. E preparei um bom banho para tirar meu mofo. O dia está ali fora, buzinando em mim. Um simples dia para tantas coisas a fazer. Afinal, estou fora desde sempre, tempo suficiente para me sentir por fora. Estranha essa sensação de não me caber mais. De não fazer mais parte disso tudo.
Mas amanhã meu filho volta. Tiramos, nós dois, férias de nós. Quem sabe ele me aquece. Quem sabe ele me faz renascer. Quem sabe, assim, minha boa vontade volte, meu espírito de mãe dê o ar de sua graça. E o irmão Sol, também.
Até lá, pedi para uma fiel escudeira, que também anda bem triste, fazer aquele sopão de levantar defunto. Desses que vai de um tudo. Carne para reforçar, abóbora para levantar, batata para firmar pensamentos, cenoura para corar, cebolinha para alegrar, cebola e alho para espantar os maus espíritos. E para não perder o bom humor, um triste trocadilho:
Quem não tem sol, esquenta com sopa (enfim, esboço um sorriso...)

domingo, 18 de julho de 2010

Bela trama


Ontem falei em casa cheia. E está mesmo. Ou quase. Faltam os homens de minha parte. Até minha sobrinha - por parte de minha falecida irmã - ficou de dar o ar de sua graça. Coincidências, muitas. Um complexo complô do nada. Até em datas: neste final de semana fazem 16 anos que perdemos a irmã de forma nada esperada. E 20 e muitos que nasceu nosso primeiro sobrinho que já tem data para começar a sua própria família e se juntar à nossa.
E aí a brincadeira - saída da boca prodigiosa de meu irmão que, como a minha, perde os amigos - e parentes - mas não a piada - surgiu em pleno café: teríamos vindo para o velório de meu pai, que fez um esforço para rir de si mesmo e dos entraves que a vida lhe tem dado. Isso porque, sabemos, não vai ser fácil juntar a turma toda de novo. Não sem marcar. Não sem mil tropeços da vida. Não sem motivo. Bem sabemos que é mais fácil juntar na tristeza que na alegria - como no aniversário de 70 anos de minha mãe. Naquela foto, só faltou a filha perdida. E genros e noras que cativaram seu lugar ao longo do tempo.
Família é uma coisa engraçada. São pessoas que nos vieram, como os pais e irmãos, somadas a pessoas por cada um escolhidas - e nem sempre aceitas ou bem encaixadas no núcleo até então. Some-se , ai, as pessoas que escolhemos e que nos deram filhos - estes presentes dos céus. E a minha não foge do trivial moderno. Uns casados, com ou sem filhos; outros separados - que tem filhos de outros - e casados de novo, com filhos a caminho. Outros em processo de. Junte-se a isso os filhos emprestados que ainda virão. Ou, quem sabe, novos amores. Um sem fim de nomes e de relações.
Família, penso comigo, é uma do soma de tantas outras. A nossa, a minha , a deles. As que já foram, as que estão, as que virão. E depois as de nossos filhos, quem sabe netos, até que cansemos de caminhar sobre a terra. Quem sabe novas se juntem, outras se separem. Um emaranhado sem fim, uma trama que não se desfaz. Porque cada nó é forte e veio para ficar. Uma rede de bela trama que já começou bem lá trás, bem antes do enlace de meus pais. Começou além-mar, em terras de outrem. E, se formos bem a fundo, e com o perdão do trocadilho - trepando a árvore genealógica sem parar - quem sabe encontremos algum macaco, ou os lendários Adão e Eva, para os mais sonhadores. Uma coisa é certa: sabemos que teve um começo. Mas o fim, não sabemos onde, quando e até se vai parar.
Eu poderia até parodiar: no início, era filha e irmã. Virei neta, sobrinha, prima. Levei trinta e um anos para virar mãe (minha mãe, com essa idade, já parira cinco). E espero que leve um bom tempo para ser avó. Não porque não queira. Mas porque família é coisa séria. E tem que estar preparada. Nem que seja para rir de nós mesmos.

sábado, 17 de julho de 2010

Zzz


De ontem para hoje fiz uma sonoterapia caseira. Ou melhor, uma "camaterapia", já que lá fiquei, mesmo sem necessariamente dormir. Talvez por causa do intenso frio, na rua e em mim. Ou pelo aconchego da coberta e do travesseiro. Ou, quem sabe, fugir do burburinho da casa de mãe, contrastante com minha necessária solidão.
Motivos não faltaram. O dia frio e chuvoso, a casa cheia demais para o meu gosto - ou meu estado. Deitei-me cedo, com a desculpa de querer ler. Nas entrelinhas, queria ficar comigo mesma, calar a voz e fechar os ouvidos. E lá fiquei até que me convenceram a descer e tomar uma sopa "com as visitas". Ato feito, voltei para meu ninho de algodão, aproveitando que era apenas mais uma na "multidão". E ali fiquei, por vezes dormindo, por vezes ouvindo o sobe e desce de minha mãe. A casa não parece mais minha, então fiz do leito um pedaço de mim. Uma ilha em que eu e meu pensamento eram os únicos habitantes. E ali estávamos, eu e ele, a sós e felizes. Ou, pelo menos, da melhor forma.
Levantei quando a casa já estava em quase total silêncio. Todos haviam saído em busca de aventura (sim, porque sair por ai com esse tempo sempre é uma aventura...). Um levantar ainda de pijamas, um café animador escutando o barulho no teto de vidro. Um banho quente e sem pressa. Uma longa conversa com o que me interessa nesse momento. Eu e eu, o nós, único, que aqui me interessa, egoísticamente assumido.
E cá estou eu, ainda paramentada com trajes de dormir, o pijama velho de minha mãe, o chinelo de ficar - talvez para prolongar o bem estar adquirido , mas curto. Aproveito o nada para escrever. Daqui a pouco a casa enche, não aos poucos , mas de rompante, e sabe lá quando terei novo momento de me aconchegar. De me ouvir. De falar. Relembro que faz tempo que necessito disso. Que faz tempo que a cama, quando possível, vira meu canto - e o sono e os livros, meus álibis. As pessoas menos desavisadas podem até me ver assim, num eterno cansaço. Meu cansaço é outro. Meu cansaço é fuga. Só eu o sei. Pode até ser fuga de mim mesma. Ou apenas encontrar em mim. Sábias as pessoas que sabem da intensidade de um silêncio. De um conversar consigo mesma. Do se ouvir. Do se achar outra vez. Ou pelo menos um procurar por debaixo das cobertas. Quem sabe no breu. Quem sabe a luz. Quem sabe, eu.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Não!


Em um país que respira futebol, onde nosso jogadores viram ídolos para todas as idades, o "caso Eliza" - assim, intitulado feito show, como uma primeira conotação de espetáculo - deixa-nos estarrecidos e preocupados (ou nem tanto, dada a repetição dos fatos). Uns dizem que a mídia está em cima porque se trata de uma "celebridade". Outros - e ai entra minha testa enrugada perguntando "será?" - que é para esquecermos a perda da oportunidade do hexa. Os porquês, a essa altura do campeonato, tanto faz, ficando sempre o gosto amargo da repetição, da normalidade. Mas frente a mais este escândalo e tantos outros, o que dizer a nosso filhos?
O meu, 15 anos, questionou o porque de um cara que alcançou tal sucesso profissional ("Salário de R$200 mil? Quantos ganham isso no Brasil?") joga tudo fora. Minha resposta combina com a de vários estudiosos: falta base. Falta chão.
A grande maioria dos jogadores de futebol - e porque não acrescentar cantores e tantos outros ditos astros - vêm de um espaço que nós mesmos, preconceituosamente ou não, chamamos de submundo, onde, para muitos deles, o futebol - ou o palco - é a única oportunidade. E para os poucos - ou nem tão poucos assim, se comparado a outras profissões - que tem carreira meteórica, o discernimento entre poder e não poder, certo e errado, pode ficar bem difícil. O mundo deles se construiu de outras formas. Do nada para o tudo. Do anonimato para o estrelato. E , principalmente, dos "nãos" para os "sims".
Neste caso, um mar de exemplos a serem usados. E, jamais seguidos. A menina tem em seu currículo atos nem um pouco invejados, apesar de serem de certa maneira previsíveis. Mas fiquei estarrecida ao saber que o pai da vítima "da vez" perdeu a guarda provisória do neto porque tem em suas costas um processo por pedofilia. E um pouco menos ao saber do envolvimento de um ex-policial, infelizmente fato normal nos dias de hoje. Basta esperar e pode até ser que tenhamos novidades neste sentido. A mídia deve estar atenta para a próxima capa, ao escândalo da vez.
Entre "macarrões", "coxinhas", "bolas" e "nenês", apelidos dos envolvidos, fica o sinal de que as pessoas não têm se levado a sério. Nem da menina que se envolve com o estrela do time - e passa de modelo a ex-amante, e agora estampa as capas de revistas e jornais como a pauta da vez. Tudo me parece procura pelo sim. Pela vida fácil. Pelo dinheiro fácil, melhor dizer. Mas fica aqui a palavra do psicólogo que tão bem falou no programa da tarde: amor. O que falta é amor. O que falta é colo, conversa. O que falta é exemplo.
Eu, estudando de forma bem interessada as novas gerações, procuro pelo menos entender o que se passa. Meus pensamentos vão longe, ou ao menino ao lado. Trocamos o ser pelo ter. Uns para compensar suas culpas de ter e estar se dedicando tanto à carreira como forma de se manter no topo (ou pelo menos chegar mais perto) da vida social. Coloquemos aí a lista interminável de pais separandos ou separados. Some-se a eles a bem menor lista de homens e mulheres "bem sucedidos". Ambas as categorias tem na carteira sua forma mais fácil de se livrar dos pensamentos replicantes de não ser e/ou não ter sido um bom pai, uma boa mãe. Entram nesta lista os assassinatos por herança. E os tantos outros porque se foi contrariado na porta da boate. Ou pela mulher amada. O muito parece pouco e a procura pelo mais parece fácil.
Mas o que dizer dos tantos "Brunos" de plantão? Do ser e ter nada ao ser e ter tudo na escalada vertiginosa - e muitas vezes perigosa - da fama. Se tenho - e portanto sou (ou sou e tenho, não sei bem qual qualifica melhor) tudo posso. Posso desde não pagar os impostos até não assumir os filhos de casos de uma noite só. Posso transgredir porque "sou o cara". Posso ser e acontecer porque minhas costas estão quentes pelo calor da torcida , pelas capas de revistas e pela fama conquistada. E pela carteira cheia. E tudo consigo, já que tenho os "amigos de plantão".
E fico aqui pensando nos policiais e seus exemplos nada agradáveis na busca de provar seu poder, com ou sem dinheiro. Os que batem por bater, matam por matar. Os pais que se livram do problema jogando-o pela janela. A filha que mata os pais por querer mais do tanto a que já tem direito. Os tantos machos que mutilam ou matam suas "ex" que ousaram dizer não. Parecem, assim, ao ver de longe, a não aceitação do não. A palavra mais difícil de se escutar. Talvez devêssemos treinar mais.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Memória


Depois de longo mas nem tão tenebroso inverno, volto a escrever. Por vezes as ideias até que estão na nossa cabeça, mas o que falta é oportunidade. Ou melhor dizer: um micro bem ali, à mão.
Frio do cão em Porto Alegre sob um céu lindo de azul. Tenho acordado com mínimas de 5 graus. Ontem, em minha viagem de trabalho a Bento Gonçalves, parecia pior. O vento, por vezes, parecia cortar.
E o frio, apesar da brincadeira, não é psicológico. Mas tem coisas que podem nos aquecer, como boa comida e boa conversa. E encontrei as duas num almoço quase familiar. Não bastasse a boa mesa italiana - daquelas, que começa com a quente sopa de capeletti e o macio pão de casa e vai até a gula não aguentar mais - o bate papo solto e gostoso sobre tudo me deu a impressão de estar em casa.
O assunto contrastava com a decoração de velha adega: a modernidade. Chegamos à conclusão, depois de passearmos livremente sobre vários mundos - entre filhos, trabalho, impressões da vida - que o mundo está perdendo sua memória. Ou melhor dizer: nossa memória está ficando à cargo de máquinas das quais dependemos, como o computador. Nosso mundo sendo arquivado em backups. Estão lá, em algum lugar do universo cibernético, nosso álbum das melhores fotos, nossos livros preferidos, nossos textos bem ou mal escritos. Está lá nosso gosto musical. Nosso histórico de trabalho e de vida. Nosso diário em forma de blog, nossos amigos nas redes sociais. Nossa agenda. Colocamos nossa vida toda depositada num espaço que, até prova em contrário, não é nosso (quem já perdeu seu lap sabe do que estou falando...). E nem temos porque lembrar, já que transferimos essa tarefa para nosso velho e bom computador. E, ao menor sinal de esquecimento ou simples dúvida, lá está o Google a nos auxiliar.
Então nos perguntávamos aonde vamos parar. Quem será capaz de guardar todas as nossas lembranças. E o quanto isso nos custará. E eu pensava, entre sabores e calores, quanta coisa ainda teria para arquivar. Vi o lado bom e também o ruim. Tanta coisa que se quer esquecer e fica ali, martelando - bom se desse para deletar. E outras, tantas, que passo na vida e que gostaria de guardar em mim para sempre. Bom se eu também fosse um computador. Se meus olhos viraram uma máquina digital. Minha mão, teclado. Minhas impressões, textos. Meu cérebro, uma central, sem data para pifar. Meu coração, pasta dos melhores momentos. A Joyce digital.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Tecendo


Porto Alegre me recebeu ainda no escuro - apesar da hora avançada - e com uma chuva daquelas, boa de curtir debaixo do cobertor. A cidade pode ter seus dias de cara feia, mas não me desanima, por mais que tente. Um bom café com leite, meu apaixonante Farropilha ( o sanduíche quente de "cassetinho" com queijo e presunto) e estou "pronta para outra".
Gosto que chova. Assim me atenho aos tantos textos e livros para ler. Se estivesse um dia lindo, destes de céu de negrinho (trocadilho barato, já que o doce que para mim é brigadeiro - aquele de chocolate - aqui se chama negrinho), seria uma lástima me enfiar no mundo das palavras.
Enfim, uma noite bem ou mal dormida entre solavancos do ônibus, uma chegada ensopada e estou aqui a esperar mais uma aula. A esperar mais de mim.
E pensando na vida. Em como minha semana foi confusa, embaralhada, e foi se abrindo aos poucos. As nuvens negras ameaçadoras agora se tornam brancas feito algodão. E fico a pensar porque perdemos tanto tempo nos descabelando. Já diz o velho ditado: se o problema é resolvível, que se faça. Se não é, para que teimar?
Enfim, posso dizer que os fios emaranhados da minha vida vem se entrelaçando bem, formando belo tapete. Talvez não na pressa que tenho de amar. Mas sei bem qual trama quero para mim, não perdendo meu tempo com traçados que não quero. Estes, vou levando. Deixo o fio correr, posso dizer. As cores e fios que quero para mim estão muito bem guardados, e deixo que o tempo as tire do balaio e as dê para mim. Assim vou tecendo meu rumo, meu belo tapete de minha sala de ser. Com amor e paciência, esperando o dia de me deitar nele e me deleitar de vez.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Alívio


Que Deus não me ouça. Assim se chama o livro que pretendo ler e que me chegou pelo jornal que assistia em pleno café da manhã deste dia nebuloso. Escutei como pude - dadas as correrias materno-matinais pré-viagem.
E ri - discretamente, cúmplice, como se deve numa hora destas. E me conformei. Não estou só neste mundo. E se sou louca, alguém também o é. E se chama Tatiana Ribeiro, publicitária, 10 anos a menos que eu (sortuda!).
Pelo que pude entender, Tatiana viveu na pele - e bom se fosse só na pele - o velho ditado - ou praga popular - de que desgraça não vem sozinha. Passou por uma série de perrengues junto com sua separação. Bem sei do que ela fala. E tento fazer como ela, que já apressou seu destino: vivo da melhor forma e ponho no papel minhas agruras. E, sim, como ela, tento rir. Pelo menos em teoria.
Quem passou pelo que eu passei - e são muitas pessoas, pelo que vejo - em 1994, deveria sair fortalecida. Muitos já o sabem: perdi o cabelo, o emprego dos sonhos, o apartamento comprado, o carro que usava para trabalhar. Perdi a irmã. E no meio disso tudo, uma gravidez nada planejada mas muito bem recebida por mim. Claro, nenhuma louca desvairada faria isso. Colocar no mundo do seu próprio caos, uma criança. Seria insano. Como foi insano tentar morar onde fui morar. Tentar viver como achei que dava para viver.
Não deu. E pela primeira vez em minha vida abaxei a crista - ou pus o rabo no meio das pernas, tanto faz - e aceitei o que a vida tinha a me dar. Se isso me fortaleceu? Não sei. Hoje às voltas com um casamento acabado, um filho adolescente, e uma batalha louca para me firmar como profissional, resolvo fazer uma pós a nove horas de onde moro. Loucura? Não. Meu oásis no meio do deserto de me ser. Ou de não me ser. Ou de ser pouco. Um outro mundo a me acolher. Lá, cara Tatiana, sou quem eu sou, longe das amarras de ter que ser. De ter que ter. Longe da luta diária que travamos para bem agradar - a todos, muitas vezes, nem sempre a nós.
Hoje, quinta, sigo viagem. Não antes de abastecer a geladeira e de agendar as contas. Não antes de passar na obra para ver se está tudo bem. Não antes de conversas intermináveis com o filho, nem de grunhidos de mal humor do ex-tudo. E para completar a sina, meu cachorro está internado com crise na coluna. O que é mais um problema na cesta já transbordando?
Que Deus também não me escute. E que me abençoe, porque eu estou, mais uma vez, fazendo meu melhor. Que a balança da culpa e da felicidade de me ser sejam por Ele contrabalanceadas. E que o meu novo mundo seja uma bela cesta cheia de laranja! Que me alimente, mate minha sede e que me vitamine! Viva!

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Pausa


Julho promete. Tenho aula em dois finais de semana, onde fico sob a proteção da Mãe Oxum sob o céu de colorado. E entre eles, uma viagem de negócios, e outra, digamos, familiar. E sozinha. Uma experiência que não tenho fazem 15 anos.
Férias? Pode ser. largo o epso das culpas e vou, sem medo. Férias de ser mãe. De ser governanta do lar. Hora de ser eu. Estudar, ler, ter aulas, conhecer pessoas, lugares, viajar, negociar - e uma lista interminável de verbos positivos para mim. E entre isso, uma visita à minha cidade natal - e onde mora quase toda a minha "enorme" família. Hora de pedir colo ou dar?

Chá de banco de ônibus? Nem me importo. Desce redondo. Já me parece acompanhado de bolinhos (ou de "farropilha'(*), aliás, uma boa pedida). Estarei em casa duas vezes, mesmo fora dela. Uma porque Porto Alegre me recebe sempre de braços bem abertos e um calor que me aquece por dentro (mesmo nos dias de muita chuva). A grande pequena cidade sempre me parece simpática e acolhedora.

Outra porque minha cidade natal - e meus pais - também o fazem bem. Não vejo a hora de pegar meu pai para caminhar. E de deitar na cama tão bem preparada por minha mãe. E ainda tem a minha irmã - e ai já tem "pano pra manga" e para o vestido todo, um rosário de boa conversa e garantidas gargalhadas. Ou confidências saboreadas com um bom espresso, que ela tanto ama.
Depois que a gente é mãe, tanta coisa muda. A família de sangue fica para trás. Os nosso pais viram avós em tempo integral. As nossas irmãs, tias dedicadas. Não mais nosso, mas deles. É como se trocássemos de papéis. Como se não tivéssemos tempo para nós. Se não fossemos mais nós. Ficamos à sombra de nosso filhos. E com sobras, encorajo-me a dizer. E assim, sozinha, não. Tempo só meu, para administrar e admirar. Viver. Reviver. Aproveitar. Ou pelo menos dormir.
E ele, o meu filho? Estará com o pai, em viagens de "homens". Sabe lá o que há a mais de fazer do que comprar e comer. Eu me divirto com "menos" - para mim meus mais. Caminhadas sem pressa, olhando vitrines, parando para um café. Ler meus livros, anotar as ideias, relaxar para sonecar. Rever lugares e pessoas. Rever sentimentos. Ser filha por um momento. Pedir colo, quem sabe. Meu chá com biscoitos...
(*) Farropilha é como se chama um prensado de pão francês - ou cassetinho para os gaúchos - com queijo e presunto. Aquece e alimenta como o faz a cidade que já amo.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Nós


Pensando pelo lado prático, ser mulher é um saco (de onde será que vem essa expressão ?) . Temos que ter a pele macia e bem hidratada ( coisa difícil depois de um certa idade), as rugas disfarçadas (eles não falam, mas gostam...), as unhas sempre pintadas (preferencialmente de vermelho, bem fatal), as pernas sempre lisas, as "partes" bem cuidadas (cujo "desmatamento" é tão permitido quanto necessário). Os cabelos - moldura do rosto, dizem - sempre em dia , na cor e no corte ou pelo menos na forma de usar (limpos, sim, nem precisa falar; e perfumados, se quisermos agradar).
E as coisas fáceis terminam por ai. Fica difícil acertar. Se não pintamos a cara, masculinas. Se pintamos demais, peruas. Sem perfume, sem graça. Demais, "de rua". Se somos práticas, masculinas. Se femininas, nem sempre práticas. Cá entre nós - e que eles nos ouçam - estamos longe de vestirmos o que os homens gostam: saias e sandálias altas, preferencialmente de salto bem fino. E vá andar nas ruas com um troço destes. Ou carregar compras, correr atrás do filho que se soltou de nossa mão. E quando já não temos mais essas tarefas, estamos sábias demais para nos curvarmos ao que o mundo acha.
E as desigualdades continuam: cabelos brancos, nem pensar: o que dá a eles charme, a nós envelhece. Pêlos pelo corpo? Neles masculinidade. Em nós, relaxamento. Mesma roupa? Louca. Decote fechado? Pudica. Escancarado? Puta. E tudo isso sem perder a graça, o charme, a simpatia, a presteza e a força. Sem deixar de ser mulher, parideira, mãe, profissional, amiga, conselheira, amante e o escambau. E fazer de um tudo para agradar, mesmo quem não confesse. Apesar que, dizem, arrumamo-nos para sermos aceitas pelas outras mulheres ( e a mais difícil de agradar somos nós mesmas...). Ou estarmos acima delas. Ou pelo menos não sermos comentadas. Quem gosta de ficar para trás?
Ah, mas tem jeito mais simples de se mostrar. O vestidinho de casa e a sandalinha rasteira, tipo Gabriela. O jeito dengoso de acordar. A cara lavada ao levantar. O cabelo molhado depois do banho. O cheiro do creme recém passado. A meia curta no pé frio ao deitar (nem que seja só isso!). As rugas que acompanham a expressão singela. A gargalhada sincera de se deixar levar. A fragilidade que se pode mostrar (podemos pedir colo e o colo dar), a lágrima que se pode deixar cair. O sorriso que se deixa escapar em resposta ao discreto olhar. O carinho que se pode demonstrar, mesmo em público. Podemos ser meninas ou mulheres, femininas ou fêmeas, basta saber a boa hora de usar.
Ser mulher é mesmo um saco. Mas pode ser um "saco surpresa", lindíssimo, cheio de coisas boas a mostrar.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Elegante?


"Deus não me deu muita elegância".

Essa frase saiu da boca da atriz Fernanda Souza, já conhecida pela sua honestidade de palavras e gestos. Minha boca esboçou um sorriso de cumplicidade. Ou de pleno entendimento.
Desde sempre não me acho muito feminina. Talvez tenha sido convencida pela vida - ou por algum irmão em idade "aborrescente". Ou até por mim mãe que o era - e é - e que sempre pedia mais postura ("Encolhe a barriga!). Ou apenas por me comparar a tantas outras meninas - e depois mulheres - que por mim passaram. Sentia-me - e às vezes ainda me sinto - um patinho feio. Tenho corpo forte, movimentos idem. Nada em mim - pelo menos fisicamente - é muito delicado. Some-se a isso alguns fatores como um achar mais fácil ser firme, dar passos largos e cá estou eu a pensar nisso mais uma vez. Nem os anos de expressão corporal me deram outra luz que não fosse a minha mesmo. Assumo: meu lado feminino aparece de formas mais para bordeaux do que rosa. Um feminino sem frufrus. Sem ponta de pés , nem gestos desenhados, nem sussurros de lado. E quando tento ser o que não sou, pode até cair para o lado da caricatura, da brincadeira. Parece-me mais fácil ser infantil (leia-se brincalhona) do que feminina. E isso até na hora dos elogios. Parece mais uma defesa. Não os sei receber, isso é notório, desde sempre. Rubro a face ao menor indício deles. Como se não em coubessem. Como se não merecesse.
Mas voltando às vacas magras ou baleias gordas (tanto faz, aqui, que bicho e em que estado) - sei bem do que ela fala. Deus também não me deu muita elegância. Piso firme, falo alto, não meço gestos - nem teóricos, nem práticos. Estou mais para uma dança flamenca do que para um balé clássico. Mas me deu sinceridade de sentimentos, deu delicadeza no tratar com os outros (desde que queira), deu uma esperteza de dar nó. Deu uma alegria que contagia e um brilho no olhar que compartilha. E me deu uma força que de uns anos para cá sei bem o porquê. Uma força que tem se transformado em paciência. Em simplicidade, em aceitação. Em esperar o momento certo de agir. Quem sabe, para Ele, tudo isso seja uma forma de elegância.

domingo, 4 de julho de 2010

Satisfeita


Domingo. O sol acordou tímido, escondido atrás da cerração típica de Inverno. Calcei meu tênis e me pus a caminhar sem pressa. Meu destino? O sossego de um café bem tomado a várias quadras de meu mundo.
Entrei, fiz meu pedido - simples, sem exageros - e me sentei a observar as caras de domingo. Misturadas no mesmo salão a esperar seus diferentes sabores, meninas de vestido de missa, vovós no seu melhor estilo, jovens com cara de não dormidos, famílias distraídas pela vida. E dois tipos de casais: os amantes, onde se via nos olhares e discretos gestos que a noite tinha sido boa. E os "de sempre", em que ele olha a televisão enquanto ela perde seu olhar em qualquer lugar - quem sabe invejando o casal ao lado, ou pensando em mais um domingo sem nada para fazer (nada que a interesse, claro...). De comum, talvez, só a mania se tem de nem olhar a pessoa que nos serve. Não eu. Olhei e sorri da melhor forma ao menino que nos atendia. Já havia rido antes, ainda no caixa, ao notar que me cobravam uma farta torta de morango com chocolate ao invés do pedido suco de laranja. Poderia ter reclamado, mas relevei até achei graça, trazendo à tona meu estilo nato de bem levar a vida. Um breve bom dia a quem me faz tão bem, um café bem quente tomado sem pressa, um agradecimento na saída e meu rumo de volta para casa, meu caminhar leve, a olhar vitrines - de roupas e do dia.
E ouvir meus pensamentos que caminhavam a passos largos como minhas pernas. Pensava no que sempre digo - e tenho reafirmado e vivido nos últimos meses. É preciso tão pouco para ser feliz. Um pouco de sol, uma caminhada, observar a vida. Quem sabe sentada de frente à pessoa amada, quando tudo parece perfeito, sempre inundado de uma bela gargalhada ou delicada troca de olhares - quando um entende o outro sem falar.
Ser feliz, para mim, é ver o que está ali na minha frente. Ver o presente que o presente me trouxe, um pacote sem frescuras. Sem os olhos no passado que só fez magoar. Nem no futuro incerto, construído por sonhos difíceis de alcançar - e que muitas vezes nem são nossos. Se pararmos para pensar, é tudo tão fútil, nossas "necessidades", por vezes tão desnecessárias. Vivemos para acumular coisas, e com elas problemas e dívidas. E nem sempre elas nos dão o retorno esperado, seja material ou a foto no jornal.
Para ser feliz, basta sermos nós mesmos. Acreditarmos em nós. Amar quem somos, como somos. Não nos deixarmos levar pelo que o mundo quer, pelo que sonham nossos pais e pares. Entendermos e aceitarmos nossa essência, essa sim, bagagem a ser levada até o fim dos fatos. Só assim daremos ao mundinho ao redor nosso melhor sorriso e nossa melhor forma de amar. Tão boa e reconfortante como um belo gole no café.

sábado, 3 de julho de 2010

Ressaca


Silêncio. Um país todo em silêncio. Silêncio das vuvuzelas. Silêncio do berro guardado na garganta. Da vontade guardada no coração. Dos fogos não usados. Silêncio da esperança,
que se foi.
Diz o comentarista da televisão - aquele, que tantos mandam calar a boca - que é só mais um jogo, é só mais uma competição. Mas, para um país que respira futebol e, pior, pára de respirar na frente de um, como esse, não é só mais um jogo. Era o sonho. Era o hexa. O sonho de mais uma taça - ou melhor dizer - da taça. São milhões de corações colocando
a felicidade na mão de tão poucos. Milhões de corações onde o futebol está no topo (pelo menos nas copas).
Enfim. Futebol são números (ou caixinha de surpresas?). Ou deveria ser. Onze meninos correndo noventa minutos atrás de uma bola. Mas, mais do que isso, como vimos, futebol é mais que razão. É sorte. É oportunidade. É emoção. Tudo vai bem quando vai bem, já diz a fala popular. Mas basta um descuido, um deslize e lá estamos nós,
à deriva, perdidos em alto mar.
Desliguei a televisão antes de ver o fim. Antes de ver o choro. Antes de ver a decepção (mais deles que minha). Antes da realidade nua e crua bater à nossa porta. Quieta, coloquei-me a pensar primeiro nos jogadores e na pressão - de casa e do mundo. Depois no Brasil e nessa nossa total falta de controle emocional. Somos latinos, dizem, e por isso nada racionais, nada reflexivos. Somos intensos e impulsivos. E por isso quebramos a cara. E, por fim, pensei neles, meninos, que nem sabem nada da vida, sabe lá tudo o que ainda vão passar. Fica gravada no livro da vida uma história que talvez queiram apagar.
Sozinha, fiz meus trocadilhos mentais. Pensei no dia-a-dia, no tudo que temos que viver. As tantas lutas a travar. Os planos a traçar, as conquistas a fazer. No quanto temos que estar atentos para não levar o gol. Para não sermos expulsos no meio do jogo. Para não sairmos antes do final. Não nos decepcionarmos e não decepcionar - o que só se aprende a aceitar com a maturidade. Dói quando não se consegue, ainda mais porque sempre pensamos que podíamos
ter feito melhor.
Ledo engano. Nosso melhor ser é o que somos. Nosso melhor estar é onde estamos. Porque ninguém há de escolher maus caminhos, a não ser que seja para se machucar. Os caminhos são muitos, nem sempre os que queremos, mas sabemos bem onde queremos chegar. Porque viver é um jogo. Porque viver são escolhas, que torcemos para acertar. Porque a vida não se faz de incertezas. A vida se faz na constante procura de amar. E ser amada. Nosso gol no placar.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Ópio


Hoje é dia de ópio. Hoje não se pensa em mais nada. Nossos olhos e nosso coração estão na tela da TV. Mais que dia de jogo da Copa, dia de decisão para nós. Hoje, somos todos patriotas.
Não é de hoje que os países entram em campo para mostrar sua força - pelo menos ali, em relação à bola. Uma guerra de talentos. Começamos a sofrer em 1930, dois anos depois do francês Jules Rimet, na época presidente da FIFA (Federation Internacional Football Association), ter tido a ideia de confrontar as melhores equipes do mundo. Desde então, a Copa vira nosso centro de atenções - e porque não dizer tensões - a cada quatro anos. E, pasmem, só não aconteceu em 1942 e 1946, em tempos de guerra (é, Joyce também é cultura futebolística...)
Otimista, quero acreditar que seja só uma competição de futebol. Que não estejam incutidas ai nada além de um bom futebol. Detesto saber que até ai existem falcatruas - além das vistas ao vivo, protagonizadas pelo mal juiz. Que essa copa já está decidida. Que já foi armado isso ou aquilo. Vai-se, ai, todo o espírito esportivo, a esperança de cada nação, a vontade de cada jogador.
Se pararmos para pensar, são 90 minutos correndo atrás de uma bola com um único intuito: gol. Ou, pelo menos, deveria ser. Não quero saber dos bastidores. Não quero saber dos conchavos. Nem do valor da roupa do treinador. Nem se ele estava de mal humor. Gosto de ver a bola em campo, notar as estratégias e jogadas. Amo os dribles bem feitos e as pedaladas. Vibro, berro torço feito uma desvairada. Isso me importa. Meu ópio, nem que seja por uma partida. Ali, sentada em frente à TV, não lembro de mais nada. Eu e os quase 200 milhões de "eus" por ai. Hoje o país pára. Hoje não lembramos de mais nada. Hoje não temos mais problemas, a não ser o de vencer a equipe laranja. Não temos mais fome, nem enchentes, nem crimes, nem ao menos maus políticos. Hoje, somos todos iguais - o que vê o jogo na telão da praça e o que vê na televisão de LCD. Hoje a bandeira cabe na mão e a mão no peito.
O nome do Brasil vem , dizem, da madeira avermelhada. Já Adelino José da Silva Azevedo postulou que se trata de uma palavra de procedência celta, uma lenda que fala de uma "terra de delícias", vista entre nuvens. Acho que ele se referia ao futebol...

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Amor X


Decisões. São tantas ao longo de um minuto, uma hora , uma vida. Desde o levantar ao deitar. Desde o que vestir até quem quero ser. Das mais simples às mais dramáticas (ou "janeteclairianas", como gosto de dizer , referindo-me à Janete Clair, a mineira que tanto nos fez chorar nos meados dos anos 1990 com Selva de Pedra, Véu de Noiva, Irmãos Coragem) , fazem-nos parar para pensar, muito ou pouco. E como é difícil decidir quando não temos as respostas. E parece que fica sempre aquela dúvida no ar, se fizemos a boa escolha. Aquela pontinha a nos infernizar. Anjo e demônio. Sempre.
Mas uma das decisões que parecem mais difíceis, não é. A de ser feliz ou infeliz. Claro que a questão não é assim tão prática, pois seria muito fácil. O "problema" é quando as escolhas incluem coisas que gostamos ou pessoas que amamos. Coisas são descartáveis, mas pessoas, não. Seria bem fácil, penso, a essa altura da desgostura, arrumar minha mala e sair porta a fora, sem nem olhar para trás. Deixar ali meu passado em forma de peças, minha coleção de "São Chicos" - que trocaria por um só, meus livros empoeirados, os presentes das amigas, umas peças de mobiliário que carrego desde os tempos de estudante. São apegos bobos, bem sei. A frase "leve somente o necessário" me vem à cabeça e vejo como tudo isso poderia - e pode - ficar para trás. Até o cachorro. Coisas e animais, mesmo os mais amados, são facilmente, ou não, substituíveis. Pense na frase da hora da emergência e veja como é fácil. Levaríamos os documentos para que não tivéssemos maiores problemas em provar quem somos. E só. Apego existe, mas amanhã nem lembramos mais disso. Coisas são substituíveis, friso. E ficarão povoando em nossa mente
tanto quanto forem importantes, não mais.
Mas pessoas, aquelas que amamos, não. De mãe para filho, que já vem no pacote: nasce na hora da confirmação. De filho para mãe, natural, assim esperamos. De homem para mulher, conquistado. Não é fácil "descartá-los", até porque vêm junto com a pessoa amada, feito item de fábrica. Mas nem por isso fáceis de manter. Pior ainda de desistir ( o que imprime uma qualidade a mais de não o querer fazer). Ao beijar meu filho na testa ontem à noite dei-me conta mais uma vez disso. Amor pesa. Amor dói. Amor mora dentro da gente. Vibra dentro de nós. Forte, decisivo e ao mesmo tempo tênue. Frágil. Inseguro. Mas, como todas essas dificuldades - e talvez por isso mesmo - usamos de muitas armas para manter. E é, pelo menos para mim, a única coisa capaz de me segurar. É a única coisa que tenho medo de perder, física e/ou mentalmente. Porque amor mora n'alma. "Pior": incrusta nela. Não fica nada fácil substituir, trocar, tirar.
Não se encontra na esquina. Nem na vitrine.
Amor. Tanta coisa a dizer. Tão difícil assumir, declarar. Mas tão bom de sentir, tão bom amar! E representamos por um coração. Não sei quem inventou essa coisa, hoje feita até com as mãos. Acho que deve ser porque alma não tem representação. Ainda. Quem sabe terá.