quinta-feira, 8 de julho de 2010

Alívio


Que Deus não me ouça. Assim se chama o livro que pretendo ler e que me chegou pelo jornal que assistia em pleno café da manhã deste dia nebuloso. Escutei como pude - dadas as correrias materno-matinais pré-viagem.
E ri - discretamente, cúmplice, como se deve numa hora destas. E me conformei. Não estou só neste mundo. E se sou louca, alguém também o é. E se chama Tatiana Ribeiro, publicitária, 10 anos a menos que eu (sortuda!).
Pelo que pude entender, Tatiana viveu na pele - e bom se fosse só na pele - o velho ditado - ou praga popular - de que desgraça não vem sozinha. Passou por uma série de perrengues junto com sua separação. Bem sei do que ela fala. E tento fazer como ela, que já apressou seu destino: vivo da melhor forma e ponho no papel minhas agruras. E, sim, como ela, tento rir. Pelo menos em teoria.
Quem passou pelo que eu passei - e são muitas pessoas, pelo que vejo - em 1994, deveria sair fortalecida. Muitos já o sabem: perdi o cabelo, o emprego dos sonhos, o apartamento comprado, o carro que usava para trabalhar. Perdi a irmã. E no meio disso tudo, uma gravidez nada planejada mas muito bem recebida por mim. Claro, nenhuma louca desvairada faria isso. Colocar no mundo do seu próprio caos, uma criança. Seria insano. Como foi insano tentar morar onde fui morar. Tentar viver como achei que dava para viver.
Não deu. E pela primeira vez em minha vida abaxei a crista - ou pus o rabo no meio das pernas, tanto faz - e aceitei o que a vida tinha a me dar. Se isso me fortaleceu? Não sei. Hoje às voltas com um casamento acabado, um filho adolescente, e uma batalha louca para me firmar como profissional, resolvo fazer uma pós a nove horas de onde moro. Loucura? Não. Meu oásis no meio do deserto de me ser. Ou de não me ser. Ou de ser pouco. Um outro mundo a me acolher. Lá, cara Tatiana, sou quem eu sou, longe das amarras de ter que ser. De ter que ter. Longe da luta diária que travamos para bem agradar - a todos, muitas vezes, nem sempre a nós.
Hoje, quinta, sigo viagem. Não antes de abastecer a geladeira e de agendar as contas. Não antes de passar na obra para ver se está tudo bem. Não antes de conversas intermináveis com o filho, nem de grunhidos de mal humor do ex-tudo. E para completar a sina, meu cachorro está internado com crise na coluna. O que é mais um problema na cesta já transbordando?
Que Deus também não me escute. E que me abençoe, porque eu estou, mais uma vez, fazendo meu melhor. Que a balança da culpa e da felicidade de me ser sejam por Ele contrabalanceadas. E que o meu novo mundo seja uma bela cesta cheia de laranja! Que me alimente, mate minha sede e que me vitamine! Viva!

Um comentário:

  1. Oi Joyce! Sou a Tatiana Ribeiro, a "louca" que escreveu o livro "Que Deus não me Ouça!" (:
    Adorei o seu texto. Você escreve de maneira leve. Já estou seguindo o seu blog.
    Beijos
    Tati

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