sábado, 3 de julho de 2010

Ressaca


Silêncio. Um país todo em silêncio. Silêncio das vuvuzelas. Silêncio do berro guardado na garganta. Da vontade guardada no coração. Dos fogos não usados. Silêncio da esperança,
que se foi.
Diz o comentarista da televisão - aquele, que tantos mandam calar a boca - que é só mais um jogo, é só mais uma competição. Mas, para um país que respira futebol e, pior, pára de respirar na frente de um, como esse, não é só mais um jogo. Era o sonho. Era o hexa. O sonho de mais uma taça - ou melhor dizer - da taça. São milhões de corações colocando
a felicidade na mão de tão poucos. Milhões de corações onde o futebol está no topo (pelo menos nas copas).
Enfim. Futebol são números (ou caixinha de surpresas?). Ou deveria ser. Onze meninos correndo noventa minutos atrás de uma bola. Mas, mais do que isso, como vimos, futebol é mais que razão. É sorte. É oportunidade. É emoção. Tudo vai bem quando vai bem, já diz a fala popular. Mas basta um descuido, um deslize e lá estamos nós,
à deriva, perdidos em alto mar.
Desliguei a televisão antes de ver o fim. Antes de ver o choro. Antes de ver a decepção (mais deles que minha). Antes da realidade nua e crua bater à nossa porta. Quieta, coloquei-me a pensar primeiro nos jogadores e na pressão - de casa e do mundo. Depois no Brasil e nessa nossa total falta de controle emocional. Somos latinos, dizem, e por isso nada racionais, nada reflexivos. Somos intensos e impulsivos. E por isso quebramos a cara. E, por fim, pensei neles, meninos, que nem sabem nada da vida, sabe lá tudo o que ainda vão passar. Fica gravada no livro da vida uma história que talvez queiram apagar.
Sozinha, fiz meus trocadilhos mentais. Pensei no dia-a-dia, no tudo que temos que viver. As tantas lutas a travar. Os planos a traçar, as conquistas a fazer. No quanto temos que estar atentos para não levar o gol. Para não sermos expulsos no meio do jogo. Para não sairmos antes do final. Não nos decepcionarmos e não decepcionar - o que só se aprende a aceitar com a maturidade. Dói quando não se consegue, ainda mais porque sempre pensamos que podíamos
ter feito melhor.
Ledo engano. Nosso melhor ser é o que somos. Nosso melhor estar é onde estamos. Porque ninguém há de escolher maus caminhos, a não ser que seja para se machucar. Os caminhos são muitos, nem sempre os que queremos, mas sabemos bem onde queremos chegar. Porque viver é um jogo. Porque viver são escolhas, que torcemos para acertar. Porque a vida não se faz de incertezas. A vida se faz na constante procura de amar. E ser amada. Nosso gol no placar.

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