segunda-feira, 5 de julho de 2010

Elegante?


"Deus não me deu muita elegância".

Essa frase saiu da boca da atriz Fernanda Souza, já conhecida pela sua honestidade de palavras e gestos. Minha boca esboçou um sorriso de cumplicidade. Ou de pleno entendimento.
Desde sempre não me acho muito feminina. Talvez tenha sido convencida pela vida - ou por algum irmão em idade "aborrescente". Ou até por mim mãe que o era - e é - e que sempre pedia mais postura ("Encolhe a barriga!). Ou apenas por me comparar a tantas outras meninas - e depois mulheres - que por mim passaram. Sentia-me - e às vezes ainda me sinto - um patinho feio. Tenho corpo forte, movimentos idem. Nada em mim - pelo menos fisicamente - é muito delicado. Some-se a isso alguns fatores como um achar mais fácil ser firme, dar passos largos e cá estou eu a pensar nisso mais uma vez. Nem os anos de expressão corporal me deram outra luz que não fosse a minha mesmo. Assumo: meu lado feminino aparece de formas mais para bordeaux do que rosa. Um feminino sem frufrus. Sem ponta de pés , nem gestos desenhados, nem sussurros de lado. E quando tento ser o que não sou, pode até cair para o lado da caricatura, da brincadeira. Parece-me mais fácil ser infantil (leia-se brincalhona) do que feminina. E isso até na hora dos elogios. Parece mais uma defesa. Não os sei receber, isso é notório, desde sempre. Rubro a face ao menor indício deles. Como se não em coubessem. Como se não merecesse.
Mas voltando às vacas magras ou baleias gordas (tanto faz, aqui, que bicho e em que estado) - sei bem do que ela fala. Deus também não me deu muita elegância. Piso firme, falo alto, não meço gestos - nem teóricos, nem práticos. Estou mais para uma dança flamenca do que para um balé clássico. Mas me deu sinceridade de sentimentos, deu delicadeza no tratar com os outros (desde que queira), deu uma esperteza de dar nó. Deu uma alegria que contagia e um brilho no olhar que compartilha. E me deu uma força que de uns anos para cá sei bem o porquê. Uma força que tem se transformado em paciência. Em simplicidade, em aceitação. Em esperar o momento certo de agir. Quem sabe, para Ele, tudo isso seja uma forma de elegância.

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