sexta-feira, 30 de julho de 2010

Faxina


Deveria fazer o que dizia a minha vó: " o que não queres fazer, faz primeiro". Parece sem lógica, mas paro para pensar que ela tinha razão - nisso e em tantas outras coisas. Se algo incomoda e não resolvemos, fica batendo na cabeça, feito um pica-pau. O assunto volta à tona a qualquer hora do dia. Lateja, incessante e irritante. Ocupa espaço. Como uma gaveta abarrotada onde queremos colocar mais uma coisa e não cabe. Se não arrumamos e tiramos para fora o que não nos interessa, a novidade nunca vai caber. Fica o impasse da hora. O não feito vira peso. Não se deixa ignorar, por mais que se queira. Como sujeira para debaixo do tapete. Ou louça na pia.
Digo isso de cadeira. Sou mestra diplomada em deixar as coisas "chatas" para amanhã. Um projeto que já está todo na cabeça esperando para ser despejado no papel. Um telefonema (esse é fatal, trauma de adolescência, culpo) a ser dado. Basta levantar o fone, apertar meia dúzia de teclas e falar. Simples. Fácil. Mas nem sempre. Mil ensaios, divagações, e nada. Sei do que tenho que fazer, sei da importância da coisa, e não faço. Não finalizo. Não limpo a tranqueira.
Engraçado que sei bem onde me aperta o calo. E mesmo assim , deixo-me cair em armadilhas. E não pense que falo de algo muito importante, não se iluda. Coisa rala. Pouca. Sem graça. Não é aquela discussão de sim e não que me ronda a vida. Nem a decisão, aquela, já tomada, que mudará meu rumo para sempre. Com essas, sou cautelosa, criteriosa, sei bem o quando vai doer, em mim e , com certeza e mais ainda, no outro, seja lá quem for. Das coisas que colocamos no altar da vida, tomo cuidado. Nas decisões de uma vida toda, vou com calma. Engulo sapos enormes, gosmentos, que parecem saídos das páginas de um Guiness Book. Nisso, sou sábia. Ou medrosa, podem escolher.
Mas, voltando às banalidades do dia-a-dia, reconheço o que é mais engraçado: sinto um alívio, um prazer enorme, uma satisfação inexplicável ao resolver algo - meu ou do outro. Limpo a mente. Uma sensação de dever cumprido. Uma leveza sem tamanho. De banho tomado, destes de sábado. De faxina, daquelas que fazíamos aos sábados. E me pego pensando no porque levei tanto tempo para tal ato de pegar o pano e o balde e mandar ver, com vontade. No porque fugi de tal fazer. Vai saber.
Ou sei. São coisas que não quero mais para mim, mas ainda me cabem, desconfortáveis feito roupa apertada. Estão lá quando abro o armário. E trazem consigo o peso da culpa dos quilos a mais, que por vezes parecem concentrados em meu cérebro. Ou em meu coração. Quem sabe em minh'alma. Prometo começar segunda-feira um bom regime. Quem sabe melhoro.
E faço.

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