quarta-feira, 14 de julho de 2010

Memória


Depois de longo mas nem tão tenebroso inverno, volto a escrever. Por vezes as ideias até que estão na nossa cabeça, mas o que falta é oportunidade. Ou melhor dizer: um micro bem ali, à mão.
Frio do cão em Porto Alegre sob um céu lindo de azul. Tenho acordado com mínimas de 5 graus. Ontem, em minha viagem de trabalho a Bento Gonçalves, parecia pior. O vento, por vezes, parecia cortar.
E o frio, apesar da brincadeira, não é psicológico. Mas tem coisas que podem nos aquecer, como boa comida e boa conversa. E encontrei as duas num almoço quase familiar. Não bastasse a boa mesa italiana - daquelas, que começa com a quente sopa de capeletti e o macio pão de casa e vai até a gula não aguentar mais - o bate papo solto e gostoso sobre tudo me deu a impressão de estar em casa.
O assunto contrastava com a decoração de velha adega: a modernidade. Chegamos à conclusão, depois de passearmos livremente sobre vários mundos - entre filhos, trabalho, impressões da vida - que o mundo está perdendo sua memória. Ou melhor dizer: nossa memória está ficando à cargo de máquinas das quais dependemos, como o computador. Nosso mundo sendo arquivado em backups. Estão lá, em algum lugar do universo cibernético, nosso álbum das melhores fotos, nossos livros preferidos, nossos textos bem ou mal escritos. Está lá nosso gosto musical. Nosso histórico de trabalho e de vida. Nosso diário em forma de blog, nossos amigos nas redes sociais. Nossa agenda. Colocamos nossa vida toda depositada num espaço que, até prova em contrário, não é nosso (quem já perdeu seu lap sabe do que estou falando...). E nem temos porque lembrar, já que transferimos essa tarefa para nosso velho e bom computador. E, ao menor sinal de esquecimento ou simples dúvida, lá está o Google a nos auxiliar.
Então nos perguntávamos aonde vamos parar. Quem será capaz de guardar todas as nossas lembranças. E o quanto isso nos custará. E eu pensava, entre sabores e calores, quanta coisa ainda teria para arquivar. Vi o lado bom e também o ruim. Tanta coisa que se quer esquecer e fica ali, martelando - bom se desse para deletar. E outras, tantas, que passo na vida e que gostaria de guardar em mim para sempre. Bom se eu também fosse um computador. Se meus olhos viraram uma máquina digital. Minha mão, teclado. Minhas impressões, textos. Meu cérebro, uma central, sem data para pifar. Meu coração, pasta dos melhores momentos. A Joyce digital.

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