sábado, 31 de julho de 2010

Mudança


Vende-se. Essa foi a placa que mais vi na minha caminhada de hoje - aproveitando bem o sol e a temperatura acima dos 25 graus. Estavam todas em casas novas - muitas acompanhei a obra em meus passeios matinais , muita ainda em acabamento. E grandes, beirando fácil os 400 m2.

Lembrei de uma amiga minha que , enfim, comprou a casa dos sonhos: quatro suítes, duas enormes salas - uma com a churrasqueira integrada - , piscina, lindo jardim com pequena quadra, paraíso para o casal e seus desejados três filhos.

E isso não faz muito tempo. Hoje procura um apartamento não muito grande. Quer livrar-se do jardim ou seria do jardineiro? - , da piscina pouco usada, depósito de folhas, da quadra que serve de base para o limo. E dos tantos quartos. Os filhos cresceram. Por um tempo encheram a casa de amigos. Mas eles se vão, disse um dia a ela. fatal: dois já na faculdade - um morando fora - e outro prestes a sair de casa para o mesmo fim. A garagem ficou pequena para tantos carros, a casa vazia pelo entra e sai. Eu que os acompanhei desde as mamadeiras, por vezes me assusto, não os reconheço mais.

Mas voltando ao assunto, antes que eu caia em lamúrias com cheiro de ontem, fico a pensar no porque tanta energia - e tanto dinheiro - para construir casas. Sonhamos com isso. Nossos pais nos ensinaram. Como se nossa evolução - ou seria status ? - fosse atrelada a isso. Como se voltássemos ao tempo dos castelos. Como se só fossemos reconhecidos se morássemos por detrás dos altos muros. Fora deles, pobreza e esquecimento. Isolamento. Ou seriam os moradores por detrás das muralhas os enclausurados?

Caminho pela cidade vendo as placas e sinto pena. Quanta energia jogada fora. Com as nossas casas vai um pouco de nós mesmos, muito de nossa história. Por isso não corro atrás, nem me apego muito. Não desperdiço meus dias entulhando coisas. Não quero ser esmagada por elas. Deve ser meu espírito de eterna estudante, nômade. Mudei muito nessa caminhada até aqui. E quero ainda mudar muitas vezes, como se isso me renovasse. Mas sem exageros de qualquer natureza. Minha vida cabe em poucas caixas. Fica fácil mudar.

Um comentário:

  1. Infelizmente a minha vida não cabe em poucas caixas.., digo infelizmente porque essa leveza perante a vida, parece-me ser a filosofia ideal a seguir mas, por deformação pessoal, os objectos, os espaços, os livros, as palavras, tudo me diz muito e tem significados especiais e, sinto-me bem por encontrar de vez em quando, os baús velhos à minha volta e voltar a abri-los e folhear os velhos álbuns de fotos amarelecidas pelo tempo.. e, assim.. fica difícil mudar!

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