terça-feira, 6 de julho de 2010

Nós


Pensando pelo lado prático, ser mulher é um saco (de onde será que vem essa expressão ?) . Temos que ter a pele macia e bem hidratada ( coisa difícil depois de um certa idade), as rugas disfarçadas (eles não falam, mas gostam...), as unhas sempre pintadas (preferencialmente de vermelho, bem fatal), as pernas sempre lisas, as "partes" bem cuidadas (cujo "desmatamento" é tão permitido quanto necessário). Os cabelos - moldura do rosto, dizem - sempre em dia , na cor e no corte ou pelo menos na forma de usar (limpos, sim, nem precisa falar; e perfumados, se quisermos agradar).
E as coisas fáceis terminam por ai. Fica difícil acertar. Se não pintamos a cara, masculinas. Se pintamos demais, peruas. Sem perfume, sem graça. Demais, "de rua". Se somos práticas, masculinas. Se femininas, nem sempre práticas. Cá entre nós - e que eles nos ouçam - estamos longe de vestirmos o que os homens gostam: saias e sandálias altas, preferencialmente de salto bem fino. E vá andar nas ruas com um troço destes. Ou carregar compras, correr atrás do filho que se soltou de nossa mão. E quando já não temos mais essas tarefas, estamos sábias demais para nos curvarmos ao que o mundo acha.
E as desigualdades continuam: cabelos brancos, nem pensar: o que dá a eles charme, a nós envelhece. Pêlos pelo corpo? Neles masculinidade. Em nós, relaxamento. Mesma roupa? Louca. Decote fechado? Pudica. Escancarado? Puta. E tudo isso sem perder a graça, o charme, a simpatia, a presteza e a força. Sem deixar de ser mulher, parideira, mãe, profissional, amiga, conselheira, amante e o escambau. E fazer de um tudo para agradar, mesmo quem não confesse. Apesar que, dizem, arrumamo-nos para sermos aceitas pelas outras mulheres ( e a mais difícil de agradar somos nós mesmas...). Ou estarmos acima delas. Ou pelo menos não sermos comentadas. Quem gosta de ficar para trás?
Ah, mas tem jeito mais simples de se mostrar. O vestidinho de casa e a sandalinha rasteira, tipo Gabriela. O jeito dengoso de acordar. A cara lavada ao levantar. O cabelo molhado depois do banho. O cheiro do creme recém passado. A meia curta no pé frio ao deitar (nem que seja só isso!). As rugas que acompanham a expressão singela. A gargalhada sincera de se deixar levar. A fragilidade que se pode mostrar (podemos pedir colo e o colo dar), a lágrima que se pode deixar cair. O sorriso que se deixa escapar em resposta ao discreto olhar. O carinho que se pode demonstrar, mesmo em público. Podemos ser meninas ou mulheres, femininas ou fêmeas, basta saber a boa hora de usar.
Ser mulher é mesmo um saco. Mas pode ser um "saco surpresa", lindíssimo, cheio de coisas boas a mostrar.

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