sexta-feira, 23 de julho de 2010

Piquenique


Pode ser prático, mas baniria da face da Terra os tais plásticos. Não este em qual teclo, nem do tampo do bacio ou do pote de shampoo, mas de embalagens. As de indefectíveis salgadinhos, direcionando bem a coisa.
E explico: as pessoas não tem noção da chateação. Não tem noção de seu irritante barulho. Pense comigo: você no escurinho do cinema, um belo filme passando - daqueles em que se tem que prender a atenção para não perder o fio da meada (ou seria melhor dizer fio da história?) e seu "vizinho de poltrona" resolve abrir seu pacotinho. A cada "mãozada", tremem os ouvidos. As vezes por horas a fio. Pior que isso só celular (mas esse merece um texto só dele...) .
Imagine, então, em uma destas tantas viagens que faço - e ainda tenho pela frente, tremeis! São, no mínimo, nove horas que eu uso para tentar descansar - afinal, o estudo me espera. Com certeza não sou só eu que noto - e me impressiono (melhor assumir que me irrito ou até acho graça, tamanha insensatez) - em como as pessoas comem enquanto viajam. Como se a noite fosse dia - e nem assim explicaria tão voraz fome, ou vontade de comer. Talvez substitutos ambulantes dos ataques noturnos à geladeira. Suas mãos passeiam entre salgados e doces, geralmente e por vezes mais barulhentos que o próprio envólucro (palavra chique demais para tal barateza da hora). E, barulhentas, chegam até as bocas que intercalam comer e falar. Não dormem e fazem do passar das horas, piquenique - assim, bem abrasileirado - a bordo.
Fico pensando de onde isso vem. Vejo um lado bom. Lembro da minha infância, das viagens de feriados e férias - uma constante - quando o auge da coisa eram os lanches à beira da estrada. Sim, caro amigo, pode rir quem nunca experimentou tão aprazível experiência: café com sanduíche (o pão incorporando o gosto do recheio) logo ao acordar do sol - ali, nos bancos de algum antigo paradouro (hoje tão raros). E, podem rir, a famigerada galinha com farofa e ovo cozido na hora do almoço, com direito a toalha xadrez e passeios por perto - até onde os olhos maternos alcançassem, é claro. Não tínhamos plásticos. A embalagem era em potes, panos e amor. Quando não pinhão cozido vendido ainda quente. Terminada a pausa e a farra, seguíamos, os sete - ou oito se contarmos com o cachorro da vez - eu geralmente no colo de minha mãe (ah, dos tempos que andávamos seguros sem o cinto de segurança...). Não sei do que mais gostava: se do viajar e ver, do passar e chegar, ou das paradas para comer. Deve ser por isso que amo tanto café com pão e galinha com farofa. Devem ter gosto de ontem. Gosto de festa, de quero mais.
Mas, enfim, voltando ao assunto que está em pauta - e antes que minhas lembranças me levem para muito longe: damas e cavalheiros, esqueçam em casa sua fome e sua vontade de falar. Quando as luzes do dia se apagam, é hora de descansar. Nem que seja no balanço de um ônibus.

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