terça-feira, 31 de agosto de 2010

Espelho


Terça letárgica. Acabo de chegar de viagem e estou sem coragem de abrir a agenda do dia. Talvez seja mero cansaço. Ou o contraste dos dias. Talvez o dia não tenha me recebido como eu achava que merecia, mas, vá lá, "é o que temos para o momento". Hoje é dia de pôr a cabeça no lugar que preciso, não que quero. E é ai que o bicho pega, que as ideias travam, que me vejo fazendo um esforço e tanto para prosseguir.
Continuo pensando nas coisas que não quero para mim e que tenho aceitado, trabalho e vida. E me pego pensando nos porquês, nas necessidades, nas obrigações (seria essa última uma derivação de briga?). No caminho que pegamos e do como fica difícil sair dele.
A vida não dá atalhos, uma pena. Nem mapas para nos basearmos. Temos um caminho a ser trilhado, desviando das pedras e buracos, enlameando os pés, ferindo a sola, alguns abismos. Por vezes me vejo andando descalça, tamanha dor. Claro que visualizo, sempre, a minha paisagem predileta pois, sem ela, eu nem teria forças para prosseguir. As paradas do caminho, que se tornaram essenciais à minha sobrevivência, feito oásis no deserto. Meu novo horizonte a ser perseguido. Conquistado, melhor dizer. Feito terra nova, meu povoado amigo, onde repouso meu olhar.
Não seria esse oásis minha vida e a secura do deserto meu simples passar? Penso que sim. Se tivesse escolha, deitava meu corpo cansado na beira do lago de me amar e lá deitava minha cabeça no colo do tempo, a receber carinho do vento. Minha vontade é de me deixar esquecer até passar o cansaço e o medo. Vontade de me recomeçar. Lá tenho força. Lá, alimento-me de me ser. Um paraíso tão grande que me assusta, tamanho aconchego. Onde o tempo passa devagar como se as horas fossem outras. Onde o calor é outro, vindo de dentro. Mais que um esconderijo, um achar-me. Mais que uma fuga, uma parada comigo mesma. Mais que um refúgio, a vida que quero para mim. Meu espelho da'lma.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Freio


Tem dias que a coisa não flui, e ai não adianta espernear. Hoje meu provedor está fora do ar, bem no dia que aguardava muitas respostas. Sinto-me como que atrasada para um compromisso, estando como que encaixada num engarrafamento sem fim. Não se vê outra saída a não ser esperar. Invariavelmente, quando isso acontece, ficamos andando em círculos, remoendo emoções que de nada resolvem o fato. A respiração se altera, e com ela o batimento cardíaco, e o tempo parece ainda mais implacável, correndo em nossa frente. Nosso fast life.

Frente a situações como essa, sobre as quais não temos domínio - entre tantas e tantas outras, pois não somos, acreditem, deusas, nem fadinhas com varinhas mágicas - a sensação de impotência pesa feito mala sem alça e sem rodinha - quem sabe cheia de pedras e ainda de fecho estragado. E nem adianta se debater. Relaxo. Faço as coisas pendentes guardadas na gaveta ao lado. Quem sabe aquela faxina já atrasada, dos papéis inúteis e do pó dos dias. E fico a pensar em formas de resolver depois os entraves que aparecerem pelo caminho. E na inabilidade de resolver as coisas, na inabilidade imposta de se ficar à espera, ou de treino oficial da paciência, relembro e rio do ditado infâme: "diante do inevitável, relaxa e g...". Tento fazer desse passar de horas meu slow day...
Já limpei a vida, tomei um banho demorado, arrumei o que dava - e queria - dos ítens que coloquei na lista de espera - quase um overbooking. Sento, penso e escrevo, tentando organizar-me por dentro, sentimentos e desejos. Listar ideias mofadas, trocá-las por novas em folha. Relaxo os dedos nervosos no teclado, enquanto refaço meus passos. De fundo, o barulhinho do relógio me avisa que o tempo do mundo não parou. Que as nuvens estão passando, como passa o sol por cima da terra, puxando a lua. Assim como passará este desabafo, da qual nem lembrarei amanhã - um dia que promete muito, dois em um, já que o de hoje resolveu descansar.
E como disse Peter Gabriel em matéria na televisão: "é no passar das horas que me inspiro"...
E lá se vai mais uma xícara de chá...quem sabe uma sopa...

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Verbalizando


Choro é uma coisa engraçada. Começa pela palavra, que pode ser verbo ou substantivo. E pelo ato, que pode de ser de felicidade ou de tristeza, de emoção ou de raiva. Pode ser um soluçar baixinho e íntimo, sufocado no travesseiro. Ou um extravasado e escancarado, se de muita dor - destes que se torce para não usar. Choro de tanto rir. Ou de comoção, de paixão. Do ver no outro eu mesma. De ver nele o amor. De me ver outra - ou eu como sou - no espelho da vida.
Choro tem estoque a longo prazo. E não tem hora marcada para acabar. Nem para vir à tona. Pode chegar feito chuvinha tola de inverno, ou feito temporal arrasador de verão. Eu, "tola", sou pura emoção. Choro como mulher e como criança. Deixo correr lágrimas até em propaganda qualquer. Deixo rolar, sem o menor o pudor, mas só gosto das que vêm para os que merecem, coisas e pessoas. Choro que vem do tolo só me machuca, perco a razão.
Poderia eu pensar ser ela, lágrima que corre fácil, meu orvalho. Vazamento de meus olhos de mar. Umidecedor de meus sentimentos, para que não ressequem. Dosador de meu coração, para que não petrifique. Marca registrada de minhas emoções, hoje muitas.Vem fácil, de todo jeito. Choro pelo outro que chora, pelo que pede, pelo que dá, pelo que passa triste a meu lado. Pela história que monto do nada. Choro pelo que prde e pelo que ganha. Choro pela força do momento que vivo de forma intensa. Pelo futuro que passa por mim feito filme ruim. Ou não. Choro pela lembrança do passado, seja ela qual for. Molho o livro que leio se nele me acho. Molho meu rosto pelo filme da tela, se nele me encaixo.
Manteiga derretida? Não. Minha lágrima vai além de apelidos populares. Minha lágrima sou eu, convertida no que sou. Minha essência saindo pelo poros.
Eu, toda e inteira, em minha melhor forma líquida.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Tic


Hoje acordei antes dos passarinhos. E curti, na boa, o silêncio fresco do amanhecer. Um barulhinho aqui, outro acolá, um canto de cada vez. Barulhos de longe da cidade que acorda. Não levantei logo, fiquei ali, curtindo o dia se espreguiçar antes de ir à luta. Curtindo o nada. O sol não deu as caras por completo, deixando o dia com cara de tímido, contrastando com minha energia de sobra.
Insônia é uma coisa estranha. Ou nem sei se chamaria assim, já que "apenas" acordei antes da hora. Ganhei umas horas a mais no relógio do dia. Um acordar sem motivo. E ficou aquela conversa chata, besta, discordante, entre o corpo que queria mais e a cabeça que já estava a mil. Não me importo, desde que não seja por problema, por aqueles pensamentos exaustivos - nunca bons - que pipocam na cabeça. Menos mal que foi logo cedo. Pude passar o dia de ontem a limpo, sem deixar sujeiras por detrás da cama. E agendar o de hoje, um daqueles que sobram tarefas para parcas horas. Um dia de passagem. Com uma calma que, pretendo,
seja minha companheira de jornada.
Agora é acordar com um bom café, destes, feito na hora. Já dei uma de motorista de filho, a secretária - sempre tão falante - ainda não chegou. Gosto desse momento meu. Gosto desse dia que começa devagar, sem o rompante das horas. Alimentar minha fome com calma, sobra de tempo. Escrever sem pressa. Um banhar-me para me sentir nova. O dia começa bem. De pé direito, e já de olho no mundo lá fora, que me espera. Tomara ele não tenha pressa de me viver!

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Suor


Hoje pela manhã comecei três textos. E não terminei nenhum. Ou até terminei, mas com um resultado, para mim, nada positivo. Estava me sentindo diferente. Ou confusa. Tinha no coração só coisas boas, mas a cabeça de pretendente a escritora só escrevia coisas ruins. Fins trágicos para começos divertidos. Se fosse o contrário, belos textos teria escrito. Escrevia em redemoinhos, sem conseguir sair. Como se me afogasse num mar de dúvidas. Ou de incertezas.
Deixei de lado. Abandonei-os na primeira curva. Olhei para trás para me certificar que não me seguiam por debaixo da poeira da estrada do dia. Sai de surdina, sem deixar rastros, e segui meu mundo da melhor forma que podia. Não me pedi muito, nem exigi nada, a não ser a meta de entender o que se passava.
Cá estou eu, e neste momento me sei. Estava, na verdade, dividida. Entre as coisas que a vida me impõe e as coisas que quero dela. Deixei no branco do computador minhas mágoas e segui em frente. Fiz coisas que necessitava, sim, pois o dia é feito disso. E me dei ao luxo quase culposo de uma boa caminhada ao sol das 10. Rompi minhas barreiras e testei minha força de vontade, deixando meu corpo fazer de mim o que queria. Corri, trotei, andei depressa e devagar. Respirei fundo o ar quente da manhã. Senti o calor queimando minha pele. Senti-me viva. Deixei que minha cabeça desse as cartas - ou as passadas. Senti meus músculos sendo trabalhados, meu cérebro sendo oxigenado e , com eles, minhas ideias se abrindo ao mundo. E com elas, minha resposta.
É engraçado isso. Sabemos o que tem de ser feito e fazemos vista grossa, quase cega. Sabemos do que precisamos para estarmos mais livres, e deixamos para depois. Ou para nunca. Ou para amanhã, o que é bem pior. Como se certas tarefas fossem entraves. Como se fossem muros quase intransponíveis. Mas qual delícia ao sabê-las resolvidas. Ao ver a trava, enfim, solta.
Conheço-me o suficiente para entender. Um problema não solucionado se apodera de mim feito alergia. Ou coceira, destas que ficam chamando a atenção até que a gente se dê por vencida e meta, enfim, a mão, até virar ferida. Eu, hoje, venci. Não me deixei levar pelo deixa para lá. Hoje me resolvi, coisa pouca, coisa tola, mas é nestes pequenos gestos de me fazer valer , de fazer o que tem que ser feito que me realizo. É desenrolando esse fio enosado , ou os tantos, feito massaroca, que me sinto melhor. E volto, enfim, a escrever. De rédeas soltas. E pronta para outra.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Meninice


Uma amiga me "marcou" numa imagem que realmente me define. De uma menina, alegre, a se balançar ao vento. Lembrei de cara como gostava - e gosto! - de balanços. O movimento do corpo a impulsionar, o vento na cara, a paisagem que se deixa ver por vários ângulos. Como se voássemos, pensei. Uma sensação de liberdade incrível que, sempre que posso, de cima de meus mais de 40 anos, experimento. É sempre único, mágica, inédita.
Mais que isso, sou uma menina. Uma menina que se esconde mal por detrás da mulher que me fizeram ser. Uma mulher imposta. Deslizo para dentro de mim mesmo, e de minha meninice, sempre que posso. Mora em mim uma ingenuidade nata, o que, por vezes, deixa-me em maus lençóis (de onde vem isso? lençóis só me trazem coisas boas...). Acho que por isso aceito as culpas, todas, feito menina acuada. Por isso acho que o erro é sempre meu. Como se aceita-se que os outros, ditos adultos, sempre tivessem razão. Esse é o lado não tão bom de ser quem eu sou.
Mas meu lado bom é melhor, e me pesa mais na balança do bem querer. Rio à toa, ou nem tanto à toa, já que quase tudo na vida faz sentido em achar graça. Rio muito de mim, o que prova minha aceitação fácil das coisas. Tenho sempre um bom sorriso na cara, mas isso para quem merece e recebe. Faço birra nas horas chatas, uma birra por vezes engraçada. A cada momento adulto que me detona, um outro, fresco, refresca. Basta eu estar onde quero estar. Acho graça do sono que me invade em plena leitura. E das recaídas da unha ruída, prova máxima de minha fragilidade. E mais: basta um recado, um carinho , uma lembrança do bem, e sacudo a cauda da felicidade. Pronto. Isso basta. Meu farol aceso na cara. Um par de verdes que brilha, os dentes que rasgam a boca para aparecer, a menina, de novo, a empurrar o balanço. Ouço o vento, sinto o frescor, vejo as coisas de outro jeito e vivo. Sempre da melhor forma.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Aprendendo


"É necessário abrir os olhos e perceber que as coisas boas estão dentro de nós, onde os sentimentos não precisam de motivos nem os desejos de razão. O importante é aproveitar o momento e apreender sua duração, pois a vida está nos olhos de quem saber ver."

Esse pensamento só poderia vir da mente poética de Gabo, meu escritor favorito, Gabriel Garcia Marquez. E se não for dele, aproprio-me e repasso. Cabe bem na boca do poeta escritor. Eu, que tenho me emocionado com coisas ao mesmo tempo pequenas e, para mim, enormes, sei bem do que ele fala. Diria até, com a permissão de fã, que a vida está nos olhos de quem vive. De quem aproveita seus detalhes, de quem olha em volta em não só para si mesmo.
Eu que tenho vivenciado coisas diferentes que encontro ao meu lado, tenho aproveitado para colocar em prática a pessoa que sou, por vezes esquecida no passar dos dias. Estar em outro mundo - que me conforta por também ser meu- tem colocado minha sensibilidade à flor de minha branca pele. Delicio-me com pequenas coisas e, principalmente, pequenos gestos. Presto a máxima atenção a cada momento que a vida me dá. Aprecio de bom grado os contrastes. Abro meu presente com cuidado, vendo no pacote cada detalhe, a cor do papel, o laço bem feito, talvez um perfume discreto. Vejo valor no momento e no gesto. O presente por si só, desde a escolha até a entrega, a devoção, o interesse, o pré-ato, o pensar , a lembrança, não necessariamente abrir e ver se me serve. Saboreio cada gosto, por mais trivial. Curto cada gargalhada, seja lá qual for a bobeira. O sorriso bem recebido e bem retribuído. E cada lágrima que me vem, feito graça.
É a vida tem me dado presentes. Guardo-os todos, feito prêmio, em delicada caixa. Meu estoque de auto estima que capto no ar.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Abraccio


Minha terapeuta, faz um bom tempo atrás, quando eu ainda dependia dela para saber o que queria e o que não queria da vida, perguntou do que mais sentia falta. Respondi na lata: abraço. Um movimento fácil, e ao mesmo tempo complexo, de envolver e ser envolvida por dois braços. O calor do outro em mim. Bem mais que isso. Unir-se à outra pessoa, ser uma só. Unir o calor em um só. Nele se sente o que o outro sente por nós.
Abraço de mãe, pai. Da irmã e do irmão. Abraço de filho, na chegada ou na partida, ou por nada, amo ( recebo, como recebo!). Abraço do amado, abraço grátis ( campanha tão fácil e ao mesmo tempo tão difícil do free hug) , amigo recémAdicionar imagem conhecido. Do amigo de longa data. Mostra empatia. Resposta. Abraço de compaixão e de comemoração. Abraço que mata a saudade e que já anuncia a próxima. O abraço que não deixa a gente ir. Que apoia no momento em que mais se precisa.
Mais que beijo, mostra envolvimento. Mostra cuidado. É engraçado, mas o cumprimento de dois ou três beijinhos não me parece tão intenso. Por vezes pura convenção. Mas o bom e velho abraço demonstra muito. Ainda mais se aperta no peito. Acolhe. Responde. Aceita.
Aquece minha'lma. Alimenta quem sou.
E mais , muito mais que aperto de mão, que também precisa ser preciso. No segurar a minha mão, o outro me diz "prazer em conhecê-la". No abraço, muito mais que isso. Convencimento. Recebimento. Parece colo, que dou e recebo quando me sinto encorajada ou encorajando. Aconchego. Paz de espírito. Apoio. Amor, esse que me faz a diferença. Que me faz crescer. Esse que me sustenta. Que me encoraja a ser eu mesma.
...Lembrei das tantas vezes que me abracei sozinha para dar conta de tanta falta...

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Parada


Postei no facebook uma observação que foi bem comentada: o que está faltando é deixar nossas crianças serem crianças. Nossas crianças precisam mais de pé no chão e mãos no barro.
Não errei na observação, penso. Trocamos a "insegurança" da rua pela "segurança" da televisão e do vídeogame. Ou nas tantas aulas ditas necessárias. Levam vida de adulto, da escola para casa, da casa para a escola, seja lá ela do que for. Um rotina apressada que viverão para o resto de suas vidas - ou pelo menos até a sabedoria mandar parar para viver. E, ao invés de nosso filhos aprenderem como funciona a vida, como são as pessoas na vida real, como se comporta o vizinho do lado, o gari da rua, aprendem o que ela tem de pior. Vêem a natureza pela tela colorida, não sentem seu cheiro , nem sua temperatura. Não vêem o jogo de luz que o dia pinta em sua tela do céu. Nem o crescer da grama do pátio. Aprendem, sim, como as coisas funcionam, através do amigo eletrônico. Aprendem como é " fácil" dirigir no jogo da vez. Ou até matar. E nem sequer sabem falar ao telefone.
Criamos gênios da tecnologia que não sabem como nasce uma cenoura. Ou que o arroz talvez venha de outro país. Talvez achem que alfaces nascem no supermercado. E que frutas vêm em caixinhas. Que acham que roupas e pratos são autolimpantes ( disso, acho que têm certeza) . Que tudo se resolve num clique do controle remoto. Tudo cansa logo e se vai como se trocássemos de canal. Remoto sonho o deles. E o nosso.
E vou mais fundo: nada seria assim se não tivéssemos esquecido nossa criança interior. Levamos a vida por levar, sem tempo para carinho no sofá - a não ser que seja já pensando em sexo. Não sabemos conversar , a não ser que seja regado a alguma bebida. Não saímos para passear, a não ser que seja rumo a algum shopping center. Volta na quadra é coisa de louco, caminhar de mãos dadas coisa de boiola. Não temos tempo para tais "futilidades da vida", pois a vida espera muito de nós. Não se pode perder tempo.
Mas que tempo é esse, desperdiçado no passar das horas? Renovo meu ser a cada segundo no sol. Reativo meu cérebro a cada página amada. Refaço-me a cada palavra escrita. Rejuvenesço a cada gargalhada. Reponho minha energia gasta em cada mão que abraça. Reaqueço a alma a cada beijo retribuído. Assim levo minha vida. Um passo infantil de cada vez. Um punhado de cada vez para construir meu castelo.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Sìndrome de Joy


Fico fascinada como temos, ainda e a todo momento, coisas a aprender. Bem disse o livro que estou estudando, sobre comunicação, que o ideal não é fixar-se em um só tema e sim, ler de tudo, conversar com todos e, ao meu ponto de vista, viver com os olhos atentos e coração aberto, sempre, o que chamo de vivenciar. A curiosidade é que move meu mundo, sempre. Meu tempero. Meu sal.
Procurei e estava lá: " Síndrome de Stendhal, síndrome da sobredose de beleza. É uma doença psicossomática bastante rara, caracterizada por aceleração do ritmo cardíaco, vertigens, falta de ar e mesmo alucinações, decorrentes do excesso de exposição do indivíduo a obras de arte, sobretudo em espaços fechados. O nome da síndrome se deve ao escritor francês Stendhal (pseudônimo de Marie-Henri Beyle) que, tendo sido acometido dessa perturbação em 1817 (!!!)em uma viagem de Milão a Reggio. Absorto na contemplação de tão sublime beleza, descreveu ele, atingi o ponto no qual me deparei com sensações celestiais. Tive palpitações, minha vida parecia estar sendo drenada...".
Pensei mais longe, não só na beleza das grandes artes. Pensei nas belezas postas à mesa do dia, no encanto que tenho diante de uma flor, canto de passarinho, sorriso de criança. Na alucinação de uma bela gargalhada, daquelas em que perco o ar. Do prazer morno do beijo na testa do filho. Do perder a noção do tempo numa boa leitura , assistindo um bom filme, onde o tempo é outro. E na paixão cega e desenfreada, do ficar a olhar por horas a fio sem nem se dar conta. Minha síndrome, que chamarei de "Síndrome de Joy" , só acontece quando estou atenta, quando a vida não me puxa para baixo. Quanto a frivolidade do todo me faz ficar cega ao encanto do detalhe. Quando me separo de mim mesma e me deixo levar pelo passar das horas tristes. Meus sintomas aparecem quando estou convivendo com a arte, sim, feito Stendhal, mas a arte de bem viver, não encerrada só nos grandes museus. Está lá fora, em qualquer lugar, a me esperar. Ou bem aqui, dentro de mim, esperando aflorar.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Esboço


Tem dias que a gente, por um motivo ou outro, psicológico ou real, sente-se um lixo. Ou um papel amassado e descartado dentro dele. Estou num deles. Não por frescura ou achar que o mundo não me merece, não. Mas porque fico pensando como deixei alguns setores de minha vida chegarem onde chegaram. Porque me deixei levar, porque escolhi esse ou aquele rumo.
Porque me encolhi.
Então li esse pensamento dela, Clarice Lispector, a quem eu, volta e meia, reclamo tanta frustração, tanto negativismo. Tanto musgo sobre a pele de mulher. "Não é que vivo em eterna mutação, com novas adaptações a meu renovado viver e nunca chego ao fim de cada um dos modos de existir. Vivo de esboços não acabados e vacilantes. Mas equilibro-me como posso, entre mim e eu, entre mim e os homens, entre mim e o Deus."
Bem por ai, penso. Talvez esteja ai seu descontentamento, seu jeito Clarice de ser, sua realidade fria e crua. Equilibrista, somos, mas de péssima qualidade. Pesamos tudo, levamos tudo em conta, sem muitas vezes pensarmos em nós, sem lembrarmos que somos, também, pessoas. Vivemos, muitas vezes, do esboço de nós mesmas. De papéis amassados e jogados no lixo mais próximo. De rascunhos rasurados do que sobrou de nós. Poderíamos ser mais - ou pelo menos mais próximo de nós mesmas - mas os caminhos não são sempre de flores. Não são sempre desenhos passados a limpo, nem casinhas coloridas a lápis de cor. E as escolhas ficam marcadas, não saem, nem com a melhor das borrachas. Muitas vezes é preciso começar de novo, lançar mão de um novo papel, para que tenhamos, pelo menos, uma nova chance de fazer de outra forma. E tomar cuidado para não borrar de novo. Ou fazer do borrão, arte, o que seria uma bela saída.
Cá estou eu num dia nublado, mesmo brilhando o sol. Sinto o frio da acusação indevida, da vida mal vivida. Da aceitação do nada. Do desenhar por desenhar. Tomara tenha chance de um novo papel, de uma nova caixa de lápis novinha em folha, de novas ideias - ou as minhas, esquecidas pelo caminho. Quem sabe tenha vontade, de novo, de desenhar uma casa colorida , paredes laranja, cortinas esvoaçantes, crianças no jardim, cachorros tomando sol, e eu debruçada à janela a ver meu novo tempo a passar.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Got milk?


Fiquei ontem até tarde finalizando a leitura de um livro sobre propaganda, onde terminava com um case sobre o leite. Um case cheio de "mas". O produto era bem visado, mas pouco consumido. As pessoas usavam o leite em seu dia-a-dia, mas sem se dar conta disso. Viam o leite sozinho, mas sem se dar conta que ele gosta mesmo é de boa companhia. Morno, junto com o biscoito antes de dormir. Adoro o cheiro de sua fervura. Gelado, incrementado com o achocolatado. Acalmando um café. Tornando o cereal refeição completa. Dando ponto ao mingau. Fazendo bela companhia ao bolo de laranja. Eticetera e tal. Deu até rima.
A campanha falava da "tristeza" do leite sozinho, de um sem o outro. Got milk? era o mote, lembrando que só lembramos dele quando o biscoito já fora mordido e demorara a dissolver na boca, como que esperando o bom companheiro. Ou quando nos deparamos com o marrom amargo do café. Levou-me à casa de minha mãe e cheirava a doce de leite, uma de suas especiarias (eu, tola, não gostava. Meu prazer era só o de raspar o fundo da panela...). Ou do café da manhã de minha avó (esquentava demais e esfriava no pires, ritual diário, depois de deixá-lo virar no fogão).
Eu, bem acompanhada de minha poesia, que se torna mais forte ao passar das horas do dia, fiz minhas comparações. Listei meus melhores acompanhamento para meus tantos (de)leites, enquanto já pensava em como iria tirar melhor proveito da xícara de líquido branco que esquentava no microondas. Doce depois do almoço. Sofá e manta no inverno. Sofá e filho com a cabeça em meu colo. Pernas esticadas e cachorro sobre elas. Banho quente e corpo cansado. Corpo cansado e cama cheirosa. Sol e caminhada. Boa conversa e risada. Mão com mão da pessoa amada. E abraço, um momento único que merece um texto a parte, tamanha complexidade ( ou seria simplicidade?). São tantos os meus leites que nem sei se sobreviveria sem eles...
Mas, enfim, voltando às vacas nada magras e seu precioso presente, tem coisas que tem sabor de ontem. Doces, e coisas quentes, feito sopa de praia ( outro texto esperando sua vez) dão ares diferentes. Leite morno tem gosto de cuidado. De infância - não do tempo e sim do pensamento. Calor de carinho. Cuidado de mãe. Aconchego. Ternura. Doçura. Segurança. Supre essa minha carência sem fim. Dá vontade de voltar no tempo de ter mãe e de ser mãe. De ser amada e amar. E só. Bom demais da conta. Desce gostoso feito ele.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Envelheci


Sexta-feira treze. Mês de Agosto. O dia começou "normal", frio e chato, mas agora as nuvens negras - lá fora e em mim - vêm com força. O tempo mudou de rompante , que chega a assustar, cara de fim do mundo. Engraçado, quando era pequena , esse mal humor do céu não me afetava tanto. Talvez seja pelo quanto tenho a fazer, pela agenda conturbada pela indefinição dos dias. Talvez porque seja sexta e eu queria que fosse sábado para não me perturbar com a passagem tosca das horas. Ou pela minha pressa que os dias ruins passem rápido.
Não tenho, hoje, o mesmo olhar de menina, admiradora do tempo, que ficava horas a acompanhar a dança das nuvens, seu agrupamento feito desfile de Setembro. Ou a imaginar a tal "faxina no céu" da qual minha mãe falava. Trovões como caminha de anjos a serem arrastadas, a chuva como os baldes d'água para lavar o piso celestial. Os anjos, pensava eu, também mereciam um lugar limpo e cheiroso para dormir. Imaginava, então, a fileira dupla de caminhas a serem arrumadas depois da chuva. Lençóis brancos com cheiro de flor. Anjinhos descalços a correr e deitar, puxando as cobertas sobre a camisola longa, escondendo os pés. E as fatais risadinhas guardadas sob travesseiros, como fazíamos , tanto, em visita a primos. Ou esperar a chuva passar e correr para pisar nas poças. Fazer rios entre a areia desenhada da praia, levando a chuva até o mar. Quem sabe lançar barcos de folhas e galhos nas sarjetas das ruas enlameadas. Quem sabe provar a água que veio do céu.
Mas hoje não sou a mesma. Nada de anjos ou limpezas no céu. Nuvens negras me lembram atrapalhações ao sair (sou uma péssima usuário de guarda-chuvas, que nem sei porque têm esse nome, se não guardam nada...) , trânsito complicado, roupas que não secam, criaturas histéricas feito formigas doidas pelas ruas. Não tem mais graça ver tais bichinhos correndo para dar conta do serviço. Nem a movimentação atrapalhada das mães a limpar varais. Nem a briga entre as pessoas e seus guarda-nada em dia de vento e chuva. Foi-se com o ralo sol meu espírito juvenil. Acho que vou ficar a espreita, escondida em mim mesma, à espera de dias melhores. Porque amanhã já é sábado, 14, e o mês do cachorro louco já está na metade.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Baú


"A vantagem de ter péssima memória é divertir-se muitas vezes com as mesmas coisas boas como se fosse a primeira vez".

Ri sozinha em cor amarelada dessa frase de Friedrich Nietzsche. Pelo óbvio do simples - ou o simples do óbvio? - que nos tira o fôlego. E pelo andar da carruagem que peguei de carona.
A memória, para mim, é uma faca de dois gumes: um que corta e sangra, outro que apenas nos espelha e nos faz seguir em frente. Por vezes, muitas, queremos esquecer as coisas não tão boas que vivemos e lá está a memória a nos acordar certa manhã, chata e insistentemente, quando estamos enfiados no edredom de bons sonhos, feito mãe em tempos de escola. Põe na mesa do dia um prato frio que não nos apetece - gosmento, difícil de engolir. É nestas horas que eu queria perdê-las pelo caminho, sem nem olhar para trás. Tipo rastro de pão de João e Maria. Mas elas voltam, volta e meia, a me atucanar. Infâmes, impassíveis, dominadoras. Trazem na mala minhas rugas.
A outra memória, boa, gosto de ter. Brilham meus olhos. Como se a vida tivesse sido passada a limpo e colocasse na mesa nosso prato preferido, morno e sadio, a nos contentar. Aquele prato de infância, que nossa mãe fazia no dia de nosso aniversário. Ou o prato novo, bela surpresa, que ficasse marcado em nós por ela mesma. Sinônimo de boas lembranças, feito presente inesperado, bem dado. Essa quero em minha vida. Dessa quero me abastecer -e não só vê-la em páginas amareladas. Quero escrevê-la em folhas brancas e perfumadas. Não quero que virem peça de meu museu, flashbacks de me ser. Quero-as, todas, em meu baú de pirata, minhas riquezas a me munir de esperanças de vivê-las cada dia mais. Inclusive hoje. E amanhã. E depois, e depois, e depois, até que o saldo dê positivo e o meu livro termine com a frase:
" e viveram felizes para sempre".

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Curiosa


Inveja é coisa feia, já dizia minha mãe. Mas a tenho por alguém que sabe outras línguas. Eu arranho um italiano, que amo. Embrulho um portunhol de dar dó. Desisti do inglês, depois de anos de tentativas de passar do " o book in on table". E sonho em falar francês. "Un rêve".
Seria preguiça ou falta de foco? Talvez medo. Nada. Só mais um dos tantos prazeres que temos na lista da vida e que , um dia, quando resolvermos, enfim, ser felizes por completo , correremos atrás. Ou quem sabe eles nos vêm?
Isso puxa outro assunto. O de estarmos antenados com os sonhos, os desejos. Cedo ou tarde (isso existe?) eles vêm, como que chamados por nós. Como se tivéssemos um imã, um fio de atração. Por isso o cuidado com o que se sonha, com o que se pede ao papai do céu de mãozinhas cruzadas ao peito ainda quando pequena. Ou nas viradas de ano, quando se eleva os pensamentos, quando se pensa no que se quer dos dias. Pense bem, peça certo. Não faça pedidos vãos. Já passei por isso, já fiz pedidos incompletos que se realizaram com todas as pendências da falta de saber o que realmente queria para mim. São, por vezes, pedidos sem volta. Como um sonho - o doce, não o pensamento - mas sem o esperado recheio de goiabada. Hoje, assumo o que quero e espero ser atendida. Seja lá no que for. Seja lá como for. Meus sonhos são poucos e estou no caminho de alcançá-los. Que me venha a graça.
E ai me pego vendo tanta gente disperdiçando não seu tempo, mas vidas. Vendo novelas ao invés de descobrir o mundo nas páginas de um bom livro. Nas lágrimas de um bom filme, livros contados em cenas. Ou de uma boa e esperada conversa, os sonhos juntos. Ou da reconfortante e necessária troca de olhares de amor. Como se não tivessem mais sonhos nem vontades, a não ser a de se deixar levar. Não quero isso para mim. Não quero me perder na passagem vã das horas. Quero minha poltrona relaxante, uma manta no colo, um livro nos olhos, um cão a me aquecer os pés. Meus dedos e olhos a passear pelos caminhos sem volta. E tendo como paisagem de descanso o olhar infinito do outro em mim, feito mar. Também lendo, também vivenciando suas horas. Quem sabe um bom livro em francês. Quem sabe de uma nova lição a aprender.
Je, fait fille curieuse, autre fois...
(Eu, menina curiosa, outra vez)

Coragem




"O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”
Guimarães Rosa, in Grande Sertão Veredas

Há muito de verdade neste simples pensamento. Aliás, a força das palavras está, a meu ver, na sua simplicidade. A vida é assim mesmo, parece que acompanha os dias. Um dia alegre, ensolarado, outro emburrado, chuva fina. Um dia corrido feito lebre, outro deslizante e pegajoso feito lesma. Um dia estrangulante, outro para relaxar. Ou vários dias num só. E, para nosso encantamento ou discórdia, um diferente do outro, por mais que pensamos que não. Têm lá sua proximidade, sua diária-mente, seu levanta e deita, mas não são iguais, por mais que façamos força. O sol de hoje não é o mesmo de ontem, nem seu calor, nem sua luz, nem o ar que respiramos. Já é outro. Já é outro o calor da cama, o sabor do café. Outra a pele do filho que ganha beijo. Outro o calor do beijo recebido.
Como já é outro o meu olhar e minha vontade de acertar. Porque, se pararmos para pensar, são tantas as variáveis que nem sequer poderíamos usar da palavra monotonia. Um dia requer sua própria luz e harmonia. Seu próprio calor. Eu não sou mais o eu de ontem, sou ele acrescido do que já cresci (nem que seja em peso rssss). Do que conheci e reconheci em mim e no outro. Dei meus passos, vi minha vida de outro ângulo. Nem a água que bebi era a mesma.
Nada pára, tudo se move em constante mutação.
Guimarães tinha razão: o que nos move é a coragem, o enfrentamento do dia, o enfrentamento de nós mesmos, o pior deles. Do que somos com o que queremos ser. Do que temos e do que sonhamos ter. Como se cada dia fosse uma batalha de uma grande guerra.
Um guerra chamada vida.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Pois é...


Só hoje me deu conta que não escrevia desde quinta. E me peguei pensando o porque de tamanho silêncio. Talvez porque não tivesse nada a dizer, talvez porque tivesse tudo.
A verdade é que fico meio que fora do ar quando estou viajando. Mergulho nas coisas, sejam elas estudos ou trabalho, negócios ou pessoas. E me dei conta de que as horas demoram a passar quando estamos fora do nosso sempre. Como se também as horas prestassem mais atenção ao redor. Como se os minutos sentissem mais o aroma do café, o cheiro dos bolos, o novo perfume no ar. O gosto do novo recheio. O sabor do outro, do inesperado. Ou porque tenho-os, todos, só para mim. Espécie de meditação, diria. Mudar de ares, de ruas e de pisadas. Mudar de figuras e de palavras. Mudar de sotaques. Mudam as cores da cidade que passa. Mudam os olhares que troco ao passar. Muda tudo, tudo novo, mesmo em mim.
E fico pensando no porque cansamos no dia-a-dia, se as horas são as mesmas, se é o mesmo par de dias, mesmo sendo ele único. Deve ser o peso do cotidiano. O peso do aceito e feito. O peso do sempre feito. Da coisa calculada e certa. Do mesmo horário pré-descrito. Da mesa posta e mesmo prato servido. Do mesmo sorriso e da mesma tristeza, tendo a mesmice como companheira, sentada ao meu lado.
Por isso tenho vivido melhor cada dia. Ou tentado, dada a pressa das horas. Um cinema na quarta, um sorvete da hora. Um livro da estante, uma janta mais tarde. Um lanche com a amiga, um café com a comadre. Quem sabe um passeio no meio da tarde. Dá pra se fazer, ou pelo menos tentar. Basta ensacar a culpa ou substituí-la pela vontade. E lembrar que a vida é só uma, e muito tempo para viver do jeito que quero.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Formigas


"Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento".
Adorei essa frase de Clarice Lispector. Tem todo o grau de dramacidade que lhe compete. E muito a dizer, como já era de se esperar. Viver, sempre, ultrapassa qualquer entendimento. Um porque não sabemos nem do agora, que dirá do amanhã. Outro, porque a vida foi feita para isso mesmo, para ser vivida - diria mais, vivenciada - como um pacote. Não se pode viver isso ou aquilo em separado. Não se tem como separar as coisas, as vidas, tantas, em uma só. A mãe não vive em separado da mulher, que tem que conviver com a profissional. E, pior, mesclam-se , mas se espera que uma não atrapalhe a outra, não trave seu caminho, que seja companheira e não concorrente. Esperamos que nossas tantas faces sejam amigas. Que andem de mãos dadas, uma ajudando a outra, aconselhando, avisando, incentivando. Isso, penso, é amor. Isso é se amar.
Bom se fosse assim tão fácil. Quantas e quantas vezes nos vemos nos atropelando a nós mesmas. A mulher que vira mãe e esquece de sê-la. A mãe que deixa de lado seu lado profissional. A profissional que põe sua carreira no topo da fila. O que se espera - principalmente de nós, "multitudo" - é que seja uma vida só. E, de preferência, que tiremos nota dez em cada "matéria" de nosso dia-a-dia. As superdotadas. As superativas. Superiores. E nem sempre - ou nunca - reconhecidas como tal. Talvez por inveja, talvez por medo, ou apenas para que não tomemos consciência de nosso real valor.
Clarice tinha razão. Viver ultrapassa qualquer entendimento. Ser mulher ultrapassa qualquer entendimento. Somos formigas. Estamos sempre nos superando. Sempre fazendo mais, sempre dando conta. Sempre somando tarefas e funções. Espero que sejamos dignas de amor. Espero que demos conta de nos amar. Eu tenho tentado. É fácil, é só enfiar a culpa no saco...

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Brrrr


Frio, muito. E chuva. Nem sei quantos graus faz por aqui, mas com certeza, menos de 10. Já peguei bem menos em Porto Alegre, mas aqui parece mais úmido, e por isso, mais gelado. Ou a chuva na janela que me faz pensar que estou dentro de um copo de gelo. Quem me beberá?
Não que não goste do frio. Mas me sinto envergada, tensa, rígida. Mas tem seu lado A. Frio, a gente vai colocando roupas (pareço uma mulher-cebola de tantas cascas) , toma um café ou chá e tudo aquece. As pessoas ficam mais próximas, os marmanjos pedem colo, o cachorro se aninha nas pernas. A gente fica mais em casa e por isso lê mais, conversa mais, compartilha mais. E vai mais cedo para a cama, para ler , dormir , ou, quem sabe, namorar. A noite mais longa convida ao aconchego do cobertor, com ou sem orelhas. O problema é sair de lá.
Não sou dada a extremos, aos desvarios do tempo. Por isso minha preferência por outonos e primaveras. Calor, só na praia , e bem de frente para o mar. Chega uma hora que não se pode tirar mais nada, a não ser que se queria ser preso por atentado ao pudor. E ai tem o suor, melhor nem falar. A cara avermelhada do sol, mesmo na sombra. E aquela sensação de não estar se respirando a contento. Nem tomando água que chegue. Mas os dias são mais compridos e bem cumpridas as tarefas de bem viver. Tempos de namorar de mãos dadas por ai. De ver o luar. E qualquer lugar serve para namorar. Sem esquecer, de novo, o atentado ao pudor, claro. (risos).
Mas, voltando ao juízo e ao frio de rachar pensamentos, acho que o problema é não estar preparado. Banho de chuveiro elétrico não dá conta ( lembrei de minha mãe queimando álcool no banheiro...). Ambientes sem aquecedor, idem. Nem adianta encher de edredons de verão. A comida já chega gelada à boca. E falta ver o amigo sol, que deve ter ido tirar férias no outro hemisfério. Ele que me encanta e me faz ver que o mundo pode ser melhor. E tem ainda meu lado Madre Tereza, que se pega pensando nas pessoas que nem tem nada disso em casa. Ou nem casa tem. Vira drama. Janete Clair incorporada. Pena que só em pensamento. Se fizesse algo, me sentiria mais aliviada...
Frio, faz muito e não estamos preparados. Nem com tanto café com leite ou sopa de feijão. Você, não sei. Eu não estava. Nem o corpo e nem a alma. Até teclar fica difícil. E tem gente que vai ao sul atrás de neve. Eu preferiria ir ao paraíso. Tomara São Pedro dê uma trégua. Ou vou voltar àquela ideia de hibernar...

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Pelada


Postei uma frase no mural do Facebook que me fez parar para pensar. Saiu dessa cabecinha que anda perdida por aqui, em algum mundo à parte, só meu.
" Não sei se quero que o meu tempo voe ou pare. Na verdade, quero que ele me pertença...".
Pensava no quanto tenho feito coisas que não me agradam. Muitas, nem um pouco. Como se não soubesse meu lugar no mundo, ainda. Ou como se soubesse, mas que ainda não tivesse alcançado meu melhor lugar, meu lugar ao sol, meu mundo laranja. Meus dias tem sido feitos de "aindas", o que me aborrece deveras. Sei o que quero sei onde está, mas os cumprimentos de deveres me impedem.
Difícil chegar a essa altura do campeonato, 46 minutos do primeiro tempo, saber como fazer os gols, driblar tantos outros, mas ser impedida pelo juiz. Minha vontade , muitas vezes, é de ser expulsa de campo. Mas isso seria pura covardia com meus companheiros de jornada, aqueles, que estão ao meu lado, com quem completo um time. O negócio é ir jogando, apoiando quem está a fazer gols, e esperar minha melhor hora de agir. Eu e o goleiro, frente a frente, de pênalti ou de jogada nada ensaiada, tanto faz. O gol é minha meta, nem que seja na prorrogação. E nem precisa ser bonito, não. Basta valer, basta contar no placar.
Mas, voltando ao tema tempo (como fui parar num campo de futebol?), queria ser dona do meu. Uns dias, os chatos, não importa se chuvosos ou ensolarados, a passar bem rápido. Os outros, meus, a passear numa lentidão de ser deixada para trás por qualquer lesma cansada de guerra. E dizem por ai que os dias estão mais curtos. Mas se curto bem os dias, eles se alongam. Nem que seja para ficar debaixo de cobertas...

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Recaída


Assumo publicamente. Voltei a roer unhas. Um retrocesso ao primeiro olhar, mesmo ao meu, me recriminando. Foram anos de atenção para parar. E basta uma recaída e aqui estou eu, entre triste e decepcionada comigo mesma. talvez um pouco mais feia, menos feminina. E nem adianta saber de onde veio tanta vontade. São tantos os motivos, que tanto faz. mas, se quer saber, gosto disso, me dá prazer. O ato me satisfaz. "Deve ser falha na fase oral", dirão os psicólogos de plantão. Deve ser falta de vergonha, dirão outros. É só parar, dirão aqueles que devem ter lá os seus. Já diz o ditado - e ai usam da imaginação e dos trocadilhos: sal nos olhos do outro é colírio.
Que me jogue a primeira pedra - ou o sal no olho - quem não tem vícios. Sim, vícios. Tudo aquilo que não conseguimos deixar de lado, que nos acontece mesmo sem perceber, mesmo após longo tempo de dita abstinência, é, ao meu ver, vício. Tudo aquilo que temos que estar sempre atentos para não cometer, vícios.
Tenho alguns, não sou figurinha simples. Uns , talvez só meus, são bons, como escrever. Escrevo, mesmo que somente em minha mente, mesmo sem o objeto do papel e caneta para materializar. Pequenas ideias , palavras que me dizem muito, ou longos textos, tanto faz. Chego a tremer se não o faço na hora querida. Temo perdê-los pelo caminho da vida. Ou no atropelo por um outro texto que vem logo em seguida.
Ou o vício de sorrir. Sai fácil, sem avisar. Parece não caber dentro de minha boca. Escapa ao menor descuido. E se for momento impróprio (isso existe para tal?), tento até disfarçar, fazendo com que saia com jeito de compaixão. Quando não de sarcasmo. Sai até para mim mesma, muitas vezes pela ideia ou imagem que me passa pela cabeça. Ou pelo feito acolhido. O sonho pensado, a vida bem representada dentro de mim. Muitas vezes me retribuem, sem saber que nem era para eles. Um sorriso direção, a não ser eu mesma. Mas, se deixa o outro feliz, faço de conta que o era. E alguém diria que isso é ruim? Ponho na balança do dia para ver se me alivio. Ver se o saldo dá positivo.
Tenho vícios que não gosto, como o da culpa. Esse me acompanha desde sempre e me vem sem eu nem tê-lo chamado. Por tudo e por nada. Nunca tive crises por não tê-lo, lembro. Parece que fica à espreita esperando o melhor - ou seria o pior? - momento de vir à tona. De me cutucar insistentemente. Tipo um diabinho chato, mosquinha de fruta, que fica me rondando, esperando minha auto-estima (bom se fosse alta-estima...) sucumbir e assinar embaixo. Assumo as que não são minhas, assumo até as que não me cabem mais. Trocaria, fácil, fácil, o vício das culpas pelo das unhas. Roeria até o osso se não sentisse mais esse peso em mim. Unhas eu refaço, recomeço a luta. Sorrio mais e, quem sabe, ninguém nota.