sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Envelheci


Sexta-feira treze. Mês de Agosto. O dia começou "normal", frio e chato, mas agora as nuvens negras - lá fora e em mim - vêm com força. O tempo mudou de rompante , que chega a assustar, cara de fim do mundo. Engraçado, quando era pequena , esse mal humor do céu não me afetava tanto. Talvez seja pelo quanto tenho a fazer, pela agenda conturbada pela indefinição dos dias. Talvez porque seja sexta e eu queria que fosse sábado para não me perturbar com a passagem tosca das horas. Ou pela minha pressa que os dias ruins passem rápido.
Não tenho, hoje, o mesmo olhar de menina, admiradora do tempo, que ficava horas a acompanhar a dança das nuvens, seu agrupamento feito desfile de Setembro. Ou a imaginar a tal "faxina no céu" da qual minha mãe falava. Trovões como caminha de anjos a serem arrastadas, a chuva como os baldes d'água para lavar o piso celestial. Os anjos, pensava eu, também mereciam um lugar limpo e cheiroso para dormir. Imaginava, então, a fileira dupla de caminhas a serem arrumadas depois da chuva. Lençóis brancos com cheiro de flor. Anjinhos descalços a correr e deitar, puxando as cobertas sobre a camisola longa, escondendo os pés. E as fatais risadinhas guardadas sob travesseiros, como fazíamos , tanto, em visita a primos. Ou esperar a chuva passar e correr para pisar nas poças. Fazer rios entre a areia desenhada da praia, levando a chuva até o mar. Quem sabe lançar barcos de folhas e galhos nas sarjetas das ruas enlameadas. Quem sabe provar a água que veio do céu.
Mas hoje não sou a mesma. Nada de anjos ou limpezas no céu. Nuvens negras me lembram atrapalhações ao sair (sou uma péssima usuário de guarda-chuvas, que nem sei porque têm esse nome, se não guardam nada...) , trânsito complicado, roupas que não secam, criaturas histéricas feito formigas doidas pelas ruas. Não tem mais graça ver tais bichinhos correndo para dar conta do serviço. Nem a movimentação atrapalhada das mães a limpar varais. Nem a briga entre as pessoas e seus guarda-nada em dia de vento e chuva. Foi-se com o ralo sol meu espírito juvenil. Acho que vou ficar a espreita, escondida em mim mesma, à espera de dias melhores. Porque amanhã já é sábado, 14, e o mês do cachorro louco já está na metade.

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