terça-feira, 17 de agosto de 2010

Esboço


Tem dias que a gente, por um motivo ou outro, psicológico ou real, sente-se um lixo. Ou um papel amassado e descartado dentro dele. Estou num deles. Não por frescura ou achar que o mundo não me merece, não. Mas porque fico pensando como deixei alguns setores de minha vida chegarem onde chegaram. Porque me deixei levar, porque escolhi esse ou aquele rumo.
Porque me encolhi.
Então li esse pensamento dela, Clarice Lispector, a quem eu, volta e meia, reclamo tanta frustração, tanto negativismo. Tanto musgo sobre a pele de mulher. "Não é que vivo em eterna mutação, com novas adaptações a meu renovado viver e nunca chego ao fim de cada um dos modos de existir. Vivo de esboços não acabados e vacilantes. Mas equilibro-me como posso, entre mim e eu, entre mim e os homens, entre mim e o Deus."
Bem por ai, penso. Talvez esteja ai seu descontentamento, seu jeito Clarice de ser, sua realidade fria e crua. Equilibrista, somos, mas de péssima qualidade. Pesamos tudo, levamos tudo em conta, sem muitas vezes pensarmos em nós, sem lembrarmos que somos, também, pessoas. Vivemos, muitas vezes, do esboço de nós mesmas. De papéis amassados e jogados no lixo mais próximo. De rascunhos rasurados do que sobrou de nós. Poderíamos ser mais - ou pelo menos mais próximo de nós mesmas - mas os caminhos não são sempre de flores. Não são sempre desenhos passados a limpo, nem casinhas coloridas a lápis de cor. E as escolhas ficam marcadas, não saem, nem com a melhor das borrachas. Muitas vezes é preciso começar de novo, lançar mão de um novo papel, para que tenhamos, pelo menos, uma nova chance de fazer de outra forma. E tomar cuidado para não borrar de novo. Ou fazer do borrão, arte, o que seria uma bela saída.
Cá estou eu num dia nublado, mesmo brilhando o sol. Sinto o frio da acusação indevida, da vida mal vivida. Da aceitação do nada. Do desenhar por desenhar. Tomara tenha chance de um novo papel, de uma nova caixa de lápis novinha em folha, de novas ideias - ou as minhas, esquecidas pelo caminho. Quem sabe tenha vontade, de novo, de desenhar uma casa colorida , paredes laranja, cortinas esvoaçantes, crianças no jardim, cachorros tomando sol, e eu debruçada à janela a ver meu novo tempo a passar.

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