quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Formigas


"Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento".
Adorei essa frase de Clarice Lispector. Tem todo o grau de dramacidade que lhe compete. E muito a dizer, como já era de se esperar. Viver, sempre, ultrapassa qualquer entendimento. Um porque não sabemos nem do agora, que dirá do amanhã. Outro, porque a vida foi feita para isso mesmo, para ser vivida - diria mais, vivenciada - como um pacote. Não se pode viver isso ou aquilo em separado. Não se tem como separar as coisas, as vidas, tantas, em uma só. A mãe não vive em separado da mulher, que tem que conviver com a profissional. E, pior, mesclam-se , mas se espera que uma não atrapalhe a outra, não trave seu caminho, que seja companheira e não concorrente. Esperamos que nossas tantas faces sejam amigas. Que andem de mãos dadas, uma ajudando a outra, aconselhando, avisando, incentivando. Isso, penso, é amor. Isso é se amar.
Bom se fosse assim tão fácil. Quantas e quantas vezes nos vemos nos atropelando a nós mesmas. A mulher que vira mãe e esquece de sê-la. A mãe que deixa de lado seu lado profissional. A profissional que põe sua carreira no topo da fila. O que se espera - principalmente de nós, "multitudo" - é que seja uma vida só. E, de preferência, que tiremos nota dez em cada "matéria" de nosso dia-a-dia. As superdotadas. As superativas. Superiores. E nem sempre - ou nunca - reconhecidas como tal. Talvez por inveja, talvez por medo, ou apenas para que não tomemos consciência de nosso real valor.
Clarice tinha razão. Viver ultrapassa qualquer entendimento. Ser mulher ultrapassa qualquer entendimento. Somos formigas. Estamos sempre nos superando. Sempre fazendo mais, sempre dando conta. Sempre somando tarefas e funções. Espero que sejamos dignas de amor. Espero que demos conta de nos amar. Eu tenho tentado. É fácil, é só enfiar a culpa no saco...

Nenhum comentário:

Postar um comentário