quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Baú


"A vantagem de ter péssima memória é divertir-se muitas vezes com as mesmas coisas boas como se fosse a primeira vez".

Ri sozinha em cor amarelada dessa frase de Friedrich Nietzsche. Pelo óbvio do simples - ou o simples do óbvio? - que nos tira o fôlego. E pelo andar da carruagem que peguei de carona.
A memória, para mim, é uma faca de dois gumes: um que corta e sangra, outro que apenas nos espelha e nos faz seguir em frente. Por vezes, muitas, queremos esquecer as coisas não tão boas que vivemos e lá está a memória a nos acordar certa manhã, chata e insistentemente, quando estamos enfiados no edredom de bons sonhos, feito mãe em tempos de escola. Põe na mesa do dia um prato frio que não nos apetece - gosmento, difícil de engolir. É nestas horas que eu queria perdê-las pelo caminho, sem nem olhar para trás. Tipo rastro de pão de João e Maria. Mas elas voltam, volta e meia, a me atucanar. Infâmes, impassíveis, dominadoras. Trazem na mala minhas rugas.
A outra memória, boa, gosto de ter. Brilham meus olhos. Como se a vida tivesse sido passada a limpo e colocasse na mesa nosso prato preferido, morno e sadio, a nos contentar. Aquele prato de infância, que nossa mãe fazia no dia de nosso aniversário. Ou o prato novo, bela surpresa, que ficasse marcado em nós por ela mesma. Sinônimo de boas lembranças, feito presente inesperado, bem dado. Essa quero em minha vida. Dessa quero me abastecer -e não só vê-la em páginas amareladas. Quero escrevê-la em folhas brancas e perfumadas. Não quero que virem peça de meu museu, flashbacks de me ser. Quero-as, todas, em meu baú de pirata, minhas riquezas a me munir de esperanças de vivê-las cada dia mais. Inclusive hoje. E amanhã. E depois, e depois, e depois, até que o saldo dê positivo e o meu livro termine com a frase:
" e viveram felizes para sempre".

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