quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Dois




No fim da noite, depois de um dia exaustivo, dividido em mil pedaços (bom se fosse de bolo) , e uma tempestade de verão (bom se me refrescasse), noturna, sobre a minha alma, tive um daqueles insigths (detesto expressões americanizadas, mas não me vem outra) que me fizeram parar para pensar. Lembrava das palavras Comer, Rezar e Amar. Esse é o titulo do meu livro do momento, entre tantos de estudo ( ou era, até começar a ler o novo, Comprometida, presenteado pela vida, ambos da mesma autora, Elizabeth Gilbert). Deve ser porque está em alta, na boca de muitos, pelo lançamento do filme de mesmo nome
( colocar a Julia Roberts como protagonista foi um golpe e tanto...). Deve ser a ânsia de me esconder no escuro e viver a aventura da outra, assim, de longe. E ver no que dá.
E fiquei a pensar o que seria mais difícil: comer, rezar ou amar? Uns diriam que era Comer. Não no sentido bom da coisa, dos prazeres bem recebidos, mas pelas tantas culpas ardidas feito pimenta. Pelos tantos nãos. Nas tantas formas erradas que como - comemos? - pelas faltas, pelas carências, pelas trocas mal feitas de carinho por pão. Pelo que queremos e não podemos. Ou melhor dizer, pelo que não queremos. Comentei com uma amiga que reclamava que estava engordando e não conseguia parar de comer (soa familiar?), que nossa fome era outra. Ou seria melhor falar no plural? Fomes. Não do doce que entra pela boca, mas do doce que entra pelos olhos e pelo ouvido. Do real doce que nos regala. Nossa fome é de amor. Nossa fome é de amar. Passa longe da subtração incerta do ingerido pelo gasto. Não é mensurável, pelo menos até que a balança nos dê o resultado real.
Outros diriam que é Rezar. Acho tão simples, se não vermos como obrigação ou medo. Como imposição. Não passa de uma conversa íntima e verdadeira com a pessoa mais importante de nossa vida: nós mesmos. Rezar nos expõe, e isso é bom, sempre. Põe-nos em silêncio e de frente com o que somos, nosso medos e anseios. E isso pode ser difícil. Mas, passada a porta do entregar-se, alívio. Passa-nos a limpo. Lava a alma. Durmo em paz.
Ah, mas o Amar... sentimento tão falado, cantado, poetizado, filosofado, declamado,escrito. Mas tão difícil de se reconhecer, de se aceitar, de se acolher. Porque pede dois. Não se ama sozinho. Não existe amor a um, a não ser o amor incondicional de mãe, que tudo pode. O amor a dois pede parceria. Pede diálogo com as palavras e com os gestos. Diálogo com os olhos. Diálogo com a pele. Pede um par. Amar é uma dança. Um dueto. Não uma imitação feito fantoche. Nem mímica. Nem feito os sombras que nos acompanham nas ruas. Cada um faz sua parte da melhor forma para que tudo dê certo. Para se tornar um como soma de dois. E isso pede que superemos a matemática, esqueçamos a lógica. Pede treino. Pede comprometimento. Interesse. Dedicação. Mas não impede que pisemos no pé do outro ou desafiamos a voz, ou saiamos do rítmo, por mais que estejamos treinados. Por mais que estejamos conscientes. Amar pede cuidado diário. Mas não impede que na correria dos dias esqueçamos de regar. Porque somos humanos, não personagens com seus gestos calculados e falas comedidas. Somos humanos e trazemos conosco o que somos, o de bom e do de mal. Carregamos o DNA que nos define. Empunhamos os traumas, as experiências vividas, boas ou más, nossas ou de outros. As experiências lidas e ouvidas, das páginas de livros ou da conversa da esquina. Do passado mal vivido, que deveria ter sido esquecido, mas ainda vivo dentro da gente. E nem sempre a desculpa dos hormônios - ou de um dia ruim - parece pegar. Porque amar pede verdade. Pede abertura. pede transparência. Ver-se no espelho do outro. E isso nem sempre satisfaz.
Amar pede aceitação. Pede desprendimento. Acolhimento. Peito aberto. De cada um como é. De cada um como quer ser. Do que o outro quer de nós, ou seja, tudo. Como quem abre a porta da alma para um estranho. E faz de nós sua morada.
Posso ter mil (des)culpas prontas na ponta da língua por comer demais. Ou errado. Porque, no fundo, me dá prazer. Outras mil (de)culpas incutidas por rezar de menos. Ou errado. Porque, no fundo, acalma. Mas o que dizer ao amor? Digo que é alimento. Meia laranja, queijo com goiabada. Destes que matam muitas fomes e trazem tantas outras. Digo que é uma praga (por vezes da brava, destas que pega!). E , mesmo assim, rezamos tanto, de joelho no milho, para que dê certo. Amar não tem desculpas. Nem culpas. Amar é amar. Sala escura, labirinto secreto, temporal a descoberto. Dá medo, adrenalina, suor e palpitação,
mas adoramos entrar.
Dizem que para Goethe "é impossível compreender alguma coisa sem amar". Eu digo o contrário: é impossível amar sem compreender. Eu ao outro, o outro a mim.Um par.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Sonhando


Tem dia que rende. Já cumpri com minhas tarefas de mãe - beijo na testa e afago para acordar, café quente na mesa, conselho para que leve casaco, beijo de despedida), já ri muito com a vida, que tem me feito outra,  já me olhei no espelho e me disse que estava tudo bem. Já abracei meu cachorro, Ship, um daschund para lá de carente, que vem toda manhã me pedir carinho. Postei meu blog  do trabalho, li e respondi meus recados no Facebook, li e respondi os tantos e-mails. E faço planos, muitos, para o dia: pretendo caminhar ainda pela manhã, assim turbino ainda mais meu cérebro e animo meus músculos, retesados pela chuva; terminar as tarefas pendentes ( muitas, dada a minha, digamos, diversificação de interesses); terminar de ler meus livros, os de estudo, pelo menos. E cá estou eu , feliz, a desabafar minha alegria por aqui. Animada. Feliz. Tanto,que até assusta. E pensando: nem são nove horas. E ainda é quarta-feira.
Vai ser otimista assim lá em casa! E todo dia!
Fico pensando nos mil porquês da vida. Porque não pode ser sempre assim, um acordar esperançoso, cheio de energia boa. Porque tem dias que a gente se levanta se achando pequena, fraca, feia, sem forças, ao invés de linda, forte, poderosa e "modesta" como hoje (risos). Ontem mesmo fiz as amigas rirem  enquanto me descrevia como muitas em uma só: mulher, menina, mãe, filha, esposa, namorada, arquiteta, jornalista, sonhando em ser escritora . Amante da vida. Agora também sou (tento ser) produtora, um sonho antigo que está se tornando realidade ( e, pelo jeito, levo jeito). Menina jeitosa essa! (mais risos!)
Risos. Talvez eles tenham a resposta.Talvez sejam eles a reposta. Talvez não tenhamos temos uma vida perfeita, não como sonhamos. Mas deve ser porque sonhamos com pressa e, quem sabe, os sonhos tem outro tempo para acontecer. Talvez, para serem "perfeitos", precisem ser sonhados aos poucos, lentamente, escritos letra por letra, palavra por palavra, caprichando na letra, até preenchermos uma frase, depois um parágrafo, quem sabe uma página,. Quiçá um capítulo da vida que queremos ter. Uma vida que dará um belo "romance" ( o nome já diz tudo...), se formos persistentes, se o sonho sonhado valer a pena ser vivido. E um livro, imagino, só se termina de fazer sentando ali todo dia, repensando, remoendo, organizando as ideias, escrevendo e apagando, montando as estratégias, em como a mocinha pode ficar com o mocinho, tendo pelo  caminho tantos vilões, tantas pedras...  
Nesse livro, o de minha vida, meu lado menina , hora sapeca, hora romântica, um pouco Poliana, se senta ao meu lado da escritora ainda em formação. Escrevo minha vida feito um conto de fada. Ilustro bem colorido quando posso.Rasgo páginas, guardo outras, em constante reflexão. Feito muito sonhos. E sempre esperando, como todos, que tenha um final feliz.
Por isso gosto da frase de Fernando Sabino, de quem dizem ser essa frase:
" Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo."
Agora, peço licença. O sol está lá fora me chamando para passear...

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Descalça




"Somos todos colecionadores de experiências. Temos medo que a vida passe ao largo".
Gilles Lipovetsky
Li  essa frase, meio entre a curiosidade e a constatação da verdade, em uma entrevista do sociólogo francês para o jornal Folha. Fala do consumo emocional, o luxo da experiência. Poderia ser bom se víssemos ai uma forma de fugir do luxo carrasco, da obrigação do ter porque todo mundo tem. Daquela coisa de querer ser um igual.  Mas apenas passamos da quantidade para a qualidade. Mas não seria essa mais uma outra forma de escravidão? As bolas de ferro em cara dourada.
Entre tantas teorias e novos conceitos, entre muitos "hiperisso", "hiperaquilo", fala de um novo homem (generalizando, claro...)  que é dono de seu mundo, de suas escolhas, mas que " está submetido às regras da globalização econômica de eficácia, de produtividade, juventude, consumo", o que nos carregaria de ansiedade, doença moderna tratada com compras. 
Compras, doce palavra. Concordo com ele. Consumimos por ansiedade, feito calmante. Alegro-me com a sandália nova, que me faz mais bonita (nem que seja por um momento). Ou pelo creme que me promete duvidosos milagres. Como coisas que não queria porque me fazem bem (até ai tudo bem, mas já tem virado piada...) . E deixo de comer tantas outras com medo de  pesar na consciência ( na balança, nem se fala!).
Mas a maturidade  e a descoberta de mim ( aos poucos, para que não me assuste com o que tenho encontrado) tem operado belos milagres com o bisturi generoso do amor. Tenho sentido cada dia mais prazer nas coisas mais simples. Tratamento de saúde nas gargalhadas bem dadas, nos gemidos largados quando da prova de algum simples prato (hum...um bom tutuzinho de feijão...), da boa compra que não feriu nem meu gosto, nem meu bolso. Do deitar no sofá e me emocionar com a leitura de um livro, ou com o olhar "pidão" de algum cão. No ver a vida de  forma mais leve, de não levar tão a sério o rompante do momento (ele, por vezes, o mais mal humorado). Ou a doce satisfação de dormir uma noite toda, quem sabe ao som da chuva embalando meu ninar. Pode ser o  andar de mãos dadas com a vida. Um abraço bem dado. O beijo não esperado. Um "eu me importo" que faz toda a diferença.Quem sabe...
Mas, voltando ao pensador em questão, finaliza a entrevista falando ser o problema " um senso comum que nos diz que se não tivermos vivido tal ou tal experiência, teremos perdido nossa vida. É uma luta contra o tédio, uma busca incansável e viciada pela novidade, pela fuga da rotina".
Rotina? Desculpas ao guru da vez. Eu fujo dela. Mas sem pressa. Feito menina, a pé e descalça...

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Confronto

Estava pensando na palavra menos,e descobri com ela que tenho muito a aprender. E na contraposição com o mais, vejo muita força, para um e para outro. Um reforço na boa parceria, no contraste, no contrário, feito preto e branco. Vertical e horizontal. Homem e mulher.
Quer ver? Coisas práticas que, se trabalharmos vira hábito. Falar menos, por exemplo, e ouvir mais - esse preciso aprender , e urgente! Comer menos e mastigar mais, difícil,dada a habitualidade da coisa, a pressa da vida, mesmo sem tê-la. Coisas práticas que, se trabalharmos, viram hábito. Menos pressa, mais empenho. Menos confusão, mais direcionamento. E outras nem tão práticas, pois tem que vir de dentro: implicar menos, compreender mais, chave de tanta paz. Menos erros, mais acertos. Seria perfeito.
E o contrário, por vezes tão necessário: dormir mais, menos olho preso na tela. Ler mais, menos desprezo pela palavra do outro. Fazer mais, esperar menos. Mais real, menos virtual. Amar mais, odiar menos - pessoas e coisas. Confiar mais, desconfiar menos, peso bom da hora vazia.
Só não dá para ser os dois juntos, com o mesmo peso. O ser mais ou menos. Ser morno. Sem gosto. Sem cor. Mesmice. Chatice. Crendice. A balança equilibrada, o tal de Tao, a grande harmonia chinesa, nem sempre me atrai. Falta algo. Um rasgo, uma costura, uma faísca de vida. Temperatura.
Na comparação dos dois, escolha, nem sempre fácil. Na confrontação dos dois, força, de um e de outro. No contraste, fagulha e fogo. Nisso se descobre que tudo tem seu valor, e seu lado positivo e negativo. Vai conforme pomos na vida. Vai conforme compomos a música do dia. E que seja bela, boa de ouvir.

domingo, 26 de setembro de 2010

Inteira

Tempo estranho em Porto Alegre. Destes com cara de praia. Hora sol, quente, preguiçando mais ainda a  minha preguiça. Hora frio, cara de chuva, aumentando a vontade de fazer nada. Eu estou num dia de cão. Melhor gato, que não dá bola para os outros e faz de sua vida, sua. Dia sem eira, quem dirá beira, feito o tempo. Cara de primavera, sempre indecisa. Já li, já comi, já dormi. Já li de novo, já comi de novo, sonhei no sofá. Nos livros aprendo sobre o amor - e o casamento em sua particularidade. Sobre o amor dos grandes mestres(*) , que não viviam só de pensamentos e passagens. Gênios que marcaram o tempo, como Sócrates e Marx. Como Shakespeare e Balzac. Eles, surpreendo-me, também amaram. E com a leveza do autor, que cita trechos de músicas brasileiras a cada início de nova aventura, como forma de suavizar o tema...
Mas é na minha autora predileta (**) (de hoje, amanhã não sei) as mil facetas desse compromisso com o outro. Talvez porque ela seja mulher, talvez por histórias tão iguais ( na verdade ou no sonho). Da lenda de Zeus, que dividiu os homens em dois por descaso aos deuses. Dizem que éramos dois em um, duas fêmeas, ou dois machos ou a ambos, e assim completos. Ri da figura descrita: quatro braços, quatro pernas, duas cabeças. E pensei no lado pratico de cada coisa. Uma cabeça trabalharia, outra só se deliciaria com o pensar. Uma mão para escrever e as outras para afagar, arrumar, fazer. As quatro pernas divididas em gastar energia ou colocá-las para o ar. Se é verdade, eu era feliz e não sabia. Mas a desobediência trouxe o corte, bem ao meio, e se perdeu no mundo a nossa outra metade. Aquela, a metade da laranja, a alma gêmea, que procuramos até o fim de nossos dias. E, para desagrado das românticas como eu, fica claro a dificuldade do encontrar. Do reencontro comigo mesma. E que as "almas gêmeas" encontradas não passariam de outras almas perdidas a procura delas mesmas. E seria o amor um simples conforto. Um aceitar de que outra pessoa nos complete. Do sonho de sermos duas uma só.
Descobri-me mais me divertindo com a história, que decepcionada. Mais uma de mim nem eu aguentaria, que dirá o mundo! Prefiro ir me levando como levo o dia: se esfriar, cobro-me. Se esquentar, abro a janela e convido o vento a entrar. Se der sono, durmo. Se o amor me chamar, atendo. Vivo o momento que me vem, e sempre na espreita de me achar nele. De me encaixar. De me ver em seu espelho. De me reconhecer nele. Fica mais fácil entender o outro que me é igual. Mais fácil pensar em como devo agir, já que, no fundo, ele sou eu e me conheço bem  (apesar das gavetas trancadas). Sei como me tratar. Sei como me viver. Sei bem do que o meu amor é capaz.
Agora, peço licença. Vou acordar a minha outra parte, com um beijo na testa:  já é hora de levantar.

(*) Sobre o Amor, de Leandro Konder.
(**) Elizabeth Gilbert, autora de "Comer, Rezar, Amar "e "Comprometida, uma história de amor".

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Calada


Li no jornal que a primavera começou às 00h09 do dia 23 de setembro, portanto, hoje. Serão 89, 85 dias nessa estação. Achei graça da precisão dos minutos e dos dias picados, a la relógio suíço, já que a estação tem para mim mais cara de alma do que de dados.
Descobri, também, que o horário tem mais a ver com a astronomia que meteorologia; enfim, um dado exotérico. Os astros a determinam. Exatamente neste horário, os dois hemisférios da Terra receberão a mesma quantidade de energia do sol. A partir dai, o sul começará a receber mais energia que o norte. E assim será até 21 de dezembro, às precisas 21h38, quando chegaremos ao máximo de energia vinda do sol, enquanto que o hemisfério norte receberá a menor quantidade dela. Será o fim da primavera e o começo do verão no Brasil. E , curioso, fascinante saber, diria, somente hoje, todas as cidades do planeta terão 12 horas claras e 12 horas de penumbra. Enfim, a igualdade no mundo - pelo menos em termos de sombra e luz. E pelo menos por um dia, dos outros tantos de desigualdade. E uma transição, uma forma amena de separar o frio do inverno do calor do verão. A esperada seca de um da esperada chuvarada do outro. Apesar de não ser sempre assim, dado ao mal humor do mundo.
Vejo que a chamada "estação da flores" é muito mais que isso. Muito mais do que árvores floridas, jardins coloridos, vitrines divertidas. Muito mais que o romantismo reinante. Representa, agora, para mim, igualdade, fraternidade e , quem dera liberdade, para combinar com outras lutas, bem mais motivadoras e sólidas. E uma estação confusa, já que um dia pode ter a cara do verão, outro do inverno, ou todos em um, quem sabe. Pode amanhecer frio e esquentar ao longo do dia. Ou fazer surpresas nem sempre agradáveis. Seria mais uma forma de se fazer importante? Ou , talvez por ingenuidade, de tentar agradar a todos, diria.
É, a vida dá lições para todos os lados - e assuntos - que se olhe. Talvez eu seja como a primavera, essa "prima" que descobri ser bem mais do que passagem, muito mais do que fachada. Sou um pouco de tudo e tudo ao mesmo tempo. E por vezes, muitas, nada, vácuo. Talvez devesse não me deixar levar tão facilmente pelo vento frio da manhã, nem reclamar do furor do calor do sol a pino. Talvez devesse viver mais o que sou, ser mais eu mesma, quem sabe assim enfrentaria melhor os dias. A Joyce que teima em se esconder por detrás da vida devia mais era mostrar a cara. Ou, talvez, concordar com Machado de Assis e devesse me calar. No meu silêncio, muito.
"Há coisas que melhor se dizem calando".

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Esqueci


Estou sem graça. Esqueci, ontem, o dia da árvore, 21 de Setembro. Deveria ser feriado nacional, melhor, internacional. Bem melhor do que os feriados inventados, de santos ou políticos. Como acho, que dia das crianças deveria ser, mas me acalmo ao lembrar que a santa padroeira deu um jeito nisso.
Freiando os desvios de pensamento, volto ao tema. Longe de conversas sobre ecologia, sobre a qualidade do ar e a permeabilidade do solo, tudo isso que sabemos faz fingimos que não, quero falar das mil e uma utilidades - ou maravilhas - que sinto, que vejo, ali, a olho nu -mas não desprovido de poesia. Adoro a sombra, alívio, frescor. Adoro o cheio das flores, folhas , as cores e duas nuâncias de guache, e até o musgo que se agarra em suas pernas. Esperto ele. Pega a seiva , pega a sombra e fica ali, numa convivência pacífica que invejo (... tenho usado muito essa palavra, inveja...dava até um texto...mas é da boa, confesso!). Gosto da forma despojada que recebem a todos, crianças, animais, pássaros, insetos. Admiro a forma como aceitam o alívio dos cães. Gosto do como recebem a vida, hora desprovidas de tudo, hora cheias de verde e cor. Despem-se sem medo no inverno, se assim tiver que ser, vestem-se de folhas e flor quando é hora de ser, tudo a seu tempo.
Mas, sem magoar ninguém, pois amo todas, minhas preferidas ( ou seriam preferidos? Não quero ofender...) são os Ipês. Gosto da forma como se despem das folhas, como se fossem coisas que não servem mais, anunciando as mudanças. Põem-se como mortos aos olhos desavisados, quietos, pensativos, como deveríamos estar a cada sinal de quero mais. Como se à espera do que vem por lá, do que a vida traz. E quando menos se espera, renascem do nada. Quando , enfim, notamos, dentro de nossa capacidade humana e infeliz de abstrair o que está ao nosso lado, estão ali, frondosos, imponentes, cabeleira colorida , colorpower da vida, profusão em amarelos, brancos e rosas. Enchem nosso coração da esperança da mudança E as calçadas de cor, tecendo tapetes, daqueles que tenho até pena de pisar. No espetáculo, lição, mas só para quem está atento.
Quanta coisa nos ensinam. Despojar-se de tudo antes das mudanças, feito preparação de monge. Revisar caminhos trilhados, tirando deles o que tinham de bom. Deixar cair as mágoas, velhices trancadas, jogá-las no chão. Pelar-se do que não nos cabe mais. Desapegar-se, mesmo das coisas mais queridas, marcas da vida, que já levamos no coração. E assim aguentar o silêncio do inverno que há entre uma passagem e outra, uma estação e a próxima, sem reclamar. Recolhimento, renascimento, pensamento. Reflexão. E depois, sim, na hora certa, as novas folhas. Uma a uma se assim for, sem pressa. E depois delas as tão sonhadas e esperadas flores. Nossas melhores cores, nosso melhor perfume, para quem mereça admirar. E vivenciar.
É, esqueci do dia das árvores. Mas isso é convenção dos homens. Uma culpa a menos para carregar.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Dominada


Certa vez uma livraria lançou um plástico, ops, adesivo, destes para carros, que dizia: "quem lê, viaja ". Eu adorei e adotei um no meu, o primeiro, minha primeira honra de ser proprietária de algo, e em minha vida. Levo as poucas e sábias palavras em meu coração.
E vejo nessa frase muita verdade. Viajo nos textos que leio, sejam eles de tantos livros específicos, como os que estou lendo para minha aulas de pós, quanto de romances devorados em horas só minhas, em revistas que recebo, ou que leio enquanto espero ser atendida aqui e ali - ou no banheiro, confesso, melhor lugar para se ler, já que ninguém ousa atrapalhar.
Viajo nas palavras escritas, quem me conhece sabe. Vem dai meu encanto por livros, já tantas vezes confessado aqui. Sinto-me bem em lugares com muitos. Como se respirá-los me fizesse melhor. E me envolvo com cada um, apaixonada, desde a capa, o cheiro, o toque, o folhear desprovido de outro interesse que não seja minha eterna curiosidade , resquício de infância. Não me faço de rogada, gosto de um tudo, de história verdadeira à história bem contada.
Viajo também nas palavras ditas, nos diálogos bem feitos de filmes e da vida e, mas raramente, novelas e episódios de algum programa de TV. E tenho aprendido, por vezes à duras penas
(preciso de um livro que me diga de onde vêm essas expressões...), a dialogar, discutir, palpitar, coisa que pouco fiz pelo caminho da vida, por medo da discórdia , por puritanismo, ou por me achar aquém. Aceitar parecia mais fácil.
Li hoje sobre a palavra amador/a, já que do alto de minha petulância me sinto como tal em relação ao que escrevo. Amadora. Até porque para se dizer profissional das palavras, ah, seria um insulto aos mestres, donos delas. Aqueles que as pegam e fazem de gato e sapato (de novo, cadê meu livro de expressões?) com tanta precisão. São "nerudas" e "garcias", "clarices" e "raqueis". São "pessoas".
Amadora, linda palavra, pejorativa ao primeiro olhar. Bonita e forte, quando se sabe. Nunca tinha parado para olhá-la com carinho, com olhos curiosos da primeira vez (a sempre tão assustadoramente encantadora primeira vez...). Vem do latim amator, ou seja, amante. Assim me vejo, amante das palavras. Mais que isso, viciada, na escrita e na falada. No jogo delas. Em como trocam de sentido tendo as mesmas letras, o mesmo som. Em como mudam de caminho dependendo de a quem dão a mão.
Amante, linda palavra. Lembrei de um texto enviado por uma grande amiga que nos dizia que deveríamos, todos, ter um amante. Alguém com que nos importássemos e que se fizesse recíproco. Alguém que nos fizesse pulsar como se o corpo todo fosse um grande coração. Que nos fizesse vibrar diante da vida. Pessoas fazem isso comigo. Hora me sacodem, até me assustam, hora me acolhem. Jogam comigo. Como as palavras. As simples e as metidas. Quem me dera ter o poder de Clarice, a Lispector, e poder dizer: "A palavra é o meu domínio sobre o mundo."
Eu, assumo, sou dominada por elas...

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Atenta


Caminhar faz bem, diz o médico, o terapeuta, e até o psiquiatra. Acredito. Mexe com músculos, todos, até o cérebro. Faz nossa pele renovar, enche nosso corpo de oxigênio, acelera o batimento cardíaco, renova as células, todas. Mas essas vantagens se pode conseguir em outro lugar, mais prazeiroso, enfim...um banho de saúde, dizem.
Mas, um simples caminhar diz mais do que se pode pensar, basta prestar atenção. Nosso jeito de dar os passos, um após o outro, diz muito, de nós e do dia. Se estou triste, desenxabida com a vida, como se costumava dizer, meu andar é pesado, quase um fardo. Então, aproveito o caminho para deixar para trás o peso dos pensamentos. E que os leve, feito os passarinhos de João e Maria, e sem achar a direção da volta. Se irritada, com algo ou alguém, meu pisar é marcha, compassada e firme, de sete de setembro, ou daquelas militar. Meu coturno bate forte na terra como se quisesse teimar. Mandar no mundo. Ou fazer tremer quem merecer. O ar sai com força, longe do tímido puxar, como se colocasse tudo para fora. Andar é limpeza. Faxina, das bravas, dependendo da hora e do que me fez zangar. Lembra os tempos que morava sozinha e fazia da limpeza ferramenta de acalmar, um santo remédio.
Limpar a casa limpa a cabeça, pode testar.
Ah, mas se feliz, caminho como se passeasse. Como ao sol à beira mar, a água batendo nos pés. Não olho relógio, nem marco passos. Piso leve, quase saltitante, bailarina, menina. Olhos atentos ou nem tanto. Observo o passar como quem vê um filme bom, como quem vê passarinho verde, como dizem por ai. Eu o vejo colorido, vivo, alegre. Levo como companhia meu melhor sorriso, distraído, solto, como se andasse ao lado da pessoa amada - se não do meu lado, dentro de mim. Esse andar é outro, um repouso no meu mundo. Um andar calmo, de mãos atadas, que ainda tenho que aprender. Um andar leve, levando a vida da melhor forma. Esse é o andar que quero para mim. Com paradas para risos descontraídos, para beijos roubados na esquina, para provar o melhor que ele tem para me dar.
É... meu andar fala muito de mim. Muito mais do que eu possa imaginar...

domingo, 19 de setembro de 2010

Domingo


Domingo. Adoro caminhar cedo pela cidade deserta de pessoas e coisas. Passam por mim apenas os que pensam da mesma forma. Ou seguem a caminho do sermão do dia. E os caminhantes forçados, acompanhados de seus faceiros cães. Quem sabe um ou outro retardatário da noite, ainda a cata de um café ou procurando o caminho de casa. O silêncio só é cortado por carros baixos com som alto (muitos valem mais que o próprio, mais que o dono...). Resquício da surdez anestésica provocada pela noite ou reforço do mal de querer ser popular (que muitos confundem com "chamar a atenção"). E de alguns candidatos políticos sem noção, já que a moda neste área, gostemos ou não, são os jingles de mal gosto. Fred Mercury teria se matado se ouvisse seu clássico em versão de campanha.
Eu me divirto. Caminho sem pressa e sem hora. Passeio combinando com o dia, que me parece todo meu. O relógio só me avisa quando exagerei na dose e é hora de voltar. Posso encostar sem culpa meu nariz nas vitrines e fazer um balanço de a quantas anda o gosto exagerado da estação. Os estampados fortes me assustam, mas a delicadeza de outros me fascina. Mas vejo, enfim, cores, muitas, e isso em alegra. Não sou mulher de cinzas. Paraliso na frente de uma de sapatos e perco noção do tempo. Meu fetiche. Deve ser porque cabem facilmente em meu pé, mesmo quando a balança dá sinal de alerta. Pés estão sempre bem. Sapatos sempre servem. Adoro os sexies, mas compro os confortáveis - aos meus pés e ao meu bolso, casquinha feito a dona. Fico imaginando de onde vêm tantos números, sempre altos feito os saltos, se vamos nos desfazer deles quando o tempo - e a moda - mudar. Muito estresse, penso, para pouco prazer. Mais vale um que não me lembre que o tenho nos pés, nem na conta do cartão.
Mas essa virada de época me empolga, feito passadas longas. Fico animada para rever o que tenho, repaginar minha veste. A moda, se bem pensarmos, só pede uma revisada, uma ou outra peça que nos faz sentir que estamos in. O resto é pura criatividade.
Mas cá estou eu de volta, sã e salva de compras e outros perigos do dia. Agora é ver o que faço do resto do meu. Não será um dia laranja, como amo, mas pretendo colori-lo da melhor forma, feito as novas /velhas cores da estação.
Dizem que o Criador descansou. Eu quero mais é bater perna!

sábado, 18 de setembro de 2010

Passagem


Senti , hoje, que estamos sempre esperando. Na segunda, esperamos que chegue a sexta e traga o fim de semana. No café da manhã, já esperamos para ver o que vem no almoço. Quiçá na janta. No Inverno, esperamos impacientemente pela Primavera. No verão, pelo refresco do Inverno.
Se chove, esperamos que o céu se vista logo de azul. Se nublado, que o sol reapareça com seu amarelo. Se seca, aguardamos ansiosos pelo cheiro da terra molhada. Se enchente, que o tempo tenha misericórdia e seque as cobertas e as lágrimas. Ao acordar, já pensamos na noite de repouso. E ao deitar, já estamos pensando no amanhecer. Se é hoje, nosso pensamento está no amanhã. E no agora, estamos no depois. Nem bem abrimos o presente do dia e já estamos esperando mais da vida.
Na vida não é diferente. Quando bebês, esperam que tenhamos saúde. E nós, que atendam nossos desejos. Quando engatinhamos, esperam que fiquemos de pé. Quando de pé, esperam que não andemos para longe. Como esperam que aprendamos tudo, mas que não corramos muitos riscos. Quando meninas, esperamos, ansiosas, a mocidade e seus sapatos de salto. E nela, ansiamos pela vida de adulto. Ah... e então adultos, esperamos que a vida passe devagar, levando para bem longe suas marcas e seu fim.
Esperamos muito, de nós e dos outros. Esperamos ser e que nos façam felizes. A mãe espera que seu filho também seja, e dessa espera se faz feliz. Que seja alguém (engraçado isso, todo mundo é alguém...). Esperamos conquistar - mundo e pessoas - e que nos conquistem. E , enfim, esperamos fazer a diferença no mundo.
Descubro que o verbo traz em si várias interpretações. Esperar, no sentido do tempo. E esperar, de expectativa, de sonhos, que pomos e põem em nós. De esperança (viria de "esperar feito criança?") de que nossa breve passagem pelo mundo não seja tão breve.
Nem tão somente passagem.
E ainda tem os ditados: esperançosas como "quem espera sempre alcança". Ou que vem como aviso: “Quem espera por sapatos de defunto toda vida, anda descalço". E expressões, como "esperar sentada". E espero, sinceramente, que tenham chegado ao fim do texto. E que me tenha feito entender em mais essa viagem pelo mundo das palavras e dos pensamentos, por vezes tropeçantes. Até porque " a esperança é a última que morre"...
Só espero que ela me conte depois!

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Pedido



Perfeccionismo é um terreno perigoso. Estamos sempre - ou pensamos estar, melhor dizer - aquém de nossas possíveis possibilidades (seriam possíveis+habilidades?). De nossa procura de ser uma boa menina. A mesma que nos pediram para ser tantas e tantas vezes...
Perfeccionismo. Coisa de mulher. Assim como culpas. Outro dia abriram meus olhos claros para as culpas, feito raio de sol inesperado. A vontade era de deixá-los confortavelmente fechados, mas diante de tamanho deslumbre, abri. À visão de quem vê se fora, achamo-nos as todas poderosas, as donas do mundo, seres únicos, e por isso as malditas e mal pensadas culpas. As pesadas culpas, tão chatas e irritantes, feito malas sem alça e de rodinha quebrada. Deve ser isso que descobriram os grandes pensadores, imagino, fechados em suas saletas a pensar, enquanto alguma mulher lhes preparava a comida, ou aquecia sua cama. Se me sinto, direta ou indiretamente, culpada de tudo o que acontece à minha volta, é porque, dizem eles, na minha falsa ou verdadeira grandeza interna e por vezes inconsciente, que só eu teria o poder de resolver as coisas. De fazê-las acontecer. Sem o eu, eles nada seriam.
Ou não. Aqui com meu zíper - na ausência de botões-, imagino ser coisa de mulher. Coisa de fêmea (ou alguém já viu no mundo animal um pai rodado de suas crias?). Diria mais: culpa do mundo masculino ou, como diria meu pai, e acho eu ser tudo a mesma coisa, culpa da sociedade, essa feita por homens, legislada por leis masculinas, e acatada secularmente por nós. Dão ao nosso mundo de bombril as mil e uma utilidades que só uma mulher pode ter, "deve" ter. Empurram para nós todas as facetas do dia, desde sempre, desde as famigeradas brincadeiras de casinha, enquanto aos meninos restavam a vida a céu - e portão - aberto. Ou as divertidas corridas de carrinho. A eles, aventura. A nós, tarefas. Alimentávamos e cuidávamos de nosso "bebês" como se fossem filhos. Resolvíamos conflitos familiares em escala menor, mas não menos dramática, quando ainda não tínhamos tamanho para cuidar dos irmãos. Por isso me divirto ao ver o lançamento de novas bonecas, mais preocupadas com roupas e baladas que com maridos e filhos. As novas meninas, algumas, espertas, vivem de aventuras.
Outras continuam a empurrar carrinhos.
Sobre as culpas, ando me policiando. Já tenho as minhas, tantas, grandes ou pequenas, como aquela bela fatia de torta de morango a qual não resisti. Ou deixar para amanhã o que poderia ter feito hoje, afastando-me dos ditados populares. Se o filho fica gripado, deve ter feito algo para tal. Se o cachorro adoece, coisas da natureza. Se alguém pede dinheiro na rua, deve ter procurado por isso. Se a casa está suja, melhor reclamar com a empregada. Se deixei algo a "descontento", é porque não me interessava. Que não cabem em minha vida todas as crianças abandonadas. Nem o pensar que posso resolver os problemas dos outros, se mal resolvo os meus. O melhor que posso fazer é estar aqui, é apoiar, é dar o meu melhor. É respeitar. Aconselhar. Amar. Cuidar à distância, sem redomas. E deixar que a vida de cada um siga seu percurso, desviando dos redemoinhos e pedras. Feito folha que cai no rio.
Mas, voltando as culpas, anuncio: troco de papel. Espero que me cuidem. Espero que me abracem na hora da tempestade. Que me escutem. Que me dêem colo e aconchego. Que me alimentem de comida e vida. Que me levem para as aventuras do dia. Que me vejam menina. Que me façam rir. Ou até chorar, mas só se for de emoção...

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Só hoje




Hoje postei uma frase simples, mas que dizia tudo: "falta muito para a Primavera? Estou cansada do meu Inverno...".
Ando desanimada, preguiçosa. Na verdade, sem vontade de assumir coisas que não quero. Simples admitir, difícil resolver. Ontem , enquanto caminhava, minha outra dose de terapia além da escrita, lembrei de uma lição da aula de resistência dos materiais, ainda nos dias livres da faculdade. Sobre o efeito das marés em pilares de piers. Louca? Não, não estou. A natureza está ai para nos dar lições, as mais variadas. E do pensamento que foi longe, surgiu a frase do dia, esse dia que acordou enferrujado , indefinido, nem bem sol nem bem chuva, como eu: "minha fraqueza vem da minha inconstância".
Aprendi com meu professor que a fraqueza dos pilares mergulhados na água acontecia bem na linha da maré, naquela linha tênue onde a água sobe e desce, anima e desanima, deixando o pilar meio a descampado, ao deus dará (ou seria melhor não dará?). As partes totalmente submersas e as totalmente acima da linha d'agua sobreviveriam melhor que esta , frágil, que fica "no balanço das ondas". O contrário do que dizem dos homens, aos quais se dá valor pelos percalços que passam na vida. Como se a constância da vida os deixasse fracos. Ou, pelo menos, despreparados. No homem, dizem, o vai de vem da maré fortalece. Lemos isso, do levante diante de problemas, em filmes e livros. Em palestrantes empolgados em contar seus cases. Os "neofênix" dos dias. Os novos heróis urbanos. Lendas?
Longe de querer ser heroína de mim, só queria que minha mente fosse mais constante, mais firme. Mais mandona. E é, mas só nos assuntos que me interessam. Como se as "outras" coisas pudessem ser deixadas na gaveta até que me interessasse por elas. Como se o tempo parasse à espera de meu bel prazer, sentado na sala de espera de minha boa vontade. Ou melhor, que saísse sozinho por ai a se resolver por conta e risco, deixando meu ser liberto para um criativo pensar. Minha inconstância, deixo claro, não é de pensamentos: estes que me povoam a mente 24/7. E sim, de ações. Um dia faço pouco. Outro, corro feito louca para dar conta. De prêmio, a sensação do alívio, por vezes de força. Do vencer as lutas contra mim mesma.
As Joyces em conflito, a procura do equilíbrio.
Mas hoje aceito meu dia. Estou pilar de pier. Minha fraqueza está mesmo na linha do perigo. No vai e vem das coisas, e principalmente de mim. É nesse momento que me sinto frágil. Nesse enfrentamento de mim mesma que me paro...e presto atenção para não me afogar. Não me expor demais à tempestade da vez. Ou ao perfeccionismo imposto por mim mesma. A guerreira abaixa a arma, mas não a guarda.
Mas, como toda mulher, dou-me ao luxo vazio de dizer que é o já tão debatido - e aceito - efeito da TPM . Culpo o dia. Ou a falta de minha vitamina C. É mais divertido.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Ainda


Ainda discorrendo sobre casamentos - ou me tratando, já que escrevo para não pagar terapia - admito que, pelo menos nesse campo, sou romântica. Gosto da ideia de ser pedida em "casamento" , de colocar uma aliança em meu dedo que corresponda a ele. Não como anel, nó, e sim laço, como disse sabiamente o poeta Quintana, que via laços como abraços, acolhimento, não como nós , que mais servem para sufocar. E principalmente de saber que alguém me quer ao seu lado, não como posse, mas como companheira. Ao lado, bem escrito, não atrás nem na frente. Nem empurrando, nem puxando, passo igual. Isso lembra outra palavra que gosto: igualdade. E outro gesto que amo: mãos dadas.
O problema, sinto, vem da rotina. Não exatamente dela, mas da nossa falta de atenção no dia-a-dia. Do acostumar-se. Até a mais pura arte se torna banal se deixamos nosso olhar interno acostumar-se com ela. Até o mais tenro sabor perde a graça, mesmo o do beijo. Na automatização das coisas, desinteresse. No ver o outro não como destaque e importância, não como peça indispensável, e sim como pano de fundo. Do se deixar levar. Do esquecer o quanto as palavras nos fazem bem - ou mal (lembram-me facas, que podem nos ajudar ou ferir). Relacionar-se , bem diz o nome, é abrir o livro da vida e ler a mesma coisa, escrever a quatro mãos, sempre igual , mas sempre diferente. E isso pede o olhar do amor. O olhar atento de criança. O meu olhar, como sou, não o vedado pelo tempo, pelo simples passar das horas. O sentir o coração palpitar diferente quando o outro chega. Melhor: sentir o coração palpitar na eminência do encontro. E de ver no outro o que ele é. Como ele é. Como ele está só pelo olhar ou pela voz. E compartilhar com ele o que temos de melhor. Amar é somar, nunca dividir, a não ser a fatia do bolo, o último pedaço de doce. Ou subtrair, a não ser tristezas. Piegas? O amor é. Piegas, brega, cafona, o que for. O que precisar ser, o que quiser ser. Porque pede que sejamos simples. Que sejamos abertos. Que sejamos nós. Honestos. Puros.
Um exemplo? Beijo meu filho todo dia com um sentimento maior. Olho-o como se fosse a primeira vez, como se fosse uma. Como se fosse a última. E é disso que estou falando. E isso não pede treinamento e sim, emoção. Atenção. E desprendimento. Sim, porque para deixar que o outro tenha essa importância em mim, deixo-me um pouco de lado. Abro espaço. Arredo egos. Faço dele algo maior. Ou pelo menos de mesmo peso e medida que eu - o que, por vezes, é muito difícil. Desprender-se de nós é difícil. Pode ser mais fácil em termos materiais, deixar para trás coisas que se gosta, mas não quando se conjuga espontâneamente o verbo amar, o verbo querer.
Gosto das descrições do que se espera do outro. São palavras bonitas, melhor ainda se bem vividas: companheirismo - ser companheiro de alguém é estar do lado dele, torcendo, mesmo que só em pensamento, "na alegria e na tristeza"; cumplicidade, que vem de cúmplice, penso, o que pede uma integração para lá de perfeita, um sonhar junto. Pede aceitação, outra palavra forte, do outro como ele é, mas não de forma dura, não imposta, nem fantasiada e fraca, e sim, respeitada. E alegria, o que me embala todo dia, meu combustível de sobrevivência. Como se um belo sorriso operasse milagres. Quem sabe um terno olhar.
Piegas? O amor é. Piegas, brega, o que for. Porque pede que sejamos simples. Que sejamos abertos. Que sejamos verdadeiros. Que sejamos transparentes. Que nos entreguemos por completo, confiantes, como quem fecha os olhos e vai. E mais tanta coisa que parece fácil, mas não é. Ler sobre ele, escrever sobre ele pode ser fácil. Pode ser eterno.
E vou ao extremo de meu romantismo, com gotas de ingenuidade: "até que a morte nos separe"...

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Longo pensar


Lia o livro recém lançado pela Elizabeth Gilbert -a mesma de Comer, Rezar , Amar, minha "bíblia" desde sempre, ao som da chuva gaúcha e do silêncio providencial de domingo. Eu, em meu mundo reparador. Nada mais propício. O tema é o que há. Casamento. Um livro daqueles para ler aos poucos, degustando, parando, como se a pressa queimasse a língua ou deixasse passar em branco o sabor.
Para quem não leu o primeiro livro, lá ela recém se divorciara, depois de meses se remoendo da culpa de "não ter dado certo". E, com a desculpa maravilhosa de ser jornalista, partiu pelo mundo numa viagem sem volta - em termos físicos, psíquicos, espirituais e amorosos. Passou pela Itália e se encantou com os italianos e sabores. Depois pela Índia (ou algo assim, não importa o lugar), onde aprendeu a arte de rezar, de esperar, da paciência - ou pelo menos tentou. E, por fim, conheceu um brasileiro (só podia ...), com quem aprendeu sobre o amor, sobre o sexo e todas as maravilhosas e também decepções deste setor.
Seu segundo livro, com seu título - Comprometida - e capa (um enorme coração vermelho ) com cara de romance, o tema é o casamento em sí. Um tema de amor e ódio, diria eu, se não levasse em conta o lado sempre otimista da autora (deve ser por isso que gosto. Não deixa gosto amargo na boca após a devora...) . Mas a face fácil de conto de fadas termina por ai. O livro, a grosso modo ou onde li, descreve o tempo que ficou "fugindo" do serviço americano por ser seu "marido" um estrangeiro. Deixo claro que até então ela o via como amante, namorado, qualuer coisa que não a lembrasse de aventuras passadas, e em vão. Deram a ela - ali, ainda na sala do aerporto - a única forma de manter o romance: casar. Isso no sentido mais burocrático possível: papéis. Documentado. Testemunhado. Aceito pela lei. "Nos conformes", para deixar mais leve a coisa. Fácil, não fosse o pacto já feito entre os amantes em não fazê-lo, dado o trauma de cada um, cada um com seu ex (isso em faz lembrar mil piadinhas que vou deixar de lado...). As alianças ( que deveria vir de aliado) até então vividas, digamos assim, não foram lá muito proveitosas, criando ranços difíceis de se engolir, gosmentos, com prazo de validade vencido. Ou melhor, e usando o lado em que me especializo, piso desgastado pelo tempo. Pode-se até limpar, esfregar de joelhos, encerar, tapar com tapetes, mas o anúncio do tempo passado está lá, a gente aceitando ou não. Feito tatoos, onde o significado fica na pele, mesmo que modificado.
Ou nosso passar pela vida, cravado lá dentro, enquanto o viver se aninha no peito.
Enfim, voltando ao texto, antes que me perca em devaneios in-úteis ou caia na picardia, ela inicia sua aventura conhecendo outras formas de se ver o enlace. As diversas culturas e suas formas de ver o causo. Proteção para alguns, sobrevivência para outros, salvação ou purgatório. O nada e o tudo. E descreve um sem fim de significados através de livros sagrados do que é ser o homem e a mulher numa relação. Do que é a relação em si. O ato. Símbolismo e con-vivência. Poder. Possuir. Como as leis que fizeram do casamento, papel. Como se ele precisasse de garantia. De testemunha. De lei, como todas as coisas chatas da vida. Sobre a divisão de bens (que deveria ser uma soma, mas...), sejam eles terras ou filhos. Como se fossemos, esposas e frutos, terra e casas, tudo uma coisa só ( eu falei "coisa"?). Onde as mulheres deixam para trás seu nome e viram esposa (vem de posse?) de alguém, assegurada pelo nome do "dono". Antigamente traziam junto seu dote (sem ele, nada feito!). Ou a igreja, que pôs nele o pecado para se valer do seu poder, fechando as portas do paraíso nos céus se fugíssemos do inferno na terra. E tantas e tantas covardias, assumidas ou não, muitas vistas comop normais, aceitáveis, "dentro da lei", como vemos até hoje, com mulheres sendo apedrejadas por não mais amar. Ou não amar a quem pertencem. Um não querer pertencer. Um amar mais próximo do ódio que dele mesmo.
Mas Gilberto faz disso comédia. Ou tenta, usando com facilidade o seu falar, como boa contadora de histórias que é, verdadeiras ou inventadas. Escreve leve, o qual invejo (da boa, da boa!), de tal forma que me fez - e me faz - parar para pensar. Refletir - e ver nisso meu próprio caminhar. Brigamos por tão pouco - mais por posições que credos. Mais por "teres" do que saberes. Lutamos por coisa rasa, esquecendo que o que nos torna profundos são os sentimentos. Lutas fracas. Ciúmes toscos. Inseguranças tolas. Ficamos cultivando as ervas daninhas, esquecendo de cuidar das flores. Porque toda união tem seu valor, seja ele qual for. Nem que seja para nos fazer crescer. E usa disso das mais diversas formas.
Mas, assumo. O amor tem lá seus riscos. Mas o que seria de nós sem ele? De que alimentaríamos a alma, se não fosse de paixões de toda ordem? Que vivamos, então, o que nos é dado viver. Se for luta, que seja nobre. Se for amor, que seja por inteiro. Nem que seja enquanto dure, como disse um dia o poeta. E com toda razão. Preocupamo-nos com um futuro da qual nem sabemos, mas é dele que se faz nosso movimento no mundo. Só não devíamos esquecer de abrir - e curtir - nosso presente, tão sonhado.
Faço uma pausa, três pontos, pois meus pensamentos voaram tão alto que nem eu mesma alcanço. Medrosa, retiro-me do texto. Fecho a página. Abro outra, em branco. Curiosa, procuro a palavra "casal" nos dicionários digitais e acho "casa pequena". Ou seja, "patrimônio", que vem de pai, homem, e lembra os "teres"( e "matrimônio" vem de mãe, mullher, bem melhor e leve, fácil de dizer. ...). E, assim, entendo melhor as diferenças. Procuro "esposa" e acho "posse". Mas também acho mulher e até amor. Bom se fosse, mesmo, tudo a mesma coisa...

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Tempo


Segunda é sempre um dia chato. Não sei se por fama ou fato. Ou se apreendemos a lição do gato Garfield. E com essa chuvinha mole, minha vontade é cair na cama e esperar a terça.
Acho que isso acontece quando o final de semana foi muito proveitoso. É como se quiséssemos prolongar a sensação de bem estar. Tive um daqueles, perfeito. Calmo, cada tempo para cada coisa. E muito dele para mim. Ou porque a semana bate na porta de força insistente, mesmo sem ter sido convidada. Ela tem pressa; eu não.
Mas o que fazer se o tempo não pára? Já faço meus planos. Nada de grandes rompantes. Arrumar a passagem das horas, vivê-las da melhor forma, tendo a saudade como companheira. Quem sabe fazer da segunda, domingo. Quem sabe pinta uma pipoca. Ou um picolé. Quem dera um livro. Muito do que tive, quem sabe abraço e beijo. Muito do que tive, boa conversa, riso e sossego.
Acho que a gente se debate nuito e morre na praia. Como se o tempo pudesse ser dominado. Um desespero sem causa. Saimos do faço o que quero para o que querem que eu faça no passar da noite. saimos do tudo para o nada. Deve ser por isso que o primeiro dia dito útil da semana não nos parece assim tão útil, mas se impõe como tal. Abre na nossa mesa uma agenda fora do normal. E, como se fossemos Ferraris, tentamos partir do zero ao cem em segundos, basta acordar. Deve ser dai o ranso. Deve vir dai a antipatia do dia. Coitado, que nem tem culpa de nada. A culpa é dos homens e sua imposição de jornada.
Segunda é sempre um dia chato, mas vou vivê-lo da melhor forma. Preenchê-lo com abraços, rever meus passos dados, ver o que tenho ou não de fazer. Ver o que posso ou não deixar para amanhã, desde que não seja a vontade de estar feliz. E aprender que o tempo pode ser companheiro. Que podemos fazer as pazes, quando ele parar quando mereço, correr quando tenho pressa. Que o tempo pode estar do meu lado. Que o tempo pode também ser amado. Assim como eu. Mas não custa rezar:


Oração ao Tempo
(Caetano Veloso)
És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo tempo tempo tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo tempo tempo tempo...
Compositor de destinos
Tambor de todos os rítmos
Tempo tempo tempo tempo
Entro num acordo contigo
Tempo tempo tempo tempo...
Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo tempo tempo tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo tempo tempo tempo...
Que sejas ainda mais vivo
No som do meu estribilho
Tempo tempo tempo tempo
Ouve bem o que te digo
Tempo tempo tempo tempo...
Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo tempo tempo tempo
Quando o tempo for propício
Tempo tempo tempo tempo...
De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definido
Tempo tempo tempo tempo
E eu espalhe benefícios
Tempo tempo tempo tempo...
O que usaremos prá isso
Fica guardado em sigilo
Tempo tempo tempo tempo
Apenas contigo e comigo
Tempo tempo tempo tempo...
E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo tempo tempo tempo
Não serei nem terás sido
Tempo tempo tempo tempo...
Ainda assim acredito
Ser possível reunirmo-nos
Tempo tempo tempo tempo
Num outro nível de vínculo
Tempo tempo tempo tempo...
Portanto peço-te aquilo
E te ofereço elogios
Tempo tempo tempo tempo
Nas rimas do meu estilo
Tempo tempo tempo tempo...

domingo, 12 de setembro de 2010

Parada


Domingo. Quando eu era pequena - menor, melhor dizer - passávamos, invariavelmente, o domingo fora da casa. Meu pai "azedava" se ficasse em casa algum final de semana. E acho que meu cérebro codificou isso.

Quando éramos crianças ficava fácil. Já na sexta ou no máximo ao sábado bem cedo, meus pais arrumavam as tralhas e partíamos para alguma aventura, praia , campo ou viagem. Minha mãe sem querer, meu pai sem esperar. Ela, com razão, não gostava muito. Sobrava para seus olhos azuis administrar os levas, comida, roupa de cama e de banho, além de nossas roupas. E éramos sete ao todo - cinco, mais o pai e ela, dá para imaginar porque ela não era tão apaixonada pela ideia. Muitas vezes meu pai chegava em casa já na sexta e queria tudo pronto, colocar no porta-mala do carro e pegar estrada. A chegada era chata: retirar tudo, colocar as coisas nos devidos lugares, ajeitar - ou até limpar - as casas. Um olho nos mandos da mãe, outro na rua, e o olhos da rua sempre mais interessantes. Enfim, isso feito, partíamos em alguma aventura, mato ou água. Eu gostava de tudo: das camas com cheiro de armário, os acolchoados aquecidos ao sol, das refeições enjambradas. Das descobertas de novas casas com meu pai, de juntar conchas para minha mãe inventar alguma coisa. De ler Seleções na hora do silêncio obrigatório. Lembro muito das sopas de legumes com milho em espiga. E dos "caputinos" de minha mãe, uma mistura pronta de leite Ninho, Nescafé e Nescau, quando nem se falava em merchandising e adicionava-se água bem quente. As bolachas eram intragáveis, com gosto de ontem ou da lata velha, mas a fome as tornava deliciosas. Como delicioso o sono depois de travessuras plantadas e banhos não muito quentes. Isso é fato: nunca tive banhos bons em minha infância, a não ser os invejáveis banhos de bacia de alumínio, a mãe atenta. Na praia era quente demais ; no sítio, morno, na bacia. Deve vir dai meu fascínio por "banhos de hotel". Não gostava das voltas. Recolher lençóis, guardar cobertores, juntar brinquedos, fechar a casa. E as intermináveis viagens de volta, onde nossa impaciência e cansaço não combinavam com o jogo no rádio do carro.

Então as crianças cresceram. Vieram os bailes, depois as discotecas. E meu pai tendo que esperar a boa vontade para se mandar. Ou aceitar o ficar. Nunca aceitou a desobediência de olhos abertos (talvez por desejá-la cega...). A matriarca gostava, folga para ela. Ele, virava bicho, e minha tarefa de " xodó" ainda grudada em casa era acalmar com um café da manhã servido na cama ou passeios de mãos dadas (dai meu encanto por caminhadas?). Bem ou mal, fazia meu papel de calmante, apelido que minha mãe me dá até hoje. Toda vez que a coisa estava para estourar, lá ia a boa menina a tapar a vida com panos mornos. Quem sabe beijos. Ou retiradas estratégicas. Então, eu cresci, fui em busca de algo. Talvez tenham me trocado pela solidão. Talvez por nada. Perdi meu papel, a não ser quando testava meus dons de camomila nas voltas para casa, cada vez mais escassas.

Domingo. E eu aqui, longe de casa. E eu aqui, sozinha, depois de dois dias de aula e falas. O afastar-me de tudo - e o livro com cheiro de novo - me faz companhia, já que o sol deixou o passeio para amanhã. Aprendi a gostar de domingo assim, feito de nada. Sem agenda ou aventura forçada. Feito recompensa para quem já fez muito. Aproveito que minha criança cresceu e seus programas são outros, agora divididos. Não mais passeios de bicicleta, nem banhos desavisados no rio. Quem sabe cinema. Mas isso eu resolvo quando voltar para casa. Em silêncio. O motorista do ônibus, para minha sorte, não gosta de futebol...

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Ah, guria!


Sexta. E com um tempero a mais. Estou aportada em terras amigas. Hoje tem novidade por aqui, novas aulas e novo professor, e só isso já me enche de gás. E o calor do meu querido porto , sempre alegre, que bem me recebe cada vez que chego aqui. Até o sol veio me visitar.
Gosto do nome da cidade. Porto Alegre. Tem a cara dela. Independente do rio ser rio ou lago, gosto. Tem gosto de família. Recebe bem, feito parente que não se vê já faz um tempo. Como se minhas andanças por aqui na infância estivessem próximas, como se eu tivesse deixado rastros, feito João e Maria. Como se o tempo tivesse juntado o ontem e o hoje. Quem sabe por isso a cidade tem, para mim, jeito de passeio, cheiro de piquenique. Ando pelas ruas como se fossem as mesmas, como se fosse o de sempre. Cumprimento as pessoas como se fossem amigas de longa data. Como meu cacetinho(*) com a maior desenvoltura, enquanto rio das coisas diferentes, das palavras engraçadas, das falas cantadas, feito poema.
Sinto uma diferença enorme entre o povo catarinense e o gaúcho. A simpatia é a mesma, a fala fácil, o sorriso largo, mas aqui tem um ar de seriedade das coisas. Deve ser resquício de um povo lutador, guerreiro, que enfrentou quem quer que fosse para manter sua dignidade, para sobreviver em suas terras. Não é a toa que respira política. Mas da verdadeira, não da imposta ou inventada, deixemos claro. Um lado sério que entra no conversar cotidiano , e por isso flui.
Sem amarras, nem cuidados. Fala-se de peito aberto, e sem medo.
Ah, e ainda tem as piadinhas. As de gaúcho, sempre macho, segurando sua prenda (*). E dos porquês de amarem tanto Santa Catarina.Uns dizem que suas melhores praias ficam no estado amigo. E nos louvam, no máximo da chacota, porque os separamos " do resto no país". Deve ser o espírito separatista que vem do berço. Traz à tona o orgulho que tem. O orgulho do melhor pôr do sol e do céu de negrinho (*). E de assistí-lo levando no ombro a mateira (*), sempre pronta.
Ah...cacetinho é como se chama o pãozinho por aqui; prenda é adama que acompanha o gaúcho, de preferência os dois pilchados (vestidos a caráter); negrinho é como chamam o brigadeiro - não o militar, nem o céu dele , mas o docinho (...desculpas pelo trocadinho). Mateira é uma espécie de bolsa que leva os apetrechos para o chimarrão. Palavras - e costumes - que já estão me mim. Deve ser o espírito de cataúcha ( sou catarina, filha de gaúchos) aflorando em mim...
Mas, bah, trilegal...Vai um mate , guria?

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Pois é...


Feriados, acho, mexem com a cabeça das pessoas. Antes dele, pensamos só nele. Durante, pensamos em nada. Depois dele, pensamos no pensar de antes e do durante, tudo de uma vez só. Hoje, tudo tinha fila. Nas ruas - agravadas pela chuva e pelos perdidos de plantão - nas lotéricas, nos bancos, nas caixas mágicas de onde sai - ou entra - dinheiro, na entrada do supermercado, nos caixas do mesmo. No feriado já estava tudo assim, conturbado, como se fazer compras fizesse parte do ritual do dia - o que me fez desistir de minhas compras semanais, que, deixo claro, detesto fazer, mesmo sem gente por perto. E, pelo que me lembre, o mundo já estava assim antes mesmo do final de semana prolongado. O medo da fome mata de ansiedade. E dá uma impaciência do cão.
O dia da independência se foi, e com ele a liberdade dos dias calmos. Da cidade deserta de pessoas e pressas. Podíasse dançar no meio da rua se quisesse. A moça da lotérica estava lá, ao dispor de ninguém. Como para niguém estava a moça da fila de carros. Um passar lento das horas, como se fossem o dobro. Quem sabe o relógio também foi passear?
E hoje, the day after, um sem fim de notas, contas, códigos de barra das quais se rezou para que funcionassem. Se pensarmos que se pode pagar contas das mais criativas formas - agendadas, via internet, nos caixas eletrônicos, nos bancos, em muitas lojas conveniadas e sei lá mais de que jeito, pode-se pensar nos porques. Ou, como gosto de brincar desde sempre: "seria o fim do mundo?" Será que o mundo vai acabar e não me avisaram? E se vai , enfim, acabar como prometido, porque pagar as contas? Para poder entrar no céu? Leva-se as contas na vida após a vida? Lá tem SPC? Mas, nem vem... a promessa de final dos tempos era para 2012? Será que adiantaram para nos pegar de calças curtas - melhor dizendo,- geladeiras vazias? Desisto de entender e sigo sem parar. Nem de andar, nem de pensar. Tocando o barco, mesmo sem maré.
Peguei-me rindo de minhas divagações "nostradamusianas", minhas dúvidas espiritualistas, minhas notas de credulidade expostas a boca aberta, esparramadas entre os dentes, no sorriso irônico. Feito conversa de mim comigo mesma. Meu anjo e meu demônio rindo de si mesmos. E das tantas m...que me passam pela cachola. Um infinito delas. Processador automático de mim mesma. E do mundo.
É, tenho que concordar, brasileiro deixa tudo para a última hora do último dia. Tentar o gol nos 47 minutos do segundo tempo, quando o juiz olha mais para o relógio do que para o jogo, já pensando na janta que o espera. Ou, alegre como é, talvez se divirta em esperar. Quem sabe notando os outros, conversando com o da frente, reclamando do alta de preços ou da baixa do dólar. Quem sabe deixando a vida passar para ver se o fim do mundo espera um pouco mais. Quem sabe o fim do mundo está ali, nessa fila, e vai se atrasar. Ou enrolando, sem pressa para voltar para o sofá.
Sento no banco do carro e respiro fundo. É hora de voltar para casa.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Entregue


Recebi, li, gostei:

“Sempre permaneça aventureiro. Por nenhum momento se esqueça de que a vida pertence aos que investigam. Ela não pertence ao estático; ela pertence ao que flui. Nunca se torne um reservatório, sempre permaneça um rio.”
Osho

Nunca se torne um reservatório. Essa frase reverberou em minha cabeça enquanto lutava, já sem paciência , para pegar no sono. De novo uma insônia criativa, do não querer deixar-se abandonar no mundo de algodão. Mas ai vem a parte mãe que diz que tenho que estar inteira no outro dia. E a parte profissional que cutuca e lembra que cedo tenho compromisso. Resolvo tentar dormir e levantar cedo.
Nunca se torne um reservatório. Água parada. Poço de restos. Se quiser ser reservatório, que o seja de coisas boas, não escuras, obscuras. Nem moradia de monstros que só fazem assustar. Apesar do lodo ser alimento de muitos, não me basta. Ando nela e cada vez mais a imagem de mim mesma fica turva. Prefiro as águas límpidas e transparentes, onde sei que estou pisando. Ver meus pés sob ela. Ver onde quero pisar.
Nunca se torne um reservatório. Sempre permaneça um rio. Penso nas verdades contidas ai. Até porque não tem melhor coisa que um rio. A água a fluir, a vida a fluir, o canto hipnotizante que mais parece de sereias saídas de filmes infantis. O frescor nas margens. A vida vivida incessantemente. Intensamente, mas sem pressa - a não ser que uma chuva torrencial inunde a nascente, como se para nos acordar. Um passar fazendo sua parte, tentando alcançar o que pode, deixando para trás o que não quer nos acompanhar. Um passar até encontrar meu mar. Um mar gigante, mas de ondas macias, espumas brancas de confiança. Um mar que em espera de braços abertos, como se dissesse: "Vem!"
E eu me jogando nele quase sem nem pensar. Minha entrega. Meu porto. Meu ponto final.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Recheio




Reclamaram que estou com textos muito tristes. Reconheço e aceito a reclamação. E me envergonho, se querem saber. Sempre fui elogiada pelo meu espírito de dar a volta por cima, como disse o recado da amiga. De rir feito menina. De por nestas páginas meu lado leve, eu como sou. Não sendo aquela que se deixa levar, não levando tão a sério o que me machuca, ou incomoda. Peguei-me pensando. Quando será que deixei de lado meu lado otimista? Não sei, mas dado ao fato das pessoas terem notado, revejo meus passo. E minha escrita.
Está certo. A vida não está como eu desejava, não de todo. Mas, para quem está? Não dá para se dar ao luxo de esquecer as partes boas. Se o bolo que vem não agrada de todo, faço como sempre fiz, apesar da lição paterna de não deixar nada no prato: como o que me é de agrado. O que é de regalo, como diziam os antigos. Acho no meio do todo as partes que me cabem, e deixo, sem dó, o "resto" no prato. Quem quiser que se sirva! E se tiver que engolir algo que me entala na garganta, sem problemas: basta um belo gole dágua. Ou do que tenho de melhor!
Ah, e meus recheios bons são tantos. Tão fortes. Plenos de Amor. Repletos de paixão pela vida. E tão importantes para mim. São meus, tão deliciosamente colocados, que nem deveria sentir o gosto amargo dos recheios impostos. Esse final de semana grudada no filho foi uma boa dose - e porque não dizer overdose - de meu lado bom. Muita brincadeira, muito carinho, muita conversa, muita gargalhada. Muita Vida. Um pouco do que prezo e tenho. Vejo nele um pouco - ou muito? - de mim. Passei para ele, e disso posso me gabar - meu lado leve de ser. E mais que isso: traz, por vezes, um lado nada esperado de um adolescente. Um jeito nada infantil de ser, enquanto ajuda o avô com dificuldades , enquanto escuta as histórias da avó criativa. Conversa de igual para igual com quem quer que seja. Acha graça de tudo porque aprendeu a respeitar as diferenças. Aprendeu a respeitar as pessoas como são. E os momentos como são. E vivê-los da melhor forma. Todos. Por vezes, parece que aprendeu mais do que eu...
É...Ensinei a ele muita coisa boa e acho que agora está na hora de relembrar com ele. Ou relembrar quem sou. A ser mais compreensiva, inclusive comigo mesma. A me aceitar como sou, sem ver apenas o outro lado, se as coisas não vão como queria. A fazer da vida uma grande brincadeira - não daquelas estúpidas, mas das que nos encantam. Que nos fazem crescer. Que nos iluminam. Trazer à tona meu espírito mais leve, minha criança interior. Meu brilho nos olhos. Meu mar brincalhão de verão. Meu melhor sorriso, meu som mais gostoso da gargalhada que sai sem nem sentir. Minha melhor forma de ver a vida. De vivê-la. Porque sei que disso depende o sorriso de muita gente, inclusive o meu. Quase um alívio. De me saberem bem. De saberem o quanto me são imprescindíveis. De saberem o quanto os amo, até mais do que eu. Que são meu sol. Meu prumo. Colo. Tempero. Doce. Recheio da vida. Mesmo que nem sempre os diga.


segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Parada


Dia calmo. Estou ainda em terras amenas. Depois de um final de semana revendo familiares e minha terra natal, hoje volto. Mais calma, abastecida do que sou. E do que quero. E de força, minha e da força que vem quando nos sentimos apoiados.
Meu irmão perguntou se eu pretendia voltar a viver em terras dantes vividas. Respondi que não. Sai de casa ainda bem cedo, antes da chamada maioridade. E, bem ou mal, acostumei-me a isso. Não foi uma mudança aos poucos. Foi do tipo "faz tua mala e vai". Enfrentei um mundo bem diferente do casa-escola ao qual estava acostumada, e gostei.Nessas fases de vida meio complicada, isso ajuda e muito. Sei bem que me viro como der, desde que deixe para trás orgulhosos podres.
A gente vai se moldando, tentando acertar caminhos, uns certos, outros nem tantos. Mas nada substitui o morar fora de casa. Mas não me refiro ao morar fora de casa de muitos, quando os pais dão todo conforto do mundo, mais até do que tínhamos no chamado lar. Morei sempre com outras pessoas, muitas meninas, tentei sobreviver, mental e fisicamente. Mais que faltas materiais, as quais me acostumei, a sensação de ser "sozinha no mundo", dá outra dimensão ao que somos, ao que pensamos da vida. Posso não estar numa fase muito boa - e sei bem onde apertam minhas bolas do pé - mas sei que sou capaz, desde que não em esconda, outra vez, sob a proteção de outrem. Proteção demais, pedida ou imposta, atrasa a mente, deixa a gente lerda. Fica uma sensação de se deixar levar, não de viver. Talvez eu esteja errada, mas esse foi o caminho que me deram. Malinha e nova vida, desconhecida. malinha cheia de sonhos e de comprometimento com tudo que tinham me ensinado. E só isso já me dava um bom texto. Não tive - e nem tenho - grandes apoios materiais. E o espiritual que me veio era pouco, mas o mínimo para que sinta , até hoje, que tenho para onde ir, se a vida me fizer tropeçar de novo. E isso já é um bom conforto, não acham?
Segunda meio perdida, véspera de um feriado tolo. Uma semana curta e muita coisa para fazer. Mal chego de uma viagem e pego outra, para a qual pretendo fazer uma transição saudável, meu oásis de me ser. Feriado no meio do nada é assim. Para os neuróticos, correria. Para mim, que tenho aprendido a viver com o que tenho sem me descabelar por pouco, produtiva. Mas no meu passo. Hoje ainda em marcha lenta. Caminhada na praça de mãos dadas com o filho, vendo as novidades por detrás dos vidros. Almoço sem pressa na casa da mãe. Amanhã, pôr a casa em dia - armários e vida. Mas amanhã é amanhã. Aproveito meu presente e abro-o de bom grado. Quem sabe o conteúdo vem perfumado. Quem sabe a paisagem vem bonita, na passagem de mais um dia pela vida.

domingo, 5 de setembro de 2010

Linguaruda


Visita à família tem lá suas lições. E uma das enormes que já me é secular (não que eu seja tão velha assim...): bom humor é bom, e eu gosto.
Meu pai sempre põe defeito em tudo. Está sempre de pá virada, pensei. Deve ser uma doença da qual já ouvi falar certa vez. Espero, mesmo, que seja doença; seria uma ótima - e talvez única - desculpa não esfarrapada. Isso faz parte - ou fez - de minha vida. Hoje, como não me atinge tanto, até levo na esportiva. Acho graça, tamanaho desparate. Talvez isso até tenha me ajudado a ser assim tão otimista. Ou risonha. Não acho que valha a pena seguir em frente sem senso de humor. Recebemos o que damos, feito espelho. Cara fechada, fecha a outra. Já um sorriso abre outro. Gosto de me fazer presente, cumprimentar as pessoas, ser receptiva. Isso já faz com que a outra, se mal humorada, derreta o gelo. Se não funcionar, melhor manter a distância, antes que me congele também.
Isso quando não rio sozinha. Hoje, por exemplo, pensava em um livro sobre ditados populares. De onde vêm, como foram modificados pelas fofocas alheias. Como "tirar o cavalo da chuva". Ou "pensando na morte da bezerra". E a tal "sangria desatada", alguém sabe o que é? Ou brincar com meus erros mais comuns, nos tantos trocadinhos que faço, inocentemente, com a língua mãe. Quem me corrige, sabe: até isso levo "de boa". Ou, se preferirem, "ponho a carapuça". Talvez seja para disfarçar a vergonha, ou quem sabe uma forma mais rápida de lembrar. Mas não valia só explicar: iria brincar com os ditos e os não ditos, tentar ver outros significados, histórias que se encaixassem, tentando adivinhar. Porque bom humor faz parte de mim, seja qual for meu momento, bom ou mal. É ela que me sustenta, mantém minha pele boa e meu olhar atento. "Juro de pés juntos"!
Curiosa, procuro e acho. O ditado usado para meu pai, o da "pá virada", não cabe. É usado para pessoas preguiçosas, que está longe de ser o caso dele. Melhor "colocar panos quentes" antes de "pagar o pato"... ou de me mandarem para os "quintos dos infernos"!

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Pipoca


Feriado chegando. Meu descanso será em minha terra natal, em companhia de meu filho. Sábado, com certeza, voltinha na praça, com direito a feira de artesanato, banda no coreto e , óbvio, pipoca - dessas, de pipoqueiro, nosso centro das atenções, quase ponto turístico. Á tarde, cinema, sagrado, enquanto os avós dormem. Quem sabe um café de mãe no finalzinho do dia. Assistir televisão com o filho no colo. E dormir sem pressa para levantar, coisa que ando precisando.

Domingo com caminhada logo que o sol dê as caras com vontade. Talvez a gente dê um pulo até a praia. Uma passeada na beira do mar, se o vento estiver de férias em outro lugar. Pegar um "bronze primaveril" enquanto se lê no jardim da casa. Soneca sem hora marcada, almoço enjambrado, leitura de revista velha, quem sabe Seleções. E uma divertida passada no mercadinho, que sempre traz surpresas - quem sabe um picolé. E, tudo, ou quase, à pé, já que as distâncias deixam. Entra no pacote muita conversa e muita gargalhada, coisa fácil quando se trata de viajar com meu filho. Tudo é motivo de riso. O nada também.
Feriado chegando e levo comigo a simplicidade das horas. O silêncio do caminho, a falaçada do encontro. Muita mão dada, muito abraço sem pedir. Muita comidinha arranjada, muita desculpa para nada fazer, a não ser ver o tempo passar.
Paro e penso: porque esperar um feriado? Porque deixar os dias passarem por passar? Fazer do dia, descanso. Segundas com cara de diferente. De saída do trivial. Coisa em que tenho me especializado. É fácil. É só querer. E ter companhia. Quem sabe lembro disso no dia-a-dia. Quem sabe a vida topa e me leva para passear. Vida pipoca , ao invés de vida piruá.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Balanço


Estou desde ontem a passo raso, diria, em relação à internet. O que poderia ser um caos para alguns, inclusive para mim que "vivo' disso, transformou-se numa bela experiência: tive mais tempo para viver.

Entramos num corre-corre quase sem pensar, apropriamo-nos de tecnologias que prometem facilitar nossa vida e nossa comunicação. E, quando faltam, damo-nos conta que mais nos escravizam do que libertam. Senti-me livre, sem a "obrigação" de estar on-line, sem a tarefa de estar sempre por dentro, sempre disponível. Não que seja essa a ideia, mas é difícil não dar uma entradinha se estamos ali à frente do computador ou lap. Nossas "amizades" estão ali, nosso álbum de fotos, nosso trabalho. O telefone não toca tanto quanto recebo imagens (ainda bem...detesto o barulho deles, coisas da infância...).

Aproveitei melhor o dia. Terminei trabalhos, li artigos , assisti um programa com o filho e o cachorro. Arrumei o escritório - que precisa, urgente, uma faxina, destas de arrepiar. Na falta da mania de estar ligada, liguei-me na vida. Reparei que minha casa precisa de reparos. Meu jardim, da visita do "seu" Arthur. Minha cara de uma limpeza geral. Minha vida, de mais tempo útil. Longe de dizer que a tecnologia atrapalha, pois tiro, bem ou mal, dela o meu pão. Descubro que pode aprisionar. Não no método tradicional, entre grades ou com bolas de ferro, mas no casulo do ter que. Como uma prisão domiciliar. O tempo passa lá fora, o sol vem e vai, e nem olhamos o céu. Nem as noites de lua cheia. E olha que me acho bem atenta à vida...

Só senti falta de me escrever. De colocar aqui, no papel digital, meu suspiro diário. Minha terapia, assumo. Como se meus pensamentos saíssem pelos meus dedos. Como se esvaziassem, de alguma forma, os tantos e tantos pensamentos que inundam meu ser. São tantos, de tantas formas e tantos diferentes pesos , que colocá-los para fora é uma espécie de alívio. Como se me deixassem mais leve, mais limpa. Eu que carrego tanto peso - muito além do que minha inimiga balança denuncia - agradeço. Enfim, eu, de novo, mais leve. Feito criança num balanço...