terça-feira, 28 de setembro de 2010

Descalça




"Somos todos colecionadores de experiências. Temos medo que a vida passe ao largo".
Gilles Lipovetsky
Li  essa frase, meio entre a curiosidade e a constatação da verdade, em uma entrevista do sociólogo francês para o jornal Folha. Fala do consumo emocional, o luxo da experiência. Poderia ser bom se víssemos ai uma forma de fugir do luxo carrasco, da obrigação do ter porque todo mundo tem. Daquela coisa de querer ser um igual.  Mas apenas passamos da quantidade para a qualidade. Mas não seria essa mais uma outra forma de escravidão? As bolas de ferro em cara dourada.
Entre tantas teorias e novos conceitos, entre muitos "hiperisso", "hiperaquilo", fala de um novo homem (generalizando, claro...)  que é dono de seu mundo, de suas escolhas, mas que " está submetido às regras da globalização econômica de eficácia, de produtividade, juventude, consumo", o que nos carregaria de ansiedade, doença moderna tratada com compras. 
Compras, doce palavra. Concordo com ele. Consumimos por ansiedade, feito calmante. Alegro-me com a sandália nova, que me faz mais bonita (nem que seja por um momento). Ou pelo creme que me promete duvidosos milagres. Como coisas que não queria porque me fazem bem (até ai tudo bem, mas já tem virado piada...) . E deixo de comer tantas outras com medo de  pesar na consciência ( na balança, nem se fala!).
Mas a maturidade  e a descoberta de mim ( aos poucos, para que não me assuste com o que tenho encontrado) tem operado belos milagres com o bisturi generoso do amor. Tenho sentido cada dia mais prazer nas coisas mais simples. Tratamento de saúde nas gargalhadas bem dadas, nos gemidos largados quando da prova de algum simples prato (hum...um bom tutuzinho de feijão...), da boa compra que não feriu nem meu gosto, nem meu bolso. Do deitar no sofá e me emocionar com a leitura de um livro, ou com o olhar "pidão" de algum cão. No ver a vida de  forma mais leve, de não levar tão a sério o rompante do momento (ele, por vezes, o mais mal humorado). Ou a doce satisfação de dormir uma noite toda, quem sabe ao som da chuva embalando meu ninar. Pode ser o  andar de mãos dadas com a vida. Um abraço bem dado. O beijo não esperado. Um "eu me importo" que faz toda a diferença.Quem sabe...
Mas, voltando ao pensador em questão, finaliza a entrevista falando ser o problema " um senso comum que nos diz que se não tivermos vivido tal ou tal experiência, teremos perdido nossa vida. É uma luta contra o tédio, uma busca incansável e viciada pela novidade, pela fuga da rotina".
Rotina? Desculpas ao guru da vez. Eu fujo dela. Mas sem pressa. Feito menina, a pé e descalça...

Nenhum comentário:

Postar um comentário